Frei Manuel Rito, franciscano-capuchinho, publicou este ano Estradas da Memória. Apresentamos aqui um breve trecho do livro.
Aos missionários era pedido que abrissem poços de água para o povo. Entretanto o governo desse país negociava com outro país para abrir poços de petróleo. Vivi lá durante quatro anos. Abríamos a torneira do quintal porque tínhamos um poço.
Mais água, menos poços
Naquele país, os nossos vizinhos não tinham poço.
Quando a torneira dos frades esgotava os tanques de reserva, as pessoas tinham de procurar a água a vários quilómetros de distância, perto da uma estrada por onde passavam os materiais pesados que iam construir o terminal petrolífero.
Nós não tínhamos sido enviados para abrir poços de petróleo, nem sequer poços de água.
Essa missão era do governo: abrir poços e distribuir a água, cultivar a terra e alimentar a gente, construir hospitais, promover a ciência, a arte e a cultura, abrir fábricas e escolas.
Água potável em todas as dimensões e necessidades humanas, água mãe e irmã que São Francisco cantou no Cântico das Criaturas, útil, preciosa, limpa, humilde e casta.
Poços de outra água
Falta água do poço de Jacó, sobram poços de petróleo.
A água que a Samaritana pediu ao Mestre não era a do poço, essa foi a que o Mestre pediu a ela; a sede de Jesus pela água do poço foi devolvida à Samaritana na sede pela fonte da Outra água.
Na borda do poço de Jacó sentou-se uma mulher com um cântaro vazio à espera de alguém. Era a humanidade toda, com sede e à espera, com seu cântaro vazio.
Depois chegou Jesus, cansado e com sede; e o poço tornou-se o lugar do encontro, do diálogo e da partilha.
Pois na pessoa de Jesus, estavam presentes os peregrinos, os emigrantes e os refugiados de todos os desertos humanos.
Sem o “dom de Deus”, a água que Jesus ofereceu à Samaritana, nenhum “dom dos homens” poderá matar a sede humana.
Há, por todo o lado e em todas as pessoas, um poço com água abundante e de qualidade; mas é preciso um balde para a tirar e distribuir.
O missionário é o balde.
Frei Manuel Rito Dias, OFMCap., In Estradas da Memória, 2025