Terminado o Sínodo, fica em todos nós que estivemos diretamente envolvidos na preparação, que durou dois anos, e no desenvolvimento do mesmo, toda uma série de sensações e memórias, que oxalá cheguem a produzir frutos na vida real das comunidades.

Desde o primeiro momento, em que o Papa, como habitualmente, pediu a todos os intervenientes que se sentissem completamente livres de exprimir as suas opiniões e ideias, o ambiente foi de descontração e abertura, sem tabus nem ideias pré-concebidas, ao arrepio de alguns que, de fora, muito antes e durante o Sínodo (vamos a ver o que virá no pós-sínodo…) não fizeram mais do que falar do que não sabiam, lançando anátemas a torto e a direito e passando para a opinião pública pseudo-decisões e temas de discussão que nunca estiveram previstos no documento de preparação.

O documento final, que sairá a público nas próximas semanas trará seguramente os sinais do tema central do Sínodo, ou seja, a reflexão sobre a situação da Igreja no contexto amazónico e sobre a Amazónia como espaço vital e “laboratório” da biodiversidade ameaçada em todo o planeta.

Falou-se acima de tudo de vida, de formas de vida e na vida sob todas as suas formas, a ser vivida e celebrada nesta casa comum que a todos toca habitar e construir e que é da responsabilidade de todos proteger em todos os biomas. O que está em causa nestes tempos que são os nossos, é muito “simplesmente” a salvação do planeta que habitamos. O que está em causa, hoje mais do que nunca, é a afirmação da dignidade da pessoa humana e a dignidade da criação como obra de Deus, como espaço de construção do “ser”, cada vez mais ameaçado pelos incêndios político-religiosos que vão queimando vidas, sonhos, culturas, civilizações.

A Amazónia, trazida pelo Papa para o centro da reflexão, é “só” o símbolo dos tempos que passam, das aflições que nos afligem; tempos e realidades político-sociais, ambientais e religiosas, geridos por senhores que se creem deuses, criadores de infernos e paraísos pessoais, políticos e fiscais…

Da Amazónia sai o grito dos povos indígenas, sai o grito da criação inteira, sai o grito de uma humanidade cada vez mais perdida de si própria que a Igreja tem a obrigação de escutar e de responder.

Foi isto que o Sínodo tratou. Foi a estas inquietações que o Sínodo procurou responder; precisamente assim, em clima de sinodalidade…

Como sempre, foi o “crochet” das ideias pré-cozinhadas que encheu alguns espaços da comunicação social.

O Sínodo não fez “crochet”, foi direto ao assunto e aos assuntos. O ambiente foi de liberdade e de empenhamento, nas respostas pastorais, sociais e sociológicas, que deu voz aos sem voz, que ouviu o grito dos povos indígenas e do planeta e cuja sequência será uma tentativa de resposta, tanto quanto a Igreja pode dar, aos anseios e às aspirações de quem vive o real do sofrimento, da dor, da perseguição e do assassinato às mãos dos senhores do tempo e de alguns senhores de alguns templos…

Oxalá que estes senhores do tempo e do templo, sobretudo os do templo, tenham a coragem de mudar o que deve ser mudado…

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