Não foi certamente uma vida fácil a do padre Honorato, vivida durante as tormentosas vicissitudes da Polónia do seu tempo. Sabe-se que, devido à sua posição geográfica, a Polónia sempre despertou a avidez expansionista dos poderosos e incómodos Estados vizinhos. A vida e a atividade do padre Honorato desenrolam-se sob a nefasta estrela do imperialismo czarista.

Nasce em Biala Podlasca (Siedlee) a 16 de Outubro de 1829. É o segundo de quatro irmãos. Os seus pais, Estêvão Kominsky, arquiteto civil, e Alexandra Kahl, são profundamente religiosos. No batismo recebe o nome de Florentino Venceslau João Estêvão. No trato familiar e comum será chamado Venceslau. Pôde usufruir de uma boa educação e de esmerada instrução.

É um jovem extraordinariamente inteligente, bondoso, dócil. Aprecia muito a boa música. Aos 15 anos inscreve-se na faculdade de arquitetura da Academia de Belas Artes de Varsóvia. Passa então por uma profunda crise religiosa. «Na minha juventude – são palavras suas – fui um grande delinquente, pois ofendi aberta e diretamente a Deus, e comportei-me como se Ele não existisse».

Mas bem depressa chegará o momento de repensar a sua vida. Suspeito de pertencer a uma organização subversiva, é preso e encerrado na famigerada «Cidadela de Varsóvia», em 1846. A sua condenação à morte não é uma remota e longínqua probabilidade. O tifo arruina-o; e ele desabafa, blasfemando. A mãe, desolada, faz os impossíveis para salvar o filho; recomenda-o particularmente a Nossa Senhora. E acontece o inacreditável: Venceslau, após um ano de prisão, é posto em liberdade.

O jovem está irreconhecível. Completamente transformado. Readquiriu a fé. Retoma os estudos e leva uma vida de eremita penitente: vive num quarto frio, dorme sem colchão e com uma pedra debaixo da cabeça, alimenta-se de pão negro e de água… No entanto, baila-lhe no íntimo a ideia que bem depressa se concretizará numa decisão: ser Capuchinho. A mãe (o pai falecera um ano antes) dá-lhe a sua bênção.

Em fins de 1848 recebe o hábito religioso com o nome de Frei Honorato. Tem ideias claras: «Venho para o convento não apenas para me salvar, mas para ser santo». Em 1852 é ordenado sacerdote.

A partir de 1864 a sua atividade sacerdotal é vertiginosa. Tem excelentes dotes de pregador e de diretor espiritual. «Quando subia ao púlpito, as igrejas apinhavam-se de gente; quando se sentava no confessionário as almas tomavam-no de assalto».

Interessava-se pelos presos, especialmente pelos condenados à morte, e pela instrução religiosa ministrada aos jovens nas escolas.

Data de 1855 a fundação da sua primeira Congregação Religiosa. Seguiram-se depois muitas outras: mais de vinte.

O segredo da sua força interior era a devoção mariana e a intuição do extraordinário poder espiritual da Ordem Franciscana Secular. Organiza o «Rosário vivo», mas a recitação do Rosário deve encontrar correspondência num compromisso do apostolado e de caridade.

Sobre a vitalidade espiritual da Ordem Franciscana Secular, ele próprio confessa ter sido iluminado pelas palavras do Papa Leão XIII, segundo as quais São Francisco foi chamado «a reformar a Igreja, mas não como o fizeram outros santos; e não somente a Igreja do seu tempo, mas de todos os tempos. Sempre que a sociedade cristã abandona o caminho reto, aquilo de que ela precisa é que as suas instituições sejam reanimadas com um espírito novo, o primeiro dos quais, como meio mais útil, é a Ordem Franciscana Secular».

Para os Terceiros Franciscanos trata-se de aproveitar as imensas possibilidades no campo social e caritativo. Com uma espiritualidade autêntica e uma atividade generosa.

Estas intuições do padre Honorato manifestaram toda a sua validade, sobretudo após a falhada insurreição anti-russa de 1863-64. A partir de então, a violenta reação czarista abate-se furibunda sobre o clero e os religiosos tidos como animadores da revolta. Muitas casas religiosas são suprimidas; os Institutos são proibidos de receber noviços; toda a atividade apostólica é reduzida ou proibida. Dos sete conventos Capuchinhos restaram apenas três, que depois ficariam reduzidos a um.

O padre Honorato é desterrado para o convento de Zakroczym. Aqui permanecerá durante vinte e oito anos. É-lhe proibida toda a atividade externa, restando-lhe só o confessionário. E no confessionário e através dele, o padre Honorato saberá desenvolver uma ação inacreditavelmente fecunda.

Enquanto as Ordens Religiosas são vexadas e condenadas à destruição, a Ordem Franciscana Secular, que não é tida como Ordem Religiosa, pode agir com notável liberdade. O padre Honorato aproveita, com feliz e rara inteligência, esta situação providencial para promover uma presença religiosa «clandestina», mas muito dinâmica.

No ministério da reconciliação viria a conhecer muitas almas que desejavam consagrar-se a Deus, mas não podiam entrar nas Ordens Religiosas, a não ser expatriando-se. Será possível que não se possam consagrar a Deus no serviço dos irmãos contra toda a ilegítima proibição humana, permanecendo na pátria?

A partir do espírito franciscano, o padre Honorato multiplica as Congregações Religiosas com os fins mais diversos. Não há setor ou ambiente social que fique fora do âmbito da atividade destas almas consagradas à vida religiosa na clandestinidade (assistência às crianças, aos idosos, aos doentes, à instrução, ao mundo operário e citadino…). São «os clandestinos de Deus», os pacíficos guerreiros do Reino do Senhor.

Estas pessoas não levam qualquer emblema ou sinal particular; tudo deve ser manifestado pela vida vivida. O padre Honorato escreve: «A vida religiosa depende… da aspiração constante à perfeição, mediante a purificação do coração e a fidelidade aos conselhos evangélicos, ou seja, aos três votos». E ainda: «O Sagrado Coração de Jesus seja o nosso convento; o recolhimento e o silêncio interior seja a nossa habitação; a mortificação, com espírito de sacrifício, seja a grade que nos separa do mundo; as virtudes religiosas sejam o nosso ornamento. Deus seja toda a nossa riqueza».

De notar, porém, que, para o padre Honorato, este estilo de vida não é requerido unicamente pelas circunstâncias políticas e pela necessidade de evitar a intervenção da omnipresente e suspeita polícia czarista; tudo isso tem a sua origem numa inspiração profunda: a imitação da vida oculta da Família de Nazaré.

A novidade deste estilo de vida religiosa não é aceita pacificamente por todos, nem mesmo após a intervenção da Igreja em 1889. O padre Honorato terá de sofrer muito por causa disto; mas ele sabe que sem o sinal e a experiência da Cruz nada há de válido e não se salva o mundo.

A supressão do convento de Zakroczym, em 1892, forçou o padre Honorato a transferir-se para Nowe Miasto, o único convento ainda aberto, e aqui permanecerá ao longo de 24 anos, até à sua morte. A atividade desenvolvida em Zakroczym retoma-a em Nowe Miasto: guia espiritual de numerosas Congregações Religiosas, correspondência epistolar, confissões, o cuidado dos confrades na sua qualidade de Comissário. Geral da Província Polaca Capuchinha.

Mas começam já a notar-se os achaques da velhice e a aparecer as doenças. A partir de 1905 a surdez impede-o de continuar a trabalhar no ministério do confessionário. O padre Honorato dedica-se então mais intensamente à correspondência epistolar e à composição de obras escritas. São quase uma centena as suas obras. Escreve com extraordinária habilidade. O trabalho de escritor intensifica-se depois em 1908, ano em que é exonerado da direção das suas Congregações.

Em toda esta prodigiosa atividade nada muda no seu estilo de vida. Dorme entre três a quatro horas, e está sempre imerso na oração. Os testemunhos são numerosos: «O padre Honorato orava continuamente». «Vi como ele orava sem interrupção». «Estava continuamente absorto na oração e em união com Deus».

Sente-se, com frequência, mergulhado em profunda adoração diante da Eucaristia. Celebra a Missa com grande piedade e recolhimento. «Os seus movimentos durante a Missa eram serenos e cheios de unção». «Era de grande edificação para todos pelo modo como celebrava a Missa».

Já nos referimos à sua devoção a Nossa Senhora. A Ela atribui a sua conversão. Gosta de recordar e referir que os acontecimentos mais queridos e importantes da sua vida coincidiram sempre com as festas marianas.

Um seu discípulo escreve: «O padre Honorato tinha uma grande devoção à Virgem Maria e difundia o seu culto através de pregações e da composição de leituras breves para o mês de Maio. Por recomendação sua, surgiu o costume de cantar as Ladainhas ou hinos nas aldeias e cidades, diante da Cruz ou da imagem de Nossa Senhora».

Todas as Congregações, por ele fundadas, foram postas sob a proteção maternal de Maria, e muitas delas levam o seu nome. Não podemos esquecer também a sua vastíssima enciclopédia, que tem por título: «Quem é Maria».

Alguém observa: «Considero amor heróico a Deus o facto de, não obstante as perseguições, ele não ter deixado de trabalhar por Deus, negando-se a si mesmo em todas as coisas; de ter consagrado todo o seu tempo à propagação da glória de Deus».

Humilde, obediente, austero e pobre. «Ocupava um pequeno quarto, com uma única janela; no quarto, além de um catre, de um banquinho e de uma mesinha, nada mais havia. Para vestir, apenas tinha uma túnica de estopa áspera e um hábito consertado e remendado por ele mesmo».

Aproxima-se serenamente a morte, que chega na tarde de 16 de Dezembro de 1916. Contava 87 anos de idade, 68 de vida religiosa, 64 de sacerdócio e 52 de cativeiro.

A Europa está dilacerada pela guerra, e a Polónia é mais uma vez martirizada.

A notícia da morte do padre Honorato difunde-se rapidamente. Apesar das dificuldades em tempo de guerra, uma multidão enorme acorreu aos funerais. Todos tinham o padre Honorato na conta de um santo. Após a morte, a sua figura adquire, de forma cada vez mais nítida, os traços da sua autêntica grandeza de religioso e de apóstolo. Não é difícil reconhecer nele o «pai da moderna Polónia católica».

A glorificação deste humilde filho de São Francisco constitui um estímulo de zelo apostólico para todos e um motivo de confiança para o povo polaco e para aqueles que, por causa da fé, sofrem dificuldades e perseguições. Assim o entendeu o Papa João Paulo II que, a 16 de Outubro de 1988, em cerimónia solene realizada na Basílica de São Pedro, em Roma, beatificou esta figura ilustre da Polónia cristã.

 

Oração

Senhor, que chamastes o Vosso servo Honorato a seguir o Vosso Filho Jesus Cristo pelo caminho das bem-aventuranças, e, com o dom da fortaleza, o ajudastes a enfrentar inúmeras perseguições, concedei, por sua intercessão, que, também nós, fortalecidos pela Vossa ajuda, caminhemos fielmente para Vós na simplicidade de coração. Por nosso Senhor.

 

Hino ao Beato Honorato Kozminski de Biala

09 28 inocencio de berzo hino

Todos os santos percorreram a Via Crucis

Dos Escritos do Beato Honorato, presbítero
(Discurso na Solenidade de Todos os Santos: Antologia dos escritos de Honorato Kominski, I, Varsovia 1981, pp. 206-207)

Nenhum santo subiu ao céu sobre um tapete de flores, levando sobre a cabeça a coroa de glória terrena, com o sorriso e a alegria. Todos fizeram a sua própria Via crucis, com a coroa de espinhos na sua cabeça, no meio de muitas aflições, trabalhos e fadigas. Felizes, certamente, porque tocados pela graça divina gozaram de momentos de glória celeste, sentindo a seu lado Cristo crucificado, sentindo-O suportar com eles o peso da Cruz, sentindo-se abrasar no amor do seu coração, avistando diante de si, entre névoas, o futuro, a glória e a felicidade, a glória sem fim. Não conheceram a fortuna na terra, antes estiveram afastados dela, dela se defenderam, fugiram dela quando ela saía ao seu encontro, estremeceram diante dela mais que diante da cruz, e à cruz estenderam as suas mãos como para um porto de salvação.

Uma vez escolhido o caminho da cruz nunca mais o quiseram abandonar. E Deus, que conhecia a perfeição do caminho do sofrimento, não foi parco com eles na hora de lhes proporcionar cruzes. Quando o nosso divino Salvador falou uma vez aos discípulos sobre a morte atroz que o esperava, São Pedro, num excesso de amor, com a dor no coração, recusou o pensamento dos sofrimentos do Mestre, dizendo: Longe de ti tal coisa, Senhor! Isso não te vai acontecer. O Senhor voltou-se e disse a Pedro: Afasta-te de mim Satanás! És para mim uma pedra de tropeço, porque pensas como os homens, não como Deus. O que pensa como Deus não recusa a cruz, não se queixa dela, sabendo que ela é a única esperança, o único caminho para ir ao céu, o único meio de santificação, a fonte de toda a graça, o modo de conquistar o máximo grau de glória celestial. Satanás engana as suas vítimas com a felicidade mundana, oferece um cálice de prazeres benéficos; Deus, ao contrário, oferece a cruz, depositária de grandes tesouros e alegrias espirituais, da felicidade eterna. Aos santos agradou acolhê-la e não quiseram separar-se dela. Viveram, morreram com ela, sobre ela.

As penas, as batalhas, as tentações, os momentos de aridez espiritual, as perseguições, a fome, a indigência, as contrariedades de todo o tipo foram o seu pão quotidiano. Pela areia do deserto, sob um sol ardente, entre penhascos e despenhadeiros, entre as emboscadas do inimigo e muitos outros perigos, caminharam sempre para Deus, sempre com perseverança e fidelidade, sem ficarem parados a olhar para trás; sem murmurar contra Deus pela falta de consolos temporais, sem lamentar-se do caminho escolhido, sempre serenos, confiados, corajosos, sem medo.

Os santos, que antes de nós suportaram tais aflições, são agora felizes: Deus enxugou as suas lágrimas, aliviou os seus sofrimentos, revestiu-os com o diadema de glória, com a palma do martírio; manifestou-se a eles face a face; todas aquelas lágrimas, todas aquelas dores, constituem agora o adorno das suas vestes reais, sua coroa de embelezamento. E porquê? Porque eles perseveraram. O Senhor Jesus disse: Vós sois os que perseveraram comigo nas minhas provações, e Eu preparo para vós o reino.

A perseverança é a graça de todas as graças, é tudo, é o valor mais importante; sem ela não teriam chegado a nenhum lado todas as suas santas obras; sem ela é vão todo o esforço. E são duas, sobretudo, as coisas necessárias para perseverar: uma fé robusta e viva, e a capacidade de agir de acordo com o que nos pede a fé.

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