“Grande Construtor”, “Apóstolo da Cruz”, “São Vicente de Paulo do Líbano”, “Novo Cotolengo”, “Novo Dom Bosco”, são os nomes que os libaneses, cristãos e muçulmanos usaram e usam para o denominar, rezar ao Beato Tiago de Ghazir, reconhecendo sua humanidade e sua santidade.

O BeatoTiago nasceu em Ghazir, nos arredores de Beirute, no dia 1 de fevereiro de 1875, o terceiro de oito filhos. A família cristã, do rito maronita, era profundamente crente. A mãe, em particular, com a santidade de vida influenciou decisivamente seu filho, favorecendo nele uma forte propensão à generosidade para com Deus e para com as pessoas. Recebeu o Batismo em Ghazir, na Igreja Maronita, com o nome de Khalil, e a Confirmação em 9 de fevereiro de 1881. Depois de completar os estudos elementares na sua cidade natal, continuou os estudos secundários em Beirute, em duas escolas religiosas. Aos dezesseis anos, emigrou para Alexandria do Egito. Ali, aos 19 anos de idade, abalado pelo mau exemplo de um padre e pelo comovente testemunho da morte de um irmão capuchinho, toma a decisão de abraçar a vida consagrada entre os frades capuchinhos.

Retornou ao Líbano em 1894 para comunicar esta decisão ao seu pai e, assim, começar o noviciado no convento de Santo António de Pádua, não muito longe da sua aldeia. Inicialmente o pai opôs-se à decisão, mas depois disse que sim. No noviciado, como era costume naquela época, recebeu um novo nome: Frei Tiago de Ghazir, em memória do irmão franciscano Tiago das Marcas. Todos os irmãos o admiravam pela sua abnegação, piedade, caridade, obediência e sentido de humor, que ele nunca deixou de usar como instrumento de paz.

Depois de concluir os estudos, no dia 1 de novembro de 1901, na capela do Vicariato Apostólico de Beirute, o Delegado Apostólico Dom Duval ordenou-o sacerdote. No dia seguinte, celebrou a sua primeira missa na sua cidade natal.

Os seus superiores confiaram-lhe a administração geral dos cinco conventos de Beirute e da Montanha, o que o obrigou a lidar com questões administrativas e a fazer muitas viagens. Dezenas de vezes, como ele mesmo conta nas suas Memórias, foi atacado, espancado e ameaçado de morte, mas a cruz de Jesus sempre o salvou miraculosamente.

Em 1905 foi nomeado diretor das escolas que estavam sob a responsabililidade dos irmãos Capuchinhos no Líbano, introduzindo nelas importantes reformas. O seu modelo de escola não era o de uma escola grande com muitos alunos, mas escolas pequenas com turmas de poucos alunos. Assim, em 1910, as escolas eram 230, com 7.500 estudantes.

O seu carisma específico era a pregação. Preparava os sermões à noite diante do Santíssimo Sacramento, tendo deixado mais de oito mil páginas de escritos.

Por causa da eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, os capuchinhos franceses deixaram o Líbano e Frei Tiago foi encarregado da Missão, à qual se dedicou com coragem e competência. A nova tarefa não o impediu de distribuir pão aos famintos e de enterrar os mortos abandonados nas ruas. A Providência cuidou dele. Muitas vezes escapou da prisão e até do carrasco.

Com o fim da guerra, o exército turco deixou o país e os capuchinhos franceses voltaram para continuar o trabalho interrompido. A abertura de centros para acolher crianças e jovens em dificuldade foi o novo campo de ação de Frei Tiago.

Alimentou também o sonho de levantar uma cruz gigante no topo de uma colina no Líbano, torná-la um ponto de encontro para os Terciários Franciscanos e, acima de tudo, um local de oração por aqueles que morreram na guerra e pelos libaneses que deixaram a sua terra. Este sonho foi realizado, com a ajuda da Providência, na colina de Jall-Eddib, a qual deixou de se chamar "Colina dos Djinns " e passou a ser conhecida pelo nome de "Colina da Cruz".

Mas a Providência ainda tinha muitas coisas para fazer por intermédio de Frei Tiago. Chamado para confessar um padre doente num hospital público, ficou profundamente comovido. O padre, além do lamentável estado em que se encontrava devido à má assistência, durante a sua recuperação nunca teve a possibilidade de celebrar a santa missa. Frei Tiago não pensou duas vezes e levou-o para Nossa Senhora do Mar, onde em pouco tempo outros sacerdotes doentes o seguiram.

Embora a ideia de fundar uma congregação o deixasse perturbado, em 1930 acabou por fundar a Congregação das Irmãs Franciscanas da Cruz do Líbano, tendo recebido a ajuda das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição para a formação das jovens. Nos estatutos da nova congregação, Frei Tiago insiste que o exercício das obras de misericórdia há de estar bem presente sobretudo da seguinte maneira: atendimento hospitalar aos sacerdotes doentes que, por causa de sua idade avançada, não podem exercer o ministério; cuidar dos deficientes, dos cegos, dos deficientes mentais, dos incuráveis abandonados; educação e cuidado de órfãos.

O amor de Frei Tiago pela humanidade sofredora caraterizou todo a sua vida. Fundou a escola de São Francisco, em Jall-Eddib, o hospital de Deir El-Qamar, para meninas com deficiência; o convento de Nossa Senhora do poço, em Bkennaya, que inclui a casa geral, o postulantado, o noviciado e o centro de acolhimento dos retiros espirituais de sacerdotes, religiosos e grupos de oração; o hospital de Nossa Senhora, em Antélias, para os doentes crónicos e os idosos. E também, o Hospital São José, em Dora, localizado num bairro popular; a escola das Irmãs da Cruz, em Brummana, que acolhe crianças órfãs e vítimas de pobreza material e moral; o Hospício de Cristo Rei, em Zouk-Mosbeh, construído numa colina com vista para a estrada da costa que vai para Byblos.

Em 1951, o Hospital da Cruz foi inteiramente reservado para o cuidado de doenças mentais. Hoje é o maior complexo psiquiátrico do Médio Oriente. O Hospital da Cruz acolhe os enfermos de qualquer religião com o espírito de misericórdia que distingue a congregação das Irmãs Franciscanas da Cruz do Líbano: "Sejamos como a fonte que nunca diz ao sedento: diz-me de que país vens; se não, não te dou de beber”.

Frei Tiago, reconhecido por autoridades religiosas e civis como um gigante da caridade, não tinha outro propósito senão "amar a Deus e amar cada pessoa, que é a imagem do Crucificado".

A idade e a doença amadureceram a forte fibra do atleta de Cristo, e em particular o coração, que Frei Tiago ofereceu tantas vezes ao Senhor: "Senhor, se queres o meu coração, aqui está; bem como a minha inteligência, a minha vontade e todo o meu ser”.

Na madrugada de sábado, dia 26 de junho de 1954, disse: "Hoje é o meu último dia!" E morreu nesse mesmo dia, às três horas da tarde. O rádio, a imprensa, os amigos e os sinos da aldeia anunciaram a sua morte. Milhares de pessoas foram ao convento da Cruz para lamentar, orar e receber uma bênção daquele que agora vive na eternidade.

O Núncio Apostólico resumiu a sua vida com estas palavras: “Frei Tiago foi o maior homem que o Líbano deu nos nossos dias”.

 

Cf. Carta do Ministro Geral, Fr. Mauro Jöhri (9 junho 2008)

Mais lidos