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Uma Igreja Missionária para o terceiro milénio

Fiéis vietnamitas, uma igreja alimentada pelo testemunho de muitos mártiresPublicamos abaixo uma conferência do Cardeal Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, poucos meses antes de morrer. Para saber mais sobre Van Thuan, sugiro a breve biografia (em inglês) publicada no site da fundação com o seu nome.

 

1. Um olhar de Fé para o passado missionário da Igreja

Somos herdeiros de uma história de graça e de uma herança apostólica de mais de 20 séculos. Trata-se de uma história de pessoas e de comunidades concretas, desde os apóstolos até hoje.

Há sempre luzes e sombras, como em toda a História da Salvação, mas é sempre possível entrever e sentir a presença e a voz de Cristo ressuscitado: "Eis que estou convosco" (Mt 28,20). A "memória" do passado é sempre necessária e útil para agradecer a Deus, mas também para experimentar novamente o perdão e a misericórdia. Só assim é possível aprender a perdoar, a ouvir e acolher os outros sem distinção de raça, cultura e religião. Compreende-se melhor a Missão na "teologia vivida" dos santos missionários. Avalia-se melhor a Missão no contexto histórico, sem visões fora de época. Uma grande lição, difícil de aprender, é compreender que a Missão "ainda se encontra nos inícios" (Redemptoris Missio, 1).

Para poder chegar a "formar Cristo" (Gl 4,19) em cada coração humano, de modo a transformar todos os baptizados em "filhos no Filho" (Ef 1,5; cf. Gaudium et Spes, 22), é preciso ter a paciência milenar de Deus. A nós falta esta paciência, e, por isso, às vezes, olhamos o passado de um modo demasiado negativo. A minha experiência de prisão fez-me valorizar os maiores méritos dos missionários e catequistas do passado no Vietname. Quantas vezes eu me lembrei dos mártires e dos santos!

Lembrando os inícios e o desenvolvimento da evangelização no Vietname, eu aprendi a amar mais a Igreja, assim como a amou Jesus: "Cristo amou a Igreja e entregou-se por ela" (Ef 5,25).

Observo, às vezes, uma tentação bem comum: interpretações generalizadas do passado, às vezes com um tom de amargura e desânimo. Esta atitude não contribui para a vivência do presente com alegre esperança, que é sempre confiança e dedicação. Amando as nossas raízes missionárias, descobriremos melhor as novas possibilidades do presente e do futuro.

 

2. Viver o presente com olhar contemplativo

Encontramo-nos diante de situações novas, que exigem novas posturas, sempre mais evangélicas. A humanidade já é globalizada, com relacionamentos sempre mais pluri-religiosos e pluri-culturais. As pessoas que morreram nas torres gémeas em Nova York (em 2001) eram provenientes de oitenta países diferentes. Nalgumas grandes cidades, como Los Angeles, são faladas mais de cem línguas. Nas nossas cidades, cada vez mais, os rostos das pessoas mostram um cruzamento planetário de culturas e etnias. Os problemas tornam-se comuns em toda parte do mundo. As fronteiras geográficas foram rompidas; outras, porém, foram erguidas.

Quando o Evangelho foi anunciado no século II, havia uma situação parecida, mas limitada e reduzida: os países estavam ligados por uma língua comum (o grego da "koiné"), pelas estradas do Império Romano e por necessidades económicas e sociais comuns. Agora, pela primeira vez na história, esta situação está-se a tornar "global", com todas as suas consequências positivas e negativas. Encontramo-nos diante de possibilidades novas de evangelização, como nunca ocorreu na história. Mas neste contexto global surgem novos desafios: a vida familiar, os critérios morais, os problemas da justiça e da paz, a pobreza de grandes massas de população, as migrações, os refugiados ambientais... Os desafios acumulam-se de modo impressionante. Como acabar com situações de injustiça e de pobreza? Como defender a vida em todas as suas fases? Como tocar a juventude e as famílias? Como defender a dignidade e a igualdade da mulher? Como inserir-se na cultura pós-moderna emergente? Como acompanhar os migrantes?...

Para nós, todas estas situações são campos de Missão, nos quais deve ressoar, sem fronteiras, a mensagem evangélica das bem-aventuranças e do mandamento do amor. Quando se apresentam situações novas, existem também novas graças para poder enfrentá-las. Em toda a parte se pode constatar um despertar missionário, especialmente nas Igrejas jovens, de evangelização mais recente. Em toda a parte desperta um sentimento de solidariedade e uma sensibilidade mundial. Os documentos do Concílio Vaticano II, e os que a ele se seguiram, de modo especial as exortações pós-sinodais (sobre a África, Ásia, América, Oceânia e Europa), são um espelho que reflecte tanto as novas situações quanto as novas graças, com os desafios a serem enfrentados pela Missão. Uma questão fundamental é a necessidade de renovado fervor nos apóstolos.

Diante dos novos desafios e das novas graças, é urgente uma atitude missionária a exemplo da Igreja primitiva. Existem novos campos de Missão, quase completamente esquecidos, em termos geográficos, sociológicos e culturais. É preciso a "criatividade da caridade, que suscite não só a eficácia dos serviços prestados, mas também a capacidade de tornar-se próximos, solidários com quem sofre, de modo que um gesto de ajuda não seja sentido como uma esmola humilhante, mas como uma partilha fraterna" (Novo Millennio Ineunte, 50). Quanto a nós, devemos viver com paixão o momento presente, sem amarguras nem exclusivismos, sem discussões teóricas e estéreis. As diferenças de dons e carismas, recebidos do mesmo Espírito Santo, enriquecem a evangelização. Com profundo sentido de unidade (que não coincide de forma alguma com uniformidade), constrói-se a Igreja, comunhão de toda a humanidade, como reflexo da vida trinitária de Deus-Amor.

"Que os missionários e missionárias, que consagraram toda a vida para testemunhar entre os povos o Ressuscitado, não se deixem intimidar por dúvidas, incompreensões, rejeições, perseguições. Possam despertar a graça do próprio carisma, e retomar corajosamente a caminhada" (RM 66). As vocações missionárias não germinam onde existe um ambiente de tristeza, onde falta o amor à Igreja e a expectativa de uma alegre esperança. A Missão acontece sendo "alegres na esperança" (Rm 12,12), na esperança que "não decepciona" (Rm 5,5). Cada um dos que crêem e as comunidades cristãs, como corpo eclesial, tornam-se realmente missionários quando são autenticamente solidários a nível universal, ou seja, comunidades e Igrejas-Irmãs, nas quais tudo é partilhado, como expressão do facto de ser "um só coração e uma só alma" (Act 4,32), com abertura universal.

A presente fase da história deve seguir o caminho da esperança "contra toda a esperança" (Rm 4,18). O nosso ponto de apoio não são os poderes deste mundo (riquezas, ambições, honras...), mas a cruz do Senhor, enquanto expressão máxima de doação. Ela é a verdadeira força na fraqueza (cf. 2 Cor 12,10). O nosso momento presente é um momento privilegiado e maravilhoso da História da Salvação, que não podemos desperdiçar, pois é um momento histórico único. Ele é um "kairós", um tempo de graça.

 

3. Uma visão de esperança

Vemos alvorecer uma nova época missionária. A encíclica missionária de João Paulo II afirma a realidade encorajadora, "se todos os cristãos e, especialmente os missionários e as Igrejas jovens, responderem com generosidade e santidade aos apelos e desafios do nosso tempo". Quando surge um novo "carisma" na Igreja, ou quando se vive melhor um "carisma" já recebido, a história transforma-se de modo surpreendente e inesperado. Os sinais dos tempos convidam a reler os acontecimentos da história à luz do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que se comparou ao grão de trigo, que morre na terra para dar abundantes frutos. Hoje, todas as culturas e religiões questionam-nos sobre a nossa experiência específica de Deus. Como discípulos de Cristo, imploram também a nós: "Queremos ver Jesus!" (Jo 12,21).

Pedem aos que crêem não só que falem de Cristo, mas, que o mostrem. Realmente, a Missão consiste em "transmitir aos outros a própria experiência de Jesus" (Redemptores Missio 24) sob a acção do Espírito. A leitura orante da Bíblia é um meio excelente e uma escola missionária para poder dizer como os apóstolos: "Nós vimos o Senhor!" (Jo 20,25).

O anúncio apaixonado de Cristo é fruto do amor apaixonado por Cristo. Reconhecer e ajudar a amadurecer as "sementes do Verbo" (cf. Dei Verbum, 8) é uma prioridade urgente da Missão futura. O Espírito Santo, que semeou estas "sementes", leva-as à maturidade em Cristo. Por que é que, semeadas há séculos, elas ainda não alcançaram a maturidade do encontro com Cristo? Porque Deus quer a nossa colaboração missionária. As "sementes do Verbo" têm necessidade de ver em nós as "marcas" do Verbo, aceitado e vivido pessoalmente nos critérios, valores, atitudes pessoais e comunitárias.

O processo de inculturação e o diálogo inter-religioso desenvolvem-se com autenticidade quando são fruto da contemplação da Palavra, a qual dá a capacidade de descobrir as sementes do Verbo, a Palavra definitiva do Pai, e, portanto, o único Salvador, que não destrói, mas faz que se complete a preparação evangélica que Deus semeou nas culturas e nas religiões. O Cristianismo, ao comunicar esta verdade, deve aprender das outras culturas e religiões (que são portadoras das "sementes do Verbo") para aprofundar e viver melhor os conteúdos da revelação cristã.

"O dever missionário não nos impede de dialogar intimamente, dispostos à escuta. Não raramente o Espírito de Deus, que 'sopra onde quer' (Jo 3,8), suscita na experiência humana universal, apesar das inúmeras contradições, sinais da sua presença, que ajudam os próprios discípulos de Cristo a compreender mais profundamente a mensagem da qual são portadores. Embora procure reconhecer os verdadeiros sinais da presença e do desígnio de Deus, a Igreja reconhece que não só deu, mas também recebeu-os da história e do desenvolvimento da humanidade. O Concílio introduziu também esta atitude de abertura, com atento discernimento, relativamente às outras religiões. Cabe a nós seguir o seu ensino e caminho percorrido com grande fidelidade" (Novo Millennio Ineunte 56).

O verdadeiro profetismo cristão é o testemunho das bem-aventuranças. "O missionário é o homem (e a mulher) das Bem-Aventuranças", afirmou Teresa de Calcutá. É preciso coragem para realizar a renovação eclesial, segundo o estilo de São Francisco de Assis e de tantos santos e fundadores missionários. Os Encontros de Religiões com João Paulo II, em Assis (Itália), em 1986 e 2002, foram antecipações do futuro. Eles não teriam sido possíveis sem o profetismo. São necessários homens e mulheres tocados pela cruz.

Sem a experiência de ter transformado o sofrimento em alegre doação, não existe fecundidade apostólica, porque então faltaria a capacidade de escuta, de serviço humilde, sem privilégios, de gratuidade, de doação incondicionada, de coerência, de pobreza e simplicidade evangélica, de disponibilidade missionária... O sinal da comunhão eclesial é um sinal eficaz de evangelização. A Igreja será missionária, ou seja, "sacramento universal de salvação" (Ad Gentes, 1), na medida em que for reflexo da comunhão trinitária de Deus-Amor. A comunhão eclesial é um facto evangelizador, pois é sinal "sacramental", isto é, um sinal eficaz de evangelização.

As diferenças dos ministérios, vocações e carismas convergem na harmonia de uma família eclesial, na qual o primeiro lugar pertence sempre à caridade. Por isso, o serviço do sucessor de Pedro equivale, segundo a expressão de Santo Inácio de Antioquia, ao serviço daquele que "preside à caridade" universal. As tensões entre os ministérios, vocações e carismas normalmente surgem da defesa de privilégios não evangélicos. As diferenças dos dons recebidos não produzem divisão, uma vez que eles procedem do mesmo Espírito. A construção da justiça e da paz é possível somente à luz do mandamento do amor e por meio de comunidades unidas, que sejam escolas de comunhão universal. A globalização será justa e pacífica, quando se tornar solidariedade autêntica entre todas as famílias dos povos.

 

Finalizando...

Gostaria de fazer uma proposta simples e concreta: retomarmos os principais documentos sobre a Missão. Inicialmente, o Decreto Ad Gentes, sobre a actividade missionária da Igreja, do Concílio Vaticano II, publicado há 40 anos, ainda muito actual e que merece o nosso aprofundamento; a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, sobre a evangelização no mundo contemporâneo, do papa Paulo VI, publicada em 1975; a Encíclica Redemptoris Missio, sobre a permanente validade do mandato missionário, do papa João Paulo II, de 1990. Estes e outros documentos da Igreja universal, e também dos nossos bispos, são fundamentais para a nossa formação e vivência missionárias.

Enfim, a Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, do papa João Paulo II, orienta-nos neste início do terceiro milénio da era cristã: "O mandado missionário introduz-nos no terceiro milénio, convidando-nos ao mesmo entusiasmo dos primeiros cristãos. Podemos contar com a força do Espírito, que veio em Pentecostes, e nos move hoje a prosseguir seguros na esperança que não engana. Acompanha-nos neste caminho a Virgem Santíssima, 'Estrela da Nova Evangelização', aurora luminosa e guia segura no nosso caminho" (58). Sejamos alegres na esperança, porque experimentamos a presença de Cristo que nos acompanha sempre e "nos espera no coração de cada pessoa" (RM 88).

"Que Jesus ressuscitado, que caminha connosco e foi reconhecido pelos discípulos de Emaús ao partir o pão, nos encontre vigilantes e prontos a reconhecer o seu rosto e a correr até nossos irmãos levando a grande notícia: 'Nós vimos o Senhor!'" (59).

Este será certamente o caminho para construir a paz mundial, segundo o desígnio de "recapitular tudo em Cristo" (Ef 1,10). "Com um coração unificado, vivendo com amor e responsabilidade o mistério da Igreja, comunhão missionária, seremos promotores da paz sem fronteiras, prontos a evangelizar generosamente por este mundo fora, a todos os povos, 'ad gentes'".