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Paulo e a evangelização da cidade (JMN 2009)

antonio_rego_paulo_e_a_evangelizacao_da_cidadeRecordo que me foi pedido mais de uma vez, no ano Paulino, para falar sobre Paulo e a Comunicação, Paulo e os meios modernos de evangelização, Paulo e a rádio, jornais, internet e mais uma série de temas. Fui quase sempre dizendo que não.

Neste ano de S. Paulo quase todos os temas lhe batiam à porta.

Tão vasto e intemporal foi esse homem

que merecia uma aproximação de cada realidade

da história humana e eclesial.

Fui dizendo vários nãos, confesso, por respeito para com Paulo. Falar dele e ligá-lo a um qualquer tema pode ser insolente e oportunista. Ou prestar-se a divagações onde nos pregamos mais a nós próprios que ao Cristo que ele anunciou.

 

2 - Se parece fácil dele fazer uma síntese, difícil é apresentá-lo em profundidade sem um estudo exaustivo, paciente, livre, disponível, para aprender e não predisposto para ensinar ou revelar pormenores  picarescos ou fair divers líricos ou de oportunidade. Por isso Paulo me deixa algum temor.

Estudei-o quanto estuda um estudante de teologia, mas reconheço que tenho levado a vida inteira a tentar aproximar-me do pensamento de Paulo como um homem decisivo na formulação teológica do cristianismo. E quem sou eu para o analisar?

Começo pois com um  profundo acto de humildade na certeza de que nada do que eu disser se considera definitivo.

Quando muito uma aproximação.

Se quiserem comigo correr esse risco, convido-vos a uma viagem fascinante com o Apóstolo Paulo de perto.

 

3 - Já terei andado por muitas das cidades por onde ele andou. E por causa dele, para melhor o entender e aprofundar.

Bebi água junto à sua fonte em Tarso.

Percorri quase uma a uma as pedras que ele pisou.

E lembrei-me nos diferentes lugares de reportagem: Paulo andou por aqui não muitos anos depois de ter nascido Jesus. Poderiam ter-se encontrado. Mas não. Mais tarde Paulo perguntaria por ele que fulminantemente veio ao seu encontro.

 

4 - Saulo nasceu numa cidade rival de Roma e Atenas na cultura: Tarso.

Os seus habitantes ganham o direito de cidadania romana. Saulo aprende a língua grega e vive a cultura romana. A juntar a isso a escola de judeu e israelita. É ao mesmo tempo escola e lugar de culto.

Paulo não perde nada e começa a trabalhar por dentro esse magma cultural com uma sede insaciável do conhecimento.

O estudo das Escrituras faculta-lhe um saber e um amor profundo ao seu povo. Sem transigência. Radical.

Quando vai a Jerusalém e encontra Gamaliel, em adolescente,

já tem  uma estrutura interior sólida.

Facilmente se torna fariseu, duro e pouco disposto a escutar doutrinas que não fossem a de um Deus, um povo, uma palavra, uma fé e uma lei. Quem não está comigo é contra mim.

E todos os que pensavam ou viviam de forma diferente, se tornavam seus inimigos. Se estava ali a verdade inteira, quem se atrevia a falar-lhe dum Deus diferente?

Diante deste Deus os deuses eram menos que nada .E a defesa não era apenas da religião, mas da tradição, dos costumes.

Resistia por isso  à mudança com receio de perder o seu melhor.

Mexer nas tradições era fazer estremecer o edifício da fé e da história do povo hebreu.É que  não havia um compêndio de história e outro de fé .A única história era a Bíblia, com Deus, a lei, o povo, a aliança, a vitória sobre os inimigos. Uma bíblia apenas fazia toda a história.

Para quê contar outras ou retocar esta? Estava aqui a lei e os profetas.

 

5 - A certa altura Gamaliel ficou para trás. Saulo deixou de ser discípulo. Tornou-se reconhecidamente um mestre. Um ícone, um modelo. E encomenda-se-lhe um trabalho exaltante e cruel: dizimar o grande inimigo que surgia. Era um grupo em crescendo, seguidor de um tal Jesus. Ainda não eram conhecidos como cristãos. Eram tidos como “caminho”. Constituíam um perigo desestabilizador de toda esta sequência harmoniosa da história do povo hebreu sem a mais pequena distinção entre história pátria e história religiosa.

E os seguidores de Jesus ameaçavam a tradição dos pais e a lei mosaica.

Estava aberto um conflito. Saulo preparava tudo minuciosamente e até a perseguição aos cristãos procurava que fosse justificada pela autoridade, como conta o livro dos Actos:

Saulo…, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote,

e pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, caso encontrasse alguns do Caminho, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.

 

6 - Mas Saulo vai travar outro combate:

Não era a primeira vez que tal acontecia nas escrituras.

Uma espécie de combate leal onde a arma de Deus

é a luz com aspecto fulminante

mas que na realidade liberta da cegueira,

apesar de poder provocar uma cegueira nos olhos.

É a desconcertante luz de Deus. Quase sempre nas montanhas. Desta vez interrompendo a escrupulosa missão de Saulo em Damasco.

 

Percorri esta estrada à procura do que fosse o local onde Paulo tombou do alto do seu orgulho. Não encontrei o ponto preciso.

Estou a ver esta longa estrada.

Hoje tem asfalto como linha divisória dum deserto.

A luz do sol a bater-me forte e um recorte de nuvens negras,

com as franjas recortadas de branco algodão, impossíveis de fixar.

O sol cega-nos e devora o horizonte. Ainda me atrevi, contra todas as regras, a fixar o sol no local por onde Paulo passou…

Quando desço o olhar à terra nada vejo durante uns momentos.

Não tive a experiência de Saulo

nem a minha alma se converteu definitivamente, como gostaria. Cheguei a pensar nisso na minha ingénua mas fraca fé.

Se me fosse concedido o dom de apóstolo daquela luz possuído.

E da paixão de Saulo e da certeza de o ressuscitado me encandear em cada segundo…

Mas, seguindo ele viagem e aproximando-se de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu;

e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?

Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? Respondeu o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; (Act 9,3)

 

7 - Nem todos olham este facto com o mesmo deslumbramento.

Teixeira de Pascoais, por exemplo, acha que Paulo nunca se converteu.

Que apenas passou o resto da vida devorado pelo remorso na sequência do martírio de Estêvão. Mas Paulo foi mais longe.

E o seu mistério, pelo que nos foi possível revelar na vida que viveu, nos contou e reflectiu.

Saulo ouviu uma voz que já conhecemos, que, sei lá, já teremos ouvido no nosso íntimo nos momentos em que a nossa alma anda perdida nos desertos do ódio, da perseguição, da intriga, pensando que essa é a vontade de Deus, quando é apenas a nossa.

Quando nos perdemos da caridade ou do respeito pelos outros, ou duma intransigência fanática.

essa voz não nos anda distante

quando atravessamos a cidade farisaicamente, de olhar condenatório pelos que não pensam ou falam como nós:

”Saulo, Saulo, porque me persegues?”Sabemos o resto.

Ouvimos esta frase exaustivamente ao longo do ano Paulino.

Mas é diferente ouvir de passagem e parar, cair e, prostrado por terra, desarmados dos nossos corcéis  de orgulho, percebermos que todo o pulsar da nossa existência, na respiração da nossa vida, no âmago do nosso ser, compreendermos que Ele é o Jesus que nós perseguimos.

 

8 - Aqui Saulo fica perdido e desarmado. Por terra. Humilhado. Húmus com húmus, quase como o pó donde veio e aonde regressará…

Saulo toca o limite da condição humana, da terra e do céu, do abismo e da altitude. Como que se embebe de tudo o que dirá aos judeus, helénicos, cristãos, cidades que irá percorrer e a quem, de diversos modos, irá contar a história fascinante deste encontro que parecia breve e se tornou eterno.

Saulo vê cair todos os seus fantasmas, aprende o que é o espírito e a lei.

 

9 - Entro em casa de Ananías. É hoje uma capela simples aonde se desce silenciosamente. As escadas não são as mesmas.

Mas presumo o que terá pensado e sentido Saulo na descida àquela cave fresca, longe dos raios abrasivos de sol que o terão atingido,

deixando-o a um tempo exausto, renascido, cego e iluminado.

Percebe que esse Jesus por vezes intervém directamente e em força,

mas o normal é através daqueles que escolhe para dEle serem sinal.

Saulo está como que a renascer, ou ressurgir, passando à luz do dia com o baptismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito.

Os visitantes desse dia glorioso nunca mais lhe sairiam da alma.

E ele logo percebe que foi chamado ao baptismo ao mesmo tempo

que foi chamado a ser apóstolo.

O último, pensa ele. Um dos primeiros, pensará a comunidade cristã

e os estudiosos que nas Palavras de Paulo tentarão,

ao longo dos tempos, perceber o percurso de Deus  na história.

Levanta-te e entra na cidade, e lá te será dito o que te cumpre fazer. (Act 9,6)

Os homens que viajavam com ele quedaram-se emudecidos, ouvindo, na verdade, a voz, mas não vendo ninguém. (Act 9,7)

Saulo levantou-se da terra e, abrindo os olhos, não via coisa alguma; e, guiando-o pela mão, conduziram-no a Damasco. (Act 9,8)

 

10 -  Aqui acabou Saulo

Começa Paulo

Afinal toda esta história tem outro nome: o encontro com o ressuscitado. Paulo tem de começar a vida de novo. Viu o Senhor, encontrou-se com Ele. Fixou a hora. Era meio dia.

É uma nova criação, para ele, um novo céu e uma nova terra.

E assenta no real. “Eu sou Jesus a quem tu persegues”.

Eu sou a Igreja. Não é apenas uma revelação:

é a descoberta da comunidade como um manto imenso que prolonga na história a vida de Jesus.

É meio dia mas parece que uma sombra enorme abriga uma multidão incontável que irá beber um pouco da luz que se difunde do rosto ofuscante de Jesus.

Em movimento contínuo, na história da salvação.

Trata-se da ligação ao povo eleito, ao seu povo que vai ganhar uma dimensão de universalidade que Paulo vislumbra.

A cidade, a nova cidade em que entra

é essa multidão incontável onde se incluem os gentios

que terão rosto no painel incontável dos 144 mil assinalados.

Basta que o espírito se torne mais importante que a lei.

Tal como os profetas de outrora Paulo entende o chamamento e não recusa.

 

11 - O baptismo de Paulo. Eu te baptizo em água e em luz, no fogo do Espírito

Ora, havia em Damasco certo discípulo chamado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! Respondeu ele: Eis-me aqui, Senhor. (Act 9,10)

Ordenou-lhe o Senhor: Levanta-te, vai à rua chamada Direita e procura em casa de Judas um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele está orando; (Act 9,11)

e viu um homem chamado Ananias entrar e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista. (Act 9,12)

 

Transformado, transfigurado, deixou de ser o centro de si mesmo.

Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

Começa, por isso, uma viagem difícil. Dolorosa, envergonhada. Luminosa, com a glória da Cruz que começa a pesar.

Em direcção à comunidade cristã.

Entrar na comunidade que havia perseguido. Ele já era discípulo.

Quem acreditaria neste homem com as mãos manchadas de sangue? Paulo vai à comunidade de Damasco como que tocar a figura de Jesus. Vê, ouve e integra-se. Nada fácil. O seu novo amor é difícil.

Todos o conheciam dos tempos piores:

Fanático, radical, feroz contra os seguidores de Jesus.

Como pode agora o lobo vestir pele de cordeiro e ser um do rebanho?

Foi uma fase muito dolorosa. Paulo sente que expia o pecado de perseguidor. Estevão e o seu martírio  estavam na memória de todos.

E Paulo, como um fantasma, do lado dos algozes, técnico da crueldade que apoiava os carrascos.

Muitas vezes tiveram os cristãos de recordar o 70 vezes 7 para aceitarem Saulo, que agora se auto denominava Paulo, para ser um deles.

 

Não teve muito tempo de seminário. Vocação adulta par tiu para a missão na cidade com tudo o que tinha aprendido desde a infância e com a lição suprema do caminho de Damasco. Foi rápido o estágio. Tinha  urgência em partir,depois de conhecer Pedro .

Paulo iniciou o seu ministério numa ilha – Chipre. Seria porque Barnabé, companheiro de Paulo, era de Chipre? (Actos 4:36). É possível. Paulo terminou o seu ministério missionário numa outra ilha, segundo o livro de Actos. Foi na Ilha de Malta (Actos 28:1).Lugar misterioso. Isaías escreve acerca das ilhas como lugar escolhido de Deus para receber o seu anúncio(Isaías 42:4 e 12; 51:5). Em ambas as ilhas, Paulo teve sérios problemas quando ali chegou (Actos 13:6-11 e Actos 28:3-5). Após a luta vieram as vitórias!

 

12 - Prosseguiu o seu aprofundamento na fé, através de uma viagem à Arábia, onde parece ter permanecido por mais de um ano, interiorizando o mistério de Cristo. Ao contrário dos outros Apóstolos, Paulo não O conhecera pessoalmente, nem ouvira a pregação de seus próprios lábios. Os Evangelhos ainda não haviam sido escritos. Portanto, o que lhe restava para descobrir sobre a Verdade da Fé era o eco daquele encontro sobrenatural, que ele deve ter meditado em oração, no silêncio do deserto da Arábia. A decisão de ser Apóstolo dos Gentios surgiu, possivelmente, naquele período, num contacto muito íntimo com o Cristo, e com os Apóstolos Pedro, Tiago e João.

Ele reconhece: “Eu sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus sou o que sou, e a graça que Ele me deu não tem sido inútil” (1Cor 15.) “Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo” (Gl 1,11)

 

13 - Aberto o céu Paulo partiu em 3 viagens para uma quantidade incansável de regiões e  cidades –

Seleucia, Antioquia, Chipre, Salamina, Pafos, Perge, Galácia, Siria, Cilícia, Frigia; Misia, Macedónia, Filipos, Tessalónica, Corinto, Éfeso, Jerusalém…

De quase todas nos falam as Cartas que a comunidade cristã se habituou a chamar de S. Paulo.

Que são um verdadeiro compêndio de doutrina, mística, pastoral, moral, espiritualidade. Os cristãos conhecem-nas. A Igreja na sua liturgia enquadra-as  na oração, na catequese, na escuta, na celebração dos grandes mistérios cristãos.

 

16- Foi Paulo quem criou a comunicação escrita do cristianismo. Escreve como fala, em grego, mas com uma mentalidade diferente dos gregos. Mas assimila a sabedoria dos gregos e entende por inteiro esse povo, como se fosse o seu. Mas é cidadão romano. É o grande escritor do Novo Testamento. Antes mesmo dos evangelhos. Mas as suas cartas são pastorais e fazem doutrina a partir da realidade. Paulo quando escreve não especula de baixo para cima. Pensa nas suas comunidades, nos problemas e necessidades concretas e a partir daí conta tudo o que sabe e sente sobre Jesus e a sua missão. Paulo escreve em grego mas a sua forma de pensar é de um mestre judeu. O Antigo Testamento passa por Jesus. Este, com a sua vida e acção ilumina o Antigo e o Novo Testamento.

Escreve a Timóteo: “Prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência” (2 Tim 4,1), a que Santo Agostinho deu uma interpretação paradigmática: “Oportunamente para quem? Inoportunamente para quem? Oportunamente para quem quer ouvir, inoportunamente para quem não quer ouvir” (Sermão 46)

 

17 - As cartas de Paulo são a sua imagem. Meigo, carinhoso, severo por vezes. Não teme ameaças ou castigo. Compara as comunidades à mãe que acaricia os filhos. Ama os seus fiéis e dá tudo por eles. É um pai que educa e que gera cristãos. Ama todos e todas as comunidades. Mas o mapa da cidade de Deus que desenha como alvo atinge todos. Os lugares que procura e as pessoas a quem fala são o seu programa pastoral de Apóstolo. Não houve púlpito que Paulo não subisse, nem género que não utilizasse.

Desse espírito muitos partem para a universalidade cultural de Paulo: no tempo da Igreja nascente, na interacção com os padres da Igreja, os monges do deserto, com a a austeridade românica, a mística da Idade média, com a nostalgia pagã do renascimento, com a força  lógica do iluminismo, com a modernidade e com o hoje novo e desafiante onde se procura o oráculo em cada janela da televisão, em cada base de computador, página da net, clic de rede social, toque de telemóvel, sinal de satélite, impulso digital, comunicação estonteante do planeta que nunca esteve, como hoje na concha das mãos, acessível em altura e profundidade, nas dimensões mais vistosas da imagem e na sua distância mínima da realidade, para não falar do átomo digital, da velocidade com que se atravessa o planeta e se volta a casa. O apóstolo das gentes tem dados e métodos para visitar, subir e proclamar do alto desta Atenas dos tempos modernos a Agora íntima e circular onde o Evangelho de Jesus ocupe um lugar de aconchego, questionamento e quietude.

 

18 – D Bíblica

A grande preocupação de Paulo consiste em levar o Evangelho, pregado no ambiente da Palestina, para o mundo greco-romano. Por isso, as suas Cartas representam o primeiro e o maior esforço de "inculturação do Evangelho". A passagem da cultura semita para a cultura helenista deve-se sobretudo a Paulo, que levou o Evangelho anunciado por Jesus de Nazaré até às mais remotas regiões do Império Romano. Isto não quer dizer que Paulo tivesse em menor consideração a igreja de Jerusalém e a doutrina da Tradição por ela veiculada (ver Gl 2,2). A sua "visão de Damasco", não se opondo à doutrina tradicional, apenas justifica o seu "Evangelho", isto é, o novo sistema de justiça fundado sobre a fé e não sobre as obras da Lei, interpretadas no sistema farisaico, que era o seu, 20- É na segunda carta aos Coríntios, depois de muito andar, dizer, ouvir e sofrer e alegrar-se, que Paulo escreve o seu currículo em tom dramático, quase forense. Mas com uma verdade cristalina que lhe envolve corpo e alma, fé e incarnação na realidade:

2ª Coríntios

"São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? - Falo a delirar - eu ainda mais: muito mais pelos trabalhos, muito mais pelas prisões, imensamente mais pelos açoites, muitas vezes em perigo de morte.

Cinco vezes recebi dos Judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com vergastadas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei, e passei uma noite e um dia no alto mar.

Viagens a pé sem conta, perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus irmãos de raça, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos da parte dos falsos irmãos! Trabalhos e duras fadigas, muitas noites sem dormir, fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez!
Além de outras coisas, a minha preocupação quotidiana, a solicitude por todas as igrejas! Quem é fraco, sem que eu o seja também? Quem tropeça, sem que eu me sinta queimar de dor?

Se é mesmo preciso gloriar-se, é da minha fraqueza que me gloriarei. O Deus e Pai do Senhor Jesus, que é bendito para sempre, sabe que não minto" (2 Cor 11,22-31).quando era rabino (Gl 3,23-24)

 

21 - Quem pode duvidar da inteligência e entrega radical deste homem pelo Cristo crucificado e ressuscitado e pela comunidade, pelas comunidades por quem deu  a vida, gota a gota e no derramamento de sangue?

A história costuma ler-se sempre do princípio para o fim, de lá para cá. Mas há situações que se tornam como que eternas e que permitem o exercício de a ler ao contrário. Paulo é um caso destes. Chegar até ele partindo dos nossos adquiridos de hoje e até da nossa linguagem.

Será sempre interessante conjugar com Paulo os direitos humanos que ele proclama sem ser à nossa maneira, a dignidade da mulher sem os tiques feministas, o lugar primordial que elas desempenham na Igreja nascente com os seus carismas ao serviço da comunidade, tal como os homens; a defesa dos escravos contra a lógica vigente, a justiça dos que trabalham, o tratamento de todos por irmãos, a dignidade dos mais pobres, a estatura  dos intelectuais, o respeito pelos estrangeiros, a pureza essencial do amor, a grandiosidade do casamento, o lugar profético do celibato, a dimensão humana e divina da sexualidade próxima do acto criador de Deus; a sacralidade dos mistérios cristãos, a pureza de alma para receber o Corpo e o Sangue de Cristo, o homem Novo, o Novo Adão que ele sempre coloca como esfinge de Cristo; o Ressuscitado como a marca inedelével do cristianismo.

 

22 – Não podemos partir sem uma visita ainda que breve a uma cidade única no mundo: Atenas

É um lugar universal. De Tales de Mileto, que em seu sistema filosófico defendia o princípio de que tudo estava na água. “A coisa de maior extensão no mundo é o universo, a mais rápida é o pensamento, a mais sábia é o tempo e mais cara e agradável é realizar a vontade de Deus”.

De Sócrates, abrindo novos caminhos ao pensamento. Do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo.”

De Platão, Aristóteles e outros que procuraram explicar o mundo exterior e o íntimo do homem, esse velho mistério. Paulo sabia o que se passava em matéria de arte, arquitectura, Atenas era um espectáculo ininterrupto e passeava-se de orgulho pela sua beleza e pelo alcance dos seu pensadores. Que, diga-se, muitas vezes iam à Agora e areópago discutir questões menores, espécie de intelectuais de hoje que não perdem intriga nem telenovela. O universo cultural de então tinha características semelhantes aos intelectuais que levam debaixo do braço o JL e na pasta o jornal da Bola e a revista Caras.

Atenas era uma cidade de núcleos humanos diversos onde os judeus se integravam. Em Atenas não havia descrentes. Todos eram religiosos. O problema estava  na ilusão de deus, a troca de Deus com os deuses, como uma etapa. Paulo tentou contactos e falar com quem se atravessava na sua frente. Mas era um terreno minado,  de conceitos arreigados e preconceitos mais presos ao chão que os rochedos e os monumentos. Mas havia ali uma história, um património a respeitar e donde partir para o anúncio de Jesus. Tentou, sem êxito contactos..

Duas palavras foram repetidas até à exaustão: Jesus, ressuscitado.

 

23 - Subo o areópago, essa espécie de lugar divino hoje pequena montanha de pedra branca e refaço a cena de Paulo em terreno estrangeiro. E lembro os missionários que chegam a uma cidade ou aldeia, sabendo que, mesmo com o domínio da língua, estão num terreno minado de resistências. Falar do ressuscitado é uma loucura que pode ter como réplica o protesto , a expulsão do missionário ou o encolher de ombros.

“O Areópago, esse mítico de lugar divino,  ficava no sopé de dois montes e foi assim chamado em honra do deus da guerra; servia de sala de audiências e reuniões solenes. Durante o primeiro século, o termo Areópago era mais tomado como sinônimo de conselho do que de lugar. Conjecturas tem havido de que Paulo falara na Ágora, centro político, comercial e social de Atenas, que era uma praça circundada por muitos edifícios públicos; na Ágora, Paulo teria falado aos frequentadores do Areópago, cujas tarefas mais comuns eram o controle sobre a religião e a moral.

Aceitando o desafio de falar publicamente em local apropriado. Paulo teve a oportunidade de expor o evangelho aos atenienses. Na sua pregação, referiu-se ao que observara na cidade e seus arredores. Quis claramente partir duma experiência e dum conhecimento concreto dos atenienses. Atacou numa evidência : uma estátua ao deus desconhecido. Um altar encontrado no monte Palatino, em Roma, tem a seguinte inscrição: “Consagrado a um deus ou deusa.” Este não tem imagem e é feito de pedra. Mais tarde um viajante, relatou que vira no caminho de Atenas para Pireu “altares de deuses chamados desconhecidos”. Paulo faz uma alocução filosófica perante os sábios de Atenas.

 

24 - Fez o que se diz em oratória captatio benevolentiae.Um discurso,dir-se-ia hoje aberto e tolerante. Reconhecendo que os atenienses são religiosos. Revela conhecimento e apreço pela cidade onde fala:”Passando e observando os vossos monumentos sagrados

 

ACTOS, 17

Os homens que foram com Paulo  levaram-no até Atenas, partindo depois com instruções para que Silas e Timóteo se juntassem a ele, logo que  fosse possível.

Enquanto esperava por eles em Atenas, Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos.

Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam.

Alguns filósofos epicureus e estóicos começaram a discutir com ele.Perguntavam: "O que quererá dizer esse tagarela?" Outros diziam: "Parece que ele está anunciando deuses estrangeiros", porque Paulo pregava Jesus e a ressurreição.

Então  tomaram -no e  levaram-no a uma reunião do Areópago, onde lhe perguntaram: "Podemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?

De facto as coisas que dizes são-nos estranhas.

(Todos os atenienses e estrangeiros que ali viviam não faziam outra coisa senão falar ou ouvir as últimas novidades.)

Então, Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: "Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente os vossos objectos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO.Pois bem, esse Deus que adorais sem conhecer é exactamente Aquele que vos anuncio..

"O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do céu e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas.

Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque Ele mesmo é que  a todos dá vida, respiração e tudo o mais.

Assim fez para que procurassem a Deus e para ver se O descobririam ainda que seja às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós  pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os vossos poetas  disseram: somos da raça do próprio Deus.

Mas Deus estabeleceu um dia em que irá julgar o mundo com justiça, por meio do Homem que designou e creditou diante de todos, ressuscitando-o dos mortos.

Quando ouviram falar de ressurreição dos mortos alguns troçavam e outros diziam: ouvir-te-emos falar disso noutra ocasião…

Alguns porém uniram-se e abraçaram a fé. Entre esses estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e outros com eles.

 

Bento XVI

O esquema fundamental do anúncio cristão ‘para fora’ – para os homens que, com as suas perguntas, estão à procura – encontra-se no discurso de São Paulo no Areópago… A novidade do anúncio cristão é a possibilidade de dizer agora a todos os povos: Ele revelou-se. Ele pessoalmente. E, agora, abriu-se o caminho na Sua direcção. A novidade do anúncio cristão não consiste num pensamento, mas sim num facto: Ele  revelou-se… Certamente, é preciso sempre a humildade da razão para poder acolhê-lo; é preciso a humildade do homem que responde à humildade de Deus”.

“A nossa situação de hoje, em muitos aspectos, é diferente da que Paulo encontrou em Atenas, mas, mesmo na diferença, há muitas coisas semelhantes. As nossas cidades não estão cheias de altares e imagens de múltiplas divindades. Para muitos, Deus tornou-se verdadeiramente o grande Desconhecido. pela pergunta relativa a Ele.

Corinto era a segunda cidade grega, Capital da província romana da Acáia. A língua oficial era o latim, mas o povo falava o grego popular.

A cidade era famosa pela produção artesanal de cerâmica, madeira e bronze. A sua prosperidade e riqueza provinham do comércio intenso. Tinha dois importantes portos com uma rede de estradas que os ligava entre si e ao resto do mundo conhecido de então. Eram portos marítimos dos mais frequentados, pois eram um elo de ligação entre a Ásia e a Europa.

Nesta amálgama tão heterogénea de massa humana, havia um misto de religiões, todas as religiões da época se implantavam ali, incluindo judeus e prosélitos (fanáticos, partidários, intolerantes, facciosos).

Conforme o habitual entre os gregos havia escolas de filosofia e grandes templos às divindades locais e prédios administrativos de grande importância.

A chegada do Evangelho a Corinto é narrada nos Actos 18, 1-18, e aconteceu durante a segunda viagem missionária de S. Paulo.

 

Redemptoris Missio JPII

O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a — como se costuma dizer — na « aldeia global ». Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais. Principalmente as novas gerações crescem num mundo condicionado pelos média. Talvez se tenha descuidado um pouco este areópago: deu-se preferência a outros instrumentos para o anúncio evangélico e para a formação, enquanto os média foram deixados à iniciativa de particulares ou de pequenos grupos, entrando apenas secundariamente na programação pastoral. O uso dos média, no entanto, não tem somente a finalidade de multiplicar o anúncio do Evangelho: trata-se de um facto muito mais profundo porque a própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência. Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta « nova cultura », criada pelas modernas comunicações.

É preciso lembrar além disso, o vastíssimo areópago da cultura, da pesquisa científica, das relações internacionais que favorecem o diálogo e levam a novos projectos de vida. Convém estar atentos e empenhados nestas exigências modernas. Os homens sentem-se como que a navegar no mesmo mar tempestuoso da vida, chamados a uma unidade e solidariedade cada vez maior: as soluções para os problemas existenciais são estudadas, discutidas e experimentadas com o concurso de todos.

 

38. A época em que vivemos é, ao mesmo tempo, dramática e fascinante. Se por um lado, parece que os homens vão no encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado, manifesta-se a angustiante procura de sentido, a necessidade de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração. Não só nas culturas densas de religiosidade, mas também nas sociedades secularizadas, procura-se a dimensão espiritual da vida como antídoto à desumanização. Cidade e Aldeia

A cidade, para muitos, foi um mito, um sonho. Lugar do bem vestir e bem falar. Lugar de todos e de ninguém. Lugar visitado para ter muito que contar no regresso à terra, à pequena terra, mais longe ou mais perto, a província, com o seu tom de ruralidade, passos controlados, histórias sem fim repetidas pelos vizinhos. A aldeia era o espaço estreito, o horizonte apertado. Longe do progresso. Próximo do afago familiar. A Terra.

Cidade e aldeia eram dois pólos que se desejavam e combatiam.

Há quanto tempo era assim? Há muito e há pouco. Mesmo quando se diz que o mundo inteiro é uma pequena aldeia, devassada pelos sons e pelas imagens dos media que não cessam de narrar o que se passa por detrás da vidraça de cada família e cada cidadão. A cidade global não tem hoje portas nem janelas, línguas, ideologias, religiões, raças ou culturas específicas. É essa amálgama de anónimos que se desconhecem e irremediavelmente se cruzam.

Talvez seja o tempo de rever a definição de aldeia como mãe de todas as virtudes e a cidade mãe de todos os vícios. É verdade que a família, as crianças, os idosos, os vizinhos, os fregueses e os paroquianos se encontravam numa comunhão saborosa de histórias comuns, patrimónios identificados e valores claros na feitura da história. Mas importa não perder a dimensão de carências primárias para muitos. A saúde nas mãos do João Semana exausto, a alimentação dependente dos animais soltos do quintal, a escola como um espaço de derrota para grande parte das crianças, a ignorância e o desinteresse pelo resto do mundo ou mesmo pelo destino do seu próprio país... e por aí adiante, uma sequência dolorosa de carências suportadas pela infinita paciência do povo.

A cidade pode hoje reencontrar muitos dos mitos perdidos da aldeia e potenciar os grandes valores que oferece à família e à comunidade um sentido de vida e um horizonte partilhado com todo o país e solidário com o resto do planeta. Nem a cidade nem a aldeia se podem hoje alimentar de nostalgia. Mas a comunidade cristã duma cidade pode facultar espaços, encontros   e celebrações que reatam fraternidades perdidas, famílias desencontradas, amigos distanciados, idosos agonizados na sua solidão.

Ao domingo, às vezes, não muitas, costumo dizer no início da celebração Eucarística: “Não pensem que fazem um grande favor a Deus, saindo das vossas casas para um encontro celebrativo na Igreja. É Deus que nos arranca das solidões e nos faz encontrar como comunidade”. Na aldeia ou na cidade a celebração da fé restitui-nos uma dimensão surpreendente da Cidade de Deus. Ou da Aldeia Global.

Não há deuses verdadeiros e deuses falsos. Há um Deus apenas. E os outros, simplesmente, não existem. É neste Deus que acredito, que continuamente encontro e que nunca deixo de procurar. É nos homens, do nascente e do poente, do norte e do sul, de todas as raças e culturas… e de todas as religiões, que fraternizam esta busca permanente do que está para além do imediato, do visível, do óbvio; é neste homem que também eu acredito como um ser essencialmente bom,  capaz de procurar o infinito na estreiteza das suas limitações. A palavra cidade, significa aqui o aglomerado de pessoas – a grande aldeia – que neste tempo concreto procura o significado perfeito para as suas vidas.Com uma distância entre o real e o ideal, mas com uma atracção irresistível para o Transcendente.

 


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Texto reproduzido com a devida autorização das Obras Missionárias Pontifícias