No passado dia 29 de dezembro de 2025, em Gondomar, Dom Joaquim Ferreira Lopes, Bispo Emérito de Viana (Angola), apresentou aos irmãos Capuchinhos a conferência que a seguir se transcreve na íntegra. Ela foi feita no âmbito do início da celebração do oitavo centenário do Testamento e da Páscoa de São Francisco de Assis.
O TESTAMENTO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS
SAUDAÇÃO
Reverendo Pe. Provincial, Irmãos!
Depois de pensar profundamente sobre o tema que me foi proposto, logo me dei conta que era necessário delimitar o ângulo de abordagem do mesmo, pois, sendo o Testamento um documento curto é, no entanto, muito vasto no conteúdo. Assim, se me permitem, abro esta minha comunicação lendo os números 1 e 34 do Testamento, respetivamente o primeiro e o último, operando deste modo uma figura de inclusão, na esperança de que quanto está no centro seja sobejamente conhecido por todos e digno de um tratamento em posterior momento oportuno. S. Francisco chama-nos atenção para quanto teve em mente ao ditar estas palavras, pois, tudo isto que nos deixa é uma recordação, um aviso, uma exortação a jeito de sua última vontade ou Testamento e não uma outra Regra. Assim rezam respetivamente estes dois números:
Nº 1: “Deus, nosso Senhor, quis dar a Sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência” (Test 1);
Nº 34: “E não digam os irmãos: esta é outra Regra; porque isto é uma recordação, aviso e exortação e o meu Testamento, que eu, o irmão Francisco, pequenino servo vosso, faço para vós, meus irmãos benditos, com este fim: para que mais catolicamente observemos a Regra que ao Senhor prometemos” (Test 34).
INTRODUÇÃO
De acordo com a programação da Família Franciscana mundial, decorrem as celebrações dos 800 anos franciscanos (de 2023 a 2026) que se aproximam do seu termo. E o tempo foi passando rapidamente: a Regra, o Natal de Greccio, os Estigmas, o Cântico das Criaturas e agora os 800 anos do Testamento e da Páscoa de S. Francisco. A pedido do muito Reverendo Ministro Provincial, aceitei fazer esta comunicação aos Irmãos da Província, mas com alguma resistência interior. Na verdade, já chegou a hora de tratarmos dos temas mais importantes da nossa vida consagrada capuchinha da maneira cada vez mais científica e académica possível. Neste momento em que termina o tempo dedicado à celebração dos 800 anos dos eventos mais significativos da vida do Pai S. Francisco, uma das conclusões a tirar deve ser esta: os Frades devem especializar-se em Franciscanismo, de preferência a todas as outras ciências eclesiásticas. Devemos ser especialistas nas matérias relativas à nossa consagração, sem deixarmos evidentemente de nos especializarmos também em ciências bíblicas, teologia, direito canónico, etc. Por isso, penso que na nova organização das Províncias da Ordem, deve-se ter isto em conta, de maneira que sempre que aconteçam momentos solenes como este, os frades verdadeiramente peritos (e sabemos que os há) é que devem ser chamados a transmitir aos outros a profundidade dos seus conhecimentos no que diz respeito à nossa própria vida e profissão. Ora, Irmãos, eu não sou formado em Franciscanismo. E como não possuo certos conhecimentos que só quem estudou as Fontes Franciscanas em profundidade e a nível académico possui, decidi seguir um artigo do Fr. Júlio Micó que, no meu parecer, dá uma visão muito profunda do conteúdo do Testamento1.
Quanto ao Testamento, é bom que se diga, acontece com S. Francisco o mesmo que sucede com os grandes escritores, compositores de música clássica e outros expoentes da cultura. Nem sempre as respetivas obras de grande porte são as únicas que refletem o seu pensamento e o seu génio. Eles têm obras de menor volume que não deixam de possuir um valor inestimável e que ombreiam com as outras. Por exemplo, muita gente aprecia as sinfonias de Beethoven e ora prefere a nona, ora a sétima, etc. Mas, quem conhecer toda a obra betthoveniana, não deixará de apreciar os concertos para piano e orquestra, ou outras obras mais pequenas, que têm um valor revelador do estro musical do seu autor e devem ser consideradas verdadeiras obras-primas também. Eça de Queirós escreveu grandes obras que todos conhecemos como os A Ilustre casa de Ramires, A Cidade e as Serras, etc.; mas escreveu algumas bem pequenas como A Relíquia, O Mandarim que são verdadeiras joias de literatura. O mesmo fizeram Camões (épica/lírica) ou Fernando Pessoa. Ora é isso mesmo o que se passa com o Testamento do nosso Pai S. Francisco. Trata-se de um escrito, materialmente falando, relativamente curto, mas é de tal maneira profundo, denso e comprimido que para o dissecar seria necessário organizar um simpósio.
Segundo Fr. Júlio Micó, “o Testamento é um dos escritos onde melhor se espelha a dimensão espiritual de Francisco. É como uma confissão, um balanço da sua vida. Nele valora e afirma a sua experiência evangélica alertando, ao mesmo tempo, o grupo nascido à sua volta sobre as más interpretações que tenham podido fazer dos valores fundamentais da Fraternidade. Mas não pretende fazer no Testamento uma sistematização destes valores (faltam alguns demasiado importantes, como a fraternidade), mas simplesmente deixar bem claro qual era o seu projeto e o dos primeiros irmãos que se uniram a ele, com o fim de o tomar como ponto de referência para a apreciação da vida da Fraternidade no momento de ser redatado. Francisco, como iniciador de um movimento que foi introduzido na organização eclesiástica, sente-se responsável perante a Igreja do cumprimento do prometido a Deus, isto é, a vivência do Evangelho de acordo com quanto está na Regra” 2.
Acresce a tudo isto que, o Testamento de S. Francisco de que estamos a celebrar os 800 anos de existência, não nos pode fazer esquecer o chamado “Pequeno Testamento de Sena” em que nos aparece de forma esquemática esta vontade do Santo. Sendo embora provavelmente de 1226 (ano também quase certo do outro Testamento de Francisco para S. Clara), não deve ser desconsiderado nem tido como uma mera invenção relativamente ao grande Testamento que já gozava de muito prestígio. Este Pequeno Testamento de Sena (cf. edição italiana), foi ditado a Fr. Benedito de Prato (Fr. Bento de Piratro), sacerdote experimentado e santo que celebrava muitas vezes a missa para o bem-aventurado Francisco quando este se encontrava em grave crise de saúde. Na Compilação ou Legenda Perusina, encontramos o texto deste Testamento: “Escreve que abençoo todos os meus frades, os que estão na Ordem e todos os que nela entrarem, até ao fim do mundo. Como a minha fraqueza e sofrimentos me impedem de falar, resumirei em três palavras a minha vontade. Em memória do meu Testamento e da minha bênção, que eles se amem sempre entre si e se respeitem uns aos outros; que eles amem e respeitem sempre nossa senhora, a santa pobreza¸ que sejam sempre fiéis e submissos aos prelados e clérigos da nossa santa mãe Igreja”3 (LP [Legenda Perusina] 17). Este Pequeno Testamento de Sena é uma curta síntese do Testamento de que estamos a falar e que foi ditado aos Frades também nos últimos dias da vida do Santo quando estava na Porciúncula.
Os estudiosos do Franciscanismo já não duvidam que estes Testamentos são obra direta de Francisco e refletem aquilo que já não constitui um mistério para ninguém. Francisco sentia uma reverente, mas progressiva marginalização à medida que a Ordem se ia organizando, vendo a evolução negociada pela Cúria, os Ministros e os «intelectuais», como algo que lhe escapara das mãos e já não podia controlar4. Ora, que o Testamento não representa o pensamento da maioria dos Ministros e Curiais empenhados na organização da Ordem, demonstra-o o facto de que quatro anos mais tarde (1230) e com a bula “Quo elongati”, o Papa Gregório IX esclarecia que o Testamento não tinha força legal, ficando assim relegado para um simples documento espiritual, utilizado posteriormente pelos Espirituais como arma de arremesso contra o modo de viver da Fraternidade. Esta ideia do Papa Gregório espelha a mentalidade legalista daquele tempo e que impediu que, fora da Regra Bulada, praticamente nada mais nos podia dar a conhecer o carisma de Francisco, o que privou a Ordem de uma visão holística do pensamento e da experiência do Fundador. Hoje em dia, porém, as coisas estão felizmente superadas e os estudiosos franciscanos permitiram-nos contemplar, com uma ótica mais ampla, ou num zoom mais alargado a personalidade espiritual de S. Francisco de que o Testamento é um expoente.
Antes de entrar em detalhes, convém dizer que o Testamento propriamente dito constitui o ponto mais alto dos escritos de S. Francisco. Não há dúvida que é o escrito mais pessoal e autobiográfico do Santo e, se assim nos podemos expressar, é o escrito mais personalista porque é a chave de leitura dos outros (como chave de leitura, o Testamento está para a obra de Francisco como o Apocalipse para a Bíblia). Por outro lado, não podemos esquecer que o Testamento é considerado por Francisco como “uma graça” (v. 39). Se, entre os vários escritos de Francisco, há um que os franciscanos devam aprender de cor, é sem dúvida o Testamento, pois, é o atestado da nossa vida e regra5. Quanto ao lugar e ao tempo em que foi escrito, não há unanimidade entre os diversos estudiosos, mas tudo indica que terá sido escrito entre os meses de agosto/setembro de 1226, na Porciúncula.
Mas o Testamento precisa de uma exegese muito detalhada para que nos possamos aperceber da grandeza do seu conteúdo. Parece-me que é lido de forma bastante superficial de modo que nem sempre chega a ser completamente percebido e devidamente apreciado. Parece-me que o Testamento é relativamente desconhecido na sua profundidade.
Convém recordar, antes de mais, que S. Francisco organizou as suas ideias no Testamento à volta de dois polos: 1º - o seu relacionamento com Deus e 2º- a sua última advertência ou admoestação aos frades (a sua última vontade).
O primeiro polo, refere-se à lembrança íntima do seu relacionamento com o Senhor. Francisco tem uma consciência perfeita de que tudo quanto recebeu vem de Deus e a Ele tudo deve. Tudo em Francisco é uma iniciativa de Deus gratuita e soberana: a conversão, o começar a fazer penitência (v. 1), a revelação da existência dos leprosos (v. 2), a fé nas igrejas (v. 4), a fé nos sacerdotes (v. 6-13), o dom dos irmãos (v. 14), a revelação do Evangelho como forma de vida (v. 14), etc. (tudo isto constitui praticamente o conteúdo da parte central do Testamento que omito na minha análise).
O segundo polo, à volta do qual ele organiza as suas ideias, é esta solene advertência: tudo quanto escreveu, não é outra Regra (v. 34), mas simplesmente “uma recordação, admoestação e exortação”6.
Como não é possível fazer uma exegese exaustiva nesta sede e para não cair na tentação de fazer apenas um resumo de todo este escrito, permitam-me que faça um pequenino comentário apenas do início (nn. 1,2,3) e do fim do documento (nn. 34-41), deixando a parte intermédia (nº 4-33) para outro momento, na esperança de dar uma visão dos extremos do documento como se dos dois pontos focais de uma elipse se tratasse e ver este documento numa espécie de merismo em que os extremos incluem todo o espaço que os interliga. A riqueza do que se encontra no centro do Testamento é de tal modo grande que exige uma exposição para um estudo profundo que englobe vários dias. Se assim não for, nunca nos daremos conta da profundidade deste escrito. Foi a escolha que decidi fazer, ou o risco que decidi correr, na abordagem ao Testamento, servindo-me da autoridade de Fr. Júlio Micó no artigo citado, dado o pouco tempo de que dispomos neste encontro. Vou dividir, assim, a minha comunicação em duas partes. Na I parte, considero os três primeiros números (1,2,3) e na II, faço um breve aceno aos últimos (34-41) seguindo-se uma conclusão.
I PARTE - Os números 1,2,3
TEXTO:
1“Deus, nosso Senhor,
quis dar a Sua graça a mim, o irmão Francisco,
para que começasse a fazer penitência;
2porque, quando eu estava em pecados,
parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos;
mas o mesmo Senhor, um dia,
me conduziu ao meio deles e com eles usei de misericórdia.
3E, ao afastar-me deles, o que antes me parecera amargo,
converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo;
e, em seguida, passado um pouco de tempo, saí do mundo” (Test, nn. 1,2,3).
Deixando de parte os aspetos da análise literária porque não são necessárias ao nosso objetivo, detenho-me para já no movimento interno destes três primeiros números que considero constituírem uma unidade. E que descobrimos? O nascimento da vocação de Francisco que o vai levar à formação da primeira Fraternidade. Analisemos embora que muito brevemente o texto destes três números, para nos apercebermos do respetivo movimento interno e tirarmos as conclusões que se impõem.
Breve análise destes números
Analisemos brevemente quatro pontos que se destacam nestes três primeiros números do Testamento, seguindo o artigo citado do Fr. Júlio Micó.
1º ponto - “Deus, nosso Senhor, quis dar a Sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência”
Esta é a consciência profunda de Francisco. Sem pertencer a nenhum movimento de penitentes que nesse tempo abundavam na Europa medieval, Francisco sempre se considerou um homem penitente e concebia o seu grupo como “penitentes de Assis” (TC [Legenda dos três Companheiros] 37; AP [Legenda do anónimo Perusino] 19). Por isso, tanto na 1ª Carta a todos os Fiéis (1CF) como na segunda redação da Carta a Todos os Fiéis (2CF), Francisco praticamente divide a humanidade em dois campos: os que fazem penitência e os que a não fazem. Aos primeiros considera-os felizes e beatos; aos segundos, considera-os cegos porque não veem a luz verdadeira que é Nosso Senhor Jesus Cristo. A penitência tornou-se um conceito fundamental na literatura e na vida franciscana a ponto de se tornar sinónimo de vida religiosa: “Inflamados pelo fervor da sua pregação (de Francisco), havia muitos que se queriam vincular às novas leis da penitência segundo a fórmula idealizada por Francisco. Ele determinou que essa forma de vida recebesse o nome de Ordem dos irmãos da penitência. Ora, como para o Céu não há outro caminho possível senão o da penitência… (LM 4,5). Para Francisco, a penitência é algo dirimente e disjuntivo: ou...ou. Não é possível, de modo nenhum, tratar este tema em profundidade aqui dada a sua especial dimensão na vida de Francisco e seus seguidores ao longo dos séculos, onde se situa o imenso número dos nossos Santos e Beatos.
2º ponto - “… quando eu estava em pecados”
Não podemos esquecer que Francisco está, quando dita estas palavras, a sofrer muito e a sentir a aproximação da morte. Ele recorda o seu passado confessando a sua pobreza espiritual e ressaltando a misericórdia de Deus. Trata-se da confissão do seu itinerário espiritual. Francisco começa o Testamento com uma profunda confissão de «convertido». Vivia afastado de Deus, ou como ele diz «eu estava em pecados» e «saí do mundo». Estas duas expressões constituem os extremos; no centro está a intervenção de Deus “o Senhor me conduziu ao meio deles (dos leprosos)”, o que provoca o movimento irresistível de conversão.
Esta referência ao «estar em pecados» é um tema muito do gosto dos biógrafos, principalmente em Tomás de Celano (cf. I Cel 2). No fundo, o que eles pretendem incutir é a ideia de que Francisco não nasceu santo, mas foi-se fazendo a si mesmo sem pejo de declarar que a sua juventude foi corrompida e corruptora. Celano afirma liminarmente que ele, desde o início da sua vida, viveu-a de uma forma trivial, frívola, vazia. Até praticamente aos seus 25 anos, Francisco vivia obsessionado pelas armas, pela vaidade, pela sensualidade e desejo de glória, consumindo deste modo este período da sua existência. A expressão de Celano é muito esclarecedora. “Eis, pois, este homem a viver no pecado com fogosidade juvenil. Arrastado pelas paixões dos verdes anos, incapaz de se dominar, não tardará em sucumbir ao veneno da antiga serpente” (I Cel 3). Francisco só não caiu em pecado grave simplesmente porque o Senhor o preservou, usando com ele de misericórdia na perspetiva da sua vocação.
No entanto, esta imagem negativa da I de Celano contrasta com uma imagem mais positiva na II de Celano, quando este diz que Francisco recebeu uma profunda influência por parte da Mãe, que levava uma vida virtuosa de tal maneira que influenciou o filho que permanecia afastado de tudo quanto pudesse soar a ofensa contra quem quer que fosse e, à medida que ia crescendo, parecia a todos, pela sua urbanidade, que não provinha da mesma estirpe dos seus pais (2Cel 3). E Celano de alguma maneira vai modelando a pessoa de Francisco como se pode ver no capítulo I da Vida Segunda, aquando da prisão na cadeia de Perusa: “Entre os companheiros de prisão há um cavaleiro particularmente orgulhoso e intratável. Tinham todos decidido ignorá-lo, mas a paciência de Francisco não vacila: suporta o insuportável e reconcilia-o com os companheiros. Ainda não recebera toda a graça de que seria capaz e já ele, vaso eleito de virtudes, transbordava de carismas” (Vida II, nº 4). Mas Celano ao modelar deste jeito a figura de Francisco sabe, todavia, que para haver um convertido tem que haver um pecador. E, logo a seguir, narra a transformação de Francisco diante do crucifixo de S. Damião e a impressão na sua alma do amor pelo Crucificado dizendo: “é-nos lícito supor que, antes mesmo de receber os estigmas em sua carne, já desde esse momento os tenha trazido profundamente impressos no coração” (Vida II, nº 10).
Celano pinta claramente a vida de Francisco com cores muito diferentes na Vida I e na Vida II. Mas estas duas formas têm algo de muito semelhante: trata-se do mesmo santo, mas não do mesmo homem. Até quanto ao pecado de Francisco há uma diferença: na Vida I trata-se de vanglória, enquanto que na Vida II é mais a sensualidade. Mas há uma pergunta que não podemos deixar de formular: qual era o suporte histórico de Celano quando forjou estas duas narrativas?
Na verdade, um jovem filho de pai rico certamente vivia uma juventude alegre, organizava e participava em banquetes (cf. Vida II, nº 7). Pelo que sabemos acerca da vida medieval, nada nos impede de pensar que estes banquetes degenerassem em estupros, adultérios, sodomias e crimes. Mas isso não significa que Francisco tenha participado em qualquer destes vícios e fosse um jovem degenerado. Na verdade, os únicos dados que temos para esclarecer este “quando eu estava em pecados” do Testamento, são os dos biógrafos. Mas, dado que as biografias tinham um carácter didático, nada podemos concluir. Provavelmente o que Francisco quer assinalar é que a sua juventude foi um tempo sem sentido. Por isso, num célebre artigo do Pe. Lázaro Iriarte, este diz que “não se vê claro se a alocução «e ao afastar-me deles», se refere aos leprosos ou aos pecados. No contexto parece mais provável ao segundo. Mas, e assim o leram a maioria dos tradutores, parece deduzir-se que se trata dos leprosos”7.
3º ponto - “… parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos”
Para Francisco, os leprosos são um “lugar teológico”. É neles que Deus se mostra a Francisco como força transformadora. Para Francisco os leprosos dirimem a sua vida nos dois momentos fundamentais da mesma: lº - “quando estava em pecados” e 2º - “o que antes me parecera amargo converteu-se para mim em doçura” (a conversão). O asco e a repugnância que lhe causavam os leprosos é sinónimo de “quando estava em pecados” e quando o Senhor o levou ao meio deles e Francisco usou de misericórdia para com eles a mudança opera a conversão e o “que antes me parecera amargo, converteu-se para mim em doçura de alma e corpo”. Esta viragem é radical e total, o que se costuma chamar de 380 graus. Isto daria para uma reflexão bíblica acerca da teshuvá hebraica (a metánoia grega, a convertio latina), isto é, da nossa verdadeira conversão do coração, de que Francisco de Assis é verdadeiramente um modelo.
A experiência dos leprosos é tão marcante para Francisco que esta “graça de começar a fazer penitência” é algo que ele recomenda ou exige mesmo aos seus companheiros quando a ele se juntam. Foi, portanto, seu claro desejo que os frades servissem os leprosos: “Por isso, desde o princípio da Ordem, quis que os frades vivessem nas leprosarias para servir os doentes e estabelecessem aí o fundamento da santa humildade… dizia-lhes que deviam servir humildemente os leprosos e habitar nas suas casas”8. E enquanto na I Regra proíbe aos frades de pedirem dinheiro para as suas próprias casas, permite-lhes que o façam se for em favor dos leprosos9.
Os biógrafos interpretam geralmente o encontro de Francisco com os leprosos como o primeiro passo da sua conversão. De facto, Tomás de Celano na Vida I diz que ele “transfere-se para uma leprosaria e nela vive com os leprosos, servindo-os em todas as necessidades, por amor de Deus. Lava-lhas os corpos em decomposição e trata-lhes as chagas purulentas, como ele deixou escrito no seu Testamento… Mas eis que um dia um leproso estaca à sua frente. Reprimindo violentamente a náusea, Francisco aproxima-se dele e beija-o”10. Até este momento, ao ver leprosos tapava o nariz com as mãos. Agora, transformado totalmente, beija-lhas as mãos e os lábios. Celano repete este encontro com o leproso na Vida II um pouco mais elaboradamente; a Legenda dos Três Companheiros faz alusão ao mesmo evento e S. Boaventura, na Legenda Maior, narra o mesmo acontecimento11.
Portanto, o encontro com os leprosos constitui o momento-chave da conversão de Francisco, marca a viragem radical na sua vida e acompanha-o até à morte (cf. Testamento). Isto é de tal modo verdade que na Vida I, Tomás de Celano ao descrever os seus últimos dias de vida, recorda-nos estas palavras: “… e embora por se encontrar doente, lhe sobrassem razões para temperar o antigo rigor, dizia: «Irmãos, comecemos a servir o Senhor Deus, porque até agora pouco ou nada fizemos»… Estava disposto, inclusivamente, a colocar-se outra vez ao serviço dos leprosos…12”.
4º ponto - “… E em seguida, passado um pouco de tempo, saí do mundo”
Esta pequena frase é muito profunda e exige grande reflexão. Vemos aqui um processo, isto é, um conjunto de passos e não algo de imediato, fruto de uma euforia passageira, de qualquer sentimentalismo momentâneo. Depois do contacto com os leprosos e “passado um pouco de tempo”, a sua vida muda de rumo. Curiosamente Francisco não nos diz o que fez neste intervalo de tempo nem para onde foi. Mas pelo contexto, podemos intuir que ficou por ali, no que ele chama “no mundo”, de onde brevemente vai sair e abandonar para sempre. Trata-se, portanto, de um tempo de reflexão, de meditação profunda, de discernimento durante o qual começa a sentir uma imensa doçura espiritual que elimina o amargo que sentia anteriormente e o projeta para uma decisão que não admite retorno, pois, já não lhe resta dúvida alguma que é o Senhor que o chama e o atrai como íman irresistível. Aqui torna-se numa nova figura bíblica patriarcal: Abraão, Moisés passaram pelo mesmo. Francisco entra na mesma linha destes Patriarcas do Antigo Testamento e como S. José, o Patriarca do Novo Testamento, Francisco tornou-se um verdadeiro Patriarca da Igreja, como canta a Liturgia das Horas no hino de Vésperas do dia 04 de outubro:
“Patriarca dos pobres, quis tornar-se
de todos o menor”13.
Mas, este “saí do mundo” apresenta alguma dificuldade e necessita de uma certa explanação. Estamos na baixa Idade Média e as expressões “sair do mundo (do século), deixar o mundo, abandonar o mundo”, são expressões que geralmente se referem à vida monástica cenobítica ou eremítica. Aqui o mundo ou o século, é tudo o que está fora dos claustros dos mosteiros daquele tempo e significa entrar na vida religiosa ou vida consagrada. Ora S. Francisco não entrou em nenhum mosteiro antes de ter ido a Roma pedir aprovação do seu projeto. E se entrou depois, não foi por vontade sua nem se sentiu nunca à vontade aí.
Deste modo, “sair do século” ou “abandonar o século”, ou ainda “renunciar ao século”, tanto na Patrística como na hagiografia medieval e até em Tomás de Celano, tem o sentido de entrar na vida consagrada em oposição à vida normal dos cristãos na sociedade e opõe-se a “viver no mundo ou no século” (cf. 1Cel 17). Mas, se desde a alta Idade Média o significado de “abandonar o século” era entrar num mosteiro, com a aparição de outras formas de vida religiosa não monástica, este conceito se altera e passa a abarcar todos quantos cortam com o seu passado para dedicarem toda a vida ao seguimento de Cristo. Aqui se situam os movimentos pauperísticos e os penitentes medievais que, não chegando a ser considerados religiosos dentro de um mosteiro, optaram por uma vida evangélica que, pela sua radicalidade, contrastava com a que viviam as pessoas.
Deste modo, esta frase “saí do mundo” não significa que Francisco entrou num mosteiro beneditino, agostiniano ou outro, e também não quer dizer que entrou numa dessas Ordens dos Penitentes. Mesmo sabendo nós que Francisco fez uma opção claramente penitencial, tal como os seus primeiros companheiros, e que se intitulavam os “Penitentes de Assis”, no entanto, fê-lo a nível pessoal e por convicção sua sem qualquer subordinação a nenhum poder eclesiástico sob tutela episcopal ou outra. Por isso, o sentido que Francisco quis dar no Testamento a esta expressão foi: romper definitivamente com a vida que levava, para se dedicar exclusivamente ao serviço de Deus e ao seguimento de Cristo, segundo a forma do santo Evangelho.
Isto exige por parte dos Frades um conhecimento profundo, pois, se queremos ser imitadores do Santo, temos que conhecer e procurar viver o que ele nos deixou como legado espiritual e que constitui a nossa herança.
II PARTE – Os números 34-41
Introdução
«… a Regra e estas palavras, assim e simplesmente, sem glosa, as deveis entender e com santa diligência até ao fim observar» (Test. n. 39).
Considero agora os números 34-41 do Testamento que constituem, assim me parece, a chave de interpretação de tudo quanto Francisco nos quer transmitir. Ora, tudo quanto nos diz o Testamento do número 4 ao número 34 e que eu omiti, é um enorme acervo de uma importância demasiado grande para ser ocultado, mas acho que nas dimensões desta palestra não tem qualquer possibilidade de ser abordado.
S. Francisco conhecia muito bem os frades que tinha e as tendências existentes na Ordem, as quais podiam interpretar as suas palavras de maneira muito diversa, distorcendo mesmo o sentido que ele tinha em mente. Ora, o tempo encarregou-se de demonstrar exatamente isso, pois, a Ordem não chegou a captar quanto de corretivo e reativo o Testamento tinha para a sua vida. Francisco conheceu por experiência própria como o seu projeto de vida foi objeto de distorções e interpretações. Por isso, agora que se trata da sua última vontade, ele procura traçar os limites interpretativos dentro dos quais se deve reger a respetiva interpretação. Ele tinha plena consciência de que já não podia ordenar nada, pois, se tinha retirado do governo da Fraternidade e já não possuía qualquer poder jurídico sobre ela. Mas a sua estatura moral concedia-lhe autoridade para animar a Fraternidade e a manter fiel ao carisma que lhe outorgou.
A bula “Solet annuere” do Papa Honório III de 29 de novembro de 1223, para a chamada por isso “Regra bulada” que confirma a aprovação verbal de Inocêncio III em 1209, é o marco jurídico que transforma o dado carismático em norma canónica e cristaliza definitivamente o carisma franciscano. Mas ao assegurar a eclesialidade, por outro lado trava a adaptação às circunstâncias que vão surgindo. Por causa da aprovação eclesiástica, a Regra já não podia ser adaptada, o que para muitos frades significava a redução jurídica da forma de vida evangélica querida por S. Francisco.
Como é que a Regra concebida para organizar uma Fraternidade em determinado contexto, pode agora constituir-se em princípio normativo para o futuro? É isto que constitui motivo de angústia tanto para os Ministros como para os intelectuais que apenas olhavam para a vida sob o ângulo restrito da lei. Se Francisco teve que aceitar esta faceta jurídica da Regra mesmo com alguma auto-violência, no entanto não renunciou a interpretar o carisma de acordo com as novas exigências transformando este matiz jurídico numa nova forma de carácter parenético ou exortativo.
Quando Francisco escreve “e não digam os irmãos: «esta é outra Regra»”, é precisamente isso que ele está a querer fazer, isto é, trata-se de uma advertência. Isso mesmo vemos no final da primeira Regra: “… de quanto vai escrito nesta Vida, ninguém nela diminua ou acrescente coisa alguma, e que os irmãos não tenham outra Regra” (I Regra, cap. 24). Não podemos esquecer que houve sempre uma grande pressão para que fossem adotadas outras Regras para a Fraternidade nascente. Francisco, porém, opôs-se sempre à adoção das regras clássicas, defendendo a originalidade da sua e desejando que fosse a única para todos. O que Francisco não queria é que houvesse qualquer confusão e sobretudo que o Testamento não entrasse em competição jurídica com a Regra. Na mente de Francisco, trata-se de uma lembrança, um aviso e uma exortação para que se cumpra melhor a Regra.
Vejamos agora todo o texto dos números 34-41 que espelham o modo típico como Francisco gosta de terminar os seus escritos:
“34 E não digam os irmãos: «Esta é outra Regra»; porque isto é uma recordação, aviso e exortação e o meu Testamento, que eu, o irmão Francisco, pequenino servo vosso, faço para vós, meus irmãos benditos, com este fim: para que mais catolicamente observemos a Regra que ao Senhor prometemos”.
“35 E o Ministro Geral e todos os outros ministros e Custódios, por obediência, nada acrescentem nem diminuam nestas palavras.
36 E tragam sempre este escrito consigo, junto à Regra.
37 E em todos os Capítulos que fazem, quando leem a Regra, leiam também estas palavras.
38 E a todos os meus irmãos, clérigos e leigos, mando por obediência, que não façam glosas na Regra nem nestas palavras, dizendo: assim ou assim se hão de entender:
39 mas como o Senhor me ensinou a dizer e escrever pura e simplesmente a Regra e estas palavras, assim e simplesmente, sem glosa, as deveis entender e com santa diligência até ao fim observar.
40 E todo aquele que estas coisas observar, no céu seja cheio da bênção do Altíssimo Pai celeste e na terra seja cheio da bênção do seu Amado Filho, do Espírito Consolador, de todas as virtudes do céu e de todos os Santos.
41 E eu, o irmão Francisco, pequenino servo vosso, quanto posso vos confirmo dentro e fora esta santíssima bênção. Ámen” (Test 34-41).
Se fizéssemos uma análise segundo a crítica literária bíblica, trata-se de um modo de falar ao jeito dos profetas da Sagrada Escritura, pois, assim Francisco se considerava a si mesmo. Ora, convém não esquecer que durante o século XII abundaram personagens de grande impacto no campo da mística como o abade beneditino cisterciense, Joaquim da Fiore (1135-1202)14, a beneditina Santa Hildegarda de Bingen (1090-1179), ou a também beneditina, discípula de S. Hildegarda, Santa Isabel de Schönau (1129-1165) que foram expoentes deste sentimento geral. Por isso, a insistência de Francisco a fim de que se não altere de nenhum modo quer a Regra quer o Testamento, estão dentro deste ambiente profético. Já na I Regra, Francisco, apoiando-se em Deus omnipotente, manda firmemente e obriga o senhor Papa e a obediência que sobre o escrito ninguém acrescente ou diminua o que quer que seja: “E da parte de Deus todo poderoso, e do senhor Papa, e por obediência, eu o irmão Francisco firmemente mando, e imponho, que, de quanto vai escrito nesta Vida, ninguém nela diminua ou acrescente coisa alguma, e que os irmãos não tenham outra Regra” (I Regra, 24,4).
A ideia do não acrescento ou diminuição do que quer que seja na Regra e no Testamento é algo de que Francisco não abdica a título nenhum. Esta advertência, bem patente na Regra e agora no Testamento, não é de modo nenhum supérflua. Todos sabemos como alguns ministros se opuseram à formulação da Regra. Vale a pena a este propósito consultar o Espelho de Perfeição, logo no início:
“Tendo-se extraviado a segunda Regra redigida por S. Francisco, este, acompanhado de Fr. Leão e de Fr. Bonifácio de Bolonha, subiu a um monte com a finalidade de fazer outra Regra. E mandou-a escrever na forma que Cristo lhe inspirou. Mas, alguns ministros reuniram-se à volta de Fr. Elias, que era Vigário de S. Francisco, e disseram-lhe: «Ouvimos dizer que Fr. Francisco anda a escrever uma nova Regra e nós receamos que ele a faça tão rigorosa que não possamos observá-la. Queremos, pois, que vás ter com ele e lhe digas que recusamos sujeitar-nos a esta nova Regra. Que a faça para ele, não para nós” (EP 1).
Além desta advertência, convém ter presente um outro aspeto muito importante que constitui uma ideia fixa de Francisco que é a sua vontade de que os seus escritos estejam sempre presentes na vida dos irmãos. De modo especial no Testamento pede que ele esteja sempre ao lado da Regra e seja lido contemporaneamente. Noutros escritos, sobretudo nas Cartas, recomenda aos Frades que os guardem consigo e os leiam, os aprendam de cor e os propaguem (cf. 1CF [Fiéis] 87; CCL [Clérigos] 15; CO [a toda a Ordem] 47s; 1CCt [Custódios] 9). Estas determinações de Francisco podem ser interpretadas numa perspetiva bíblica em ligação com as determinações deuteronómicas: “…. Estes mandamentos que hoje te imponho, estarão no teu coração. Repeti-los-ás aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, como ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço e usá-los-ás como filactérias entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre as ombreiras da tua casa e nas tuas portas” (cf. Dt 6, 4-9).
Muitos estudiosos do Franciscanismo veem aqui a última vontade do Santo para manter o carisma a todo o custo e, assim, manda que o Testamento e a Regra estejam sempre juntos. No entanto, outros há que opinam diferentemente, pois, se Francisco queria manter o Testamento junto com a Regra, a razão era para que a vida que ela propõe fosse observada da melhor forma. Essa é também a razão pela qual ele manda por obediência que ninguém acrescente glosas quer à Regra quer ao Testamento. O medo de Francisco era que fosse feita exegese a estes dois documentos por parte dos intelectuais, a fim de justificarem, por meio das suas interpretações, a sua respetiva posição contrária à do Fundador. Não devemos esquecer que neste momento já existiam na Ordem juristas e peritos em leis que seriam capazes de glosar estes textos e favorecer os seus intentos.
Quando Francisco dita o seu Testamento, é sabido que existia já uma grande divisão entre os Frades no que concerne à natureza e missão da Fraternidade. Mas, se quanto à Regra, a Hierarquia da Igreja já tinha fixado canonicamente o carisma de Francisco, é certo que existia sempre a possibilidade de a glosar de acordo com as adaptações necessárias aos seus projetos. Por isso, é perfeitamente compreensível que Francisco quisesse a todo o custo defender a sua visão proibindo toda a glosa, porque considerava a Regra um dom de Deus. Francisco considerava, portanto, que a Regra tal como ele a concebera, era suficiente para realizar o seu projeto, enquanto que os intelectuais a consideravam demasiado condicionante para estruturar a Fraternidade de acordo com as transformações exigidas pelas novas circunstâncias, pelo que se impunha o uso de glosas.
Que a Regra pudesse ser clarificada, certamente Francisco até concordaria. Mas o que ele pretende é evitar o discurso interpretativo jurídico que impeça o seu fiel cumprimento. Para o Fundador, o Testamento tem como objetivo a realização cada vez mais perfeita da forma de vida que os Frades prometeram viver. E não se pense que Francisco exagerava. É necessário que tenhamos em conta o trabalho dos glosadores daqueles tempos e dos problemas que criaram a todos os níveis. Daqui podermos compreender melhor um claro certo exagero que encontramos no Espelho de Perfeição quando diz: “Então S. Francisco voltou o rosto para o céu e falou assim com o Senhor: «Senhor, não te dizia eu que eles não me acreditariam?». Naquele momento, todos ouviram a voz de Cristo, que lhes falava do céu: «Francisco, nada há na Regra que seja teu, mas tudo quanto nela se encontra a Mim pertence; quero que esta Regra seja observada à letra, à letra, à letra, sem glosa, sem glosa, sem glosa». E acrescentou: «Eu sei de quanto é capaz a fragilidade humana e sei também quanto posso ajudar-vos. Aqueles que não quiserem observar a Regra, saiam da Ordem». Então S. Francisco voltou-se para os ministros e disse-lhes: «Ouvistes, Ouvistes? Ou quereis que vo-lo faça repetir?». Os Ministros, reconhecendo a sua culpa, retiraram-se confusos e temerosos” (EP [Espelho de Perfeição] 1). Este desejo de Francisco encontra-se disperso em muitos escritos, tais como: 1R 24, 1-3; CO [Carta a toda a Ordem] 48; CCl [Carta aos Clérigos] 15; 2CF [Carta aos Fiéis, 2ª redação] 86; CM [Carta a um Ministro] 19.
E o Testamento termina com uma grande bênção patriarcal à boa maneira bíblica. É a bênção mais solene de S. Francisco em todos os seus escritos (cf. 1CCt [1ª Carta aos Custódios] 9; CO 49). Fora deste contexto, temos também a bênção a Fr. Leão, também ela toda bíblica já que Francisco a tirou do Livro dos Números (Nm 6,24-27; cf. 2Cel 49). Este modo de Francisco abençoar estava-lhe muito no espírito, de modo que tanto abençoava as pessoas como os animais e até as coisas (cf. 1Cel 58; 63; 108; EP 124). Mas a bênção de S. Francisco no Testamento é de carácter absoluto: abarca o céu e a terra, a interioridade e a exterioridade, é holística:
“E todo aquele que estas coisas observar, no céu seja cheio da bênção do Altíssimo Pai celeste e na terra seja cheio da bênção do seu Amado Filho, do Espírito Consolador, de todas as virtudes do Céu e de todos os Santos. E eu, o irmão Francisco, pequenino servo vosso, quanto posso vos confirmo dentro e fora esta santíssima bênção. Amen” (nn. 40, 41).
É precisamente tal como a bênção de Isaac a Jacob: “Então Isaac, seu pai, disse-lhe: «aproxima-te, meu filho, e dá-me um beijo». Jacob aproximou-se e beijou-o. E, ao sentir a fragrância das suas roupas, Isaac abençoou-o, dizendo: «Sim! O odor do meu filho é como o odor de um campo abençoado pelo Senhor. Que Deus te conceda o orvalho do céu e a fertilidade da terra, trigo e mosto em abundância… maldito seja quem te amaldiçoar e bendito seja quem te abençoar” (cf. Gn 27,27-29).
Convém recordar aqui que a bênção de S. Francisco a frei Leão é igualmente um decalque da bênção que Javé ordenou que fosse dada por Moisés e Aarão ao povo: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça. O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz!” (Nm 6, 24-26).
CONCLUSÃO
O Testamento é um documento de uma importância incalculável e revela o sofrimento interior de Francisco devido a uma situação de todo especial. Ele está a viver um enorme drama e quer orientar a Fraternidade que o venera, mas que já não precisa dele especialmente entre os dirigentes para a sua estruturação dentro da Igreja. Incapaz de governar a Ordem devido à sua doença, nomeou um vigário para que assumisse o peso do governo. A partir desse momento afasta-se dos problemas reais da Fraternidade, mas vai assumindo um matiz cada vez mais reverente. Talvez Francisco não se apercebeu totalmente deste seu afastamento e sentia dentro de si como que a obrigação de dirigir o grupo com a sua visão do carisma. É neste fogo cruzado interior que aparece o Testamento.
O cumprimento da Regra só é possível se se vive o abandono confiado da fé. Manter os irmãos neste ambiente de fé vocacional é o que Francisco pretende com o seu Testamento, o qual é essencialmente uma recordação, um aviso e uma exortação para todos os Irmãos de todos os tempos, portanto, também para nós hoje aqui e agora.
Compilou,
+ Frei Joaquim Ferreira Lopes, OfmCap
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1 Julio Micó, OfmCap, Reflexiones sobre El Testamento de San Francisco, in Selecciones de Franciscanismo, 28 (1981), vol. X, Fasc. I, pp. 3-52. Esta exposição não passa de um decalque, uma tradução deste artigo que vale a pena ser consultado nas nossas casas, pois, resume tudo quanto se tem escrito a propósito.
2Ibidem, p. 3.
3 Fontes Franciscanas, Ed. franciscana, Braga (1982), p. 800.
4 Cf. Julio Micó, OfmCap, Reflexiones sobre El Testamento de San Francisco, in Selecciones de Franciscanismo, 28 (1981), vol. X, Fasc. I, p. 5.
5 Fr. Sebastián López, in San Francisco de Asis, Escritos, Biografías, Documentos de la época, BAC, Madrid (1980), p. 120.
6 Ibidem, p. 121.
7 P. Lázaro Iriarte, La via de la conversión en S. Francisco de Asís, in Sel Fran, nº 11 (1975), p. 182.
8 Cf. Espelho de perfeição, nº 44.
9 Cf. I Regra, 8,8-10.
10 Cf. Celano, Vida I, nº 17.
11 Cf. Celano, Vida II, nº 9; cf. Legenda dos Três Companheiros, nº 11; S. Boaventura, Legenda Maior, nnº 1,6; cf. Vida I, nº 103.
12 Cf. Celano, Vida I, nº 103.
13 Dia 04 de outubro, Solenidade de S. Francisco de Assis, cf. Liturgia das Horas IV, hino de Vésperas.
14 Recordar a influência das ideias de Joaquim da Fiore, sobretudo da Idade do Espírito Santo (os três estádios da História no desenvolvimento do Mundo e da Igreja de Cristo correspondentes às três Pessoas da SS. Trindade: 1ª Idade do Pai (AT), do poder absoluto antes da Encarnação de Jesus Cristo; a 2ª Idade do Filho (NT), a 3ª Idade será o advento do Império do Divino Espírito Santo, tempo novo onde serão alcançados o amor universal e a igualdade entre todos os membros do Corpo Místico de Cristo), muito aceites pelos franciscanos que as levaram para os Açores a partir do início do povoamento (1432) onde ainda hoje se vive a ideia do Império do Espírito Santo (cf. o milenarismo, a apocalíptica joaquimita).
Ligações úteis
» Testamento (São Francisco de Assis)