Testemunhos

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Clara Rosa

clara_rosaUm dia o Frei Hermano Filipe chegou junto dos jovens da comunidade e disse “gostava de levar a Timor 12 jovens desta comunidade”. Uma oportunidade de experiência missionária pareceu a todos uma ideia espectacular.

A vontade era muita, mas os medos também apareceram. Mesmo assim 10 jovens quiseram agarrar esta oportunidade. Foi preciso muita preparação antes de partirmos, foram 5 meses, de preparação que passaram muito rápido.

A necessidade financeira fez-nos trabalhar muito em equipa o que nos obrigou a uma união desde cá.

A vontade de conhecer uma outra cultura, conhecer pessoas diferentes, a vontade de se fazer no terreno algo por outras pessoas era muita. Claro, também as perguntas com que bombardeávamos o Frei a todo o tempo acerca dos irmãos bichos, das pessoas, do seu modo de vida, se entendiam o Português, o estado do tempo, das doenças, da viagem, eram uma constante, a ânsia era grande e o tempo passava rápido.

Chegou a hora de partir e viver os medos e os desejos de perto. Quando lá cheguei tudo começou em mim a mudar, sentia confiança, o receio e a incerteza perderam espaço. O ar que respirava era diferente, as casas eram diferentes, as cidades eram diferentes e as pessoas eram diferentes, e aí é que tudo se torna especial.

No primeiro dia que chegamos a Tíbar, fomos recebidos muito calorosamente pelos jovens estudantes a capuchinhos, fizeram-nos sentir em casa, pertinho de tudo o que conhecemos e nos faz sentir mais seguros e confiantes. Nesse dia, fomos também às irmãs concepcionistas pelo meio do mato e embora não percebêssemos a língua fomos muito bem recebidos, diziam-nos “Olá!” como fossemos de lá, muito bom mesmo.

Quando regressávamos a casa ao passar pelas ruas, o primeiro contacto visual ao cair da noite, foi de espanto, casas diferentes sem tijolos, mas ruas repletas de crianças a brincarem descalças na rua todas juntos e felizes. Aí senti que sim, ainda há crianças sem oportunidades como as dos países desenvolvidos, mas que sim são felizes, e que em grupo partilham o que de melhor têm.

Não são só as crianças que são felizes, todos sorriem contagiosamente para nós “estranhos”, sem pedir mais do que um alegre cumprimento. Ali compreendi que a fé é o que nos dá forças a cada dia que passa e que nos mostra o caminho que havemos de tomar.

É difícil descrever tudo o que sentia a cada momento, porque me sentia sempre bem, feliz e rica de emoções, a cada instante a beleza natural, um gesto, um sorriso mudava tudo.

Momentos que marcaram a minha passagem por lá, foi por exemplo o primeiro encontro de tivemos com a comunidade, o dia da Pastoral da criança. Este dia é um dia dedicado às crianças para pesá-las, vaciná-las, medicá-las, tratar do seu bem estar. Primeiro impacto, eram muitas, senti-me bem ao ver tantas crianças juntas, ao ver que rapidamente nos conseguimos integrar com elas. As mães faziam questão que lhes pegássemos ao colo, mas claro, éramos estranhos, teríamos de conquistá-las com amor, e nisso elas sentem. Este dia é organizado pelo enfermeiro de Laleia, onde estivemos com as irmãs Ana’s e irmã Zélia.

Também as irmãs de Vemasse além do trabalho de formação trabalham com as crianças, dando-lhes um espaço para brincar, educar e nutrir. É espantoso sentir a dedicação destas irmãs aos outros, sentindo a fé que têm e que nos faz acreditar num amanhã melhor. Não apenas em bens materiais, mas num mundo de pessoas boas. Pessoas que falavam a nossa língua e que bem de perto conheciam esta realidade. Explicando-nos modos de vida de cultura e mesmo de fé. Pessoas presentes e dispostas a ajudar reconhecidas com muito carinho pelos Timorenses.

Todos os momentos passavam muito rápido. Quando fomos às montanhas custou ver que há quem viva a km da água, como é possível num mundo desenvolvido haver oportunidades tão dispersas pelo mundo. Famílias que vivem porque se amam, dão valor ao bem que é a vida, são felizes porque se dão aos outros.

Esta experiência de missão, mais que os olhos, abriu-me o coração. Há espaço para todos, e a vida deve ser vivida com pessoas e não sozinhos. Mais que tudo quero sentir que gostam de mim por aquilo que sou e não por aquilo que tenho, pelo que dou e não pelo que posso dar. Que os bens materiais que temos, a cama quente, a casa coberta, a refeição na mesa, o medicamente para a dor, não lhes damos o verdadeiro valor. Quero viver alegre rodeada de pessoas, agradecendo a Deus por tudo aquilo que tenho.

Era bom que todos fossemos verdadeiros irmãos, e que fizéssemos o melhor pelo outro, simplesmente pelo gesto de querer fazer.