Leituras: 1ª: Is 8,23b – 9,3. Salmo 26 (27),1.4.13-14 R/ O Senhor é minha luz e salvação. 2ª: 1 Cor 1,10-13.17. Evº: Mt 4,12-23. III Semana do Saltério.

O profeta Isaías (1ª leitura) fala para gente cabisbaixa e desanimada. O tempo passado no exílio foi doloroso. Mas também de aprendizagem.

O profeta Isaías fala para gente cabisbaixa e desanimada, porventura, como alguns de nós. Muitas experiências da nossa vida são dolorosas, um exílio temporário ou demorado de uma vida feliz que todos desejamos.

E, no entanto, aqui estamos! Séculos depois de Isaías… uns de pé, outros sentados, outros ainda a “mancar”. De promessa em promessa.

Evoluiu a ciência, crescemos em conhecimento, os povos aproximaram-se e separaram-se. Juntamos coisas. Juntamos muitas coisas, na verdade!

E, no entanto, nada parece ser capaz de preencher verdadeiramente o nosso coração, de o fazer “bombar” vida nova.

O profeta Isaías fala para gente cabisbaixa e desanimada, que já não acredita nos senhores do templo e nos profetas da desgraça, e diz-nos:

Há uma luz ao fundo do túnel!

Há esperança iluminada por Deus!

Essa luz, apareceu na Galileia, longe do templo, longe de Jerusalém. Foi o povo que viu. O povo simples, mas de fé profunda, que esperava ardentemente alguém que os salvasse do vazio, do sem sentido, das falsas promessas, da escuridão, viu uma grande luz, uma pessoa que é luz, Jesus Cristo,… o meu Senhor.

Há uma luz ao fundo do túnel!

Há esperança iluminada por Deus!

O Senhor é minha luz e salvação! (Salmo)

Jesus ilumina o nosso exílio, as nossas angústias, e “descrucifica-as” com o bálsamo do céu, experimentado no Seu Corpo, na Sua Palavra e no seu colo terno, com sabor a eternidade e, sobretudo, experimentado nessa convicção interior profunda – a fé – de que só Deus basta...

Só Deus basta!

O Seu convite ao arrependimento (Evangelho), não é para nos deter nos nossos pecados, tipo barreira que só nos deixa seguir em frente quando soubermos a tabuada toda “de cor e salteado”.

Não, não é para nos deter nos nossos pecados, é para nos ajudar no caminho, é para nos permitir libertar do que é fardo, para podermos contemplar o que é belo e bom, para podermos correr atrás da felicidade, iluminada e querida, por Deus, é para podermos erguer os olhos ao Céu e experimentar de novo essa alegria capaz de encher e preencher, capaz de vida nova. Vida!

Hoje celebramos, pela primeira vez, o Domingo da Palavra de Deus. Esta manhã, o Papa Francisco, lembrava que:

«precisamos de escutar, no meio das infindas palavras de cada dia, a única Palavra que não nos fala de coisas, mas de vida».

O Papa Francisco quis, com esta festa, devolver a Bíblia aos Católicos, Bíblia tantas vezes sequestrada pelos senhores do templo.

«Os primeiros destinatários do chamamento [continua o Papa Francisco] foram pescadores: não pessoas atentamente selecionadas com base nas suas capacidades, nem homens piedosos que estavam no templo a rezar, mas gente comum que trabalhava».

A Bíblia é um livro vivo de toda uma comunidade crente. Ninguém se pode apoderar dela como sua. Há grupos que usam a Palavra de Deus para criar divisão, o que é um escândalo (2ª leitura). Sempre foi mais fácil dividir pessoas do que multiplicar; subtrair compreensão do que somar.

Não! A Bíblia é um livro de toda uma comunidade crente, que escuta, que medita, que reza, que contempla, e com a qual se compromete. Na sua leitura e meditação, o Espírito Santo vai ajudando a pessoa, cada qual com a sua capacidade de entendimento, vontade, experiência e liberdade interior, a fazer da Palavra de Deus uma palavra viva e a dar sentido à sua vida.

Mas como ler a Bíblia? Que texto escolher? Um dos métodos mais divulgados é o da Lectio Divina, isto é, da leitura orante da Palavra de Deus. O texto pode ser, por exemplo, o do Evangelho de cada domingo. O método da Lectio Divina pode seguir diversos passos, consoante o tempo que lhe podemos dedicar. Eu uso seis, que explico de forma muito simples:

1º ESTAR: pôr o telemóvel em flight mode (modo de voo), para ter a certeza de que aquele tempo será realmente para estar com Deus. Quem estiver mais à vontade, pode fazer alguns exercícios de respiração e relaxamento. Pôr as suas preocupações em standby (modo de espera).

2º LEITURA: ler e reler o texto escolhido. Ler uma segunda ou terceira vez, mais devagar, tentando perceber o que diz o texto, de que fala, quais os lugares, as personagens, os diálogos, os sentimentos, etc.

3º MEDITAÇÃO: tentar perceber o que diz o texto para mim, para a minha vida, no meu contexto pessoal. Trata-se de, com a ajuda do Espírito Santo, confrontar o texto lido com a minha própria vida.

4º ORAÇÃO: orar, falar com Deus sobre o que o texto me diz. O que o texto me faz dizer ao Senhor. O Espírito do Senhor pode suscitar em nós a oração de perdão, de louvor ou de súplica.

5º CONTEMPLAÇÃO: O que a Palavra faz em mim? É Deus que deixo, agora, agir em mim. Ele leva-me a desejar ser mais como Cristo, a segui-lo.

6º AGIR: A Palavra de Deus, lida, rezada, meditada, contemplada, leva-me a mudar, a agir, a intervir…

a pedir perdão e a acreditar no reino dos Céus… e, afinal, aquilo que parecia ser um convite old fashioned (fora de moda) de Jesus, hoje, no Evangelho, fará, com certeza, todo o sentido.

Não deixemos a Palavra de Deus apenas nas mãos de alguns. Ela é Luz que ilumina a vida, a da comunidade e a minha. Está na hora de pegarmos na Bíblia!

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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