Foi provavelmente o “leitor” mais genial de Shakespeare, do ponto de vista cinematográfico. Zeffirelli, que morreu no sábado aos 96 anos, conseguiu interpretar a beleza que se ocultava por trás das personagens do bardo de Stratford-upon-Avon. A sua famosa recuperação de Romeu e Julieta, em 1968, torna-se um mito, e dois jovens atores, Leonard Whiting e Olivia Hussey, respetivamente de 17 e 16 anos, incarnaram dois ícones que tornaram Shakespeare familiar a jovens que então nunca o tinham sequer folheado. A proximidade da ideade dos atores à dos personagens da tragédia causou não poucos problemas: por exemplo, à jovem atriz foi proibido entrar no cinema para ver o filme, porque em Itália era interdito aos menores, que ela, efetivamente, era.

Mas o que mais contribuiu para o sucesso do filme, e das experiências shakespearianas de Zeffirelli, foi o facto de o realizador ter conseguido transmitir fidelidade ao texto original, precisão quase filológica das reconstruções e tocar o imaginário coletivo de anos em que a contestação de tudo e de todos era soberana.

O sentido de beleza, não só física, mas ligada à irrepetibilidade de um período como o da adolescência, transpirava em cada filme do cineasta, inclusive em “Hamlet”, em que imperava a obscuridade dos abismos humanos: a personagem de Ofélia, interpretada por Helena Bonham Carter, exprime na difícil transposição física a inocência, o desejo, loucura e sofrimento, exatamente como em Shakespeare.

Com “Irmão sol, irmã lua”, Zeffirelli dá uma dimensão universal à mensagem franciscana através do sábio uso da fotografia: segundo alguns, traiu a essencialidade indizível, mas só praticável, da mensagem do santo de Assis; para outros, conseguiu tornar fruível a todos, também graças à banda sonora, e criando uma verdadeiro ícone universal (música, fé, natureza, beleza da simplicidade), que aproximou muitos, sobretudo jovens, da fé.

Também nas escolhas privadas andou sempre contracorrente: se por um lado se declarou católico e homossexual – acentuando o conteúdo de amor pela beleza típica da Grécia antiga e do Renascimento –, por outro recusou sempre a espetacularização e o uso indiscriminado de algumas batalhas públicas gay, sobretudo quanto à adoção.

Se a isto se acrescentar o facto de Zeffirelli ter sido uma criança abandonada, filho de um casal “clandestino”, e que foi reconhecido pelo pai só aos 19 anos, e as raízes paternas residirem no burgo de Vinci, o mesmo de Leonardo (também ele filho “não natural”), tem-se então o quadro completo de uma quase lenda que encontra na beleza, também interior, o centro de gravidade. E que representa uma cultura das raízes verdadeiramente antiga.

 

“Jesus de Nazaré”

Transmitido com grande sucesso pela televisão italiana em 1977, “Jesus de Nazaré” é um longo filme nada previsível, não obstante os impressionantes meios técnicos e o recurso a intérpretes conhecidíssimos, de Claudia Cardinale a Ernest Borgnine, de Anthony Quinn a Olivia Hussey, a mesma de “Romeu e Julieta”, agora chamada a interpretar uma muito jovem Maria.

Quem seguia o filme em casa, podia não dar-se conta, mas sob vários aspetos “Jesus de Nazaré” era uma resposta, não necessariamente polémica, ao já celebrado “Evangelho segundo Mateus”, de Pier Paolo Pasolini.

Se em 1964 o cineasta-poeta tinha optado por uma essencialidade rigorosa, a encenação de Zeffirelli era sobreabundante de citações, preferencialmente não declaradas, entregando ao espetador a quinta-essência de um repertório iconográfico dentro do qual intervinham, de maneira imprevisível e eficaz, detalhes inesperados e reveladores: o rosto de Maria que se contrai durante o parto, por exemplo, ou os cabelos sujos do Jesus personificado por Robert Powell, como é normal para um homem que caminha por caminhos de pó. Indícios mínimos da Incarnação, toques quase ocultos de um artista genial que, para falar a todos, não temia ser mal-entendido por alguns.

Neste papa reencontrei aquela essência do espírito franciscano capaz de reacender todas as nossas esperanças», afirmou em março de 2016, depois de ter sido recebido por Francisco.

 

Marco Testi (SIR), Alessandro Zaccuri (Avvenire)
Trad. / edição: Rui Jorge Martins

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