O Evangelho de hoje é um ‘ensaio sobre a cegueira’. Começa por contar a cura de um cego para, eventualmente, nos falar de nós mesmos.

Um cego de nascença atravessou-se no caminho de Jesus. Teve sorte. Todos os dias, ano após ano, se atravessava no caminho de alguém que o ignorava ou, pior, vivia da sua cegueira.

É o caso de todos quantos controlam ou querem controlar a luz, o que os outros vêm ou deixam de ver: os senhores do templo, os videntes, as autoras de dietas para serem seguidas à risca, certos líderes políticos, militares e CEO’s, muitos ‘influencers’, alguns ‘gurus’, os que fazem milhões com livros de auto-ajuda, este capitalismo selvagem, esta meia dúzia de empresas que dominam o mundo digital… Eis um sinónimo de influenciar: manipular!

Jesus não manipula este homem e apenas o ajuda em parte. Com pedagogia. Com saliva e terra faz um pouco de barro com que unge os olhos do cego. Barro no barro. O barro divino desafia o barro frágil: a ser forte, a lutar contra o sistema, contra aqueles que vivem, como parasitas, da sua cegueira. Pede-lhe que faça a sua parte, que se vá lavar e veja, que veja por si próprio, que assuma o seu destino, que o viva em liberdade, mesmo que isso lhe custe a expulsão da sinagoga ou o ‘bloqueio’ numa qualquer página nas redes sociais.

Para aquele cego, Jesus era apenas mais um homem; progressivamente reconheceu-o como profeta para logo depois o reconhecer como Deus. Mas a fé daquele homem cresceu também no sentido de se reconhecer a si próprio como alguém com valor, com capacidade para ver e pensar por si mesmo. Por isso, crer em Jesus é crer também numa humanidade libertada e libertadora.

Talvez tenhamos a presunção de achar que vemos mais longe e mais claro do que os outros; que dominamos todos os assuntos e mais alguns, como aliás parece indicar a verborreia que toma de assalto muitas redes sociais e também algumas conversas de café.

Quem (acha que) tem respostas para tudo geralmente não se questiona verdadeiramente acerca de nada.

Samuel, por breves momentos, achou que sozinho seria capaz de escolher o rei de Israel. E foi preciso Deus lembrá-lo que não tem o olhar enviesado como os homens: «o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração» (1ª leitura).

Em tempos difíceis como os que vivemos, tenhamos a humildade de reconhecer em Jesus o verdadeiro e único bom pastor (Salmo). Acreditar n’Ele não diminui em nada a nossa liberdade; pelo contrário, faz-nos ver a vida e o mundo com um novo olhar.

Unidos a Ele, somos luz (2ª leitura). Sem Ele, somos mais um perfil no Instagram a tentar enganar com coisas e viagens as trevas que há em nós. Good luck!

 

Leituras:

1ª: 1 Sm 16,1b.6-7.10-13a. Salmo 23/22,1-3a.3b-4.5.6. R/ O Senhor é meu pastor: nada me faltará. 2ª: Ef 5,8-14. Evº: Jo 9,1-41. IV Semana do Saltério.

 

* Os Capuchinhos em Portugal assumem a gestão editorial do sítio capuchinhos.org, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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