Escuta, jovem.
Há vozes que gritam, e outras que apenas sussurram.
A mais verdadeira raramente faz barulho, pois representa a comunicação de Deus que passa no íntimo do coração, quando o mundo se cala.
Como disse Søren Kierkegaard: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida olhando-se para a frente”. Talvez ainda não compreendas tudo o que tens vivido, mas cada passo que dás prepara-te para escutares aquilo que te espera.
Talvez sintas em ti um vazio difícil de expressar, uma sede que não consegues saciar.
Isso é o sinal de que foste criado para algo maior.
A tua vocação nasce aí. Não como um dever, mas como um chamamento de amor.
Deus não te pede que sejas outro. Pede-te que sejas tu mesmo, autêntico até ao fim, até à entrega total.
Um dia, Francisco de Assis ouviu a voz de Jesus diante do Crucifixo de São Damião dizer-lhe: “Francisco, vai e restaura a minha igreja”
Ele não compreendeu logo a força dessas palavras, mas pôs-se a caminho.
E foi nesse caminho, nas feridas dos pobres e na luz da oração, que descobriu o rosto do Senhor.
A vocação é isso: um caminho que começa no coração e que se constrói nos passos dados.
Não se encontra num instante; amadurece na escuta, na coragem e na entrega.
Há dias de dúvida e noites de silêncio, mas também há o momento da graça divina, o sorriso que surge quando tudo parece escuro, o consolo que renasce quando se ama sem medida.
Não temas perder. Só quem se dá totalmente é que se encontra.
A vida não é feita para ser possuída, mas partilhada.
O Evangelho não é uma teoria, é uma aventura.
E tu és chamado a ser parte dela.
Cristo olha-te com ternura e diz: “Vem e segue-Me”
Não como quem impõe, mas como quem ama.
Ele conhece as tuas fragilidades, os teus medos e os teus sonhos.
E ainda assim confia-te uma missão: ser sinal da sua presença no mundo, ser palavra de esperança onde muitos já desistiram de escutar.
Talvez a vocação te assuste; é natural.
Mas lembra-te: o medo é o véu que cobre o mistério.
Quando o levantas com fé, descobres que Deus não tira nada, apenas purifica tudo.
Escuta, jovem: não fujas da inquietação que te habita.
Ela é o início do diálogo com o Infinito.
Deixa que o Senhor te fale nas horas simples, nas feridas do próximo, na brisa da noite.
E, quando o ouvires chamar-te pelo nome, responde com a ousadia de quem confia:
“Senhor, faz de mim o que quiseres. Só não me deixes viver em vão.”
E então, começa a aventura.
Com gratidão e esperança,
Frei Ricardo Jorge OFMCap