A passagem pelo deserto, no passado domingo, fez-nos bem!

O deserto limpa o nosso olhar (Cf. Oração Coleta) do que é acessório e predispõe-nos a escutar a natureza, a escutar Deus, a escutar Deus e a nossa natureza ou simplesmente a escutar. Porque, mais do que silêncio, a Quaresma é tempo de escuta.

No meio da areia e das pedras do deserto, o silêncio fértil é capaz de fazer florir em nós a vocação de Abraão: Vai para ti, para a terra que Eu te farei ver (Cf. 1ª leitura). Vai!

E mesmo correndo o risco de se perder nesse caminho para si, o homem do deserto avança, destemido, e cada passo percorrido enche-se de novidade. E de esperança… ao subir o monte que lhe permite ver mais longe e ver-se mais dentro.

O homem sempre gostou de subir aos montes mais altos. Ora para ‘cuscar’ o que se passa cá em baixo. Ora à procura de fotos boas para o Instagram. Ora porque ali se sente mais perto do Céu e de Deus. Na verdade, em perspetiva bíblica, o monte é o lugar do encontro com Deus.

Para ali se encaminha Jesus, com Pedro, Tiago e João, e ali se transfigura, diante deles: «o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Cf. Evangelho)

Em Jesus, tudo se ilumina: o rosto, as vestes, as mãos, os pés, o monte, o caminho, o coração daqueles homens confusos e cheios de medo… e o nosso.

Iluminada pelo rosto de Jesus / a vida / e o caminho / cheio de sombras, mas também de luz / de dor e de alegria.

Contemplando o rosto luminoso, divino, transfigurado de Jesus, temos um cheirinho do perfume da Ressurreição, que nos espera.

E os sentidos… vão colaborando com a fé.

Esse olhar espiritual, benigno, inundado de esperança, que oxalá todos desejássemos experimentar, é alimentado pela Palavra de Deus.

Os discípulos sobem ao monte para ver, mas o mistério entra-lhes pelos ouvidos. É Deus, que lhes diz: «Este é o meu Filho muito amado […] Escutai-O». A visão de algo novo predispõe-nos a escutar. A escuta predispõem-nos a comungar.

É preciso caminhar, subir ao ‘monte’, estar com Jesus, deixarmo-nos iluminar por Ele, ouvi-lo, comungá-lo.

Para que n’Ele sejam transfigurados os nossos desejos, para sermos curados da ‘azia’ e dos ‘maus fígados’ que querem obrigar Deus a converter-se a nós e não o contrário.

Para que cure… o nosso olhar!

Vai para ti, para a terra que Eu te farei ver (Cf. 1ª leitura). Com um novo olhar, vai para ti, para a terra que é o teu irmão, terra prometida.

Vai para ti, subindo o monte para mim e descendo-o para o teu irmão. Eu te farei ver!

Como fiz ver ao pintor renascentista Rafael Sanzio, de quem se assinala os 500 anos da sua morte no próximo dia 6 de abril, e que pintou um quadro belíssimo da Transfiguração do meu Filho.

Em cima, a Transfiguração, e, em baixo, a cena da cura do jovem epilético.

É de Cristo glorioso, salvador, que flui a libertação do mal. Por isso, Rafael quis unir numa mesma pintura o sofrimento e a libertação, as trevas e a luz, a humanidade e a divindade. A glória de Jesus. Um dia também a vossa, pois Ele «destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade». (2ª leitura)

«Senhor, como é bom estarmos aqui» (Evangelho) a ouvir-Te e a contemplar-Te. Não permitas que isto acabe! Vou buscar o meu Irmão e já volto!

Transfiguração | Rafael Sanzio (1483-1520)

 

Leituras:

1ª Gn 12,1-4a. Salmo 33/32,4-5.18-19.20.22.  R/ Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia. 2ª: 2 Tm 1,8b-10. Evº: Mt 17,1-9. II Semana do Saltério.

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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