Beato Francisco Solano Casey

Baptizado com o nome de Bernardo, nasceu em Prescott, no Estado de Wisconsin (EUA), em 25 de novembro de 1870, numa família de camponeses de origem irlandesa. Em 1897 entra nos Capuchinhos, no no convento de São Boaventura em Detroit. Ordenado sacerdote em 1902, passa a viver nas fraternidades de Yonkers (1904-1918), Manhattan (1918-1924), São Boaventura, em Detroit (1924-1945), Brooklyn (1945-1946), Huntington (1946-1956), no Estado de Indiana. Com a saúde a ficar debilitada, passa a viver no convento São Boaventura em Detroit, onde faleceu a 31 de julho de 1957, com a idade de 87 anos.

Frei Francisco Solano, para alegrar as pessoas, costumava pegar no seu violino e dali tirava belas melodias que a todos encantavam. Mas as mais belas melodias, tirou-as ele da “sinfonia” da vida, como recorda o Fr. Mauro Jöhri, Ministro Geral dos Capuchinhos:

“No momento da grande crise económica dos anos 20 do século passado, Frei Francisco Solano foi destinado a Detroit. O contacto com a dura realidade de quem não tem o que comer transforma-o, ou melhor, faz emergir de modo maravilhoso um aspecto da sua caridade: receber os pobres à porta do convento com o maior respeito pela sacralidade e dignidade de suas pessoas [ele próprio passava pelo meio dos pobres a servir as refeições]... Chegava a passar até dez horas por dia na portaria, sem jamais permitir uma trégua ou um período de férias. O seu serviço tinha se transformado num verdadeiro e próprio apostolado feito de boas palavras, caridade e paciência...

Àqueles que se dirigiam a ele, Frei Francisco jamais perguntou de onde provinham, qual a fé que professavam, se tinham uma necessidade real ou fingiam; tratou a todos com compaixão e sensibilidade, dando a cada um o quanto era dado também aos outros, sem favoritismos, sem parcialidade. Nele, o pobre encontrava o amigo e o confidente; diante dele, a vergonha de mostrar a própria indigência e o embaraço dissipavam-se. Os olhos e as palavras daquele bom frade, sacerdote porteiro, não expressavam nenhuma condescendência ou juízo, mas mostravam apenas o desejo de compreender, ajudar e apoiar... pois Frei Francisco possuía um coração capaz de consolar, amparar, e acompanhar a dor e o drama de tanta gente.”

Foi beatificado no dia 18 de Novembro de 2017, em Detroit, tendo sido o primeiro Capuchinho dos Estados Unidos a ser elevado aos altares.

 

Oração

Senhor Deus, Vós que na vossa providência configurastes o Beato Francisco Solano (Casey) à imagem de vosso Filho para ajudar incansavelmente os pobres, concedei-nos, pelo seu exemplo e intercessão, a mesma generosidade e alegria de nos entregarmos ao serviço do próximo. Por Nosso Senhor.

 

Biografia

Fr. Mauro Jöhri, OFMCap., Ministro Geral, Carta Prot. N. 00867/17

 

1. Uma vida educada na fé

Francisco Solano Casey, sacerdote da Província de Calvary, nos Estados Unidos. É o primeiro Bem-aventurado da Ordem nos Estados Unidos. Na sua espiritualidade, brilham de modo especial todas aquelas virtudes caras a São Francisco que os Capuchinhos souberam reinterpretar e repropor nas diferentes situações do tempo e dos lugares: humildade, simplicidade, pobreza, paciência, alegria, amor a Cristo e ao próximo; todas virtudes postas a serviço da escuta e da consolação.

Bernardo (Francisco Solano) Casey, sexto de dezesseis filhos, nasceu em Prescott, no Estado de Wisconsin (EUA), em 25 de novembro de 1870, numa família de camponeses de origem irlandesa. Os pais, Bernard James Casey e Ellen Elisabeth Murphy, deram aos seus filhos uma sólida educação religiosa: três deles tornaram-se sacerdotes.

Terminada a educação básica, o jovem Bernardo exerceu várias funções: trabalhador agrícola, lenhador, mecânico, eletricista, carcereiro, motorista de bonde, padeiro. De caráter forte e voluntarioso, era dotado de um profundo espírito altruístico e de uma agradável dose de bom humor.

 

2. Senhor, que queres que eu faça?

Em 1892, com a idade de 22 anos, Bernardo ingressou no Seminário diocesano São Francisco de Sales em Milwaukee. Não tendo condições para pagar a mensalidade integral, prestou-se a trabalhar como barbeiro para os colegas. Por causa da sua idade já não ser muito jovem e da preparação insuficiente, encontrará enormes dificuldades nos estudos, a tal ponto que, após cinco anos de seminário, os Superiores aconselharam-no a abandonar a perspetiva do sacerdócio para se tornar religioso.

Bernardo acatou o conselho, com humildade e confiança, buscando compreender o que Deus quisesse dele. Durante o verão e o outono de 1896, adoeceu reiteradamente, acometido de uma dor de garganta que o acompanhou por toda a vida. Apoiado pela mãe e pela irmã Elena, continuou a pedir na oração para entender o que fazer. Significativo foi o encontro com Fr. Eustachio Vollmer, um frade menor que o encorajou a discernir a sua vocação entre os Frades Menores, sem, contudo, excluir os Frades Capuchinhos. O jovem Bernardo, na verdade, não demonstrava muito entusiasmo pelos Frades Capuchinhos, pois, naquele tempo, na Ordem usava-se prevalentemente a língua alemã, e as dificuldades com esta língua já se tinham apresentado no seminário. Além disso, não aceitava o facto de ter que usar barba por toda a vida. Assim, apresentou o pedido tanto aos Frades Menores como aos Frades Capuchinhos, e iniciou uma novena a Nossa Senhora para pedir um pouco de luz.

 

3. Uma novena à Imaculada e, assim, bate à porta dos Frades Capuchinhos

Na vigília da Solenidade da Imaculada de 1896, compreendeu que devia ir aos Capuchinhos em Detroit. Em 14 de janeiro de 1897, no convento de São Boaventura em Detroit, iniciava o seu noviciado, deixando qualquer dúvida. Concluído o noviciado, em 21 de julho de 1898, emitiu a profissão, retomando os estudos de teologia no Seminário Seráfico de Milwaukee.

As línguas usadas para o ensino, o alemão e o latim, não lhe facilitaram a aprendizagem. Contudo, mesmo com esta dificuldade, os Superiores decidiram ordená-lo sacerdote, encorajados pelas palavras do Diretor de estudos: “Ordenaremos o Fr. Francisco Solano e, como sacerdote, ele será para o povo uma espécie de Cura d’Ars”. Em 24 de julho de 1904, recebia a Ordenação sacerdotal como sacerdote simplex, com a dura cláusula de não ouvir confissões e nem pregar em público. A limitação imposta ao seu ministério foi certamente uma humilhação contínua e uma pesada cruz, mas Fr. Francisco Solano acolheu a decisão dos Superiores com espírito de fé e grande humildade.

 

4. “Homem e sacerdote simplex”: de uma limitação, brota uma vida santa

Logo após a ordenação sacerdotal, inicia a grande aventura de Frei Francisco Solano sacerdote simplex ou, como ele frequentemente assina suas cartas, homo simplex, no total serviço dos frades e do povo mais pobre e necessitado que se aproxima do convento em busca de auxílio. Deste momento em diante, sempre teve encargos reservados ordinariamente aos irmãos leigos.

A sua primeira obediência levou-o à fraternidade de Yonkers (1904-1918), como sacristão e assistente das mulheres que zelavam pelo decoro da igreja. A nova obediência que se seguiu chamava-o a Manhattan (1918-1924), como porteiro e promotor da Obra Seráfica das Santas Missas para auxílio às Missões dos Capuchinhos. Este serviço, que podia parecer um mero registro administrativo, foi transformado por Frei Francisco Solano em promoção da participação da Santa Missa, da animação missionária e da necessidade de rezar pelos defuntos. Inscrevendo no registro o nome do doador, aí também inscrevia as intenções particulares do mesmo. Inscrevia todos, também quem não tinha como dar a pequena oferta. O povo simples tinha compreendido que Frei Francisco Solano não era um funcionário, um administrador, mas era uma pessoa que os acolhia, os escutava, levava as dores de todos na sua oração ao Senhor. E os frutos não faltavam, pois Frei Francisco Solano encontrava-se ocupado todo o dia a escutar, consolar, instruir, acompanhar tantas pessoas. Desde 1923, por obediência do Superior, mantinha um registro onde as pessoas anotavam as graças recebidas, notando que estas eram fruto da oração, da participação da Santa Missa, da celebração dos sacramentos. Costumava assim repetir às muitas pessoas que tinham recebido uma graça, que “tudo era possível para quem tinha fé em Deus, na sua bondade, na sua misericórdia, na intercessão de Nossa Senhora, a Obra-prima de Deus”.

No dia 1 de agosto de 1924, Frei Francisco Solano foi transferido para o convento de São Boaventura em Detroit, com a função de auxiliar do porteiro, e aí permaneceu até 1945. O porteiro oficial era também o alfaiate dos frades, pois a portaria não era muito frequentada. Com o passar do tempo, a campainha da portaria tocava com maior frequência, e sempre a porta se abria para falar com o auxiliar do porteiro. Neste período, Frei Francisco Solano foi também encarregado de presidir às bênçãos dos enfermos, a chamada bênção de São Mauro, concedida com a relíquia da Santa Cruz, que se realizava a cada quarta-feira. A bênção tinha sido introduzida antes de sua chegada, mas com ele teve um crescimento extraordinário.

Durante os 21 anos de presença em Detroit, Frei Francesco Solano atraiu uma maré de pessoas que acorriam a ele, atraídas pela fama das suas virtudes e pelas graças extraordinárias atribuídas às suas orações.

Em 21 de julho de 1945, recebeu a obediência para deixar a fraternidade de Detroit, onde tinha deixado um profundo e real sinal da sua caridade, e transferir-se a Brooklyn (1945-1946). A transferência tornava-se necessária para salvaguardar a sua saúde, pois sofria de um grave eczema, mas sobretudo para impedir que seu nome fosse usado por uma Associação para vender livros. As pessoas, porém, continuaram a procurá-lo e, após um primeiro período de tranquilidade, o seu ritmo de acolhimento às pessoas ou das respostas às inúmeras cartas tinha retomado a frequência de antes.

Frei Francisco Solano Casey já tinha 75 anos, a sua saúde estava em declínio e, assim, os Superiores pensaram em reduzir-lhe o serviço, transferindo-o para a fraternidade de Huntington (1946-1956), lugar tranquilo na zona rural de Indiana. O retiro permaneceu oculto só por alguns meses, e espalhando-se a notícia da sua nova residência, o povo dirigiu-se ainda em maior número à portaria do convento.

Em 25 de janeiro de 1947, celebrava o 50º aniversário de profissão religiosa em Detroit, e uma imensa multidão quis participar deste evento. Alguns anos depois, em 28 de julho de 1954, em Huntington, celebrava o 50º aniversário de sacerdócio. A sua saúde, porém, declinava lentamente e, após contínuos internamentos num hospital de Detroit, os Superiores consideraram oportuno deixá-lo no convento São Boaventura em Detroit, onde veio a falecer em 31 de julho de 1957, com a idade de 87 anos.

 

5. Dom de si, acolhida e gratuidade: uma vida plenamente realizada

Frei Francisco Solano transcorria até dez horas por dia na portaria, sem jamais conceder-se uma trégua ou um período de férias. O seu serviço tinha se transformado num verdadeiro e próprio apostolado feito de boas palavras, caridade e paciência, tudo vivido na obediência. O que sustentava a sua vida quotidiana era o desejo de viver, em cada momento, o mandamento do Senhor: “ama o Senhor teu Deus e ama o teu próximo”. Frei Francisco encarnava este preceito com simplicidade: fazer-se dom para o próximo, quem quer que fosse. O seu desejo de cumprir sempre a vontade de Deus, não se realizava na busca de uma forma exterior que pudesse ser conforme a ele, pois “a caridade não procura o seu próprio interesse” (1Cor 13,5), não tende à observância de uma lei anónima e nem mesmo à busca e à realização de um projeto individual, mas à livre realização do plano de amor de Deus. Frei Francisco Solano viveu como homem redimido, desejoso de cumprir a vontade de Deus, seguindo três grandes linhas que ele mesmo tinha anotado no seu diário no momento do noviciado: desejo de dar glória a Deus, tender à escuta de Jesus e compromisso com a salvação das almas.

Frei Francisco Solano nasceu e cresceu em uma família católica, e esta foi a primeira escola de fé que deixou uma marca indelével em sua vida. Na família, tinha aprendido a rezar em cada momento da vida cotidiana. Seu olhar e seu pensamento eram formados no desejo de bem pelos homens, sem fazer distinções com base em etnias ou em confissões religiosas, e isso não era assim deduzido num contexto histórico e social, como o americano do início do século passado, onde conviviam homens e mulheres de nacionalidades e confissões religiosas diversas. Esta convivência, não raramente, gerava conflitos e contrastes; assistia-se a reivindicações para defender a própria autonomia e a fechamentos direcionados a defender a própria identidade cultural. Frei Francisco estava atento a todos, não excluía ninguém, e isso faz dele um daqueles “últimos que serão os primeiros”, dos quais fala Jesus. A pessoa que batia à porta do convento encontrava em Frei Francisco um homem acolhedor, que não media o tempo, e que sobretudo escutava. O dom de si começava justamente a partir de uma atitude de sereno acolhimento. (…)

 

7. Qual “estar bem”?

Em seu ambiente familiar, Frei Francisco Solano tinha aprendido a necessidade de ganhar o pão. Esta educação permitiu-lhe apreciar o valor das coisas, contrastando a índole individualista que habita a vida humana, que ostenta apenas reivindicações e direitos. Frequentemente, quando se tem tudo, sem nenhum esforço ou dedicação pessoal, submetemo-nos à lógica do “tudo é devido”, não somos mais capazes de perceber a necessidade do outro e retiramo-nos no nosso próprio bem-estar egoísta. Esta atitude, que gera uma lógica sutil de marginalização do próximo, não tem nada a ver com o seguimento de Jesus Cristo. Quem desce a este nível não é mais capaz de viver a obediência, que é disponibilidade para o Reino, mas o centro de toda expetativa se torna a própria realização, cujo fim é “o próprio estar bem”, não se deixando tocar por nada nem por ninguém.

 

8. O pobre: pessoa sagrada e digna

No momento da grande crise económica dos anos 20 no século passado, Frei Francisco Solano foi destinado a Detroit. O contacto com a dura realidade de quem não tem o que comer transforma-o, ou melhor, faz emergir de modo maravilhoso um aspeto da sua caridade: receber os pobres à porta do convento com o maior respeito pela sacralidade e dignidade de suas pessoas. Àqueles que se dirigiam a ele, Frei Francisco jamais perguntou de onde provinham, qual a fé que professavam, se tinham uma necessidade real ou se fingiam; tratou todos com compaixão e sensibilidade, dando a cada um o quanto era dado também aos outros, sem favoritismos, sem parcialidade. Nele, o pobre encontrava o amigo e o confidente; diante dele, a vergonha de mostrar a própria indigência e o embaraço se dissipavam. Os olhos e as palavras daquele bom frade, sacerdote porteiro, não expressavam nenhuma condescendência ou juízo, mas mostravam apenas o desejo de compreender, ajudar e apoiar. Frei Francisco Solano era bem consciente que aquilo dava ao pobre era dom da Providência, que se manifestava na generosidade e sensibilidade dos benfeitores. Poder gerir e distribuir tanta Providência tornava-o “dono de nada”, não se gloriando do que cada dia dava aos pobres. A sua caridade não era para se sentir orgulhosamente bom e melhor do que os outros, mas era viver o encontro com o seu Senhor no pobre, era a comovente certeza de cumprir a Palavra de Jesus: “foi a mim que o fizestes”. Tudo vivido na gratuidade, recordando à sua gente que o Senhor é o doador de todo bem.

 

9. Uma vida feliz, apesar de...

A humildade de Frei Francisco é a marca mais tocante da sua aventura humana. Ficamos admirados de como, diante de uma restrição no exercício pleno do ministério presbiteral, a docilidade ao Espírito tenha gerado uma existência bem sucedida, bela, completa! Frei Francisco aceitou a realidade que, sem dúvida, se apresentou por vezes dura, sobretudo quando teve de suportar a comparação de quem o considerava um frade sacerdote de segunda classe. Isso não o impediu de assumir e integrar o limite que a sua história vocacional lhe colocava diante. Não contestou decisão alguma que podia e pode parecer contrária à dignidade da pessoa, acolheu-a passando pelo crivo da fé em Jesus, Senhor Crucificado e Ressuscitado. O crivo purificou as considerações humanas e deu a Frei Francisco um enraizamento profundo na pessoa do seu Senhor, no qual a nossa humanidade encontra paz e felicidade. Esta condição gerou em Frei Francisco um coração capaz de consolar, apoiar, acompanhar a dor e o drama de tantas pessoas.

 

Ligações

Beato Francisco Solano Casey

Beato Francisco Solano Casey

Baptizado com o nome de Bernardo, nasceu em Prescott, no Estado de Wisconsin (EUA), em 25 de novembro de 1870, numa família de camponeses de origem irlandesa. Em 1897 entra nos Capuchinhos, no no convento de São Boaventura em Detroit. Ordenado sacerdote em 1902, passa a viver nas fraternidades de Yonkers (1904-1918), Manhattan (1918-1924), São Boaventura, em Detroit (1924-1945), Brooklyn (1945-1946), Huntington (1946-1956), no Estado de Indiana. Com a saúde a ficar debilitada, passa a viver no convento São Boaventura em Detroit, onde faleceu a 31 de julho de 1957, com a idade de 87 anos.

Frei Francisco Solano, para alegrar as pessoas, costumava pegar no seu violino e dali tirava belas melodias que a todos encantavam. Mas as mais belas melodias, tirou-as ele da “sinfonia” da vida, como recorda o Fr. Mauro Jöhri, Ministro Geral dos Capuchinhos:

“No momento da grande crise económica dos anos 20 do século passado, Frei Francisco Solano foi destinado a Detroit. O contacto com a dura realidade de quem não tem o que comer transforma-o, ou melhor, faz emergir de modo maravilhoso um aspecto da sua caridade: receber os pobres à porta do convento com o maior respeito pela sacralidade e dignidade de suas pessoas [ele próprio passava pelo meio dos pobres a servir as refeições]... Chegava a passar até dez horas por dia na portaria, sem jamais permitir uma trégua ou um período de férias. O seu serviço tinha se transformado num verdadeiro e próprio apostolado feito de boas palavras, caridade e paciência...

Àqueles que se dirigiam a ele, Frei Francisco jamais perguntou de onde provinham, qual a fé que professavam, se tinham uma necessidade real ou fingiam; tratou a todos com compaixão e sensibilidade, dando a cada um o quanto era dado também aos outros, sem favoritismos, sem parcialidade. Nele, o pobre encontrava o amigo e o confidente; diante dele, a vergonha de mostrar a própria indigência e o embaraço dissipavam-se. Os olhos e as palavras daquele bom frade, sacerdote porteiro, não expressavam nenhuma condescendência ou juízo, mas mostravam apenas o desejo de compreender, ajudar e apoiar... pois Frei Francisco possuía um coração capaz de consolar, amparar, e acompanhar a dor e o drama de tanta gente.”

Foi beatificado no dia 18 de Novembro de 2017, em Detroit, tendo sido o primeiro Capuchinho dos Estados Unidos a ser elevado aos altares.

 

Oração

Senhor Deus, Vós que na vossa providência configurastes o Beato Francisco Solano (Casey) à imagem de vosso Filho para ajudar incansavelmente os pobres, concedei-nos, pelo seu exemplo e intercessão, a mesma generosidade e alegria de nos entregarmos ao serviço do próximo. Por Nosso Senhor.

 

Biografia

Fr. Mauro Jöhri, OFMCap., Ministro Geral, Carta Prot. N. 00867/17

 

1. Uma vida educada na fé

Francisco Solano Casey, sacerdote da Província de Calvary, nos Estados Unidos. É o primeiro Bem-aventurado da Ordem nos Estados Unidos. Na sua espiritualidade, brilham de modo especial todas aquelas virtudes caras a São Francisco que os Capuchinhos souberam reinterpretar e repropor nas diferentes situações do tempo e dos lugares: humildade, simplicidade, pobreza, paciência, alegria, amor a Cristo e ao próximo; todas virtudes postas a serviço da escuta e da consolação.

Bernardo (Francisco Solano) Casey, sexto de dezesseis filhos, nasceu em Prescott, no Estado de Wisconsin (EUA), em 25 de novembro de 1870, numa família de camponeses de origem irlandesa. Os pais, Bernard James Casey e Ellen Elisabeth Murphy, deram aos seus filhos uma sólida educação religiosa: três deles tornaram-se sacerdotes.

Terminada a educação básica, o jovem Bernardo exerceu várias funções: trabalhador agrícola, lenhador, mecânico, eletricista, carcereiro, motorista de bonde, padeiro. De caráter forte e voluntarioso, era dotado de um profundo espírito altruístico e de uma agradável dose de bom humor.

 

2. Senhor, que queres que eu faça?

Em 1892, com a idade de 22 anos, Bernardo ingressou no Seminário diocesano São Francisco de Sales em Milwaukee. Não tendo condições para pagar a mensalidade integral, prestou-se a trabalhar como barbeiro para os colegas. Por causa da sua idade já não ser muito jovem e da preparação insuficiente, encontrará enormes dificuldades nos estudos, a tal ponto que, após cinco anos de seminário, os Superiores aconselharam-no a abandonar a perspetiva do sacerdócio para se tornar religioso.

Bernardo acatou o conselho, com humildade e confiança, buscando compreender o que Deus quisesse dele. Durante o verão e o outono de 1896, adoeceu reiteradamente, acometido de uma dor de garganta que o acompanhou por toda a vida. Apoiado pela mãe e pela irmã Elena, continuou a pedir na oração para entender o que fazer. Significativo foi o encontro com Fr. Eustachio Vollmer, um frade menor que o encorajou a discernir a sua vocação entre os Frades Menores, sem, contudo, excluir os Frades Capuchinhos. O jovem Bernardo, na verdade, não demonstrava muito entusiasmo pelos Frades Capuchinhos, pois, naquele tempo, na Ordem usava-se prevalentemente a língua alemã, e as dificuldades com esta língua já se tinham apresentado no seminário. Além disso, não aceitava o facto de ter que usar barba por toda a vida. Assim, apresentou o pedido tanto aos Frades Menores como aos Frades Capuchinhos, e iniciou uma novena a Nossa Senhora para pedir um pouco de luz.

 

3. Uma novena à Imaculada e, assim, bate à porta dos Frades Capuchinhos

Na vigília da Solenidade da Imaculada de 1896, compreendeu que devia ir aos Capuchinhos em Detroit. Em 14 de janeiro de 1897, no convento de São Boaventura em Detroit, iniciava o seu noviciado, deixando qualquer dúvida. Concluído o noviciado, em 21 de julho de 1898, emitiu a profissão, retomando os estudos de teologia no Seminário Seráfico de Milwaukee.

As línguas usadas para o ensino, o alemão e o latim, não lhe facilitaram a aprendizagem. Contudo, mesmo com esta dificuldade, os Superiores decidiram ordená-lo sacerdote, encorajados pelas palavras do Diretor de estudos: “Ordenaremos o Fr. Francisco Solano e, como sacerdote, ele será para o povo uma espécie de Cura d’Ars”. Em 24 de julho de 1904, recebia a Ordenação sacerdotal como sacerdote simplex, com a dura cláusula de não ouvir confissões e nem pregar em público. A limitação imposta ao seu ministério foi certamente uma humilhação contínua e uma pesada cruz, mas Fr. Francisco Solano acolheu a decisão dos Superiores com espírito de fé e grande humildade.

 

4. “Homem e sacerdote simplex”: de uma limitação, brota uma vida santa

Logo após a ordenação sacerdotal, inicia a grande aventura de Frei Francisco Solano sacerdote simplex ou, como ele frequentemente assina suas cartas, homo simplex, no total serviço dos frades e do povo mais pobre e necessitado que se aproxima do convento em busca de auxílio. Deste momento em diante, sempre teve encargos reservados ordinariamente aos irmãos leigos.

A sua primeira obediência levou-o à fraternidade de Yonkers (1904-1918), como sacristão e assistente das mulheres que zelavam pelo decoro da igreja. A nova obediência que se seguiu chamava-o a Manhattan (1918-1924), como porteiro e promotor da Obra Seráfica das Santas Missas para auxílio às Missões dos Capuchinhos. Este serviço, que podia parecer um mero registro administrativo, foi transformado por Frei Francisco Solano em promoção da participação da Santa Missa, da animação missionária e da necessidade de rezar pelos defuntos. Inscrevendo no registro o nome do doador, aí também inscrevia as intenções particulares do mesmo. Inscrevia todos, também quem não tinha como dar a pequena oferta. O povo simples tinha compreendido que Frei Francisco Solano não era um funcionário, um administrador, mas era uma pessoa que os acolhia, os escutava, levava as dores de todos na sua oração ao Senhor. E os frutos não faltavam, pois Frei Francisco Solano encontrava-se ocupado todo o dia a escutar, consolar, instruir, acompanhar tantas pessoas. Desde 1923, por obediência do Superior, mantinha um registro onde as pessoas anotavam as graças recebidas, notando que estas eram fruto da oração, da participação da Santa Missa, da celebração dos sacramentos. Costumava assim repetir às muitas pessoas que tinham recebido uma graça, que “tudo era possível para quem tinha fé em Deus, na sua bondade, na sua misericórdia, na intercessão de Nossa Senhora, a Obra-prima de Deus”.

No dia 1 de agosto de 1924, Frei Francisco Solano foi transferido para o convento de São Boaventura em Detroit, com a função de auxiliar do porteiro, e aí permaneceu até 1945. O porteiro oficial era também o alfaiate dos frades, pois a portaria não era muito frequentada. Com o passar do tempo, a campainha da portaria tocava com maior frequência, e sempre a porta se abria para falar com o auxiliar do porteiro. Neste período, Frei Francisco Solano foi também encarregado de presidir às bênçãos dos enfermos, a chamada bênção de São Mauro, concedida com a relíquia da Santa Cruz, que se realizava a cada quarta-feira. A bênção tinha sido introduzida antes de sua chegada, mas com ele teve um crescimento extraordinário.

Durante os 21 anos de presença em Detroit, Frei Francesco Solano atraiu uma maré de pessoas que acorriam a ele, atraídas pela fama das suas virtudes e pelas graças extraordinárias atribuídas às suas orações.

Em 21 de julho de 1945, recebeu a obediência para deixar a fraternidade de Detroit, onde tinha deixado um profundo e real sinal da sua caridade, e transferir-se a Brooklyn (1945-1946). A transferência tornava-se necessária para salvaguardar a sua saúde, pois sofria de um grave eczema, mas sobretudo para impedir que seu nome fosse usado por uma Associação para vender livros. As pessoas, porém, continuaram a procurá-lo e, após um primeiro período de tranquilidade, o seu ritmo de acolhimento às pessoas ou das respostas às inúmeras cartas tinha retomado a frequência de antes.

Frei Francisco Solano Casey já tinha 75 anos, a sua saúde estava em declínio e, assim, os Superiores pensaram em reduzir-lhe o serviço, transferindo-o para a fraternidade de Huntington (1946-1956), lugar tranquilo na zona rural de Indiana. O retiro permaneceu oculto só por alguns meses, e espalhando-se a notícia da sua nova residência, o povo dirigiu-se ainda em maior número à portaria do convento.

Em 25 de janeiro de 1947, celebrava o 50º aniversário de profissão religiosa em Detroit, e uma imensa multidão quis participar deste evento. Alguns anos depois, em 28 de julho de 1954, em Huntington, celebrava o 50º aniversário de sacerdócio. A sua saúde, porém, declinava lentamente e, após contínuos internamentos num hospital de Detroit, os Superiores consideraram oportuno deixá-lo no convento São Boaventura em Detroit, onde veio a falecer em 31 de julho de 1957, com a idade de 87 anos.

 

5. Dom de si, acolhida e gratuidade: uma vida plenamente realizada

Frei Francisco Solano transcorria até dez horas por dia na portaria, sem jamais conceder-se uma trégua ou um período de férias. O seu serviço tinha se transformado num verdadeiro e próprio apostolado feito de boas palavras, caridade e paciência, tudo vivido na obediência. O que sustentava a sua vida quotidiana era o desejo de viver, em cada momento, o mandamento do Senhor: “ama o Senhor teu Deus e ama o teu próximo”. Frei Francisco encarnava este preceito com simplicidade: fazer-se dom para o próximo, quem quer que fosse. O seu desejo de cumprir sempre a vontade de Deus, não se realizava na busca de uma forma exterior que pudesse ser conforme a ele, pois “a caridade não procura o seu próprio interesse” (1Cor 13,5), não tende à observância de uma lei anónima e nem mesmo à busca e à realização de um projeto individual, mas à livre realização do plano de amor de Deus. Frei Francisco Solano viveu como homem redimido, desejoso de cumprir a vontade de Deus, seguindo três grandes linhas que ele mesmo tinha anotado no seu diário no momento do noviciado: desejo de dar glória a Deus, tender à escuta de Jesus e compromisso com a salvação das almas.

Frei Francisco Solano nasceu e cresceu em uma família católica, e esta foi a primeira escola de fé que deixou uma marca indelével em sua vida. Na família, tinha aprendido a rezar em cada momento da vida cotidiana. Seu olhar e seu pensamento eram formados no desejo de bem pelos homens, sem fazer distinções com base em etnias ou em confissões religiosas, e isso não era assim deduzido num contexto histórico e social, como o americano do início do século passado, onde conviviam homens e mulheres de nacionalidades e confissões religiosas diversas. Esta convivência, não raramente, gerava conflitos e contrastes; assistia-se a reivindicações para defender a própria autonomia e a fechamentos direcionados a defender a própria identidade cultural. Frei Francisco estava atento a todos, não excluía ninguém, e isso faz dele um daqueles “últimos que serão os primeiros”, dos quais fala Jesus. A pessoa que batia à porta do convento encontrava em Frei Francisco um homem acolhedor, que não media o tempo, e que sobretudo escutava. O dom de si começava justamente a partir de uma atitude de sereno acolhimento. (…)

 

7. Qual “estar bem”?

Em seu ambiente familiar, Frei Francisco Solano tinha aprendido a necessidade de ganhar o pão. Esta educação permitiu-lhe apreciar o valor das coisas, contrastando a índole individualista que habita a vida humana, que ostenta apenas reivindicações e direitos. Frequentemente, quando se tem tudo, sem nenhum esforço ou dedicação pessoal, submetemo-nos à lógica do “tudo é devido”, não somos mais capazes de perceber a necessidade do outro e retiramo-nos no nosso próprio bem-estar egoísta. Esta atitude, que gera uma lógica sutil de marginalização do próximo, não tem nada a ver com o seguimento de Jesus Cristo. Quem desce a este nível não é mais capaz de viver a obediência, que é disponibilidade para o Reino, mas o centro de toda expetativa se torna a própria realização, cujo fim é “o próprio estar bem”, não se deixando tocar por nada nem por ninguém.

 

8. O pobre: pessoa sagrada e digna

No momento da grande crise económica dos anos 20 no século passado, Frei Francisco Solano foi destinado a Detroit. O contacto com a dura realidade de quem não tem o que comer transforma-o, ou melhor, faz emergir de modo maravilhoso um aspeto da sua caridade: receber os pobres à porta do convento com o maior respeito pela sacralidade e dignidade de suas pessoas. Àqueles que se dirigiam a ele, Frei Francisco jamais perguntou de onde provinham, qual a fé que professavam, se tinham uma necessidade real ou se fingiam; tratou todos com compaixão e sensibilidade, dando a cada um o quanto era dado também aos outros, sem favoritismos, sem parcialidade. Nele, o pobre encontrava o amigo e o confidente; diante dele, a vergonha de mostrar a própria indigência e o embaraço se dissipavam. Os olhos e as palavras daquele bom frade, sacerdote porteiro, não expressavam nenhuma condescendência ou juízo, mas mostravam apenas o desejo de compreender, ajudar e apoiar. Frei Francisco Solano era bem consciente que aquilo dava ao pobre era dom da Providência, que se manifestava na generosidade e sensibilidade dos benfeitores. Poder gerir e distribuir tanta Providência tornava-o “dono de nada”, não se gloriando do que cada dia dava aos pobres. A sua caridade não era para se sentir orgulhosamente bom e melhor do que os outros, mas era viver o encontro com o seu Senhor no pobre, era a comovente certeza de cumprir a Palavra de Jesus: “foi a mim que o fizestes”. Tudo vivido na gratuidade, recordando à sua gente que o Senhor é o doador de todo bem.

 

9. Uma vida feliz, apesar de...

A humildade de Frei Francisco é a marca mais tocante da sua aventura humana. Ficamos admirados de como, diante de uma restrição no exercício pleno do ministério presbiteral, a docilidade ao Espírito tenha gerado uma existência bem sucedida, bela, completa! Frei Francisco aceitou a realidade que, sem dúvida, se apresentou por vezes dura, sobretudo quando teve de suportar a comparação de quem o considerava um frade sacerdote de segunda classe. Isso não o impediu de assumir e integrar o limite que a sua história vocacional lhe colocava diante. Não contestou decisão alguma que podia e pode parecer contrária à dignidade da pessoa, acolheu-a passando pelo crivo da fé em Jesus, Senhor Crucificado e Ressuscitado. O crivo purificou as considerações humanas e deu a Frei Francisco um enraizamento profundo na pessoa do seu Senhor, no qual a nossa humanidade encontra paz e felicidade. Esta condição gerou em Frei Francisco um coração capaz de consolar, apoiar, acompanhar a dor e o drama de tantas pessoas.

 

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