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Missão: Testemunho e Serviço (Outubro Missionário 2009)

missao_testemunho_e_servicoNo que diz respeito ao serviço do Evangelho, é absolutamente necessário ir além das palavras e das «muitas coisas» (Mc 10,21; Lc 10,42) e das posses acumuladas, móveis e imóveis, tiques e rotinas. «O testemunho da vida cristã é caminho privilegiado de evangelização»(1). O testemunho conta sempre mais, porque é a vida exposta, sem outros argumentos. E a experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. É por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face às objecções deste, não lhe dissipa as dúvidas (Jo 1,45-46). Diz-lhe simplesmente: «Vem e vê!» (Jo 1,46), no seguimento do paradigmático «vinde e vede» (Jo 1,39) de Jesus aos dois discípulos de João Baptista que o seguiam. O testemunho não é eficaz senão quando incita o destinatário, não a inclinar-se perante as provas, mas a fazer, por sua vez, a experiência.

2. O Decreto Ad Gentes deixou admiravelmente expresso, no n.º 21, que «sem a presença activa dos leigos, o Evangelho não pode gravar-se profundamente nos espíritos, na vida e no trabalho de um povo», acrescentando logo que «o principal dever deles, homens e mulheres, é o testemunho de Cristo, que todos têm obrigação de dar, pela sua vida e palavras, na família, no grupo social, no meio profissional». No seu discurso aos Membros do Consilium de Laicis, proferido em 02 de Outubro de 1974(2), Paulo VI fez uma importante afirmação, que depois retomou na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, n.º 41: «O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas». Na mesma linha de ideias, são marcantes as palavras que Mons. Luigi Giussani, fundador do movimento «Comunhão e Libertação», proferiu na sua intervenção no Sínodo dos Bispos sobre os leigos, em Roma, em 09 de Outubro de 1987: «O que faz falta mesmo não é a repetição verbal ou cultural do anúncio, mas a experiência do encontro com pessoas em cuja vida Cristo se tornou uma realidade de tal modo presente, que a sua vida mudou»(3).

3. É aqui que se pode regressar sempre ao «maior missionário de todos os tempos»(4): Paulo. Diz ele: «Ai de mim se não evangelizar!» (1 Cor 9,16). Paulo anuncia convictamente a notícia da Ressurreição de Jesus, e oferece como garante o relato da transformação operada na sua própria vida, confessando que deixou muitas coisas para trás, e que se atira agora para as coisas que estão à sua frente (Fl 3,13). Aí está o retrato e o relato da testemunha credível.

4. É o Senhor Jesus Cristo que, por amor, se debruça sobre nós, abaixando-se até ao ponto de nos lavar os pés e a alma(5), que está na origem da reviravolta operada em S. Paulo, levando-o a tomar consciência de ser um pecador perdoado, e fazendo-o compreender bem que o modo novo como se deve dirigir às pessoas, para ser fiel à graça recebida, é falar-lhes de joelhos: «Suplicamo-vos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus!» (2 Cor 5,20). É ainda esta inesquecível lição de amor que leva Paulo a recomendar a Tito que ensine os fiéis a «serem mansos, mostrando toda a doçura para com todas as pessoas» (Tt 3,2). E João Paulo II precisa, com singular afecto, que a paróquia é «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas»(6), e que a sua vocação «é a de ser a casa de família, fraterna e acolhedora»(7), e grava esta afirmação emocionada e mobilizadora: «O homem é amado por Deus. Este é o mais simples e o mais comovente anúncio de que a Igreja é devedora ao Homem»(8). E a Conferência Episcopal Italiana continua a fazer ressoar esta bela melodia: «No coração de quem aderiu ao Senhor Jesus Cristo, não pode deixar de nascer o desejo de condividir o dom recebido, de “amar como fomos amados”»(9).



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(1) CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Questa è la Nostra Fede. Nota pastorale sul primo annuncio del Vangelo (15 de Maio de 2005), 9.
(2) AAS, 66, 1974, p. 568.
(3) Publicada em L. GIUSSANI, L’avvenimento cristiano, Milão, Bur, 2003, p. 23-24.
(4) O Papa Bento XVI consagra esta expressão na sua Mensagem para o 45.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações (13 de Abril de 2008), n.º 3, publicada em 3 de Dezembro de 2007.
(5) H. URS VON BALTHASAR, L’amour seul est digne de foi, Aubier, Montaigne, 1966, p. 130-131.
(6) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christfideles Laici (30 de Dezembro de 1988), 26; CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota Pastoral Il volto missionario delle parrocchie in un mondo che cambia (30 de Maio de 2004), 3 e 13.
(7) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Catechesi tradendae (16 de Outubro de 1979), 67.
(8) JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christfideles Laici, 34.
(9) CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Comunicare il Vangelo in un mondo che cambia, 3.