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A Formação dos Missionários Leigos

rastreio_de_saude_em_timorO tema dos leigos é um dos assuntos pendentes na Igreja, do qual muito se fala e para o qual há tão poucos espaços onde abordá-lo de forma séria.

O laicado foi considerado durante séculos como algo de "menor", e ao serviço do clero. Uma das principais causas estruturais desta desigualdade na Igreja foi, e ainda é, a formação recebida pelos leigos e clérigos. É de todos sabido que a formação é um elemento libertador de um povo quando se põe ao serviço dos mais pequenos. E que também pode ser um instrumento de opressão para dominar de alguma forma aquele "que não sabe". Isso vê-se claramente nos povos em vias de desenvolvimento, onde a ignorância é uma forma de tirar ao povo a sua capacidade de decisão.

Na história da Igreja, também funcionaram – e funcionam – esse tipo de mecanismos com respeito ao laicado. Como o leigo "não sabe, já que não tem formação", o clero toma a liberdade de assumir todas as responsabilidades e de decidir sobre temas que afectam de modo especial a vida dos leigos (como a família, o trabalho, a economia, etc.).

Até há poucos anos, a missão ad gentes, também era exclusiva de um sector da Igreja: religiosos, sacerdotes e bispos. O despertar da vocação missionária dos leigos na Igreja encontrou dificuldades que nascem do excessivo clericalismo da Igreja Católica. Frente à pretensão clerical de "apropriar-se da missão", o laicado reivindica o seu lugar na tarefa evangelizadora dos povos. Não pretende que esta seja uma concessão dos "tradicionais especialistas da missão Ad Gentes", mas que se reconheça que a sua vocação é um direito/dever que emana directamente da sua própria essência cristã.

Para que estas reivindicações adquiram valor, o leigo missionário está cada vez mais consciente que, se quer que o seu trabalho missionário seja considerado como uma autêntica vocação, como as outras vocações na Igreja, tem que formar-se seriamente. Se o religioso(a) ou sacerdote emprega vários anos da sua vida para se formar de um modo específico para a missão, o leigo não poderá fazer menos e terá que aguentar as pressas e urgências para, mais tarde, poder servir verdadeiramente o povo para onde será enviado.

A maturidade de qualquer grupo de leigos e da sua identidade vocacional dentro do Povo de Deus, dependerá da formação sólida que tenha recebido.

 

OBJECTIVOS DA FORMAÇÃO MISSIONÁRIA LAICAL

A formação não poderá reduzir-se a uma formação académica ou teológica. Ainda que esta seja realmente necessária, como afirma o documento da Comissão Episcopal das Missões sobre "Laicos Misioneros" (1997) ao insistir sobre uma formação em missiologia, antropologia, eclesiologia, metodologia da inculturação, análise do mundo actual, linhas gerais de cooperação, etc... (n. 9.4); mas a formação laical deve contar com uma dinâmica própria onde a experiência de vida é fundamental, e onde uma fé adulta em constante crescimento, em confronto com os outros e com o mundo, é o melhor programa formativo.

Alguns objectivos que não podem faltar em toda a formação de missionários leigos são:

1. Discernimento de uma vocação específica. A formação tem que incluir os elementos e os meios necessários para que um jovem ou um adulto possa fazer um verdadeiro discernimento vocacional. Não basta o querer ou o sentir... É-se missionário porque a Igreja nos envia e por isso a comunidade ou o grupo eclesial a que pertence deverá ter as garantias que o candidato é idóneo e as suas motivações são autênticas. Isto é, que o seu serviço aos outros, será expressão da sua fé em Jesus.

2. Assumir uma identidade própria. A descoberta da vocação especificamente missionária leva o jovem ou o adulto a criar um "estilo" peculiar de viver a sua fé cristã, primeiro aqui e depois no local para onde é enviado. Estas características próprias de uma vocação específica dão-se, geralmente, dentro de um grupo ou comunidade. É o que pouco a pouco se pode ir definindo como o sentido de "pertença a"; não com um sentido exclusivista ou elitista para separar-se dos outros, mas como elemento integrador da pessoa ao identificar-se com os outros. Daí a necessidade de tempo e espaço, e também de um itinerário formativo com conteúdos e motivações que sustenham e favoreçam a vocação enquanto vai criando a sua própria identidade.

3. Aprofundar a fé e vocação missionária laical a nível pessoal e como grupo eclesial. A fé assume características próprias, uma espiritualidade própria, um compromisso cristão próprio, uma maneira singular de estar no mundo, etc... quando dita fé está marcada pela missão ad gentes.

4. Preparação específica em vista da missão recebida. A nível nacional [Espanha], contamos com a prestigiada escola de missiologia que actualmente está implantada no Instituto São Pio X, que oferece uma teologia da missão actual e critérios adequados para abordar a questão religiosa no contexto da missão ad gentes. Mas cada missão tem as suas próprias características (língua, cultura, história do país, presença eclesial, detalhes do projecto, estilo de vida, etc...) que deverão estar bem trabalhadas se queremos viver a missão desde o outro e não desde os nossos próprios esquemas mentais e culturais.

5. Formação permanente e contínua. Somos seres em contínuo crescimento, em constante formação, e temos de estar atentos para garantir tal formação quer no local da missão quer depois do regresso. Há aqui muitas vezes uma grande lacuna para os que regressam da missão e não encontram espaços eclesiais e conteúdos vitais adequados à sua realidade.

 

UMA DINÂMICA FORMATIVA

Já dissemos que a formação dos leigos missionários tem que ter uma dinâmica própria adaptada à sua realidade; no entanto, haverá que salvaguardar que em todas as situações se trate de uma "formação integral, tanto espiritual e moral como científica e técnica" (LM 9.1). Esta dinâmica, está marcada pelos ritmos próprios do leigo: casado ou solteiro, com ou sem filhos, o tipo de contrato laboral, se o tiver, etc...

Dito processo formativo tem de ser longo (actualmente "de 1 a 5 anos, ainda que a maioria das entidades o situem acima de dois anos e compreende quase sempre períodos de convivência em grupo ou comunidade como preparação mais directa para a vida em missão" LM 9.3); e progressivo.

Para que a formação tenha solidez e produza unidade interior – não uniformidade – haverá que respeitar os ritmos do itinerário de cada um, no entanto, de qualquer modo, teremos de falar de:

a) formação remota: não ocasional nem apenas em função da saída para a missão.

b) formação contínua: global, com momentos de programação, de confronto, cursos, etc. E tudo isto avaliado.

c) formação projectada: já que o leigo enviado é a expressão da Igreja local que o envia.

A missão é uma realidade complexa e dinâmica (EN, 17) onde há que conjugar muitos aspectos tais como o anúncio explícito, a libertação integral, o diálogo inter-religioso, etc., por isso, a formação deverá respeitar as diferentes formas de evangelizar que cada um poderá encontrar no local onde vai actuar.

Não é o mesmo um projecto de cunho pastoral-paroquial onde predomina o anúncio, que outro de cunho social onde haverá um marcado acento de denúncia, ou um projecto mais estritamente laboral onde jogará um papel importante o testemunho pessoal, às vezes num contexto totalmente extra-eclesial.

Alguns marcos importantes desta dinâmica formativa:

• Desde um projecto de vida: onde se ajude o candidato a orientar plenamente a sua vida à volta do fim missionário que persegue e pelo qual optou. Em dito projecto tem de estar plasmada uma intensa vida de fé e oração.
Dita fé, tem a sua expressão num compromisso pastoral concreto. Ainda que possa, por vezes, coincidir com a sua área laboral, este compromisso terá sempre uma programação e uma avaliação. Dentro do compromisso, irá incluir a animação missionária da igreja local onde nasceu a sua fé, que é quem a envia. Nesse projecto ter-se-á em conta a sua atitude frente ao dinheiro, as relações interpessoais, etc... A sua vida ao serviço do Evangelho e da missão fica marcada desde o início da sua opção vocacional.

• Desde uma comunidade ou um grupo eclesial de referência, onde pode viver o espírito missionário. A comunidade é o lugar formativo por excelência; é o lugar da programação, de confronto da própria realidade, de verificação e também de crescimento. Esse encontro comunitário não pode ser esporádico. Ao menos semanalmente, têm de encontrar tempo para estar juntos, reflectir, orar, partilhar a vida e a fé... e de vez em quando celebrar essa fé. A comunidade não é apenas um refúgio afectivo, mas também um lugar de confronto, de correcção fraterna, de avaliação e, decididamente, de crescimento pessoal.

• Com um acompanhamento personalizado e em grupo. Isto segundo diferentes modelos: acompanhamento psicológico (por um especialista), religioso (caminho espiritual), familiar... Esta dinâmica é insubstituível em todo o processo formativo. Estamos conscientes de que não é fácil encontrar pessoas que acompanhem processos formativos, e ainda menos de leigos, mas este aspecto formativo é imprescindível para a verificação e crescimento vocacional.

• Com uma avaliação das etapas. É importante que o processo seja gradual e progressivo e é também importante que haja uma verificação ou avaliação no final de cada etapa. Esta avaliação deveria ser feita: por um lado pelo próprio candidato, por outro lado pela comunidade que o acompanha, e em terceiro lugar pelo orientador que faz o acompanhamento personalizado. As experiências não avaliadas correm o risco de se tornarem estéreis.

Estes marcos formativos não são apenas para o tempo de preparação e formação em Espanha, mas também para a estadia em terras de missão e depois para o difícil e tantas vezes doloroso período do regresso e reinserção numa nova realidade que nem sempre os acolhe de braços abertos.

 

FORMAÇÃO INTEGRAL

Todos sabemos que hoje, mais do que nunca, não basta ser-se bom para levar a cabo a actividade missionária. Num mundo cada vez mais complexo, é necessária uma sólida formação humana, profissional e cristã.

 

I – Pautas para a maturidade humana

Exige-se ao candidato a missionário – religioso, sacerdote ou leigo – uma maturidade humana a toda a prova, pois a sua opção de vida o irá levar a lugares e situações onde será muitas vezes colocada à prova a sua estrutura pessoal e o seu psiquismo, e onde as decisões que precisar de tomar exigirão uma personalidade saudável e forte. É por isso que se exige uma boa saúde, tanto física como psíquica, para poder sobreviver com normalidade em situações adversas, sem que a pessoa se vá abaixo.

Se é fácil detectar quando se é saudável a nível físico, já o é menos quando se trata da saúde psicológica; o documento da Conferência Episcopal [espanhola] sobre os Missionários Leigos fala da maturidade psico-afectiva "entendida como equilíbrio da pessoa e como vivência da própria sexualidade no estado civil em que se encontre (solteiro ou casado), a capacidade de adaptação, de iniciativa e de trabalho em equipa, o espírito positivo, sereno e alegre diante das dificuldades e problemas, disposição para aprender, capacidade de diálogo, de valorização dos demais e de sacrifício, etc. É preciso insistir, no caso do envio de famílias missionárias, na necessidade do equilíbrio emocional dos esposos entre si e com os filhos na vida familiar" (LM 8.2).

A missão nunca pode ser a fuga de uma realidade pessoal: laboral, familiar, afectiva... Os pobres não podem ser objecto da experimentação das nossas próprias necessidades de bem-estar. Neste sentido, não há que recusar a contribuição das ciências humanas e são já vários os grupos laicais que utilizam ditas técnicas, com especialistas qualificados, para a selecção e verificação das motivações dos candidatos. Não obstante, qualquer dinâmica comunitária é também relevante para nos ajudar neste aspecto.

Sublinhamos agora algumas das atitudes que nos parecem fundamentais para todo o candidato que queira optar pela vida missionária laical:

a) A capacidade de diálogo e abertura aos outros. É a atitude interior da mente e do coração pela qual se comunica com clareza e transparência, para assim chegar a ser pessoas autênticas. A isto se acresce a disponibilidade a deixar-se orientar e acompanhar; capacidade de diálogo, e aptidão para uma convivência e colaboração com pessoas de carácter, fé, cultura e nacionalidade diferentes.

b) O trabalho em equipa e o confronto com um grupo são elementos pedagógicos insubstituíveis para evitar individualismos exagerados. Cada vez mais, a missão é o resultado de um viver e trabalhar em comum. É a comunidade a que evangeliza.

c) A capacidade de assumir responsabilidades e tomar as rédeas da sua vida e das suas decisões. Neste sentido, verifica-se também a capacidade de ter iniciativa para poder dar uma resposta pessoal aos diversos desafios que se encontram na missão.

d) A necessidade de enfrentar situações desconhecidas e às vezes conflituosas. Com o qual se exige uma certa segurança e auto-estima radical para enfrentar ditas situações.

e) A superação de todo o etnocentrismo cultural, religioso, linguístico..., e a radical abertura à fraternidade universal. É todo o esforço de inculturação e o respeito e valorização das pessoas e do meio circundante com um olhar positivo mas realista do povo que se vai servir.

f) Um realismo saudável. É quase inevitável a idealização que fazemos sempre do pobre e do seu contexto, da Igreja ou da teologia dos pobres..., e quando essa idealização toca a realidade obscura da pobreza e do pecado, o risco é o do desânimo e de atirar a toalha. A atitude do crente é optar por essa realidade, justamente quando melhor conhece as suas luzes e sombras.

g) Aceitação da frustração e do fracasso. E isto como componente humano, mas também religioso; assumir a parte do fracasso que nos corresponde e ainda mais aos que mais arriscam.

h) Sem criar dependências, nem paternalismos, nem protagonismos. Ter a capacidade de respeitar a liberdade das pessoas que se vai servir e não utilizá-las para alimentar os nossos afectos esfomeados de êxito ou de reconhecimento.

 

II – Pautas para a maturidade cristã

Quando falamos da identidade cristã do leigo, há um debate aberto que suscita muitas polémicas. A identidade do leigo está no facto do seguimento de Jesus de Nazaré e não tanto no profissionalismo ou na inserção em realidades do mundo como se as outras vocações não laicais estivessem à margem do trabalho profissional ou das realidades temporais.

O seguimento de Cristo traduz-se num encontro pessoal e libertador e num compromisso concreto. Algumas das atitudes desse seguimento são: o encontro pessoal com Cristo, a oração pessoal e comunitária, a escuta da Palavra de Deus, a prática sacramental, a leitura crente da realidade, a caridade em todas as suas formas..., em resumo, o viver a partir de um projecto de vida cristã. Isto, que é comum para todos os baptizados, assume contornos específicos quando se trata de formar uma vocação na maturidade cristã. Destacamos alguns aspectos particulares:

a) Desde a centralidade da missão. A missão não é somente escolha ou opção, mas dom de Deus para o seu povo. A missão não é nossa nem do grupo que nos envia, é da Trindade, e no centro da missão está o Espírito do Senhor ressuscitado a quem obedecem com a mesma dignidade e com ministérios diversos tanto os leigos como os ministros consagrados. Ter clara consciência desta centralidade da missão evitará muitos problemas frente à possível tentação de apropriação, de rivalidade de grupos ou de frustração diante da escassez de resultados depois do trabalho realizado.

b) Atitudes ascéticas da tradição cristã, tais como a renúncia, a mortificação, o sacrifício...; algo que está totalmente em desuso na nossa cultura de bem-estar e que serão fundamentais na hora de integrar a dor, o sacrifício e a frustração que acompanha a missão na dinâmica vital e na dinâmica de fé. Sem esta atitude radical de servir e não de ser servido, será impossível abordar a missão desde a gratuidade de um Deus que se oferece a si mesmo ao mundo.

c) Atitudes específicas de uma espiritualidade laical e missionária. Pelo facto de ser leigo é-se transmissor de uma nova identidade através do quotidiano, a simplicidade de vida, o trabalho manual ou profissional, a família, os filhos, as relações interpessoais...; mas também do facto de ser missionário se depreendem uma série de características próprias que geram uma espiritualidade particular de provisoriedade, de meios simples e pobres, de itinerância e êxodo, de inserção nas situações de fronteira, de periferia, de escuta, desde baixo...
Uma espiritualidade pascal de morte e ressurreição que seja a alegria e esperança do povo.

d) Sentido eclesial. O Vaticano II insistiu que a Igreja é Povo de Deus e comunhão; enquanto propõe uma Igreja que existe para o mundo. Isto, que a nível teórico está presente nas aulas de teologia há mais de 30 anos, está muito longe de ser realidade; e aqui o leigo, e de modo particular o missionário leigo, pode contribuir de uma maneira especial para apresentar outro rosto da Igreja, mais de acordo com o Espírito. Uma imagem nova da Igreja aqui e lá. Uma Igreja ministerial onde todos participem (tanto na programação como na decisão e avaliação) desde a sua própria vocação.
O leigo, que atingiu a "maioridade", é criador de um novo rosto de Igreja, onde as relações fraternas são o essencial, muito além das relações de dependência "pai-filho", "acima-abaixo". Relações de co-responsabilidade e participação e daí a inserção numa equipa pastoral.
Este rosto novo de ser Igreja não se pode improvisar e por isso esse modo de ser Igreja activa terá que viver-se já desde aqui; para isso propomos:

• É necessário que haja um compromisso claro a nível eclesial. O que não quer dizer que dito compromisso seja necessariamente infra-eclesial ou paroquial. Pela sua própria vocação, o missionário leigo está chamado a fazer-se presente de maneira particular naquelas realidades afastadas e que precisam de ser evangelizadas (imigrantes, sectores marginalizados, grupos de pressão social, etc.). A missão ad gentes começa no aqui do nosso compromisso cristão ao abrir-se a novas dimensões culturais das nossas sociedades.

• O candidato a missionário tem de ter um forte sentimento de pertença a essa Igreja onde cresceu a sua fé e que mais tarde o enviará. Para isso sugerimos:

o que seja conhecido e reconhecido como candidato a missionário leigo por uma comunidade cristã, mesmo no caso de pertencer a um grupo, congregação ou instituição missionária.
o que tenha uma participação activa na vida da comunidade: liturgia, evangelização...
o que o envio se faça desde a sua comunidade e que dito envio seja ratificado oficial e publicamente pelo seu bispo ou pelas estruturas diocesanas.
o que haja uma implicação séria das estruturas diocesanas para que estes leigos possam sentir-se enviados, evangelizadores. Esta implicação não pode ser virtual, mas que toque o plano material e económico (seguro médico, viagens, segurança social...), como o plano mais pessoal (acolhimento e reinserção no regresso, contacto durante a estadia, enriquecimento da comunidade que o enviou com a experiência do que regressa...).

• Por seu lado, o leigo enviado compromete-se a viver a missão neste sentido eclesial e ao serviço de uma igreja particular com suas luzes e sombras. Evitando assim toda a atitude individualista ou de franco-atiradores que vão sós. O missionário leigo insere-se dentro do projecto diocesano e paroquial e como tal é reconhecido pelos outros agentes de evangelização.

É necessário cultivar e trabalhar este sentido eclesial ao longo das etapas formativas para que, respeitando toda a atitude crítica construtiva, se evitem atitudes de ruptura ou agressividade constantes que gerem divisão e o possível escândalo das pessoas que se foi servir.
Só a pessoa que aceita a sua própria realidade de pecado e de miséria, mostra essa fé madura que o capacita para ser com outros Igreja; porque sabe que a graça de Deus actua na realidade corrompida pelo pecado para lhe outorgar a salvação.

 

III – Pautas para a maturidade vocacional missionária

No trabalho formativo, dever-se-á ir trabalhando o facto de que a missão não pode ser considerada como mais uma experiência, mas que radica no chamamento de Deus para trabalhar na sua Missão ao serviço dos mais pequenos e entregando a própria vida. Quando o candidato tem bem assente o princípio vocacional do seu querer partir em missão, é mais fácil que tudo aconteça com normalidade.

Isto supõe conceber a vocação como um autêntico dom de Deus que nasce do encontro pessoal com Jesus Cristo e que convida a pessoa a iniciar um caminho de itinerância: seguir Cristo junto dos mais desfavorecidos da terra. Deste modo, o indivíduo adquire uma identidade nova de discípulo e apóstolo.

Não obstante, há um debate aberto sobre a consistência de dita vocação: por uns anos ou ad vitam [por uns anos ou por toda a vida]? Creio que superados já os velhos esquemas geográficos da missão, a vocação missionária laical é uma vocação que deve ser entendida no contexto de uma opção de vida, não algo esporádico ou pontual, mas uma opção vital. O facto de que a sua estadia se reduza a três ou seis anos (menos de três anos não é aconselhável), não quer dizer que os esquemas pelos quais se decide não sejam esquemas fundamentais e vitais, que tocam o mais essencial de cada pessoa..., e que logo o candidato continuará a viver desde a sua nova realidade no regresso a Espanha, mas sempre pronto para voltar a partir.

Mas a vocação especificamente missionária carrega também consigo características próprias onde o sair é a palavra-chave. Sair para junto do irmão abandonado e para aquelas realidades ou povos que ainda não foram evangelizados.

A própria opção de vida, surgida depois do encontro radical com Jesus Cristo, leva a comunicar a sua fé aos demais. Esta fé, como já dissemos, deverá traduzir-se num compromisso concreto em que há que medir a capacidade para transmitir a Mensagem dentro de um contexto eclesial (LM 8.2), porque não se trata de uma aventura individual e auto-normativa.

Alguns aspectos desta maturidade vocacional são:

a) Desde a própria identidade laical. Partindo de uma sã eclesiologia, o candidato tem de ter clara a sua identidade laical para não se esfumar num clericalismo supletivo devido à falta de sacerdotes. Está claro que a identidade laical não pode definir-se desde a oposição ao clero, e inclusive ao voluntariado. Não é em oposição ao outro que se encontra a própria identidade; mas a própria fisionomia a encontra em colaboração e complementaridade com os outros ministérios dentro da Igreja.
Creio que tampouco valem os estereótipos de que o leigo se encarrega do temporal e o religioso ou sacerdote mais do espiritual. Um leigo está chamado a iluminar com a sua vida e o seu testemunho as realidades sociais, mas pode fazer um anúncio catequético explícito sem com isso negar ou atraiçoar a sua própria identidade laical. O que é importante é que se viva a própria vocação desde essa Igreja de ministérios onde há complementaridade e assim ser rosto dessa nova fraternidade universal, começando em primeiro lugar pela própria Igreja.
Neste sentido voltamos a insistir na importância, desde as etapas formativas, de se trabalhar em equipa: sacerdotes, religiosos e leigos. Que estes últimos participem também nos processos de decisão em vista a trabalhar-se desde logo de um modo mais claro nas equipas pastorais que se encontrará em missão.

b) Desde a comunidade. Sabendo que o leigo geralmente participa já dessa primeira comunidade que é a família e que está na essência da sua identidade laical. O seu testemunho vem muitas vezes da sua relação com a sua esposa, com os seus filhos. O compromisso missionário nunca é individual, mas comunitário e eclesial (EN, 60), daí a estreita comunicação com uma comunidade de origem, e a pertença a outra comunidade de destino entre as quais se estabelece uma intercomunicação de bens nesse dar e receber.
Esta comunhão que surge entre as igrejas é consequência do reconhecimento dos dons que Deus dá às outras igrejas e que nos enriquecem a nós, pois o que recebe ao mesmo tempo oferece e nos evangeliza (cf. La misión ad gentes y la Iglesia en Espana, CEM, Madrid, 2001).

c) Diferentes modelos de intervenção laical em missão. Os modelos podem ser variados segundo as características de cada missão. No meu contacto com a experiência missionária dos leigos, encontrei vários modelos:

• Modelo pastoral: onde o anúncio explícito do Evangelho se mistura com actividades de desenvolvimento dependentes da missão.

• Modelo assistencial: onde se faz um trabalho de apoio crítico ao povo, às vezes substituindo os estados. Acontece em situações de emergência e não podem durar muito tempo.

• Modelo social: onde há uma clara implicação com outros organismos não eclesiais com os quais se trabalha normalmente fora dos parâmetros eclesiais.

• Modelo laboral: onde se está ao serviço de uma estrutura estatal ou de outro organismo.

Não obstante a variedade de modelos de intervenção laical, creio que na formação há uma série de elementos que são comuns a todos e que não são opcionais:

o Fazer com que os pobres passem de destinatários e receptores a protagonistas do próprio desenvolvimento: "ser missionário é ajudar o homem a ser artífice da sua própria promoção e salvação" (Discurso de João Paulo II em Javier).
o Utilizar meios simples e facilmente manejáveis de modo que o povo não tenha dificuldade em apreender as mudanças (Cf. Desenvolvimento sustentável).
o Respeitar ao máximo o trabalho realizado pelos que o precederam e que os projectos de missão tenham continuidade até se alcançar os objectivos perseguidos. Para isso, é importante que não dependam exclusivamente da pessoa que os dirige.
o Aceitar o ritmo do povo que, normalmente, é mais lento do que se esperava. E evitar sempre a aceleração de processos pela força. Aceitar o ritmo do povo quer dizer ter a mesma atitude do pastor que umas vezes sabe guiar o rebanho colocando-se à frente, outras o fará desde dentro e a maior parte das vezes terá de ir atrás, animando e estimulando os últimos.
o Evitar na tarefa evangelizadora toda a privatização ou individualismo aceitando que isto é tarefa de equipa e passa pelo consenso da equipa.
o Inserir-se em planos mais globais tais como os paroquiais, diocesanos, organizativos, etc.

d) Sobre a formação profissional. Como dissemos acima, a profissão não pode estar no centro da vocação missionária laical; o centro de dita vocação é a fé que emana do encontro com Jesus Cristo e produz o seguimento. Não obstante, todos estamos conscientes de que a profissão tem um papel importante na vocação do leigo. Toda a profissão tem o seu lugar, pois o que é essencial é a dimensão evangelizadora. Algumas observações:

• A vocação missionária não pode ser o âmbito da exclusiva realização profissional do leigo. Uma vez mais, seria a utilização do pobre para os nossos próprios fins pessoais. Como missionário, deve colocar em primeiro lugar a disponibilidade e serviço a esse povo. O que o povo me está a pedir é mais importante do que o que eu venho oferecer.

• Nisto das profissões haverá que ter cuidado para não se cair numa hierarquia elitista de profissões. Claro que quem solicita pessoal para a missão procura o melhor para o povo, mas é tão missionário o cirurgião que opera todo o dia, como a sua mulher que faz um trabalho mais escondido de promoção das mulheres.

• Na maioria dos grupos laicais que se preparam para a missão, a profissão não é objecto da formação, se bem que há grupos e comunidades que escolhem profissões depois de um discernimento em vistas à missão a realizar. Quando se sabe qual a missão a realizar, aí haverá que reorientar a própria profissão à realidade que se vai viver.

• É muito importante que o processo de inculturação seja levado a sério se se quer servir de verdade o povo. Dito processo, tem aqui uma preparação remota: língua, história do país, geografia, situação sócio-política, económica, religiosa, cultural, necessidades concretas da missão ou do projecto..., mas dito processo de inculturação continuará lá, com um bom tempo dedicado à aprendizagem das línguas locais, a cultura, a sociedade... Não se pode ir e no dia seguinte começar um processo de intervenção directa. O respeito pela cultura e pelas pessoas que vamos servir exigem de nós este esforço lento e custoso de olhar a realidade a partir da mesma posição que elas.

 

DESAFIOS NO TRABALHO DE FORMAÇÃO DOS MISSIONÁRIOS LEIGOS

Nestas questões da formação, e mais ainda dos leigos, há um longo caminho a percorrer e cada grupo tenta fazer o melhor que pode, conscientes dos desafios e dificuldades que uma tal formação comporta.

a) A sugestão que a Comissão Episcopal das Missões faz no seu documento "La Misión ad gentes y la Iglesia en España" sobre a constituição do Conselho Nacional das Missões, parece-me pertinente neste sentido: "O Conselho Nacional das Missões tem a dupla missão de ajudar a programar, dirigir e rever as principais actividades de cooperação a nível nacional, e de coordenar o trabalho e as iniciativas das diferentes instituições missionárias". Entre estas tarefas, o documento destaca fazer-se uma profunda reflexão sobre a teologia da missão, fortalecer as instituições de formação, de reflexão e de publicações, para alimentar e renovar o pensamento missionário e a responsabilidade missionária da Igreja; acompanhar, orientar e discernir os diversos organismos de solidariedade e desenvolvimento, preparar as bases e avançar com a criação de um Centro de Animação, Cooperação e Formação missionária:

• "Formar animadores missionários, para que realizem eficazmente as tarefas de animação,
• preparar os futuros missionários, cuidando da sua formação espiritual, humana, teológica e cultural,
• apoiar a formação permanente e ocasional dos missionários mediante cursos organizados para eles,
• favorecer o intercâmbio de experiências pastorais e de reflexões teológicas provenientes de distintos âmbitos missionários,
• ajudar na reinserção dos missionários na sua Igreja de origem, depois do regresso da missão,
• fomentar e aprofundar a espiritualidade missionária,
• convocar e preparar a celebração de um Congresso Nacional Missionário que ajude a Igreja espanhola na sua responsabilidade missionária ad intra e ad extra (cap. III. 8)".

b) O mesmo documento, alegra-se com a presença dos leigos na missão ad gentes e compromete-se a:

• Colaborar com as dioceses para uma boa formação e promoção da vocação laical,
• prover à formação integral dos leigos que se preparam para a missão ad gentes,
• procurar soluções para os problemas sociais, económicos...
• actualizar a informação sobre todos os grupos e associações de leigos,
• favorecer o intercâmbio de experiências missionárias no que concerne à formação e ao exercício da vocação missionária dos leigos através da Coordenadora nacional de associações de missionários leigos.

c) Um desafio é que os formadores continuam a ser muitas vezes os clérigos, e os leigos teriam de ir assumindo cada vez mais as responsabilidades de formação: "é conveniente que o envio se faça através de associações públicas de missionários leigos em que os leigos, maduros e experientes, conhecedores da sua problemática específica e da vida da missão, se encarreguem da selecção, formação e acompanhamento das novas vocações que surjam..." (LM 7.3). Para isso, haverá que apostar na formação de formadores leigos.

d) Parece-me que a opção pela "comunidade formativa laical", sobretudo para etapas avançadas, pode ser uma fórmula mais adaptada às necessidades do leigo: viver a sua fé e a sua vocação a partir da realidade quotidiana, conviver na diferença e na responsabilidade, respeito e complementaridade do carisma dos outros...

 

Granada, Novembro de 2001

 

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Jesús Ruiz Molina é missionário Comboniano, coordenador do projecto de Leigos Missionários Combonianos.

Artigo originalmente publicado em: Misiones extranjeras, n. 187, Enero-Febrero 2002, pp. 29-42.

Traduzido do espanhol por: Hermano Filipe, OFMCap, em 11 de Abril de 2010.