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O século XXI, terra de missão (Jornadas Missionárias 2007)

isabel_varanda_o_seculo_xxi_terra_de_missaoNão teria a ousadia e a imprudência de generalizar esta reflexão ao mundo inteiro. Já é suficiente ousadia situar a reflexão no âmbito do mundo ocidental europeu. Mundo europeu que Karl Popper diz ser a civilização “mais livre, a mais justa, a mais humana, a melhor de que temos conhecimento na história da humanidade”[1], mesmo tendo tanto de que ser censurada e precisando de tanto aperfeiçoamento.

Também não vou pensar o século XXI em termos cronológicos; é um tempo muito largo e extenso durante o qual a vida abrirá caminho através de configurações inéditas e imprevisíveis. Mas, já estamos no século XXI e devemos olhar e tentar compreender um pouco do tempo actual e deste mundo onde vivemos.

O trabalho, que inicio agora, vai ser completado nas conferências do dia de amanhã, particularmente na primeira, que será proferida pelo padre Manuel Augusto Ferreira. Já se aperceberam, certamente, ao estudar o programa, que os dois temas se solicitam mutuamente: o século XXI, terra de missão; os caminhos da missão no século XXI.

Assim, nesta noite, vou abordar, convosco, alguns dos traços mais salientes do nosso tempo, a nível antropológico, cultural, educacional e religioso, que constituem desafios directos à missão no século XXI.

 

 

1. Perplexidades

 

Começo por enunciar aquilo que já é um lugar-comum: a aceleração dos ritmos globais e locais é de tal ordem que somos como que arrastados numa vertigem de confusão, fascínio e temor diante dos horizontes inéditos que se perfilam.

Para onde vamos? Por que vamos por aqui e por que vamos para aí? Que harmonias saberemos construir? Que perigos nos ameaçam? Onde estão as nossas feridas? “Como entender o que nos está a acontecer: ao nosso mundo, à nossa gente, à nossa existência, ao nosso corpo, ao nosso projecto de vida”?[2]

Vivemos num mundo e num tempo aparentemente sem grandes inspirações: «Quem nos roubou a alma? / De que bruxedo / Que magia incógnita e suprema / Nos enche as almas de dolência e medo / Nesta hora inútil, apagada e extrema?» (Fernando Pessoa, Mensagem).

No final de 2006, um jornalista francês entrevista o filósofo Michel Serres, pedindo-lhe um balanço do ano e o destaque de um aspecto que mais lhe tenha chamado a atenção. Na resposta de Michel Serres vem o desabafo: “mais do que a actualidade, é a tristeza dos meus contemporâneos que me interpela… como se a fé no futuro se tivesse perdido”. Não seria necessário grande esforço para muitos de nós secundarmos este desabafo. Todos percebemos, mais ou menos confusamente, que o mundo actual, o nosso mundo, vive um profundo e perturbador sobressalto antropológico, que se estende à relação com o mundo natural num inquietante sobressalto ecológico. Diz o papa Bento XVI: “creio que o verdadeiro problema na conjuntura histórica actual é o desequilíbrio entre o crescimento incrivelmente rápido do nosso potencial técnico e o das nossas capacidades morais, que não cresceu de maneira proporcional”[3].

O século XXI dá os primeiros passos hesitando, apalpando o terreno, pois a luz escasseia e as zonas de sombra persistem. O nosso mundo carece de luz. Luz que dê visibilidade às opacidades perversas e assim possam ser nomeadas; porque mostrá-las e dar-lhes nome é o primeiro passo para as combatermos. No entanto, já não somos ingénuos. Muitas vezes, os grandes e generosos discursos não passam precisamente disso, discursos generosos, pura retórica de conveniência. Servem simplesmente os interesses de uma consciência em busca de tranquilidade. Para além das demagogias ideológicas, urge uma palavra viva que se traduza em movimento, em acção, numa lógica assente no acolhimento das pessoas, das circunstâncias e dos acontecimentos. Mas, acolher implica aceitar pôr-se em causa diante do outro e em si. Acolher é aprender a equacionar a questão da partilha, da hospitalidade, da diferença, da indigência, do estrangeiro. Aceitar que o outro venha precisamente como outro e tenha lugar no meu coração. Estamos aqui no registo do amor e, todos sabemos, amar alguém traz insegurança. Porque é amar o outro, desejar o outro. Algumas vezes podemos sentir e pensar que não amar é mais seguro, mais controlado, mas depressa percebemos que vale mais amar do que não amar. Como dizia Madre Teresa de Calcutá “Prefiro cometer erros na ternura e afecto a fazer milagres na mais fria indiferença”.

 

 

2. Estatuto e lugar da religião

 

A questão religiosa preocupa muito o mundo de hoje, não só do ponto de visa histórico e sociológico, mas também do ponto de vista individual e pessoal. Da mesma forma que muitos crentes têm dúvidas sobre a sua fé, também os agnósticos têm dúvidas sobre o seu ateísmo ou agnosticismo. “Surge a moda dos conhecimentos esotéricos, a astrologia, a grafologia e o tarot. A perda de confiança nas autoridades tradicionais conduz ao aparecimento de uma legião de sábios, de peritos, de analistas e comentadores”. Para Grace Davie, socióloga das religiões na universidade de Exeter - Grã-Bretanha, “a situação hoje caracteriza um ‘crer sem pertencer’ (believing without belonging). O indivíduo pode ser crente, sem ser membro de uma comunidade eclesial, através de uma espécie de ‘religião por procuração”[4].

Paralelamente ao processo de secularização, imparável ao longo da segunda metade do século XX, alguns investigadores do fenómeno religioso falam, nestes primeiros anos do século XXI, de dessecularização. Esta expressão deve-se ao iminente sociólogo austríaco, radicado nos EUA, Peter Berger, cujas obras, ao longo das últimas décadas, se foram tornando importante referência no campo da sociologia da religião.

Nas décadas de 60 e 70 do século XX, Peter Berger foi um dos principais defensores da teoria da secularização, segundo a qual a modernidade suscita um declínio da religião tanto na sociedade quanto no espírito dos indivíduos. Hoje, Peter Berger considera que a “maior parte das previsões ligadas a este movimento de secularização se revelaram erróneas”. Ele próprio reconhece ter-se enganado. “Com efeito, a modernização tem ‘efeitos secularizadores’; mas ela também engendra um movimento de contra-secularização, que se situa na origem das crenças e práticas religiosas florescentes neste início do século XXI”[5]. O termo dessecularização do mundo pretende significar e descrever precisamente o fracasso da teoria da secularização, cujas obras de referência se situam na década de 50 e 60, mas cujo coração remonta ao século das Luzes. Objectivamente, o mundo secularizado vê-se “na incapacidade intrínseca de responder às questões mais profundas da condição humana”, ao mesmo tempo que se confronta com o problema inédito de assegurar a validação dos pequenos e privados sistemas de sentido (Danielle Hervieu-Léger), resultantes do movimento de secularização. O facto destas questões fundamentais e inevitáveis não obterem resposta, diz Peter Berger, conduz ao “aborrecimento generalizado de um mundo sem deuses”.

A teoria da dessecularização diz que “a ideia segundo a qual vivemos num mundo secularizado é falsa. O mundo de hoje, salvo algumas excepções… é tão furiosamente religioso quanto sempre foi. Em certos contextos é mesmo mais religioso”[6]. Peter Berger diz mesmo que o mundo é “massivamente religioso”. Identificam-se, no entanto, duas excepções. A Europa aparece como excepção à vaga de dessecularização (contra-secularização). Certo, na Europa também surgem novos movimentos religiosos e surgem manifestações religiosas inéditas, mas nada que se compare com o que se passa nos outros continentes. Na cena religiosa internacional, os movimentos conservadores, integristas ou tradicionalistas, emergem por todo o lado, ao mesmo tempo que a força evangélica na América Latina, o ilslão, nos países muçulmanos, o protestantismo pentecostal de tipo evangélico, nos EUA, na América Latina e em África têm uma expressão crescente impressionante.

Uma segunda excepção à dessecularização situa-se ao nível do que Peter Berger chama “elite globalizada”, que representa uma sub-cultura internacional. “Trata-se de pessoas que receberam uma educação superior de tipo ocidental, que é de facto secularizada, e em particular na área das humanidades e das ciências sociais. Esta sub-cultura é o principal vector das crenças e dos valores progressistas herdados das Luzes, vectores de secularização. Se, por um lado, os seus membros não são muito numerosos, eles são, todavia, muito influentes e controlam as instituições que fornecem as definições ‘oficiais’ da realidade, no sistema educativo, nos meios de comunicação de massa e nas cúpulas do Estado”[7].

O que é este movimento de dessecularização? Tem pouco a ver com o “retorno do religioso” ou a “desforra de Deus”, tão evocadas nas últimas décadas, e que parecem anunciar uma restauração do religioso no quadro das instituições antigas. O fenómeno é novo e assumirá, por definição, formas imprevisíveis. Significa em primeiro lugar que o confronto entre a modernidade e a religião não produz resultados unívocos: se por um lado a modernidade conduz à secularização; também conduz, por outro lado, à constituição de movimentos de contra-secularização. Por outro lado, ainda, a secularização da sociedade não corresponde necessariamente à secularização das consciências. “Em muitas sociedades, as instituições religiosas perderam o seu poder e influência, mas as crenças e as práticas religiosas, antigas e novas, não diminuíram nos indivíduos”[8].

Como dizíamos, a Europa aparece como excepção a esta vaga de contra-secularização. A Europa assiste, com relativa indiferença, ao “eclipse de Deus”, preconizando, em nome do valor supremo da laicidade, uma nova Europa e um povo novo para quem Deus se tornou insignificante e que pensa a sua vida “etsi Deus non daretur”. Bento XVI diz que a Europa é culpada de uma espécie de “apostasia” (renúncia pública à fé cristã) da qual João Paulo II já tinha falado, na exortação apostólica Ecclesia in Europa, em termos de “apostasia silenciosa”[9].

É neste contexto de “interacção” entre as forças de secularização e de dessecularização ou contra-secularização, e das novas procuras de Deus que se desenha o campo da missão no século XXI.

 

 

3. A questão moral

 

Podemos observar que, pela primeira vez na história humana, a questão dos valores coloca-se, no Ocidente, com verdadeira radicalidade, num campo cultural confuso e fragilizado. As balizas que até hoje definiam o espaço moral – religiões, ideologias, estruturas sociais, etc. –, diluíram-se e enfraqueceram. Os universos extrínsecos de referência são rejeitados, reenviando o ser humano para si próprio. Esta nova condição traduz-se num vasto leque de atitudes, alicerçado no sentimento comum de que não existe qualquer quadro de referência partilhado por todos, considerado como o único verdadeiro. Cada um tem o direito de organizar a sua própria vida em função daquilo que julga verdadeiramente importante e válido[10]. A autonomia do sujeito apresenta-se, assim, como um traço essencial da modernidade. Assiste-se a um processo irresistível de crescimento da individualização da sociedade, na qual cada um faz valer o seu direito a se desenvolver e realizar pessoalmente. A tendência é de pedir à religião só aquilo “que me faz bem”. Neste contexto, cujo acento é relativista e individualista, é grande o risco de reduzir o nosso universo de valores a meros “caprichos injustificados”, a menos que consigamos dar razão dos valores que defendemos. Não podemos dizer que vivemos num mundo sem valores, vivemos, antes, num mundo com muitas dúvidas sobre os valores.

O passado e o futuro diluem-se, dando lugar a uma cultura do sentido imediato, parcial, desancorado; um sentido que “paira no ar”. O símbolo e o mistério dão lugar à imagem, ao império da imagem[11], do que se vê, do que se dá ao olhar; e não há mais nada para além da epiderme. Como se, com “a alma à flor da pele”, tivéssemos embarcado num metro de superfície. Circula-se num comboio sem apeadeiros subterrâneos, sem profundidade. Perda de profundidade dramática, nos dizeres de Andrè Malraux. Numa entrevista a um jornal francês, em 1955, ele dizia: “O drama do século XXI, não está em os humanos terem perdido os deuses, mas em terem perdido a noção profunda de ser humano”[12]. Drama, porque é nesta profundidade que o ser humano, supostamente, se encontra com o mistério de si mesmo, com o mistério das coisas e com o mistério da vida em geral. Perdido da sua dimensão profunda e perdida a própria profundidade, o mistério extingue-se; o mistério do Humano e com ele o mistério de Deus, como bem evidencia João Paulo II, na exortação apostólica Ecclesia in Europa.

Nos pórticos do terceiro milénio, assistimos a assomos de simplificação que não devem ser entendidos como simplicidade, mas como simplismo. A pobreza antropológica não é uma bem-aventurança; é atrofia e raquitismo.

Se me é permitido traduzir esta leitura através de uma metáfora, diria que vivemos na era dos construtores de tectos (pensemos nas pirâmides do Egipto ou nas flechas góticas das nossas catedrais, rasgando o espaço em altura, apontando para o céu); o humano do século XXI, já não constrói catedrais com as torres rasgando os céus; deixou de olhar as alturas e de nelas se projectar através das suas construções. O seu olhar vira-se para o interior, para o seu interior, e em vez de torres e pirâmides, o humano do século XXI aposta na engenharia de interiores, tornando-se construtor de tectos. Os chamados “tectos falsos” ou pladour – tendência/moda arquitectónica e de ordenação dos espaços – que supostamente cria uma atmosfera mais aconchegada, mais intimista.

Na era dos tectos antropológicos, nunca os humanos se sentiram tão grandes. Ilusão de perspectiva, ilustrada de forma soberba por Max Scheler, ao reflectir sobre os ídolos do conhecimento de si mesmo[13]. Nós não crescemos, os horizontes e as referências é que baixaram, encurtaram. Inscrevemo-nos numa antropologia de cabeça baixa, para não batermos no tecto.

Na era dos construtores de tectos, na era do pladour, construímos tectos falsos no nosso ser e na nossa vida. Os espaços e os lugares perdem altura. Mas, ganhamos em conforto, dizemos, e até nos convencemos que estamos cada vez maiores, mais bonitos, a nossa cabeça quase toca o tecto. Então, pensamos: que grande pessoa eu me tornei. Ilusão antropológica, egocentrismo narcísico, que preconiza o meu ser como medida de tudo; ora, de facto, não fui eu que cresci, foram os tectos que baixaram; eu não estou maior, os tectos antropológicos é que estão mais baixos.

Este movimento de fundo, caracterizado pelo relativismo dos valores, pelo individualismo egocêntrico e pela cultura do imediato e da imagem, coloca importantes desafios à Igreja, não só porque este movimento põe em causa o seu funcionamento institucional (o individualismo recusa as estruturas eclesiais e a sua visibilidade social), mas também porque abana, até aos alicerces, noções fundamentais até então estabelecidas: verdade, fidelidade, autoridade, que deixaram de ter qualquer sentido ou relevância na postura individualista e relativista. Deixaram de ter sentido e olhando este facto de frente, percebemos que há aqui, em primeira-mão um problema de linguagem. Um problema sério particularmente ao nível da linguagem teológica, litúrgica, e pastoral, que se vem acentuando ao longo das últimas décadas e não pode ser ignorado ou negligenciado. Conceitos como salvação, graça, redenção, vinda do Reino, sacrifício, filiação divina, de grande riqueza teológica e construídos ao longo de muitos séculos de história, exprimem conteúdos fundamentais da fé cristã; mas, que recepção encontram por parte dos homens e das mulheres do nosso tempo? Muitos destes conceitos deixaram de ser recebidos, por não encontrarem equivalência no universo semântico das pessoas.

Não podemos ignorar esta dificuldade. Faz parte da dificuldade geral que a sociedade civil tem em compreender o enquadramento que a Igreja católica faz da vida nas suas concretizações múltiplas. Esta situação lembra-nos a necessidade de promover instâncias de comunicação mediada, a renovada formação dos clérigos e dos leigos que potenciem uma pedagógica divulgação e transmissão da doutrina. Porque a Igreja não pode renunciar à Revelação e a tudo o que a sapientia fidelium manteve vivo ao longo dos séculos, é preciso desenvolver esforços no sentido de, em rigor e fidelidade, formular a Revelação em categorias de hoje. A fé é suficientemente forte para passar esta prova.

 

 

4. Crise da emoção ou iliteracia emocional

 

Nas últimas décadas, o cristianismo perdeu muita da sua visibilidade e peso institucional e a vivência da fé foi assumindo progressivamente um carácter mais individual e intimista. Este quadro deve ser lido no contexto da chamada era pós-moderna (transmoderna) da qual ainda gostaria de abordar um dos seus traços característicos, a que chamo iliteracia emocional (contrário de inteligência emocional), ou seja, défice na educação das emoções, decorrente do princípio que norteou a educação ao longo dos séculos, colocando de forma reiterada a emoção sob suspeita. A tese que nos propomos discutir considera este défice em inteligência emocional, de que padece o nosso mundo ocidental, fonte de mal-viver pessoal, de mal-viver nas famílias, nas diferentes comunidades, entre as etnias, entre as nações, entre as religiões[14].

Ao longo das últimas décadas, estudos na área das emoções, levados a cabo por psicólogos e neurobiologistas, com destaque para os Professores António Damásio[15], famoso neurobiologista português, radicado nos EUA e Daniel Goleman[16], psicólogo na universidade de Harvard, trouxeram a questão, até então periférica e irrelevante, para um plano central. Estes dois investigadores, e as suas equipas, têm-se dedicado ao estudo do papel e do estatuto da emoção, do sentimento e da afectividade na vida e da sua relação intrínseca com a razão.

A investigação levada a cabo por António Damásio deita por terra o dualismo cartesiano ao evidenciar a impressionante relevância das emoções nos processos de raciocínio e a concomitante necessidade de se prestar mais atenção à “vulnerabilidade do mundo interior” no processo de “fortalecimento da racionalidade”. Em 1999 publica um grosso volume dedicado ao Corpo, à Emoção e à Neurobiologia da Consciência, ao qual dá o eloquente título O Sentimento de Si e onde é posto em causa o primado da linha intelectualista, reabilitado o campo das emoções e o seu papel fundamental no desenvolvimento da personalidade ao longo de toda a vida. Escreve ele: “Compreender o que são os sentimentos, a forma como funcionam e o seu significado humanos, são passos indispensáveis para a construção futura de uma visão dos seres humanos mais correcta do que a actual, uma visão que tomará em conta todo o espectacular progresso que se tem vindo a fazer nas ciências sociais, nas ciências cognitivas e na biologia… o êxito ou o fracasso da humanidade depende em grande parte do modo como o público e as instituições que governam a vida pública puderem incorporar essa nova perspectiva da natureza humana em princípios, métodos e leis. Compreender a neurobiologia das emoções e dos sentimentos é necessário para que se possam formular princípios, métodos e leis capazes de reduzir o sofrimento humano e engrandecer o florescimento humano”[17].

Ao longo das últimas décadas foram caindo grande parte das ditaduras políticas que dominavam o mundo. Mas a ditadura da razão intelectual, esta foi-se acentuando nos sistemas formais e informais de educação no Ocidente. Apostados no desenvolvimento intelectual, fascinados com o aumento geral do Quociente de Inteligência (QI) nos países desenvolvidos, a inteligência emocional foi atrofiando, por irrelevância e negligência. Como se as lágrimas, o riso, o pudor, a tristeza, a alegria, a ira, a frustração, o ódio e o amor não fossem os nossos companheiros do quotidiano. Como se o grau de excelência humana fosse determinado pela maior ou menor acuidade do espírito de geometria[18]. Como se não fossem as emoções que oferecem a melhor grelha de análise do ser humano relacional.

Por isso, as emoções ainda são vistas como intrusas e impertinentes, apesar de serem a nossa linguagem comum. Muitas vezes “gostaríamos de dissimular aquilo que sentimos. A respiração pára para engolir as lágrimas, estampamos um sorriso para disfarçar os nossos receios, a ira só explode dentro de nós”[19]. No entanto, sabemos por experiência que, por exemplo, “as emoções que não podem ser ditas cavam fossos entre as pessoas que se amam”[20]. Sabemos também que o silêncio das emoções e dos afectos pode ser mais traumatizante do que a dor partilhada: – “Preciso de gritar. Deixem-me, senão abafo”. Mas quantas vezes as emoções são retidas, silenciadas e recalcadas. Não estará aqui uma das razões do alastramento de doenças do foro mental e psicológico, nos dias de hoje? Emoções não exprimidas são emoções deprimidas, recalcadas.

A medicalização da nossa existência com anti-depressivos, que provocam os chamados “sequestros emocionais”, já assume proporções alarmantes. Há algumas semanas, uma amiga, medicada com anti-depressivos[21], há vários meses, dizia-me: “Já não me lembro de chorar. Até tenho saudades. Já nem sei o que isso é. Nos funerais, é um problema; até tenho vergonha, porque não consigo estar triste, nem uma lágrima de solidariedade ou de pena, eu consigo. Por vezes, sinto-me incomodada e faço um esforço para pensar na minha falecida mãe. E aí sim, consigo chorar. As pessoas podem pensar que as minhas lágrimas são de compaixão pela pessoa que partiu ou pela família enlutada, mas são lágrimas pela minha mãe”.Os antidepressivos transformaram-se nos companheiros insubstituíveis de muitas pessoas.

A depressão e a melancolia apossam-se do nosso mundo. Fala-se do século XXI como era da melancolia, tão bem definida no título do livro de Alain Ehrenberg, La fatigue d’être soi[22]. Porquê, se nas sociedades ocidentais, ditas desenvolvidas, as pessoas têm um nível de vida material elevado e possuem, em média, uma elevada capacidade e cultura intelectual? Até dizemos: “parecia ter tudo para ser feliz!”. Tudo leva a crer que a realização pessoal e a chave para uma vida feliz implicam mais do que um quociente de inteligência elevado, e do que um nível económico elevado. Tudo leva a crer que fomos demasiado longe na importância conferida ao “puramente racional – aquilo que o QI mede – na vida humana”, e o preço a pagar pelas desatenções nos gestos educativos já se revela demasiado elevado. Desde pequenos que nos habituaram a privilegiar a razão e a reprimir a emoção através de conselhos e sentenças: o menino não deve chorar, porque chorar é feio; os homens não choram; não tomes decisões de cabeça quente; a paixão é cega; a afeição cega a razão; muito riso pouco siso; tens o coração ao pé da boca; tens um coração de manteiga ou então um coração de pedra. De facto, tantas vezes nos perguntamos como é que determinada pessoa, tão inteligente, tão racional, pôde ter um comportamento ou um desempenho tão irracional. Estava cego de raiva, enfurecido como um touro, loucamente apaixonado, frio como o gelo. E traduzimos o nosso espanto em expressões como: caiu-lhe o verniz; nunca pensei que ele seria capaz disto; nada deixava suspeitar uma tal reacção. Sempre foi uma pessoa calma, gentil, bom pai ou mãe de família, bom vizinho, bom colega de trabalho, e de repente comete o crime mais hediondo.

O facto é que, “para o melhor e para o pior, a inteligência pode não ter o mínimo valor quando as emoções falam (mais alto)”[23], diz Goleman. E também é um facto que, continua ele, “a inteligência académica não dá praticamente qualquer espécie de preparação para o tumulto – ou as oportunidades – que as vicissitudes da vida nos trazem. No entanto, embora um QI elevado não seja garantia de prosperidade, prestígio ou felicidade na vida, as nossas escolas e a nossa cultura estão fixas nas capacidades académicas, ignorando a inteligência emocional”[24]. Revela-se aqui, em primeira instância, uma lacuna no processo de interrogação e de leitura da realidade. Neste processo não é dada qualquer importância ou relevância ao campo da emoção. O primado da linha intelectualista reflecte-se, consequentemente, na nossa prática educativa e no agir formal e informal do quotidiano.

Trata-se de uma problemática complexa mas, a meu juízo, de enorme pertinência para o anúncio e a transmissão da fé. Ouso evocá-la, mesmo que superficialmente, porque estou convencida, e é a tese que defendo, que se continuarmos a descurar a educação das emoções, dos sentimento e afectos, em geral, vamos acabar por nos perdermos de Deus e perder Deus, pois a vida de fé e na fé implica, sem dúvida, a adesão da razão, mas não sobrevive sem a adesão e entrega do coração.

Assistimos hoje, não a um natural processo de transformação e de invenção de novas formas de expressão da fé, mas sim à progressiva diluição e perda da dimensão afectiva da relação com Deus[25]. Paradoxalmente proliferam movimentos religiosos, a que a sociologia chama “nova religiosidade”, nos quais a emoção é exacerbada. Na penúria como no excesso, o défice em educação emocional repercute-se necessariamente na relação com Deus, como se repercute na relação connosco e com os outros. Se continuarmos a descurar a educação da emoção, do afecto, do sentimento, nas gerações vindouras Deus ainda será lembrado/ será pensado, mas já não será amado.

A primeira carta encíclica de Bento XVI Deus caritas est põe o acento na “competência do coração”, bem diferente da sensibilidade epidérmica actual, que se dilui na imagem, no espectáculo, no mediatismo. “Irás procurar o senhor teu Deus, e o encontrarás, se o procurares com todo o teu coração e com todas a tua alma”, diz o Senhor a Moisés (Dt 4,29); “Apenas fica atento a ti mesmo! Presta muita atenção à tua vida, para não te esqueceres das coisas que os teus olhos viram, e para que elas nunca se apartem do teu coração, em nenhum dia da tua vida. Ensina-as aos teus filhos e aos teus netos!” (Dt 4,9). O imperativo da razão deve fazer-se acompanhar do imperativo do coração. O coração simboliza uma outra inteligência: a inteligência de Deus que “tem coração sensível”(Dt 4,29). No contexto do anúncio e da transmissão da fé, esta inteligência divina significa, em primeira lugar, que não podemos anunciar Deus amor como um axioma matemático[26].

Em suma, a urgência do nosso tempo é afectiva. É urgente reaprender a gramática do coração e a justa conjugação dos verbos amar e pensar. A nossa sobrevivência espiritual e mesmo física passa por aqui[27]. Talvez, então, quando a geração dos nossos pais desaparecer, Deus ainda seja lembrado e ainda seja amado.

Diante deste cenário, que é o cenário da nossa vida no mundo actual, onde se perfilam as nossas dúvidas, certezas, temores, confianças, expectativas, desânimos, misérias e grandezas, é pertinente a palavra de Paulo VI, na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi: “As condições da sociedade obrigam-nos a todos a rever os métodos, a procurar, por todos os meios ao alcance, e a estudar o modo de fazer chegar a mensagem cristã ao homem moderno” (§3).

 

 

5. Algumas linhas de acção:

 

1. Apostar na formação contínua e no desenvolvimento de competências de cidadania.

2. Criar observatórios das estruturas e dinâmicas sociais no sentido de uma maior proactividade na intervenção social.

3. Inspirar e alimentar o pensamento e a acção no ideal de “paz e justiça para toda a criação”.

4. A antropologia do crente mudou desde o Vaticano II. A nova evangelização tem de passar, em muitos casos, por uma pré-evangelização. É necessária uma pré-evangelização assente no despertar preparatório do humano. Reaprender a lidar com o Mistério, despertando para a dimensão espiritual da vida.

5. Necessidade de evangelizar as novas formas de religiosidade.

6. Necessidade de evangelizar o diálogo inter-religioso e intercultural como instâncias que contribuem para a emergência de dinâmicas de paz e de respeito pelos direitos fundamentais dos humanos.

7. Renunciar definitivamente a uma “pastoral da inculcação”[28] e centrar-se na “pastoral da proposição”, onde os destinatários não são vistos como meros consumidores, mas mulheres e homens soberanos na tomada de decisão[29]. Esta pastoral de proposição configura-se no tríplice dever, que a natureza íntima da Igreja exprime: “anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia)”[30]. É esta a pastoral que convence: os três elementos em articulação intrínseca e solicitando-se mutuamente.

 

Chegamos até aqui. É altura de concluir, mas fica tudo em aberto. O cristão confia naquele que diz: aconteça o que acontecer “estarei convosco” (Mt 28,20). Isto é uma boa nova. Mas não podemos anunciar uma boa nova que não experimentemos.

O papa Bento XVI, ao exprimir a sua preocupação e a de toda a Igreja com a transmissão da fé às jovens gerações, num contexto cultural marcado pelo agnosticismo, pelo individualismo hedonista, pela indiferença e pelo relativismo, exprime a necessidade de uma “pastoral da inteligência”; inteligência da razão mas também inteligência do coração, já que aquilo que o Evangelho anuncia e oferece é o amor. Como na Encíclica, nos encontros com os jovens, com as famílias, nos discursos em geral, o Papa continua a insistir num amor que não deve ser explicado através de conceitos, mas deve antes ser proposto de forma perceptível e concreta para que as gerações mais jovens se possam abrir à mensagem divinamente humana do Evangelho de Jesus Cristo.

Deus continua a ser Boa notícia. A melhor notícia para o cosmos. Ao lado da vida humana a vida de Deus afirma a plenitude da vida. Somos seres extraordinários, maravilha impensável que supera a nossa própria imaginação. Criaturas de Deus; filhos de Deus. Não saberíamos imaginar para nós próprios algo tão grande, tão extraordinário quanto esta filiação de amor.

Os cristãos devem investir no alargamento do debate social e intra-eclesial, sem paroxismos mas também sem laxismo monótono. Importa prolongar o debate e acompanhar o debate sobre as grandes questões do mundo, resistindo à tentação do imediatismo das respostas, conclusivas e exaustivas; manter a discussão acesa, com serenidade, sustentada no tempo, deixando que o sentido faça o seu caminho, prestando atenção às cinzas, porque a experiência nos ensina que, muitas vezes, debaixo das cinzas, está um braseiro aceso. Importa investir em pedagogias que favoreçam o processo, a dinâmica de cidadania activa, de corresponsabilidade, de direito e dever de tomar a palavra no coração da sociedade, abrindo o debate a outros horizontes de reflexão e apontando pistas que só o cristão, em virtude da especificidade da mundivisão que o Evangelho configura, saberá indiciar. Inscrever a mundivisão cristã na matriz social e marcar a matriz social com a mundivisão cristã.

“A tarefa fundamental da Igreja de todos os tempos e, de modo particular, do nosso tempo, é a de dirigir o olhar do ser humano e de endereçar a consciência e a experiência de toda a humanidade para o mistério de Cristo, de ajudar todos os seres humanos a ter familiaridade com a profundidade da Redenção que se verifica em Cristo Jesus. Simultaneamente toca-se também a esfera mais profunda do ser humano, a esfera – queremos dizer - dos corações humanos, das consciências humanas e das vicissitudes humanas.” (Redemptor Hominis, 10)

Definitivamente, o cristão não pode olhar e pensar o mundo e as suas circunstâncias como se Deus não existisse.

 




[1] Karl Popper, Em busca de um mundo melhor, (Auf der Suche Nach Einer Besseren Welt), Editorial Pergaminho, Lisboa, 19923, 110.

[2] Michel Serres, La Croix, 29 de Dezembro de 2006.

[3] A partir da entrevista dada por Bento XVI aos media alemães e à rádio Vaticano, in Jornal La croix 8 de Setembro de 2006.

[4] Grace Davie, in Jornal La Croix, 29 de Agosto 2006.

[5] Peter Berger, Le réenchantement du monde, Bayard Éditions, Paris, 2001, 6.

[6] Peter Berger, Le réenchantement du monde, op.cit., 24.

[7] Ibidem, 26.

[8] Ibidem.

[9] “A cultura europeia dá a impressão de uma ‘apostasia silenciosa’ por parte do homem saciado, que vive como se Deus não existisse”, in João Paulo II, Ecclesia in Europa (2003) §9.

[10] Este relativismo existencial e ético, hoje tão difundido, representa, basicamente, uma ramificação do individualismo, comportando, pelo menos, o risco de que o indivíduo perca de vista as preocupações que o transcendem, degenerando em formas fúteis e egocêntricas. Devemos, no entanto, tentar compreender a força moral que se dissimula por detrás destas ideias de realização pessoal. De facto, se tentamos explicá-las pelo egoísmo ou pelo laxismo moral ou ainda pela negligência, reportando-nos a uma época antiga mais dura e mais exigente, depressa nos perderemos na avaliação. Falar de permissividade, também não nos conduz longe. Temos de procurar outras chaves de leitura da realidade. Apercebemo-nos, sem qualquer dúvida, de um laxismo moral, mas ele não é exclusivo do nosso tempo. Temos, portanto, de procurar discernir os traços originais e específicos que lhe são próprios.

[11] É paradigmático o facto de os utilizadores da Internet recorrerem cada vez mais a uma identidade virtual. “Os alter egos são em geral versões melhoradas dos seus criadores. Através dos duplos, as pessoas encontram-se e desenvolvem relações, falam umas com as outras por sistemas de mensagens instantâneas. Estudiosos do fenómeno on-line acreditam que um dia estes duplos podem tornar-se o primeiro factor de reconhecimento on-line dos utilizadores da Net. A palavra ‘avatar’, um conceito da mitologia hindu que significa a ‘encarnação de um deus’, entrou no calão dos computadores na década de 1960, mas só recentemente esse tornou um fenómeno cultural de massas: uma imagem estática com uma ‘entidade’ mais avançada, em três dimensões, capaz de se mover, rir, gritar, ou falar, reagindo ao que vai sendo escrito. A Yahoo regista por mês sete milhões de visitantes no seu site de criação de avatares”, in Público, 5 de Dezembro de 2005.

[12] Andrè Malraux, L’Express, 1955.

[13] Max Scheler, Los ídolos del conocimiento de sí mismo (1ª edição, em alemão, em 1911), Ediciones Cristiandad.

[14] A esta tese subjaz uma premissa principal: a emoção humana desempenha um papel fundamental na condução dos destinos do mundo e na construção de uma vida feliz. Não podemos negar que é pelos afectos, muito mais fortes do que a razão, que o ser humano se prende à realidade. Veremos mais à frente em que termos se pode equacionar esta afirmação.

[15] António Damásio, O erro de Descartes. Emoção, razão e cérebro humano, Publicações Europa-América, Mem Martins 199514; Idem, O Sentimento de Si. O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, Publicações Europa-América, Mem Martins 20007; Idem, Ao Encontro de Espinosa. As Emoções Sociais e a Neurobiologia do Sentir, Publicações Europa-América, Mem Martins 2003.

[16] Cf. Daniel Goleman, Inteligência Emocional (1995), Soc. Industrial Gráfica, 1997.

[17] António Damásio, O Sentimento de Si. O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, op. cit., 22.

[18] “No passado, a integração, a identificação com a imagem do grupo, a autoridade, o controlo de si próprio, o conformismo, a obediência, tinham a aprovação de todos. Esses valores são ainda os que a escola pública cultiva, enquanto que o mundo actual pede autonomia, iniciativa, criatividade, realização pessoal, competência, expressão emocional, autenticidade, espírito crítico e empatia... Inteligência emocional e relacional”, in Isabelle Filliozat, A inteligência do coração. Rudimentos de Gramática emocional, Pergaminho, Lisboa 20014, 14.

[19] Isabelle Filliozat, A inteligência do coração..., op. cit., 48.

[20] Ibidem.

[21] “Todas as novas formas de tomada do encargo do indivíduo a que nos convida, pelo seu lado, a televisão com os seus reality shows e as suas emissões de exposição de confidências, participam do mesmo objectivo: tranquilizar os indivíduos erigindo o espectáculo da sua solidão em motivo paradoxal de segurança, podendo cada um deles descobrir na manifestação de uma infelicidade idêntica à sua um certo sinal de reconforto”, in Jean-Paul Fitoussi e Pierre Rosanvallon, A Nova era das Desigualdades…, op. cit., 24-25.

[22] Alain Ehrenberg, La fatigue d’être soi. Dépression et société, Éditions Odile Jacob, Paris, 1998.

[23] Daniel Goleman, Inteligência emocional, op. cit., 16.

[24] Ibidem, 56.

[25] “Prefiro cometer erros na ternura e afecto a fazer milagres na mais fria indiferença” (Madre Teresa de Calcutá).

[26] Vale a pena ler o luminoso livro de Carlo Rocchetta, Teología de la ternura. Un ‘evangelio’ por descubrir, Secretariado Trinitario, Villalobos, 2001.

[27] Vale a pena ler Juan António Reig Pla, Dureté de coeur et avenir de l’homme, in Conseil Pontifical pour la Famille, Lexique. Des termes ambigus et controversés sur la famille, la vie et les questions éthiques (Lexicon, 2003) Pierre Téqui éditeur, 2005, 275-281.

[28] “0 proselitismo é tentar apossar-se de alguém contra a sua vontade; a evangelização não é isso: é escutai, vede, fazei a vossa escolha” (Mgr Vingt-Trois, cardeal de Paris).

[29] Cf. Jornal La Croix, 23 de Maio de 2006.

[30] Bento XVI, Deus caritas est, § 25.

 


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Texto reproduzido com a devida autorização das Obras Missionárias Pontifícias