Testemunhos

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Joana Lopes

testemunho_joana_lopes_320Timor…. Timor… O que poderei eu falar sobre tal país?

Foi sem dúvida uma experiência única que me fez crescer como pessoa, a todos os níveis. Contudo não tenho palavras para a descrever, por mais que tente penso sempre que falta dizer mais qualquer coisa, mais um pormenor, mais uma pessoa, mais uma das suas maravilhosas paisagens, mais um amanhecer…

Antes de ir para Timor tive medo dos escorpiões, das cobras, dos tokis, e de muitos outros bichos que eu nem sabia que existiam. Além disso, tive de receber vacinas contra muitas doenças o que me deixava ainda com mais receio. Timor apesar de ser um país que neste momento está em paz, não nego o meu medo de algum tiroteio ou algo do género. O primeiro impacto que tive não foi muito positivo, Díli ainda tem casas queimadas que nos dá a nós, que nunca estivemos em países assim, aspecto de guerra. Tal aspecto deixou-nos a todos com receio, no entanto foi mesmo só o primeiro contacto.

Posso apenas contar-vos algumas das experiências que mais me tocaram, o dia da Pastoral da Criança onde tivemos o primeiro contacto com as crianças de Laleia, que nos receberam de uma forma muito especial, inicialmente estranharam a nossa cor e o meu aparelho dentário mas depois perceberam que éramos iguais, brincávamos, riamos, fazíamos tudo como eles.

Houve muitas pessoas que me tocaram, como as Irmãs Brasileiras tão dedicadas à Pastoral da Criança que é tão importante para a saúde desta comunidade, a Feliciana tão dedicada ao coral, as miúdas que conheci todas com sonhos diferentes dos meus.

Relembro com muito carinho todas as tardes em que brinquei com as crianças de Laleia perto de casa, o sorriso que transbordam dos seus lábios conquista qualquer coração, aquela alegria faz-nos ganhar energia para cada dia, seja ele cheio de problemas ou não. A mesma alegria e carinho com que éramos recebidos em todas as casas que visitávamos, as famílias ofereciam tudo e do melhor que tinham, quer fosse batata-doce, papaia, bolachas ou café.

O encontro com os deficientes foi, também, muito emocionante, esses meninos entregaram um tais a cada um de nós, cantaram e brincaram connosco.

Outro momento especial foi o dia em que nos despedimos de Laleia onde as crianças dançaram e cantaram para nós, fazendo mesmo uma festa de despedida, e quando nos despedimos de Tibar em que os Postulantes cantaram músicas timorenses que me emocionaram imenso.

O que mais me tocou negativamente foi a falta de higiene dos hospitais, em particular o hospital de Baucau, que tinha baratas no chão, contudo, o hospital de Díli tem condições muito boas.

Quando voltei para Barcelos, a sensação foi muito estranha, já não tínhamos “caminhos de cabras”, nem mosquitos à nossa volta, nem de sacudir a roupa para ver se não tínhamos escorpiões, havia electricidade o dia todo, havia água que não acabava, era tudo muito perfeito, tudo muito fácil, tudo muito seguro. A primeira noite em Portugal foi diferente de todas as outras, quando acordei e senti que não estava a transpirar, que não tinha a rede mosquiteira à minha volta e que estava sozinha no quarto tive uma sensação de perda completa, queria ter feito mais por aquele povo e sentia que não tinha feito nada, sabia que muito provavelmente nunca mais ia ver as pessoas tão fantásticas que lá conheci e por quem me apaixonei. Sabia que a vida deles continuava e a minha também, mas a minha bem mais pobre que a deles. Pobre de carinho, pobre de alegria, pobre de sorrisos, pobre de tanta coisa essencial à vida. Recordo Timor em muitos momentos do meu dia e guardo com carinho todas as pessoas no meu coração.