Os membros da Ordem dos Frades Capuchinhos (franciscanos) da Província de Mid America, no centro dos Estados Unidos, elegeram um frade leigo, o irmão Mark Schenk, como ministro provincial. A decisão foi contrariada, num primeiro momento, pelo Vaticano, mas a intercessão junto do Papa Francisco valeu a ratificação da escolha – noticiou o Crux.

Inicialmente, a Congregação da Santa Sé para os Religiosos, que tutela as ordens e congregações religiosas, vetou o nome de Mark Schenk. Mas várias pessoas intercederam junto do Papa Francisco e Schenk recebeu a dispensa necessária para assumir por três anos o cargo de ministro provincial – ou seja, o responsável máximo da província, a divisão geográfica em que a ordem se organiza.

O precedente aberto pelo Papa pode levar a que a Congregação para os Religiosos ajuste os seus procedimentos noutros casos semelhantes que venham a acontecer com pessoas que não são ordenadas.

Citado pelo Crux, o padre capuchinho Blaine Burkey diz que Francisco pode fazer a diferença, “especialmente com o seu desejo de ter leigos envolvidos na liderança da Igreja”. E acrescenta: “Ele diz isso e esperamos que ele realmente o faça avançar, ao invés de apenas reagir quando a Congregação for ter com ele.”

A decisão não foi pacífica por, aparentemente, contrariar o Código de Direito Canónico (CDC), da Igreja Católica. No cânone 129º – 1, o CDC indica: “Quem recebeu a ordem sagrada é capaz, segundo as normas do direito, do poder de governo, que por instituição divina existe na Igreja, e que também é chamado poder de jurisdição”. Ou seja, o irmão eleito não terá recebido “a ordem sagrada” ainda que o número seguinte do mesmo artigo diga que “os fiéis leigos podem cooperar no exercício desse poder, segundo as normas do direito”.

Os capuchinhos fazem uma interpretação aberta deste artigo, baseando-se na sua própria Constituição, que foi ratificada pelo Vaticano em 2013, e na qual se lê: “Pela razão da mesma vocação [padre ou irmão não ordenado]…) todos nós somos chamados irmãos sem distinção.”

Blaine Burkey votou em Schenk e está “feliz por ele ter sido escolhido”, afirma, citado pela mesma fonte. Para este padre, a distinção por causa da ordenação é irrelevante, porque o seu “dom para o Mundo é a fraternidade”.

Esta não é, contudo, a primeira vez que uma tal escolha acontece nos capuchinhos. A primeira acontecera em 1983, numa província canadiana, mas houve ainda uma outra na província de São José (estado do Michigan, no nordeste dos EUA). Neste último caso, a escolha não foi aprovada pelo Vaticano e a comunidade elegeu outro frade.

O próprio São Francisco, de quem os capuchinhos herdam o carisma, não era padre, defendem os que optam pela possibilidade de ter um leigo como provincial.

Mark Schenk, 62 anos, tem um mestrado em Teologia e outro em gestão, e trabalhou já durante 22 anos em Roma, na cúria geral dos capuchinhos. Quando entrou na ordem, “a questão do sacerdócio ou da fraternidade não se colocava”. Agora, ele diz que “não esperava” ser eleito, “mas sempre disse que poderia ajudar os irmãos” da Ordem. No horizonte, está o cuidado de 70 frades e das suas “necessidades espirituais e humanas”, bem como o controlo da “saúde da província” no âmbito financeiro.

 

Publicado por Hugo SIlva no 7 Margens

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