A mensagem, ainda assinada pelo Papa Francisco, para o LIX Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebra este domingo, convida a desarmar a comunicação e os corações para podermos dar com mansidão a razão da nossa esperança. Esse convite é lançado, em primeiro lugar, aos jornalistas, mas, em verdade, a todos nós, pois, sempre que publicamos um texto ou, simplesmente, um comentário, reduzido que seja a uma frase, uma imagem ou um emoji, estamos a comunicar.
Constata-se que, hoje em dia, muitas vezes, em vez de gerar esperança, a comunicação é marcada pela polarização e agressividade, gerando medo e desespero, preconceitos e rancores, fanatismo e até ódio.
Verifica-se, ainda, que a nossa capacidade de trabalhar em conjunto por um bem comum, de nos ouvirmos uns aos outros, de compreendermos as razões do outro, são minadas por algoritmos que, ao traçarem o nosso perfil de acordo com as lógicas do mercado, alteram a nossa percepção da realidade. Entre as muitas consequências nefastas, está a de passarmos a olhar para o outro como um inimigo e não como um irmão.
O Papa Francisco, cita a Primeira Carta de São Pedro (1 Pd 3,15-16), para nos lembrar que a esperança dos cristãos tem um rosto: o rosto do Senhor ressuscitado e que a melhor forma de dar aos que nos pedem a razão da nossa esperança, é fazendo ressoar na nossa vida, com mansidão e respeito, a beleza do amor d’Aquele que nos amou primeiro.
O Papa que veio do fim do mundo, termina a sua mensagem, lembrando que a esperança é sempre um projeto comunitário e que, por isso, esperar juntos, leva-nos a caminhar juntos. Para isso, é preciso cuidar do coração, do nosso e dos outros.
Percorrida, em traços gerais, a mensagem para este Dia Mundial das Comunicações Sociais, gostaria, agora, de me deter na primeira frase da mesma, que parece apontar para uma das causas principais da desinformação, polarização e agressividade: alguns centros de poder controlam uma grande massa de dados e de informações sem precedentes.
Quais são esses centros de poder?
Esses centros de poder, são, sobretudo, empresas privadas como a Alphabet (Google, Gmail, etc.), a Meta (Facebook, Messenger, Instagram e Whatsapp), a Amazon, a Microsoft e a Apple, que detêm, em conjunto, dados pessoais de mais de 60% da população mundial. O modelo de negócio destas empresas, sobretudo a Alphabet e a Meta, bem como outras, mais recentes, como o X (antigo Twitter), TikTok e Tencent (chinesas), assenta, em grande medida, na venda de publicidade dirigida e monetização dos dados obtidos, o que implica enormes riscos para os utilizadores.
As leis europeias de proteção de dados, muito necessárias, de nada nos servirão se continuarmos nós, como utilizadores, a alimentar o negócio bilionário de empresas que lucram com a venda dos nossos metadados, da informação sobre os locais que visitamos, dos fóruns que frequentamos, das pessoas que contactamos e das palavras que pesquisamos, e dos seus parceiros, que bem podem ser regimes opressores ou empresas que um dia nos vão negar emprego ou gerar uma qualquer forma de discriminação porque têm acesso a informação que lhes permite saber que um dia tivemos Hepatite C, consumimos drogas, estivemos presos, frequentamos esta ou aquela igreja, temos esta ou aquela orientação sexual, temos filiação neste ou naquele partido, quando tínhamos vinte anos dissemos isto ou aquilo no Facebook, ou qualquer outra coisa que passados anos deveria permanecer apenas e só na nossa consciência e nunca numa espécie de cadastro digital que nos perseguirá o resto dos nossos dias, podendo ser usado indevidamente e a qualquer altura contra nós próprios. O caso da Cambridge Analytica, apenas um em muitos escândalos relacionados com o Facebook, provou que esses abusos são já hoje uma realidade, capazes de influenciar pessoas na compra de produtos de que não precisam, influenciar grupos imensos de pessoas e até eleições em países de longa tradição democrática.
O que está em causa, também aqui, é o bem comum, é o futuro da humanidade, é a democracia moderna, como a conhecemos, com as suas imperfeições mas também com muitas e importantes conquistas, como o direito à privacidade, à liberdade de expressão e, não nos enganemos, à liberdade religiosa. Veja-se como a Coreia do Sul, Singapura, China ou Israel usaram a Covid-19 para fortalecerem a vigilância em massa dos seus cidadãos e restringirem as liberdades individuais.
Na perspetiva de maximização do lucro, os algoritmos são desenhados para garantir a maior interação possível dos utilizadores, mesmo que isso seja conseguido através do ódio destilado nas redes sociais, o cyberbullying ou a desinformação. Dessa forma, a manipulação da realidade, tem um impacto atroz nos indivíduos e nas comunidades, ao nível da saúde mental e da qualidade das interações sociais, mas também, por exemplo, ao nível do meio ambiente, com recursos naturais depredados nos países em vias de desenvolvimento e consumos de energia brutais gastos no desenvolvimento da Inteligência Artificial. Por tudo isto, podemos considerar que o modelo de negócio destas empresas não é ético.
E tudo a Covid-19 mudou!
Antes de falar das alternativas, que as há, permitam-me, primeiro, olhar para a forma como a Igreja comunica com os fiéis no mundo digital. E, aí, há um antes e um depois da pandemia provocada pela Covid-19. Antes, já muitas dioceses e ordens religiosas tinham páginas na internet e muitos sacerdotes tinham perfis nas redes sociais, mas, salvo raras excepções, sem grande interação.
Mas, depois do início da pandemia, e, sobretudo, do primeiro confinamento geral da população, as dioceses, paróquias, comunidades e grupos cristãos, rapidamente tiveram de encontrar formas de manter o contacto com os fiéis, tendo-o feito, em alguns casos, com muita criatividade. Mas, no fundo, tratava-se de fazer exatamente as mesmas coisas de antes, agora em formato diferente: online. Algumas paróquias investiram centenas ou milhares de euros em equipamentos para transmitirem a Eucaristia no Youtube ou no Facebook, multiplicaram-se conferências, reuniões, eventos… Com certeza fez-se o que se podia fazer, com os meios técnicos mais “acessíveis” ou mais comuns. Bendigamos ao Senhor pelo que os Meios de Comunicação Social e as novas tecnologias nos permitiram e permitem fazer.
Vamos lá às alternativas
Creio que é chegada a hora de definirmos como e com que instrumentos queremos comunicar a fé no mundo digital, não a partir da urgência criada pela pandemia, ou por modas ditadas por esta ou aquela aplicação, como tantas vezes tem acontecido, mas daqueles elementos éticos que sempre fizeram parte essencial da autêntica comunicação humana e da Igreja, e agora aparecem olvidados e trocados por argumentos fáceis e irrefletidos tais como: temos de usar os mesmos instrumentos que todas as outras pessoas usam. Permitam-me discordar e perguntar: desde quando é que usar o que toda a gente usa, só porque é viral, sem que se reflita sobre o seu valor ético e moral, passou a ser critério para a Igreja? Pois é isso que está a acontecer um pouco por todo o lado.
Penso que temos de elevar o nível ético das escolhas que fazemos no mundo da tecnologia e da informática, de nos permitirmos uma ascese nos nossos critérios, ou, ao menos, refletirmos sobre o assunto e tomarmos decisões conscientes, porque usar o WhatsApp ou o Signal não é a mesma coisa, assim como usar o Youtube ou o Peertube, o Zoom ou o Jitsi Meet, não são a mesma coisa. Há alternativas que levantam menores dúvidas éticas e essas deviam ser procuradas, usadas e apoiadas pela Igreja. Se o fazemos em relação ao que comemos, por exemplo, porque não havemos de o fazer relativamente ao software que usamos? Se pensamos cuidadosamente no que vestimos, porque não havemos de pensar nas app’s que instalamos no telemóvel?
A alternativa ética, geralmente, aparecerá associada ao software de código aberto, isto é, que tem o seu código fonte ou algoritmo publicado de modo a poder escrutinar-se o seu funcionamento interno. Na maior parte das vezes, os programas de código aberto, são desenvolvidos, gratuitamente, por programadores entusiastas a que se associam comunidades que vão crescendo e que incluem tradutores e utilizadores comuns.
Dito isto, e apenas para dar alguns exemplos, há imensas distribuições Linux gratuitas como alternativa ao Microsoft Windows ou MacOS, o LibreOffice como alternativa ao Microsoft Office, o DuckDuckGo como alternativa ao Google Search, o Nextcloud como alternativa ao Google Drive ou ao One Drive, o OpenStreetMap como alternativa ao Google Maps, o GrapheneOS ou o /e/OS como alternativa ao Android ou ao iOS, o ProtonMail ou o TutaMail como alternativas ao Gmail, o Mastodon e o Pixelfed como alternativas ao X e ao Instagram, etc.
Conclusão
Portanto, há alternativas mais éticas, mas não estão a ser usadas pela Igreja como ferramentas de trabalho e comunicação. Na minha opinião, isso acontece apenas por desconhecimento. A maior parte das pessoas, sacerdotes e leigos, que ocupam lugares de decisão nos secretariados nacionais, diocesanos e paroquiais de comunicação, são pessoas que assistiram ao nascer do computador e da internet, ao contrário da chamada Geração Z, nativa digital. Para os mais velhos, a aprendizagem foi, muitas vezes, difícil e lenta. As ferramentas que aprenderam a usar são, na sua maioria, produtos desenvolvidos pela Microsoft (Word, Powerpoint, Excel, etc.) e Adobe (Acrobat, Photoshop, etc.). Depois de anos a usá-las, torna-se difícil a mudança.
Tomando como exemplo as Jornadas Nacionais de Comunicação Social, torna-se evidente que a reflexão sobre os desafios éticos ocupam apenas uma ínfima parte do programa dos últimos anos. O programa é, geralmente, diverso e riquíssimo, com excelentes oradores, mas parece haver uma preocupação muito maior em incentivar o uso de determinadas ferramentas do que em refletir sobre o valor ético de cada uma delas.
A Igreja ainda vai a tempo de trazer aportações morais de grande relevância para esta discussão. O Papa Leão XIV parece querer fazê-lo, pelo menos no que diz respeito à Inteligência Artificial. É tempo de colocar estas questões em cima da mesa, dialogar sobre elas, e procurar alternativas, desenvolvidas pela comunidade de programadores e utilizadores, e não por empresas que usam os nossos dados de forma pouco ou nada clara. Mas mais do que programas de computador ou algoritmos, é do futuro da humanidade que falamos!