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Os Caminhos da Missão no Século XXI

manuel_augusto_os_caminhos_da_missao_no_seculo_xxiEstimados amigos e amigas,

Não estamos no Pentecostes, mas eu gostaria de evocar sobre nós neste momento o dom do Pentecostes, o dom do Espírito Santo que se manifesta em harmonia entre quem fala e quem escuta…Como eu gostaria de poder intuir os anseios e as vossas expectativas de missionários, de pessoas, jovens e menos jovens, interessadas na missão cristã no mundo de hoje, para lhes poder corresponder! Como eu gostaria que pudésseis discernir, nas palavras que vos vou dirigir, a mensagem que vos anima na vossa procura, que vos sustenta no vosso empenho, uma palavra que dá resposta e confirma talvez o que tem amadurecido no vosso coração, no vosso esforço de compreensão, na vossa generosidade de doação à missão.

Sois muitos, temos com certeza uma grande variedade de experiências e expectativas entre nós, pelo que será difícil poder corresponder a todas, estar de acordo sobre tudo o que dissermos. Mas no Pentecostes eram muitos mais, com uma variedade de línguas, de origens e de cultura ainda maior. E, não obstante isso, o milagre da harmonia entre quem fala e quem ouve, entre quem anuncia o kerigma cristão e quem o acolhe, aconteceu…e teve início a missão que aqui, mais de dois mil anos depois, continua a convocar-nos e a provocar-nos para darmos resposta à acção sempre imprevisível do Espírito, dom de Cristo ressuscitado e do Pai, dom que está na origem dessa harmonia que invocamos e queremos viver, aqui e agora, durante o tempo desta reflexão.

Procuraremos seguir o seguinte itinerário: Em primeiro lugar, afrontaremos algumas questões radicais sobre a missão no futuro. Depois, em segundo lugar, procuraremos perscrutar quais serão os caminhos da missão no futuro imediato, quais são os modelos que ela adoptará: falaremos de uma missão e muitos caminhos. Em terceiro lugar, veremos em que lugares geográficos ela mais se afirmará: falaremos de uma única missão global e de oportunidades diferentes localizadas. Por último e para concluir, apontaremos algumas condições para que o sonho da missão do futuro se torne realidade.

 


I – Parte: as perguntas radicais

 

1.- A primeira pergunta radical: haverá missão no futuro?

Falando da missão no futuro, e estando na Europa como nós estamos, não podemos deixar de nos colocar a pergunta: haverá missão no futuro? Continuarão as comunidades cristãs a tomar iniciativas para levar Cristo aos outros, mais longe, para lá das próprias fronteiras culturais e eclesiais? A pergunta pode parecer exagerada, mas não podemos deixar de a colocar.

O Papa João Paulo II, de saudosa memoria, no seu livro «Memoria e Identidade» (pag 61 e 62, edição italiana) ao descrever a situação das comunidades cristãs no ocidente reconhece que «a grande epopeia missionaria teve as suas raízes no ocidente europeu, onde hoje surgem dinâmicos movimentos apostólicos…». Mas confessa que «ao mesmo tempo não se podem ignorar o insistente reemergir da recusa de Cristo…nos sinais de uma civilização que, se não é ateia de maneira pragmática, é certamente positivista e agnóstica pois tem como seu fundamento o princípio de pensar e agir como se Deus não existisse». Este ocidente, conclui o Papa, «continua a dar sinais da presença do fermento do evangelho, mas não são menos fortes as correntes da anti-evangelização».

«Correntes da anti-evangelização», diz o Papa em relação à oposição que se verifica na sociedade à presença de uma Igreja, católica, que tome iniciativas missionárias e que viva com acentuado espírito de missão. Tal igreja é acusada imediatamente de proselitismo e de intolerância, de estar contra o espírito da época se pretender ser missionária!

«Correntes da anti-evangelização» diremos nós também em relação a um certo sentido da fé e do viver cristão, que entretanto se afirmou no ocidente, e que leva os católicos a aceitarem com um sentido de fatalidade o meio ambiente em que vivem, a viverem de um modo intimista, a cuidarem de si e a não se incomodarem com anunciar a fé aos outros, aos de fora. Esta atitude está a deixar morrer o sentido missionário da existência cristã em muitas comunidades paroquiais, em alguns movimentos, que vivem o cristianismo de portas para dentro mas não se empenham em o viver de portas para fora, em o comunicar aos outros, nem em mostrar o poder da fé com vistas à transformação social do meio ambiente. Esta sensibilidade está a abrir caminho ao aparecimento da ideia do cristianismo como «religião de minoria», minoria aconchegada e instalada, pequeno rebanho, que aceita o status quo e se retrai na vivência pessoal intimista, deixando a Deus o resto!

Ora o cristianismo sempre foi um pequeno rebanho, mas desde o novo começo que foi a experiência pascal, a Páscoa de Jesus, a sua morte e ressurreição, um pequeno rebanho que se sabia portador de uma mensagem universal em destino e em sentido, e, sobretudo, um pequeno rebanho disposto a testemunhar a acção de Deus cumprida na pessoa de Jesus para benefício de todas as pessoas, sem distinção de cor ou de raça, de povo, língua ou cultura.

Respondendo à pergunta, nós acreditamos que no futuro, e para lá das «correntes anti-evangelização», haverá missão. Porque temos o mandato de Senhor que a isso nos impele, e que continuará a ressoar mais forte que todas as correntes da anti-evangelização.

Porque temos a presença do Espírito que guia a igreja: que conduz a sua coesão e crescimento interno, que a impele para fora das suas fronteiras, criando novas oportunidades para Cristo na história dos povos, e agindo no interior dos corações e das pessoas, preparando-as para a aceitação do anúncio Cristão.

 

2. Segunda pergunta radical: que lugar terá Cristo na missão do futuro?

A segunda pergunta pode parecer ainda mais supérflua que a primeira, mas creio que a temos que fazer: que lugar terá Cristo, a pessoa historicamente consistente e concreta que ele foi, o Cristo da fé proclamado Senhor, Salvador e Redentor, na manhã da ressurreição, que lugar terá Ele na missão do futuro? Que lugar terá o kerigma cristão, isto é, o anúncio da salvação da pessoa humana (do sentido da sua vida e morte) no mistério da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré?

Faço a pergunta porque as «correntes da anti-evangelização» de que falávamos, também as podemos ver em relação ao sentimento, que impera nalguns ambientes, que tende a silenciar o anúncio (o kerigma) cristão: isto é, a fazer uma missão sem anúncio, a construir a identidade de uma Igreja sem Cristo, uma comunidade de causas, mais ou menos abrangentes, onde o anúncio de Cristo e o apelo à fé n’Ele como Salvador se silencia, porque considerado irrelevante, ou não correcto do ponto de vista cultural e ideológico. Encontramos este sentimento difuso nos nossos ambientes culturais e eclesiais europeus. Mas também o encontramos em ambientes de algumas igrejas de recente fundação, como na Ásia, na Índia e no Sri Lanka, por exemplo. Em nome do diálogo inter-cultural e inter-religioso avança-se a necessidade de silenciar o anúncio cristão e relegar Cristo para uma função mediadora secundária.

O Cardeal Giacomo Biffi, que na Quaresma deste ano pregou o retiro anual ao Papa Bento XVI e à Cúria Romana falou desta sensibilidade e alertou para ela. «Hoje, de facto, corremos o risco de ter um cristianismo que põe entre parêntesis Jesus e a Sua Cruz e ressurreição» reconhece ele. E diz que «se os Cristãos se limitassem a falar de valores compartilháveis, seriam mais aceites nos programas de televisão e nos grupos sociais. Mas desta maneira teriam renunciado a Jesus, à realidade surpreendente da ressurreição». E, em linha com o que o Papa Bento XVI tem vindo a sublinhar, ele conclui que «o cristianismo não pode ser reduzido a um conjunto de valores. No centro do ser cristão está o encontro pessoal com Jesus Cristo».

Nós podemos concluir também, nessa linha de pensamento, que «a missão não pode ser reduzida à promoção de um conjunto de valores», por mais abrangentes ou universais, ou de moda, que eles sejam. No centro da missão está esse objectivo irrenunciável, sublime e gratuito, do «encontro pessoal com Jesus Cristo». Isto é, a missão continuará a ser essa complexa empresa que tende a colocar a pessoa humana diante de Cristo e deixar que a graça divina e a liberdade humana decidam o sempre misterioso e imprevisível desfecho desse encontro.

 

3.- Terceira pergunta: que lugar terá a Igreja na missão do futuro?

A terceira pergunta radical que temos que nos fazer, e que porventura também estranhais, é que lugar terá a igreja na missão do futuro?

Tradicionalmente a Igreja era vista como sujeito e objecto da missão.

Em primeiro lugar, sujeito, na medida em que a missão nascia sempre numa comunidade eclesial que elegia, preparava e enviava os missionários para o testemunho e o anúncio cristão no mundo (os institutos missionários, que tradicionalmente preparavam os missionários, eram vistos também como expressão da missionariedade das igrejas locais).

Em segundo lugar, objecto, na medida em que a Igreja era vista como o objectivo da missão: os missionários miravam sempre à convocação das pessoas em comunidades de fé; o objectivo numero um da missão era reunir as pessoas em igreja, fundar a Igreja.

Hoje chegámos a uma situação bastante diferente.

Pela multiplicidade das dimensões e dos sentidos de missão, como adiante veremos, os missionários acabaram por se desentender das igrejas locais que os enviaram e acabaram por se alienar em relação às igrejas locais que ajudaram a estabelecer. A missão abriu espaço para muito protagonismo individual, justificado por uma grande variedade de causas, que fez esquecer o protagonismo ecclesial.

Diante da necessidade de situar a missão no contexto da Igreja local, sobre a qual eu insistia, um colega meu dizia-me sem rodeios: «eu estou aqui (o aqui era uma cidade do nordeste brasileiro) não pela igreja local. Eu estou aqui pelo Reino. O que me interessa é o Reino, não a Igreja».

O reino contraposto à Igreja! Uma missão desentendida com a Igreja! A posição do meu colega foi, e é ainda, muito generalizada entre alguns missionários, particularmente entre aqueles que abraçaram algumas causas e as servem para além dos confins das igrejas locais onde vivem, à revelia dos seus programas, por vezes em oposição aos lideres eclesiais locais.

Este desconforto para com as igrejas locais, da parte dos missionários, varia. É menor em relação às igrejas locais de onde os missionários vieram: com estas procuram ter alguma relação, pois precisam do seu suporte e ajuda. É maior em relação às igrejas locais onde são enviados a fazer missão. Os missionários são tentados a fazer missão por conta própria (segundo as suas próprias capacidades, iniciativas e meios…) mais do que por conta da Igreja local, isto é, segundo os seus planos, os seus ritmos e os seus meios. Mas aqui reside um desafio importante para os missionários do futuro: a missão terá que ser cada vez mais feita por conta da Igreja local que os acolhe, já que a igreja local é sempre o sujeito da missão e é da igreja local que o missionária/a individual, em ultima instância, recebe a missão.

Este desconforto do missionário face à igreja local, manda a verdade dizer, não é responsabilidade somente do missionário ou fruto da sua má vontade. Resulta também, em boa parte, de uma situação que o ultrapassa, que nos ultrapassa a todos, e espera ainda por melhor resolução. Refiro-me ao facto que transportámos modelos de igreja da Europa para a Africa, as Américas e a Ásia, que não são facilmente adaptáveis, que será muito difícil, por não dizer impossível, sustentar no futuro. Alguns missionários, que vêem longe, recusam-se a trabalhar por um objectivo que não tem sentido nem futuro, por um modelo de igreja e de ministérios que não é possível sustentar e que estão destinados a implodir. E por isso interrogam-se: que sentido tem estabelecer comunidades cristãs que não vão poder dispor de sacerdotes e ministros adequados? Que sentido tem criar estruturas que é impossível sustentar localmente e que colocarão as comunidades em eterna dependência económica e ministerial?! Que sentido tem criar dioceses, paróquias, sem condições de futuro, só para conquistar o território, assegurar uma presença estratégica ou geográfica?!

Como vedes, a questão do lugar da igreja na missão é séria e tem que ser colocada quando pensamos no futuro. A nossa resposta é positiva, que a igreja terá lugar na missão do futuro, mas o modelo de igreja, de ministérios que a constroem e expandem, tem que ser revisto, na linha de uma maior incarnação, de uma mais evidente inculturação dos mesmos. As igrejas locais que a missão do futuro der à luz serão assim sustentáveis a partir das pessoas que as compõem, têm que ser de casa do ponto de vista cultural, nas suas expressões litúrgicas e artísticas, nos ritmos da sua vida interna e do seu testemunho externo.

 

 

II Parte - Os caminhos da missão no futuro:

Uma missão, muitas dimensões, muitos caminhos.

 

Tendo respondido às questões radicais, de fundo, sobre a missão no futuro, podemos agora voltar-nos para a questão dos caminhos da missão no século que nos é dado começar.

Ao falarmos dos caminhos da missão no futuro temos que, por um lado, ter consciência de onde viemos (de nos situarmos com relação ao passado recente) e, por outro, de tentar discernir e perceber os desafios do futuro, as oportunidades que o Espírito está a abrir para o Evangelho nos complexos processos de transformação porque está a passar a sociedade e a igreja.

Durante as últimas décadas, sobretudo nos tempos que se seguiram ao Concílio Vaticano II, a «única» missão cristã afirmou-se numa série de dimensões, de realizações e num pluralismo de linguagem que temos que recordar. Foram muitas as vozes novas que se acrescentaram ao dicionário da missão cristã. Esta exuberância de vocabulário, de conceitos, de sentido, por um lado, mostrou a vitalidade da missão e a sua importância na vida da Igreja. Mas, por outro, conduziu-nos a uma complexidade de compreensão e pôs a nu a necessidade de integrarmos todas as dimensões da missão cristã numa nova síntese, que, creio, é o nosso desafio no futuro imediato.

 

1- Missão como «fundação da Igreja».

Tradicionalmente, como já mencionámos acima, chegámos ao Vaticano II considerando a missão como a «plantatio ecclesiae», uma iniciativa que incluía o anúncio do kerigma cristão, a catequese fundamental de uma visão cristã do mundo e a convocação das pessoas em Igreja, em comunidade estabelecida sobre um determinado território, chamada a crescer e tornar-se igreja local de pleno título. Os missionários partiam para anunciar o Evangelho e fundar novas igrejas.

 

2- Missão como «transformação social».

Depois, passou-se a sublinhar o conceito de «missão como acção em favor do desenvolvimento e da transformação social». O concilio defendeu que a acção pela justiça e pela paz eram parte integrante da missão da Igreja. Os missionários, sobretudo na América Latina, empenharam-se nos processos de transformação social e de revolução política. Também na África, o desenvolvimento e o envolvimento dos missionários no campo social obteve prioridade: a Africa precisava tanto (e ainda precisa) de escolas, hospitais, vias de comunicação, e esta necessidade do continente que mais ficou para trás do ponto de vista social e económico, clamava por esta missão entendida sobretudo como empenho na transformação social.

 

3- Missão como «diálogo».

Depois, sobretudo na Ásia, passou a falar-se de missão como «presença, diálogo de vida e testemunho». No continente das grandes religiões, a Igreja percebeu que tinha um único caminho a percorrer para nele entrar e ser de casa: o caminho do diálogo de vida e de fé com os seguidores das grandes religiões asiáticas, herdeiros de tradições religiosas mais antigas que a cristã e socialmente muito enraizadas. Mas, também na África, os missionários perceberam que tinham que valorizar mais as religiões tradicionais do continente e dialogar com os seus seguidores e promotores. E igualmente na América Latina a história da evangelização foi revisitada: reconheceram-se erros do passado e procurou-se resgatar os valores dos cultos afro-americanos e das religiões das populações índias.

 

4- Missão como «justiça e salvaguarda da natureza».

Por fim e com o advento da globalização, passámos a falar de missão como envolvimento em todas as causas politicamente correctas e abraçadas pelo espírito da época: missão passou a significar também a promoção da justiça nas trocas comerciais (o comércio solidário), da paz nas relações entre os povos, do respeito entre as culturas e as religiões (o ecumenismo religioso e cultural), da defesa e salvaguarda do ambiente e da criação (a ecologia). Os missionários passaram assim a andar vestidos de fato, camisa e gravata, e a passearem-se pelos corredores dos novos centros de poder do mundo global, as instituições da União Europeia em Bruxelas e da Organização das Nações Unidas em Nova Iorque para oferecer projectos alternativos de relações políticas e comerciais. Os caminhos da missão passaram pelos vários forums de intervenção ideológica e social, para participar nos debates sobre os problemas da humanidade, para promover as campanhas das causas politicamente correctas, das causas que se consideram prioritárias para o futuro imediato dos povos unidos, a bem ou a mal, pela globalização.

 

5- Derrapagem e deriva actual.

No meio de tanta variedade de missão, de maneiras de ver e viver a missão, chegámos ao momento actual que parece ser o de uma certa derrapagem e deriva. Tudo é missão, por um lado, e aparentemente bem. Mas, por outro, já não sabemos com clareza o que é missão…o que é, obviamente, mau para o sentido da nossa identidade cristã.

As várias dimensões da missão desenvolveram-se em paralelo, cada uma por sua conta, reclamando o empenho e o engenho dos missionários que a elas se dedicaram. Mas correram o risco de perder contacto entre si, de não se manterem unidas como partes de um todo – a missão cristã no mundo de hoje - que as supera. Sobretudo, a consequência mais óbvia é que no meio de tanta diversidade e novidade, o sentido original da missão cristã diluiu-se e quase desapareceu nalgumas instâncias. O anúncio cristão silenciou-se ou passou para um segundo lugar, em muitos casos dispensável porque incómodo ou difícil de fazer. No caminho do combate pelas causas politicamente correctas, os missionários cristãos apareceram muitas vezes identificados com o espírito da época e acabaram por perder os sinais da identidade cristã.

Os missionários e a missão foram protagonistas, tornaram-se conhecidos, e a comunicação social, ainda hoje, interessa-se por eles como promotores de causas significativas, politica e culturalmente correctas, mas desconhece-os como portadores de um evangelho que fala de uma vida nova e que está ligado à pessoa de Jesus de Nazaré, morto pela nossa reconciliação e ressuscitado para nossa justificação. Em menor ou maior grau, segundo as circunstâncias e situações, temos que reconhecer que chegámos a uma situação de alguma deriva. O Papa Bento XVI chamou-a, no Brasil e em relação à América, de «confusão desnorteadora».

 

6- A necessidade de uma nova síntese.

Por isso, falando dos caminhos de missão no século XXI, das suas múltiplas dimensões, importa começar por sublinhar a necessidade de uma nova síntese, necessidade particularmente sentida neste começo de século. Percebemos que a missão do futuro tem que procurar manter unidas entre si todas estas dimensões, e outras novas que surjam no caminhar da Igreja, neste difícil século que agora começamos.

E não só unidas entre si! As várias dimensões terão que se manter, como raios de uma roda, unidas a um centro unificador que lhes dá sentido e consistência: esse centro é a dimensão kerigmática, o anúncio cristão, a pessoa de Cristo. A missão do futuro terá que mostrar mais as motivações cristãs do seu envolvimento na transformação social e no diálogo inter-cultural e religioso, na justiça das trocas comerciais numa economia globalizada ou na ecologia. Os povos chegarão, por si e sem o nosso contributo, à transformação social, à justiça no comércio, ao equilíbrio ecológico. Mas não chegarão, sem os missionários e a missão cristã, a Cristo e ao seu Evangelho, à beleza das bem-aventuranças, à fraternidade e à justiça do Reino.

Nesta deriva da multiplicidade das dimensões da missão cristã, perderam-se as metodologias do primeiro anúncio cristão, as pedagogias da iniciação cristã. A missão do futuro tem que as recuperar para colocar de novo o anúncio como fundamento da missão cristã. O tal «sal da terra e a luz do mundo» de que falava Jesus. A tal «medida de fermento», pequena e escondida, mas que uma vez colocada na massa a transforma desde dentro, com um poder que ninguém nem nada poderá parar.

Com a clareza que lhe é própria, o Papa Bento XVI falou aos bispos da América Latina da necessidade desta nova síntese, a olhar para a frente, com um grande sentido de confiança no futuro, na história conduzida pelo Espírito. Ele falou de dar um passo para a frente, «um salto de qualidade», insistindo na necessidade de «recomeçar, a partir de Cristo, em todas as dimensões da missão», dando prioridade «à fé em Cristo e à vida n’Ele». E a igreja, protagonista desta missão, assume-se, na multiplicidade das forças vivas que a compõem, como «comunidade de acolhimento», como «lugar privilegiado de encontro com Deus, mediante um itinerário catequético permanente…que fundamenta o compromisso missionário na Palavra de Deus».

Esta nova síntese e este salto de qualidade não é uma fuga para a frente que evita as várias dimensões da missão para privilegiar a kerigmática, o anúncio. O salto de qualidade da missão do futuro não implica a renúncia ao empenho na transformação social, pois como também lembrou o Papa na ocasião acima referida «a fé em Cristo implica uma praxis de vida baseada no dúplice mandamento do amor, a Deus e ao próximo, e integra portanto a dimensão social». O salto de qualidade que se espera da missão no futuro implica, sim, a consciência de que, para além dos sistemas de organização social, política e económica a que a missão pode contribuir, «a amizade com o Filho de Deus encarnado e a luz da sua Palavra serão sempre condições fundamentais para a presença e a eficácia da justiça e do amor nas nossas sociedades». O salto de qualidade que se espera da missão do futuro implica, sobretudo, que os missionários testemunhem a sua fé com alegria, autenticidade e liberdade, pois a Igreja de Cristo não cresce pela virtude das causas que promove, pelo impacto social que obtém nos media ou pela propaganda que faz de si própria: a igreja, recordou Bento XVI aos bispos americanos, «não faz proselitismo, mas cresce por atracção!».

 

7- A missão como «companhia».

Para poderem dar este «salto de qualidade» e operar uma «nova síntese» entre todas as dimensões da missão, os missionários têm que introduzir no seu vocabulário uma voz, antiga mas sempre nova, e uma voz significativa da missão cristã no novo milénio: a «missão como companhia!». Não me refiro simplesmente à fraternidade entre os que anunciam o Evangelho, à dimensão da comunhão universal que tem caracterizado a missão cristã desde os seus inícios. Refiro-me à companhia que os missionários estão chamados a fazer a Cristo, a um Cristo cada vez mais excluído na nossa sociedade globalizada, um Cristo que não é tido em conta nem socialmente considerado. Nuns lados mais que noutros, mas cada vez mais excluído e socialmente insignificante.

Um missionário meu amigo, que viveu alguns anos na China e depois de expulso em 1948 passou toda a sua vida a trabalhar pela igreja na China, chamava a minha atenção, com algum humor, para esta nova dimensão da missão cristã: «Se vais como missionário para a Africa ou para a América ainda poderás tornar-te ministro de Cristo Rei! Se vais para a China, com certeza acabas companheiro de um Cristo excluído e socialmente insignificante».

Sim, a missão do futuro vai ser feita muito de companhia a Cristo, a um Cristo que sente e sofre a frustração de ver as pessoas insensíveis à sua proposta de vida, um Cristo que cada vez mais não dispõe de visibilidade nem de sinais de relevância cultural ou política, um Cristo que continua à espera que o testemunho do seu amor faça cair os muros com que a indiferença do secularismo reinante e do hedonismo materialista fazem tudo para o isolar na sociedade consumista globalizada.

A missão como «companhia a Cristo excluído» não vai ser exclusiva da China ou da Ásia, ou do mundo Islâmico, onde Cristo é de facto socialmente excluído. Também na África e nas Américas, Cristo está a perder relevância social. E nos países do norte do mundo, na Europa de modo particular, muitas são as tentativas em acto para excluir Cristo da vida social e o tornar culturalmente irrelevante. Por isso, os missionários do futuro irão precisar de desenvolver um sentido forte de amizade com Cristo, e uma ideia de missão como identidade de destino com Ele, um fazer-lhe companhia assumindo o risco de serem com Ele excluídos…mesmo fisicamente pela expulsão, a perseguição e a morte. Por isso, e nesta linha de reflexão, o autentico missionário, como alguém já escreveu, é o mártir, aquele e aquela que vive esta dimensão de companhia fielmente até ao fim (no ano passado foram mortos 26 companheiros e companheiras de Jesus). Gostaria de citar aqui uma passagem de um deles (o P.e André Santoro, morto na Turquia), uma passagem citada também pelo Papa Bento XVI ao falar da amizade com Jesus a que são chamados os missionários do futuro: «Estou aqui para viver no meio desta gente e permitir a Cristo fazer o mesmo através da minha presença. Tornamo-nos instrumentos de salvação oferecendo a nossa humanidade, carregando e compartindo o mal, absorvendo-o na nossa carne como fez Jesus».

Sim, a missão do futuro irá pedir aos missionários a capacidade de fazer companhia a Jesus na sua kenose, no seu itinerário de humildade e abaixamento, de modo que ele assuma a nossa humanidade para poder viver hoje no nosso mundo e transformá-lo com o seu Evangelho da Vida.

 

 

III Parte – A missão do futuro: uma missão global, num único mundo global, mas com diferentes oportunidades (situações de kairos)

 

Os caminhos da missão no século XXI têm também uma variedade geográfica que interessa sublinhar. Por um lado, a missão do futuro será global, acontecerá em todos os lugares, no meio de todos os povos, agora aproximados pelo complexo processo da globalização em curso. Mas, por outro lado e apesar de ser global, a missão do futuro será também diversificada, localizada, reflectindo a variedade de situações que a igreja irá enfrentar. E nessa variedade de situações, umas serão mais oportunidades do que outras, isto é, umas serão mais favoráveis do que outras ao anúncio do Evangelho. Esta situação não resulta de um simples evoluir humano, mais ou menos fatal. Resulta, sim, da acção do Espírito de Deus que conduz o andamento da história humana e que, de maneira imprevista e imperscrutável abre caminhos novos ao Evangelho. O desafio para o missionário do futuro é estar atento a essa acção e discernir as oportunidades que o Espírito de Deus oferece à missão no meio das vicissitudes da história humana. O missionário do futuro terá que ser assim profeta, isto é, capaz de revelar o sentido escondido dos acontecimentos, de expor esta acção misteriosa do Espírito que cria oportunidades novas para o evangelho e a Igreja.

Também nós neste nosso exercício de reflexão, temos que tentar perscrutar quais serão essas oportunidades.

 

1- Consolidação na Africa.

O ano de 2007 começou com boas notícias para a igreja e para a missão na África. As estatísticas divulgadas (em Março) falam de um crescimento da Igreja sobre todas as frentes: número de fiéis, vocações, bispos, sacerdotes, número de jovens em formação. Alguém falou que a África constitui o motor de crescimento da igreja no século XXI.

Números à parte, o que nos interessa aqui sublinhar é o seguinte: o Cristianismo está definitivamente enraizado na África a sul do Sahara, é de casa como mostram as igrejas cheias, as cerimónias exuberantes, os seminários e as casas de formação com grande vitalidade! Depois de uma fase em que se levou o Evangelho ao continente e os missionários tiveram um papel de primeira importância (sobretudo na segunda metade do século XIX e em todo o século XX) chegamos agora a uma nova fase que, por um lado, será de consolidação das metas alcançadas e, por outro, terá nos africanos os principais actores e protagonistas. Eles, os leigos, os bispos, o clero, os consagrados terão que assumir as duas tarefas prioritárias da missão cristã na África: a consolidação da fé e das comunidades, por via da inculturação do Cristianismo; e a continuação da evangelização, a missão tanto nos territórios das suas igrejas locais como nos vários países do continente.

A Africa é e continuará a ser um continente com grandes carências no campo social e político. Mas o envolvimento da missão nos processos de transformação social terá necessariamente que passar sobretudo pelos africanos. Eles mesmos já se aperceberam disso e já estão envolvidos na procura da reconciliação e da paz no continente. Este será o tema do próximo sínodo geral, a ter lugar em Outubro de 2009. O próximo sínodo africano, o segundo da igreja africana, irá reflectir sobre esta situação e pedir aos cristãos que protagonizem uma missão capaz de fazer incidir o evangelho na vida social, uma missão mais activa e interveniente no âmbito da reconciliação e da paz entre os povos do continente. O facto de o Cristianismo ser de casa dá-nos esperança que os africanos saberão encontrar os caminhos da missão no continente neste século XXI, de modo a serem missionários de si próprios, como profeticamente já o Papa Paulo VI os tinha desafiado a ser, aquando da sua visita a Campala, no Uganda.

 

2- Implosão nas Américas.

Em Maio passado realizou-se, em Aparecida no Brasil, a V Conferencia geral do episcopado latino-americano. O Papa Bento XVI, como sabeis, esteve presente na abertura da conferência, confirmando a importância deste acontecimento para a Igreja no continente e não só. Paulo VI estivera presente na conferência de Medellin na Colombia (em 1968) e João Paulo II esteve também presente na de Puebla, no México, (em 1979) e na de Santo Domingo, na república Dominicana (em 1992).

A V Conferência Geral dos bispos americanos iniciou-se sob o signo da implosão das igrejas do continente que tem no massivo êxodo dos fiéis, da Igreja católica para as igrejas neo pentecostais, as seitas, o sinal mais evidente, entre outros, como podem ser (segundo Paulo Suess) «a perda de qualidade da presença missionária da Igreja no meio do povo», a «falta de poder de atracção ecclesial», a «falta de credibilidade da igreja que fez muitas promessas ao povo mas não cumpriu» (em 25 anos a Igreja católica do Brasil perdeu um quarto dos seus fiéis, são 600 mil fiéis que cada ano se afastam, segundo os dados recentes da Datafolha de 6 de Maio deste ano).

Ao tentar fazer uma analise da situação da igreja e discernir os caminhos do futuro, numa clarificação apostólica que se impunha para evitar a implosão das suas igrejas resultante das contradições do passado e dos efeitos devastadores da globalização, os bispos latino americanos reflectiram sobre a missão cristã no continente. O tema da conferência foi: «Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele os povos do continente tenham vida». E a conferência sonhou com um grande «envio missionário», um gesto significativo a indicar o desafio que espera a igreja latino americana no século XXI: uma renovada iniciativa missionária que tenha no anúncio de Cristo e nos itinerários de iniciação à vida cristã os seus pontos fortes, para se superarem as tradicionais contradições do cristianismo no continente.

O tema da conferência e as reflexões que ele produziu, o documento que dela saiu irão, com toda a certeza, constituir os elementos proféticos a anteciparem os caminhos da missão no continente americano, caminhos que tendo em conta as mudanças em curso na sociedade, irão levar a uma atenção maior ao kerigma, ao anúncio cristão, e ter nos leigos em geral e nos novos movimentos e comunidades em particular os principais protagonistas. Neste sentido, não creio que é preciso muito para ser profeta e dizer que no continente latino-americano se irá viver nos próximos anos a tentativa mais significativa de «re-definir a missão cristã» e de a «re-situar» face à variedade das dimensões que ela terá sempre que integrar e aos novos desafios da secularização e do hedonismo que a globalização vai inevitavelmente acentuar. Digo mais significativa, porque as igrejas do continente latino-americano têm alguns elementos que outras não têm: o maior número de católicos do mundo, uma grande variedade de recursos humanos e materiais, de que outras igrejas, como as da África e Ásia, não dispõem.

 

3- A crise instalada no norte

Se o começo do século XXI surpreendeu as igrejas locais latino-americanas com os sinais de uma certa implosão, nos países e continentes do norte, o século XXI confirmou o espírito de crise instalada nas igrejas locais. É paradoxal, mas é assim: as sociedades desenvolvidas dos países do norte, da Europa e da América do norte, acabaram por ser aquelas onde a missão cristã encontra as mais sérias dificuldades neste começo de século.

Algumas destas dificuldades provêm da situação interna das igrejas locais, a braços com a crise dos ministérios e a falta de ministros ordenados. Outras dificuldades são externas, têm a ver com o ambiente, com o materialismo e a indiferença religiosa, o individualismo e o hedonismo da sociedade post moderna, desenvolvida e tecnológica.

Como resultado desta situação, as igrejas locais nos países do norte parecem ter perdido a capacidade de anunciar Cristo, tanto nos seus territórios como longe deles, no meio de outros povos e culturas. O número dos missionários oriundos das igrejas do norte diminuiu dramaticamente na segunda metade do século XX e não se vê possibilidade de aumento no futuro imediato. Os Institutos Missionários, que tradicionalmente canalizaram o empenho missionário das igrejas do norte estão a atravessar uma fase de diminuição de pessoal e de redução de iniciativas missionárias. O discurso predominante é o que visa «redesenhar o mapa das suas presenças e reduzir os empenhos» pois as novas vocações missionárias, originárias das igrejas do sul, afiguram-se insuficientes para sustentar os compromissos missionários.

As igrejas locais da Europa, alguns institutos religiosos e as novas comunidades, mostraram uma certa iniciativa missionária em relação ao leste europeu, em resposta aos apelos do Papa João Paulo II, iniciativa que constituiu uma oportunidade missionária e será no futuro imediato uma reserva espiritual de que beneficiará todo o continente. Em relação à missão nos outros continentes, as Igrejas locais da Europa e os Institutos Missionários têm por diante um desafio comum a resolver: encontrar novos esquemas de colaboração com as igrejas locais dos outros continentes, colaboração na missão cristã que lhes é comum e que passa por uma maior partilha de pessoas e meios, de experiências e de metodologias. O desafio é maior, sobretudo, para os institutos missionários nascidos nas igrejas locais do norte e que deverão rever os esquemas da sua presença e acção nessas igrejas. Num momento em que a maioria dos seus membros passarão a ser originários das igrejas do sul, não faz sentido pensar a missão cristã como movimento do norte para sul. Os institutos deverão eventualmente começar por rever os esquemas da sua presença nas igrejas locais do norte e afirmar-se como «grandes movimentos missionários» que unem as igrejas locais do norte e do sul no projecto comum da missão universal. Neste sentido, os institutos poderão afirmar-se mais como movimentos abertos (do que como institutos fechados em si…), com uma grande variedade de pertenças e envolvimento, com mais claras metodologias de anúncio e de iniciação cristã, com um renovado poder de convocação e com uma actualizada capacidade de intervenção nos processos de transformação social.

 

4- A oportunidade na Ásia

O Papa João Paulo II morreu com a convicção de que a Ásia constitui o continente que oferecerá a grande oportunidade para a missão cristã no século XXI. Ele referia-se a este continente como «a nossa comum tarefa missionária para o século XXI». O que é que o fazia pensar assim? Onde estavam as razões deste optimismo missionário em relação à Ásia?

Fundamentalmente em três factores.

Primeiro, a evolução cultural e política de alguns países asiáticos, uma evolução no sentido da abertura e da tolerância, que abriu novas possibilidades para a missão cristã (veja-se a evolução da situação em países como o Vietname, a Índia e a China…).

Segundo, o facto de as religiões na Ásia estarem a experimentar um «revival», uma fase de grande renovação e vitalidade. Esta fase não pode senão ser benéfica para a missão cristã, apesar de nalguns lugares se verificar com uma componente fundamentalista (como o Induismo na Índia e o Islão na Indonésia e Paquistão…). O actual momento de renovação religiosa na Ásia só poderá ajudar a criar condições para um encontro positivo das religiões asiáticas com o Evangelho e com Cristo.

Terceiro, o facto de a própria igreja ter hoje recursos asiáticos, pessoas e meios, para a missão na Ásia. Este facto é, historicamente falando, único e novo. No passado, os missionários para a Ásia partiam dos países da Europa e na América do norte. Hoje existem no continente comunidades cristãs vibrantes, (basta lembrar a Coreia do Sul, as Filipinas, o estado do Kerala na Índia, a região de Hebei na China…) com pessoas e recursos, para sustentarem a missão no continente e, sobretudo, para a fazerem de uma maneira mais inculturada. No passado, a missão cristã na Ásia não teve sucesso porque apareceu aos olhos dos asiáticos como cultural e religiosamente estrangeira, levada a cabo por estrangeiros e alheia nos seus símbolos e linguagem. No futuro próximo teremos todas as condições para que a missão cristã tenha sucesso na Ásia e a comunidade daqueles que acreditam em Cristo, a igreja, apareça, culturalmente falando, como sendo de casa na Ásia. Então, a missão cristã terá pernas para andar, pelos caminhos do diálogo de vida e de fé, e assim enriquecer com o Evangelho a tradição religiosa do continente e trazer para a Igreja Católica o rico património religioso dos povos e das culturas asiáticos.

 

 

Conclusão

 

Como conclusão, gostaria de sublinhar duas condições, duas estações, por onde os caminhos da missão terão que passar no futuro imediato. Poderíamos falar de muitas mas escolhemos as duas que me parecem mais significativas de cara ao futuro: a beleza (o estilo) e a autenticidade (o testemunho).

 

1.-Primeira condição: a beleza, como estilo.

Os caminhos da missão cristã no mundo foram sempre difíceis…talvez por isso tradicionalmente se sublinhasse o heroísmo que é necessário para os percorrer e as dificuldades de que estão cheios. Esquecemo-nos com frequência de mencionar a beleza da missão e dos seus caminhos, a beleza de Deus, de quem é a missão, e das criaturas a quem se destina a missão. Como são belos os pés dos mensageiros da boa notícia!, refere a Escritura já no antigo testamento. E Jesus promete a sua alegria, a alegria plena aos mensageiros do seu Evangelho. Hoje temos um Papa que nos recorda que o Senhor Jesus é o «Pastor da Beleza» e que só a beleza, a Sua beleza, salvará o mundo. Sim temos um Papa que nos recorda que a missão tem que palmilhar os caminhos da pessoa humana, que são caminhos de beleza, de aspiração pela beleza e pelo bem. E isto não só porque o escritor russo (F. Dostoiévski, que o Papa não tem pejo de citar) o afirmou. Mas, sobretudo, porque os caminhos da missão têm que encontrar, acompanhar, a pessoa humana na sua sede de beleza e transcendência.

No passado insistimos também no estado de pobreza e exclusão em que se encontram os povos, os pobres, os destinatários prioritários do Evangelho. Mas mesmo na pobreza a pessoa humana é a obra-prima do criador e tem sede de beleza. Não roubemos aos pobres o tesouro da beleza que possuem, não apaguemos, com as exigências do desenvolvimento material, a sede de beleza e transcendência. Como recordou o Papa na América Latina esse é o mal-entendido do nosso tempo, da missão cristã no nosso tempo também, que a missão do futuro terá que ultrapassar, clarificar: «A realidade são só os bens materiais, os problemas sociais, económicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século!».

As tomadas de posição, porventura provocadoras e polémicas deste Papa, convidam os missionários do futuro a percorrer o caminho da beleza: «não há nada de mais belo» diz ele, «do que ser surpreendido pelo Evangelho, por Cristo. Como não há nada de mais belo do que conhecê-lo e comunicar aos outros a amizade com Ele». Fazer o anúncio cristão pelos caminhos da beleza (da contemplação, da arte, da musica e da pintura…) pelos caminhos da transfiguração humana, para além dos caminhos da transformação sócio-política, é o desafio da missão cristã no século novo em que estamos a entrar.

 

2.- Segunda condição: a autenticidade (o testemunho).

Entre os muitos recados que o Papa João Paulo II deixou aos missionários (na Redemptoris Missio) há um que gostaria de recordar para indicar o caminho necessário porque tem que passar a missão do futuro: o caminho do testemunho autêntico, da qualidade de vida cristã, do martírio. O Papa disse: «o autêntico missionário é o santo», fazendo eco a uma afirmação de Paulo VI que, por sua vez dizia (na Evangelii Nuntiandi), que o «o verdadeiro missionário é o/a testemunha», recordando que o mundo «ouve com agrado os pregadores mas segue sobretudo os testemunhas».

Temos que admitir que, na raiz do fracasso da missão cristã nalgumas instâncias está a falta de testemunho dos cristãos em geral e dos missionários em particular. Os caminhos da missão no futuro evidenciarão que, para além dos métodos, dos lugares e dos tempos, há uma exigência comum, o método dos métodos: o testemunho da vida do missionário, a autenticidade da vida daquele/a que anuncia com palavras e obras a amizade e o empenho de vida que o ligam a Cristo. A autenticidade de vida é requerida pelo mestre no discurso missionário (Mateus 10 e paralelos) e permanece como razão da eficácia da missão cristã no mundo.

 

Epílogo: missão e sonho

Estamos a chegar ao fim da nossa reflexão sobre os «Caminhos da missão no século XXI». Gostaria de terminar com uma referência mais pessoal, não tanto em relação à minha pessoa, mas à minha geração. Eu e muita gente da minha geração sentimo-nos hoje uma geração órfã de profetas, que abundaram na nossa juventude e a encheram de sonhos, de sentido de missão e mística de transformação ecclesial e social.

Recordo que, quando eu era estudante de teologia em Roma, percorríamos a Europa em auto stop e participávamos com muita ilusão nas manifestações onde falavam os profetas do nosso tempo: Raul Follereau, o Abbé Pierre. Íamos a Lopiano em Florença e a Taizé na França ouvir Clara Lubich e o Irmão Roger, à procura de respostas para os anseios ecuménicos, de unidade e de um testemunho cristão válido «para que o mundo acredite».

Quando comecei o serviço missionário em Lisboa, em 1976, com as armas do jornalismo e da intervenção cívica, a dirigir a Além-Mar e a escrever no Expresso, acompanhei as primeiras viagens apostólicas do Papa João Paulo II ao México e ao Brasil. Encontrei os bispos Mendez Arceo e Pedro Casaldáliga, entrevistei Dom Hélder Câmara e D. Paulo Arns. Eles eram as ícones, as imagens de uma transformação eclesial com que sonhávamos, de uma missão que partindo do anúncio do evangelho terminava na transformação social e nos valores do Reino.

Quando fui para a Africa pela primeira vez em 1985, para Nairobi, tive ocasião de encontrar pessoalmente e de conviver com a Madre Teresa de Calcutá, nas suas passagens e estadias em Nairobi. Ela, certamente mais que ninguém, viveu da maneira que mais provocou a minha geração: passar das motivações ideológicas para as motivações do evangelho na missão que vivemos, da missão como tarefa para a missão como companhia a Cristo e aos pobres, que só o amor, o Seu por nós e o nosso pobre por Ele e pelos nossos irmãos, poderia sustentar.

Todas estas personagens que aqui recordo, com saudade, foram os profetas que nos fizeram sonhar e nos deixaram com a tarefa de realizarmos o sonho, de servirmos a missão cristã nos tempos que nos foi dado viver. Certamente neste serviço foi mais o que ficou por realizar do que o que conseguimos viver e transmitir. Mas, para além do que conseguimos ou não realizar, o desafio maior que se nos coloca é fazer sonhar também a geração que nos vai suceder. É fazer-vos sonhar a vós, de modo a que a missão cristã continue a palmilhar os caminhos do nosso mundo e a tocar a vida dos nossos contemporâneos. A fazer-vos sonhar, mais do que nós, será o Espírito de Deus, que os Padres da Igreja chamavam «êxtase do Pai» e que vos fará viver em êxtase, capazes de sair de vós para irdes aos outros e lhes levardes o Evangelho do Filho, a boa nova de que somos filhos e filhas de Deus.

Sim, a missão do futuro está no segredo do coração de Deus e do vosso coração. Será a missão que desde toda a eternidade Deus sonhou, a «missio Dei», aquela que teve e tem o seu momento mais alto e mais excelso na missão do Filho e do seu Espírito. Será a missão que vós sonhardes!

Sim, a responsabilidade maior da minha geração está na capacidade de testemunhar eficazmente esta missão, de vos fazer sonhar e de vos passar a bandeira do testemunho: a missão do futuro é de Deus, é vossa! Passa pelos caminhos, sempre cheios de surpresas, do Seu amor e da vossa generosidade!

 


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Texto reproduzido com a devida autorização das Obras Missionárias Pontifícias