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A Missão dos Leigos no Mundo de Hoje (JMN 2007)

juan_ambrosio_a_missao_dos_leigos_no_mundo_de_hojeQuando encaramos a participação e colaboração dos leigos e leigas na Missão da Igreja [...], não se trata de ‘preencher os locais deixados vagos por falta de sacerdotes ou irmãos consagrados’; nem de criar simples ajudantes como peça de recurso perante a diversidade de funções a cumprir. Os leigos não são nem o pneu suplente... nem a solução para a crise de vocações consagradas. São parceiros na realização da vocação missionária da Igreja e no despertar das consciências e comunidades para a Missão[1]

Antes de entrar propriamente na reflexão que me foi pedida, permitam-me que faça referência a três pressupostos. Com eles pretendo fundamentar aquilo que tenho para partilhar convosco. Apresento-os a modo de «telegrama» para não tornar demasiado longa a minha intervenção.

 

1. Pressupostos para uma Reflexão

 

1.1. Jesus Cristo fonte e raiz da identidade e da missão cristã

  • Para entender um pouco melhor quem é Jesus Cristo temos de entender a sua dupla fidelidade: a Deus e ao ser humano.
  • A fidelidade a Deus fica bem expressa naquilo que podemos chamar a relação Abbatica. Jesus descobre-se, conhece-se, vive-se a partir da sua relação com o Pai. Ele não tem uma relação com o Pai, Ele é essa relação, é a partir dessa relação.
  • Mas simultaneamente a sua identidade exige a relação com a humanidade. É enquanto homem (o homem Jesus) que faz a experiência da relação Abbática. Porque também se descobre, experimenta e vive a partir da condição humana, pode claramente ‘entender’ e perceber em que é que ela consiste. Esta fidelidade é de tal maneira constitutiva do seu ser que podemos dizer que o mistério de Deus em Jesus Cristo se revela na sua humanidade. Dizer assim parece evidente, mas ao aprofundarmos esta realidade as coisas tornam-se muito mais exigentes. A fé cristã proclama que em Jesus Cristo, humanidade e divindade estão indissoluvelmente unidas. Isto quer dizer que a divindade não é uma realidade que está «junto a», «por cima de» e muito menos à «custa de». A divindade de Jesus Cristo faz-se presente, revela-se e acontece na sua humanidade histórica[2]. “Deus escreve e escreve-se com traço humano”, é este o sugestivo título de um livro onde se faz uma reflexão sobre os fundamentos da cristologia[3].
  • É muito interessante a este respeito o que nos diz Xabier Pikaza ao reflectir acerca da identidade e da consciência de Jesus. Para ele Jesus encontra-se consigo mesmo, como indivíduo pessoal, a partir da sua relação com Deus (teoconsciência) e desde e para a sua relação com os seres humanos (antropoconsciência). Na verdade, é só a partir destes dois momentos que se pode verdadeiramente falar da consciência que Jesus teve de si mesmo, ou seja, da sua auto-consciência[4].

Neste sentido Pikaza fala em:

  • Consciência de profundidade ou teoconsciência. Ele conhece-se e encontra-se a si mesmo a partir da sua relação com Deus a quem concebe não como uma ideia filosófica, ou um postulado moral, mas como o fundamento do seu ser. Pai/Mãe que lhe diz tu, tornando-o pessoa, amor fundante, vontade que o impulsiona, futuro que o acolhe;
  • Consciência de reciprocidade. O ser humano conhece-se a si mesmo a partir de, com e para os outros. Também isto é verdade para Jesus. Com eles e para eles Jesus realiza a sua existência.
  • Auto-consciência. A partir de Deus e para Deus, a partir dos seres humanos e para eles, Jesus pode conhecer-se e realizar-se de maneira pessoal. É a partir destes dois centros anteriores (Deus e os seres humanos) que Jesus emerge como pessoa.

Na verdade, só podemos entender verdadeiramente quem é Jesus Cristo a partir desta dupla relação que simultaneamente constitui uma dupla fidelidade. É a partir da sua fidelidade e relação com Deus e com os seres humanos que Jesus se entende e se vive.

  • Partilhando a condição divina e a condição humana pode viver e agir de uma determinada maneira. Ele vive e age assim, porque Deus é assim. Ele vive e age assim, porque o ser humano é assim. Porque conhece e é íntimo de Deus (Ele é verdadeiramente Deus) e porque conhece e é íntimo do ser humano (Ele é verdadeiramente humano), é capaz de perceber e concretizar o ser de Deus para o homem e o ser do homem para Deus. Nisso consiste a sua pró-existência. Ser totalmente para Deus, ser totalmente para o ser humano.
  • Nele ser e missão coincidem. Jesus não age assim porque tem uma missão especial. Jesus age assim, porque é assim. A sua missão é a consequência do seu ser. O seu ser é a concretização da sua missão.
  • O ser e a missão de Jesus Cristo tornam-se mais compreensíveis no seu anúncio do Reino de Deus. Porque Ele é o que é, sente-se e sabe-se enviado a concretizar o Reino de Deus.
  • E por Reino podemos entender:
  • Não simplesmente a dignidade que é devida ao Rei (realeza). A obediência, a reverência e todas as outras atitudes e organização social que devem configurar uma relação com o rei;
  • Não o local, num determinado espaço e tempo (reino) onde se configure uma sociedade concreta com os contornos precisos de um reino.
  • Mas uma relação existencial onde Deus reine, onde a relação com Deus possa ser verdadeiramente o critério a partir do qual construo o meu existir (reinado).
  • Esse é o testemunho de Jesus Cristo. Nele Deus reinava verdadeiramente.
  • E quando Jesus Cristo vem propor o Reino o que quer dizer é que Deus quer ser Deus (Pai) para toda a gente. O Reino é uma proposta universal e inclusiva. Deus quer ser para todos sem excepção. Deus quer a realização e felicidade e todo o ser humano. Por isso Jesus comeu com os pecadores, por isso aceitou a hospitalidade de certas pessoas, por isso fez milagres, por isso curou doentes, por isso ‘trabalhou’ ao sábado, por isso se posicionou perante o templo, por isso foi independente perante todos os poderes e grupos, por isso denunciou a injustiça, por isso lutou contra o pecado, por isso...
  • Fez tudo isto para anunciar o Reino para todos. O Reino é para todos aqueles que o queiram aceitar. Por isso morreu e viveu Jesus.
  • A partir daqui podemos perceber que o caminho a percorrer é o da própria experiência de Jesus.

 

 

1.2. A condição e vocação laical

  • Antes de começar a pensar no específico da vocação laical e da missão laical na Igreja, é necessário sublinhar fortemente a profunda unidade (não simplesmente sociológica, mas teológica e sacramental) da condição cristã, comum a todos os baptizados: a unidade de identidade de missão confiada a todos os discípulos de Cristo, sem excepção nem distinção. Só depois, num segundo momento, e sempre dentro deste horizonte de radical unidade e igualdade, se pode pensar e procurar as diferenças de ministérios (ordenados ou não), carismas e serviços.
  • O Baptismo, o Crisma e a Eucaristia são o fundamento de toda a identidade cristã. Todos somos Filhos no Filho, todos somos ungidos no mesmo Espírito para a mesma Missão.
  • Tradicionalmente falamos em três Vocações peculiares. Elas ‘personificam’ e ‘sublinham’ aspectos essenciais que pertencem à natureza íntima da Comunidade Eclesial:
  • Os Ministros Ordenados chamados ao serviço da unidade na Comunidade, de modo a facilitar a fidelidade desta à sua missão;
  • Os religiosos que, de um modo especial, mas não exclusivo, ‘encarnam’ o compromisso de toda a comunidade eclesial de seguir e ser fiel ao Senhor Ressuscitado;
  • Os leigos que, de um modo especial, mas não exclusivo, ‘encarnam’ o compromisso da comunidade eclesial com o mundo e com a humanidade.

 

Nota: nesta reflexão, e para a tornar mais simples, farei referência, por um lado, aos leigos e, por outro, aos ministros ordenados e religiosos, ainda que tenha a consciência que entre estes há singularidades e distinções importantes.

  • O leigo relaciona-se preferencialmente, ainda que não exclusivamente, com a transcendência a partir da imanência. Sublinha os aspectos imanentes da realidade (mas faz isso tendo em conta a transcendência).
  • O religioso/ministro ordenado relaciona-se preferencialmente, ainda que não exclusivamente, com a imanência a partir da transcendência. Sublinha os aspectos transcendentes da realidade (mas faz isso tendo em conta a imanência).
  • O leigo sublinha a dimensão imanente da transcendência, o religioso/ministro ordenado a dimensão transcendente da imanência.
  • Isto exige a ousadia de ultrapassar uma atitude que tradicionalmente opõe o âmbito do sagrado ao profano. Onde está o sagrado não pode estar o profano. Onde está a transcendência não pode estar a imanência. Esta separação, acaba por levar-nos a afirmar que: onde está Deus não pode estar o humano.
  • O Mistério de Deus é mistério de Presença na vida concreta do crente. Mas tenhamos a coragem de dar ainda mais passos. Não porque a Transcendência entra na imanência, mas porque a imanência acontece verdadeiramente na Transcendência. Não é Deus que entra no mundo ou na minha vida, é o mundo e a minha vida que consistentemente podem ser em Deus. A experiência crente é a experiência de um presença consentida e respondida. O crente descobre Deus no mundo e na vida. Descobre essa presença, reconhece-a, assume-a, responde-lhe.
  • Nenhum dos dois (leigos e religiosos/ministros ordenados), por si só, personifica, nem esgota, de forma completa ou exclusiva a identidade cristã. Os dois, só os dois, podem dar uma visão mais global e acabada do que é a identidade e a missão cristãs.

 

 

1.3. A Igreja

  • São vários os modelos a partir dos quais ela pode ser entendida. Já a vimos como uma sociedade perfeita, ou como uma sociedade de desiguais (Igreja docente e Igreja discente).
  • Hoje entendemos a sua identidade a partir do próprio projecto de Deus.
  • Esse projecto concretiza-se em Jesus Cristo. O Ressuscitado é o solo onde ela nasce, cresce e se desenvolve.
  • A Igreja brota do próprio Mistério de Deus. Na força do Espírito do Ressuscitado, ela quer se concretização do Projecto do Pai.
  • Ela não é o Reino, mas a sua razão de ser é o Reino.
  • Ela é Corpo de Cristo. Ela é povo de Deus. Todos os cristãos são igualmente membros desse corpo e desse povo. Não há cristãos de primeira e de segunda. Há, é diferentes serviços, carismas e ministérios, todos a concorrer para a realização da sua identidade e concretização da sua missão.
  • O paradigma da fraternidade é um dos melhores paradigmas para perceber a sua identidade e a sua missão. Todos os irmãos são igualmente irmãos. Nenhum irmão pode ser irmão sozinho. Cada um precisa do outro para poder concretizar a sua identidade de irmão. Só em comunidade fraternal se pode concretizar a sua identidade e missão.
  • Identidade que bota da sua missão, missão que concretiza a sua identidade.

 

2. A missão do cristão, a missão da Igreja (evangelização).

Da colaboração à corresponsabilidade.

 

Do que até aqui foi dito, parece-me claro que a missão/evangelização não é algo que a Igreja possa ou não fazer, que o cristão possa ou não assumir. A conclusão a tirar parece-me obvia: a missão/evangelização constitui um dos traços característicos da identidade da Igreja e do cristão.

Não se trata pois da missão de uns a que outros são chamados a colaborar. Trata-se da missão inerente ao ser cristão. Claro que ela depois assume contornos concretos e específicos em cada Instituto Missionário, em cada situação concreta. Neste sentido, não há, pois, dentro da Igreja ‘alguns’ que têm a obrigação de realizar a missão e porque são poucos e não chegam a todos os lados, vêem-se na necessidade de arranjar colaboradores. O que há são cristãos, com diversos carismas e serviços, que têm como uma das notas características da sua identidade a realização da missão/evangelização

A missão não é, pois, algo que acresce ao ser do cristão. A missão é constitutiva do ser do cristão. A Tarefa da evangelização e da construção da comunidade não é, pois, algo que acresce ao nosso ser, é a concretização e a realização daquilo que verdadeiramente somos.

A história humana tem de ser construída. Todos têm de colaborar. Deus também quer estar presente por isso interpela à missão. Não se trata de construir a história de Deus. Ele não precisa de ajuda para isso. Trata-se de construir a história humana. Nós precisamos de ajuda. Deus quer construí-la connosco, daí a missão/evangelização (anúncio e concretização do Reino de Deus). para isso, torna-se necessário ser bons conhecedores da humanidade e da sua história para continuar hoje a concretizar o Mistério da Encarnação. Trata-se de uma Igreja não mundana, mas para o mundo e no mundo. Ela não está no mundo à maneira de quem o sofre e suporta, mas à maneira de quem o serve e salva. Não tenhamos dúvidas a vinha onde se realiza a missão é o mundo (e não a Igreja).

E neste mundo, é a Igreja toda que é missionária/evangelizadora (não só uma parte dos seus membros são missionários/evangelizadores). Ela tem a sua origem na Missão que o Pai concretiza através do Filho na força do Espírito Santo. A sua missão é a própria missão de Jesus Cristo. Para a Igreja não existe outra. E mesmo quando se reveste de vários contornos, conforme a época da história que nos é dado viver, sempre continua a ser da missão de Jesus Cristo que se trata. Quando assim não foi, ou quando assim não é algo está errado. Só enraizados nessa cepa poderemos ser vimes a frutificar.

No fundo, com alguma ousadia atrevo-me a dizer que não é a Igreja que tem uma missão, mas é a missão (o Projecto salvífico do Pai – Reino de Deus) que tem uma Igreja. A missão é a razão de ser da Igreja. Ela constitui o porquê e para quê da Igreja.

Claro que o entendimento que temos da missão está estritamente relacionado com a maneira como vivemos e reflectimos a nossa pertença à Igreja. É também a este nível que revela a sua importância a imagem e paradigma de Igreja a partir do qual vivemos. (Igreja uma sociedade perfeita; Igreja uma sociedade de desiguais; Igreja uma comunidade de irmãos). A partir daqui podemos entender a missão como posse de alguém, ou como missão de todos que só pode ser concretizada na corresponsabilidade comunitária.

Esta dimensão comunitária é fundamental e não pode ser pensada simplesmente como se de um instrumento ou meio para realizar a missão se tratasse. Na realidade, não é porque juntos podemos mais que a dimensão comunitária se revela fundamental. Claro que é evidente que juntos podemos mais, mas a razão é muito mais profunda e tem a ver com a própria identidade da fé cristã. A dimensão comunitária é constituinte e estruturante da identidade e da missão cristãs, e neste sentido jamais podemos confundir a missão/evangelização com o missionário/evangelizador, ainda que cada um lhe deva dar o seu ‘gosto’ pessoal.

A missão não é só de alguns nem é só para alguns. Mas é importante não esquecer a necessidade de fazer opções (alguns estão verdadeiramente mais necessitados), tal como é indispensável que alguns assumam este tarefa de um modo especial, para que todos a possam concretizar.

Porque a consciência missionária/evangelizadora não é da ordem do agir, mas é da ordem do ser, a missão não pode ser cabalmente entendida se pensada e concretizada simplesmente no âmbito do fazer. Neste sentido não se trata de um fazer ou não fazer voluntário. Ela é uma ‘obrigação’ de todo o cristão ou se quisermos, dizendo de outro modo e de uma maneira positiva ela é um elemento estruturante e tipificante de toda a vida cristã.

A partir desta condição estruturante podemos entender melhor que a missão só pode verdadeiramente ser concretizada na corresponsabilidade entre todos. Os leigos não são suplentes, substitutos, mandatados, cooperadores, são corresponsáveis. Sem os leigos não há missão/evangelização, só com eles também não. Sem os religiosos/ministros ordenados não há missão, só com eles também não.

Os religiosos/ministros ordenados missionários não são os donos da missão que mandatam, ou incorporam a si outras pessoas porque precisam. Mas eles são na Igreja indispensáveis, pois o seu carisma é constante interpelação para que a Igreja seja fiel aquilo que é chamada a ser.

Seja-me aqui permitida uma nota de atrevimento (mais uma...) sobre a parceria na missão com os diversos Institutos Missionários (e com os diversos organismos da Igreja que têm esta realidade como campo específico da sua acção). Como todos sabemos existem vários, muitos deles estão aqui representados, cada um com especificidades próprias e todos, ou quase todos, tendo leigos a colaborar nos mais diversos níveis. Pois bem, também a este nível é preciso passar da colaboração à corresponsabilidade. E este é um caminho a percorrer, simultaneamente, por religiosos e leigos.

E não se trata simplesmente da aproximação dos leigos ao carisma e a identidade de cada Instituto, se bem que isso seja fundamental, trata-se, no meu entender, de ir mais longe, preconizando uma aproximação mútua entre leigos e religiosos, na qual cada um, de acordo com a sua condição específica, colabore e participe na edificação de uma ‘nova identidade’ que, sem negar nada do que é a história de cada Instituto, possa dar resposta mais cabal aos novos desafios que se colocam, a partir da reflexão eclesiológica que vamos fazendo e das circunstâncias concretas em que vamos vivendo.

Tenho consciência de que aquilo que estou a afirmar é ousado e mesmo atrevido, mas sinceramente estou convencido de que esse é o caminho a seguir, uma vez que acredito que os carismas que o Espírito foi suscitando ao longo da história da humanidade são dons que exigem constante encarnação em cada momento que nos é dado viver. Claro que os religiosos e as religiosas de cada Instituto serão sempre o garante da fidelidade a esses carismas, mas isso não impede que se ensaiem e procurem novas maneiras de vivê-los e mesmo novas formas de pertença a cada Instituto. Certamente neste caminho nem tudo vai sair na perfeição, talvez tenhamos mesmo que ousar caminhar com a consciência de porventura ter de dar algum passo atrás, mas o que me parece de todo evidente, é que o tempo que vivemos nos exige a coragem de começar a caminhar, sem medo, nessa direcção.

 

 

3. (Alguns) caminhos de Concretização 

 

3.1. Construir o Reino na construção da cidade, promover o habitar humano e humanizador[5]

Falo em cidade. Convém, pois explicitar o que entendo por cidade. Para utilizo as palavras de D. José Policarpo,

“A cidade é o lugar da convivência dos homens, onde nenhum ser humano pode viver a sua vida desligado da vida dos seus irmãos. Edificar a cidade é encontrar a convergência e a harmonia entre o bem pessoal e o bem comum. Viver na cidade é sinal de convivência e corresponsabilidade. A cidade é o rosto visível da comunidade humana, onde cada homem é responsável pelos outros homens.”[6]

Três ideias se podem destacar aqui:
  • A cidade lugar de convivência;
  • Na procura de convergência e harmonia entre o bem pessoal e o bem comum;
  • Ela é o rosto visível da comunidade humana.

Nesta linha, tem particular interesse a reflexão feita por Mafalda Faria Blanc. Para ela,

“A palavra ‘habitar’ no seu sentido metafórico reenvia-nos a esse conjunto de hábitos, de modos de ser e de agir, que informam a vida dos homens nas suas relações com o entorno – as coisas da subsistência, os outros da convivência, mas também e, quiçá, principalmente, o todo da realidade envolvente com a sua riqueza, a sua história, o seu mistério.

Trata-se de um jeito de instalação no mundo, uma arte de viver em harmonia, que se traduz, de cada vez, pela eleição de um conjunto de gestos significativos e de ritos civilizacionais. Estes vão perfazer, como estilo de existência, a base transmissível e perfectível, da identidade cultural de uma determinada sociedade.”[7]

Como vemos, a mesma ideia de convivência está presente: convivência com o meio, convivência com os outros. Convivência que exige uma arte de viver em harmonia e um determinado jeito de instalação no mundo, que, por sua vez, pressupõe e exigem um determinado conjunto de gestos significativos e de ritos civilizacionais. A este nível - o nível da cultura -  estamos de novo na presença do rosto da comunidade humana. A maneira como o ser humano ‘habita’, marca profundamente a fisionomia do rosto humano da comunidade e, a partir dela, podemos perceber melhor o entendimento e a qualidade do humano que se tem e se vive na cidade.

A cidade é, pois, o resultado e a expressão da actividade humana. É uma obra colectiva, nunca acabada e em constante evolução sendo o resultado dos esforços de sucessivas gerações. A memória do passado, o entendimento do presente e a antecipação do futuro são dimensões que se revelam fundamentais para entender, edificar e viver a cidade. Por isso a cidade pode ser chamada, como o faz acertadamente Manuel Teixeira, como um Palimpsesto da História[8].

Ao falar em cidade falo, pois, em lugar adaptado pelo ser humano, a partir do espaço natural, para conseguir o habitat mais conveniente e agradável para a sua existência. E o mais importante não é de todo o espaço, mas o processo de adaptação, a partir do qual o ser humano se pode sentir “a participar na criação do seu espaço de vida. O continente de que ele próprio é o conteúdo.”[9]

Como diz Manuel da Costa Lobo “o homem é a componente essencial da cidade, sem o que ela mais não será do que um montão de pedras. Assim, o aspecto da humanização da cidade e a sua dimensão espiritual são pontos fulcrais no seu conceito.”[10]

Ao falar em cidade é sobretudo a esta dimensão, do habitar, do criar as condições para a realização de uma existência verdadeiramente humana que me refiro, e é precisamente neste campo que a missão tem igualmente um papel fundamental a desempenhar, pois para mim ela também passa hoje pelo contributo que é urgente e indispensável dar-se na edificação e habitabilidade da cidade[11].

Com isto não estou a afirmar que o anúncio e o testemunho explícito de Jesus Cristo não possa e não deva ser feito. Pelo contrário, porque queremos contribuir para a construção de uma cidade com rosto mais humano e mais humanizadora, porque queremos edificar um espaço de verdadeira humanização, porque queremos criar as melhores condições para uma habitabilidade que seja humana e humanizante, testemunhamos e propomos Aquele em quem acreditamos e em quem encontramos a plenitude da realização humana.

Como é que o exercício da nossa identidade pode ajudar a construir a cidade de maneira que ela se torne terra fértil e produtiva para a realização da condição humana? Dar uma resposta concreta a esta pergunta é um dos caminhos a seguir para a realização da missão hoje.

 

3.2. Num contexto de pluralismo, repensar o nosso dizer e testemunhar Deus[12]

Algumas das notas fundamentais do nosso tempo passam pela instalação na finitude, bem como pela pluralidade de perspectivas e caminhos para a realização da condição humana. Esta situação exige que repensemos as expressões e as justificações com que muitas vezes afirmamos e falamos de Deus, no sentido de perceber até que ponto não contribuímos para o ambiente que presentemente nos desafia.

A transcendência é, para nós, um dado fundamental do viver humano. Mas nem sempre a religião foi fiel a esta dimensão, tendo muitas vezes sido exposta ao erro da idolatria como uma das suas perversões mais radicais. Idolatria que consiste fundamentalmente na ruptura da transcendência, ou seja, consiste em tomar por Deus algo que não é mais do que uma imagem criada pelo homem, para assim evitar o radical descentramento que comporta a atitude religiosa autêntica. A dificuldade de manter a transcendência em toda a sua radicalidade e pureza explica a tentação que muitas vezes o crente tem em reduzi-la a um mero objecto do seu desejo, tornando-a parte do seu mundo de coisas.

Ora a cultura em que vivemos tem verdadeiro horror a absolutização de realidades objectivas, mas apesar desta renúncia da transcendência, está permanentemente a apelar a ‘transcendências menores’, ainda que sejam transcendências sem transcendente.

Assim temos que falar de Deus não como se ele fosse uma coisa que conhecemos e dominamos, mas como alguém (para nós cristãos) em quem nos podemos conhecer e assumir cada vez melhor. Deus é transcendente, não porque não esteja aqui, mas porque para chegar a ele temos que nos transcender, temos que nos descentrar, sair de nós mesmos, abrindo-nos a outro que não somos nós, mas no qual podemos ser consistentemente. Por causa da radical diferença desse outro é que eu posso ser verdadeiramente eu.

Não será que muitas vezes em vez de falar de Deus aos homens nossos irmãos damos a imagem de quem fala em nome de Deus, ou mais grave ainda de quem fala em vez de Deus?

Também nós somos chamados a ter uma compreensão da relação com a verdade que privilegie a busca sobre a posse, a contemplação sobre o domínio. Talvez uma compreensão desta possa ajudar-nos a ultrapassar a tendência excessivamente dogmática em que muitas vezes temos traduzido a reflexão cristã, pelo diálogo em que cada um se deixa verdadeiramente tocar pelo testemunho dos outros.

Mesmo a maneira como é vivido e experienciado o cristianismo não pode, de modo algum, ser reduzido à maneira ocidental europeia de fazê-lo, nem sequer à maneira dos católicos.

O diálogo com as outras religiões e mesmo com os não crentes é urgente e indispensável.

“Que figura adquirirá o cristianismo trás esse diálogo inter-religioso, quais serão as formulações teológicas da sua identidade, são questões sem resposta na actualidade, mas que os cristãos podemos afrontar confiadamente a partir da consciência do valor da nossa própria fé e a partir do conhecimento de que Deus, sempre maior, em quem acreditamos, pode ser acessível através das tradições religiosas da humanidade, por caminhos que só ele conhece.”[13]

Não será que em definitivo amar a Deus consiste sobre tudo em deixar-se invadir pelo seu amor, que constantemente nos remete aos outros como sendo também destinatários desse amor originário?

 

3.3. Num contexto onde tanto se fala em espiritualidades, ousar repensar a nossa maneira de testemunhar e viver a espiritualidade cristã

Como consequência de certas leituras teológicas do ciclo da criação e do ciclo da salvação, acabou por se ir impondo na mentalidade cristã uma visão dualista. Esta mentalidade acaba por ir organizando todo o espaço religioso, de tal modo que começamos a aceitar que Deus é aquele que esta em cima e nós em baixo e que o sagrado é aquilo que pertence a Deus e o profano aquilo que nos pertence.

Desta concepção dualista, derivou espontaneamente uma visão negativa da vida e da realidade. A salvação é separada da criação e acaba por se contrapor a ela, de tal modo que tudo aquilo que é criado acaba por correr o risco de aparecer como mau e corrupto. Nesta linha, a fuga do mundo e a negação do mundo acaba por ser uma consequência lógica. Nasce, assim, uma perspectiva exclusivamente sacrificial da espiritualidade cristã. Só o que é feito com esforço e sacrifício pode ser premiado por Deus. Só a nossa negação em tudo aquilo que é próprio da condição humana é que pode contribuir para a salvação.

Claro que existe uma diferença real entre Deus e as suas criaturas, mas isso não nos pode levar a converter a diferença em distância e a distinção em dualismo.

É urgente repensar a espiritualidade cristã, de tal modo que fique claro que a vontade de Deus é a profunda felicidade e realização do ser humano. Não se pode continuar a falar em salvação como se ela não tivesse nada ver com a felicidade humana, no aqui e agora. [14]

A este nível é interessante a reflexão desenvolvida por Jesus Espeja[15]. Segundo ele temos hoje a absoluta necessidade de desenvolver uma espiritualidade mundana. A expressão, que toma de K. Rahner, certamente que pode resultar provocatória senão mesmo chocante, pois a palavra mundo ainda evoca em muitos algo carregado de negatividade, mas neste contexto quer significar a inteira família humana e o seu entorno criacional.

Uma espiritualidade mundana é, então, uma espiritualidade que é vivida não «por cima de», nem «junto de» e muito menos «contra», mas sim uma espiritualidade que é vivida no mundo. Ou seja uma espiritualidade que não se refere somente ao mais além da morte, mas também ao aqui e agora da vida; uma espiritualidade que não se preocupa só com a salvação da alma, mas também com a do corpo; uma espiritualidade que não está só reservada para as práticas religiosas (sacramentos, oração), mas que está também presente no trabalho e na diversão; uma espiritualidade que não se refira só a relação com Deus, mas que marque inspire também toda a relação não só com os outros seres humanos, como também com todos os outros seres vivos, entre os quais sabemos que podemos incluir o nosso próprio planeta.

 

3.4. Num contexto onde se sublinha a dimensão individual, testemunhar uma fé personalizante e vivida pessoalmente.

Hoje a sociedade descobriu a importância e o valor da experiência pessoal. Isto pode ajudar-nos a perceber que essa dimensão é também fundamental na experiência cristã.

Não se trata de ignorar ou tirar importância à dimensão comunitária (eclesial da fé). Ela é insubstituível e mesmo constitutiva da fé cristã. Mas até a esse nível é indispensável o assumir pessoalmente essa dimensão.

A fé exige um processo de amadurecimento pessoal para poder ser verdadeiramente motor da vida da vida e da identidade do cristão e da concretização da missão. A experiência da fé é sempre uma experiência pessoal de encontro com Jesus Cristo e como todas as experiências de encontro entre pessoas ela não pode ser vivida por procuração.

Como diz Jesús Espeja “o ambiente de pluralismo e tolerância que traz a sensibilidade moderna e que entrou já na nossa sociedade, exigirá também uma maior personalização da fé, uma convicção apaixonada sobre a identidade cristã definida na conduta de Jesus”.[16]

O eixo em torno do qual se há de operar esta recomposição do acreditar, já há bastante tempo foi apontado com estas palavras que ressoam aos nossos ouvidos com um inegável tom profético: o cristianismo de amanhã, que é o que já estamos a viver hoje (ou deveríamos estar), será místico, ou não será cristianismo. E com a expressão místico estas vozes proféticas referem-se à experiência pessoal de Deus.[17]

 

3.5. Num mundo onde tanta se fala na importância da vida (apesar dos crescentes atentados que contra ela se cometem, redescobrir o valor teológico da experiência humana[18] 

Convém esclarecer, logo à partida, que o termo experiência humana é aqui tomado como sinónimo de vida humana, entendendo por tal o exercício concreto e a realização efectiva de todos os elementos que compõem a nossa história, trata-se pois da condição humana realizada numa história concreta.

Claro que a experiência humana não pode ser apreendida a partir de uma mera sucessão de acontecimentos. A sua existência, só pode verdadeiramente ser assumida a partir da orientação de um sentido. 

A relação do ser humano com o mistério que é Deus comporta três elementos essenciais:

  • A sua raiz está na referência do ser humano a uma realidade absolutamente transcendente que se situa mais além do campo de todas as possibilidades humanas;
  • A absoluta transcendência deste mistério implica que a relação com ele só possa ser concebida a partir de uma iniciativa sua;
  • O carácter activo, pessoal e transcendente deste mistério, faz com que a sua manifestação só possa ter lugar através de realidades, de qualquer tipo, que fazem parte do mundo do ser humano e que, por isso, integram, de uma forma ou de outra, a sua experiência.

Baste esta estrutura fundamental do processo revelador, para podermos entender como a experiência humana é fundamental e necessária para a manifestação do divino e, por conseguinte, para a resposta da fé. 

O caminho do homem para Deus, o encontro definitivo com ele passa pela experiência humana. Este dado é, para nós cristãos, de uma evidência e de uma necessidade absolutas. É que o acesso que nós temos ao mistério de Deus passa obrigatoriamente pela experiência humana de Jesus. É a partir de Jesus Cristo e nele que, nós cristãos, temos acesso ao mistério de Deus e podemos aceder à vida divina.

Infelizmente, tem sido frequente entre os cristãos uma ideia do encontro do ser humano com Deus, segundo a qual este terá acontecido de uma vez para sempre em Cristo, pelo que só poderá continuar a acontecer na medida em que sejamos capazes de repetir cultualmente determinado tipo de gestos religiosos, em relação mais ou menos com a vida, mas verdadeiramente à margem dela.

Mas ser cristão não se pode reduzir jamais a uma simples imitação de gestos, é preciso muito mais, é preciso perceber a raiz da experiência de vida de Jesus Cristo, o seu princípio existencial, para o poder assumir. Só assim, poderemos perceber que para o cristianismo o encontro com Deus não pode acontecer à margem da vida, mas, pelo contrário, só pode ter lugar no meio dela. Deste modo, a vida humana faz-se reveladora de Deus, facilitadora do encontro e possibilitadora da divinização do ser humano.

O que atrás disse, de uma maneira breve e simples, leva-me agora a poder afirmar que a experiência de vida de cada um de nós é mediação indispensável para podermos concretizar a nossa opção crente e realizar a missão.

 

3.6. Perante o desafio da injustiça, assumir com coragem uma presença pública e profética que se comprometa com a promoção da justiça.

Não é de todo discutível a necessidade e a importância da presença pública dos cristãos e da Igreja na sociedade. Numa sociedade democrática isso é não só um direito como um dever. Mas como realizar essa presença?

Recorro de novo às palavras de Jesus Espeja para ensaiar uma resposta: “Pode acontecer que, insistindo em que «não são do mundo», os cristãos pensem que são superiores aos outros, têm a verdade completa na sua mão, e tratem de impô-la com a lógica do poder. Então a comunidade cristã, enquanto se engana considerando-se por cima da família humana e à margem das suas situações, perverte-se assumindo o negativo do mundo, o poder e auto-suficiência dos arrogantes. Uma presença profética exige que a Igreja seja mais parte do mundo, da família humana, pois o verdadeiro profeta nunca sai da comunidade à qual simultaneamente ama e critica; também Jesus de Nazaré não fugiu do seu povo e dos conflitos que o levaram ao martírio. E exige também que a comunidade cristã seja menos mundo, que não aceite as manhas idolátricas que desfiguram a sociedade e a criação.”[19]

Não é possível ser-se cristão sem uma intervenção clara na sociedade e na cultura em que vivemos (missão). Claro que não se trata de uma intervenção no sentido de obrigar tudo e todos a fazerem a opção cristã, trata-se, isso sim, de ser testemunho daquilo em que acreditamos, da proposta de Deus para a humanidade, uma proposta que para nós é motivo de profunda felicidade e realização (salvação).

Por isso alguém que se mostre insensível às manifestações de ‘morte’ do ser humano, tais como são o sofrimento evitável, as condições de injustiça, a vida pobre a que tantos são condenados e tantas e tantas outras situações em que a dignidade humana é atingida, jamais se poderá assumir como cristão. A luta contra a injustiça e o anúncio e promoção da justiça e da dignidade do ser humano, de todos os seres humanos, tem de ser uma das notas características da nossa opção cristã aqui e agora.

Mas não se trata só de palavras. Temos de ir mais longe no sentido dos gestos, da intervenção, da criatividade e da ousadia. Não é só sujar a língua, é também sujar as mãos. Não é só o compromisso verbal, tem de ser também o compromisso das nossas instituições cristãs e da nossa vida.

 

3.7. Face a tantas incertezas e perante os desafios levantados, assumir a alegria como nota específica da vida e da missão cristãs.

Não se trata aqui de não levar a sério o sofrimento dos outros, de não nos deixarmos interrogar por tantas situações que causam perplexidade e obrigatoriamente nos têm de desinstalar.

Não se trata muito menos de não nos comprometermos com todo o ser humano que sofre e é excluído, pelas mais diversas razões (que pode mesmo ser a auto exclusão.

Trata-se, isso sim, de testemunhar que a opção cristã é o sentido do nosso viver e, por isso, razão e fundamento de profunda alegria e felicidade.

Não tenho dúvidas que uma das notas características da opção cristã dos nossos dias deve passar clara e inequivocamente pelo testemunho da alegria. Atrevo-me mesmo a ir mais longe dizendo que deve passar por viver a vida de uma maneira alegre e feliz, não vá ser que corramos o risco de assumir o testemunho da alegria como uma missão a realizar, porque na realidade a opção cristã não tem sido verdadeira fonte de alegria e felicidade no hoje e no aqui.

Repito, que não se trata de não levar a sério todos os desafios que nos surgem pela frente, muitos dos quais nos interrogam, nos desinstalam, nos fazem verdadeiramente sofrer, trata-se de assumir a certeza de que Deus está verdadeiramente comprometido com o ser humano e a sua vida, comigo e com a minha vida. Esta certeza, apesar de não evitar a tristeza que em determinados momentos da vida inevitavelmente se faz sentir, leva-nos a proclamar que a proposta que Deus faz é uma proposta que tem como objectivo último e maior a salvação e felicidade do ser humano, de todo o ser humano e de todos os seres humanos.

A última palavra de Deus (última porque dadora absoluta de sentido e não no sentido cronológico) foi - é - a palavra da vida. A ressurreição é o testemunho inequívoco dessa realidade.  

 

 

4. À Maneira de Conclusão

A reflexão que fiz acerca da missão foi sobretudo realizada no horizonte da missão em geral e não no horizonte específico da missão Ad gentes, que cosntitui o pano de fundo de todas estas Jornadas. Claro que aquilo que foi dito no contexto geral tem de ser aplicado ao contexto específico. Nessa linha gostaria de fazer algumas referências, ainda que de modo telegráfico e à maneira de conclusão.

Ao falar em missão Ad Gentes

  • Não falo de uma intervenção no sentido de fazer com que irmãos nossos passem a ser mais humanos porque os vamos cristianizar. Defendo uma ‘luta’ ao lado deles e com eles (não por eles e muito menos contra eles) para que tenham acesso a tudo aquilo que é indispensável para viver a condição humana de uma maneira cada vez mais plena (e não me refiro sobretudo e essencialmente ao material).
  • Não estou a imaginar que vamos enriquecer a sua experiência e visão da humanidade com a nossa que é mais rica. Pelo contrário acredito que mutuamente nos enriqueceremos com experiências e visões que nos permitirão a todos ser mais humanos.
  • Não estou a falar em levar Deus, pois sinceramente acredito que Deus já está, o que pretendo é colaborar para que a sua presença se torne cada vez mais sentida e experimentada.
  • Não proponho que ‘escondamos’ ou ‘disfarcemos’ a nossa proposta e a nossa opção cristã, mas que vivamos a nossa identidade propondo uma visão e uma experiência da humanidade que verdadeiramente possa levar à plenitude da condição humana. Esse é o testemunho e a experiência de Jesus Cristo.

O Cristianismo é uma proposta (não uma imposição) verdadeiramente universal, porque todos os homens em todos os lugares podem viver esta experiência sem terem que renunciar à sua história e à sua cultura (ainda que haja aspectos dessa história e dessa cultura que tenham que ser ultrapassados, purificados, humanizados).

O nosso primeiro compromisso a nossa solidariedade é para que todos possam viver plenamente como seres humanos. Como pessoas felizes e realizadas. Optamos pelos mais desfavorecidos porque esses são excluídos dessa vocação universal de toda a humanidade.

Porque encontramos em Jesus Cristo a concretização plena dessa vocação anunciamo-lo sem medos e inequivocamente.

Mas se os caminhos escolhidos pelos nossos irmãos forem outros, nem por isso deixamos de nos comprometer e de ser solidários, pois essa é uma exigência da nossa condição humana, que a nossa opção crente vem aprofundar e radicalizar.

 


 



[1] Adélio Torres Neiva, O leigo vocação para a missão, LIAM, Apresentação do Superior Provincial, Pe. José Manuel Sabença.

[2] Estou completamente de acordo com esta intuição de Jesus Espeja, Creer en este mundo, BAC, Madrid 2000, 29.

[3] Vicente Botella Cubells, Dios escribe Y se escribe con trazo humano. Cristología fundamental, San Esteban – Edibesa, Salamanca – Madrid 2002.

[4] Cf Éste es el hombre. Manual de cristología, Secretariado Trinitário, Salamanca 1997, 61-99.

[5] Faço aqui eco de um trabalho por mim apresentado na Revista Didaskalia, por ocasião da Homenagem à Professora Maria Manuela de Carvalho, Identidade cristã e Cidade dos Homens. Notas para um diálogo, Volume XXXVII, Fascículo 1 (2007) 309-326.

[6] Carta Pastoral, A Igreja na Cidade, de 8 de Setembro de 2005, 1

[7] Arte de habitar, in Communio 4 (2004) 391.

[8] “Cada cidade é constituída por uma série de estratos conceptuais, cada obra é o resultado de experiências anteriores. A cidade é um palimpsesto da história.” Manuel C. Teixeira, A cidade, palimpsesto da história. A tradição cultural da cidade, in Communio 1 (1994) 36.

[9] Manuel da Costa Lobo, O fascínio da Cidade, in Communio 1 (1994) 21.

[10] Ibidem. O constante esquecimento desta realidade leva o autor a interrogar-se se as nossas cidades não serão afinal simples aglomerados humanos sem alma, cf Ibidem 24.

[11] Como é óbvio não estou principalmente a pensar na cidade como organização e grandeza administrativa, mas como tempo e espaço (qualquer que seja a sua localização e dimensão) para viver a vida humana com a dignidade e plenitude que lhe é inerente.

[12] Esta proposta é feita por Juan Martín Velasco, Ser cristiano en una cultura posmoderna, PPC, Madrid 1996, 70-86. Recolho aqui algumas das suas intuições, sem, no entanto, ficar preso à sua reflexão.

[13] Juan Martín Velasco, Ser cristiano en una cultura posmoderna, 124.

[14] Claro que a salvação não se reduz a esta dimensão e claro que muitas vezes as consequências das nossas opções na vida nos fazem sofrer e são custosas, mas isso não tem nada a opor-se à felicidade, à realização e, mesmo, ao prazer de viver).

[15] Cf Creer en este mundo, 28-29.

[16] Creer en este mundo, 33.

[17] Cf a este propósito o clarividente prólogo de Juan Martín Velasco, La experiência Cristiana de Dios, Editorial Trotta, Madrid 1995.

[18] Sigo aqui a excelente reflexão feita por Juan Martín Velasco, La religión en nuestro mundo. Ensayos de fenomenología = Verdade e Imagen 53, Sígueme, Salamanca 1978, 247-263.

[19] Creer en este mundo, 39

 


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Texto reproduzido com a devida autorização das Obras Missionárias Pontifícias