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A Missão e as incertezas do mundo contemporâneo

jose_policarpo_a_missao_e_as_incertezas_do_mundo_contemporaneo_2008Transcrevemos aqui a comunicação que o Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo, apresentou no Congresso Missionário que se realizou no Centro Paulo VI, em Fátima, de 3 a 7 de Setembro de 2008, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa, e que teve por lema mobilizador: "Portugal, vive a Missão, rasga horizontes".

 

Introdução

 

1. Apesar das dificuldades sentidas, a actividade missionária continua a ser hoje a página mais gloriosa da Igreja, como o foi, quase sempre, ao longo dos séculos, só comparável à vivência da santidade. Aliás estas duas páginas cruzam-se frequentemente, constituindo um único hino de louvor a Deus criador e Senhor da história e a Jesus Cristo, Seu Filho e nosso salvador.

Pediram-me para situar a actividade missionária no contexto das incertezas do mundo contemporâneo. Há-as certamente, sobretudo no mais profundo do coração do homem; mas o problema principal não vem das incertezas, mas das certezas humanas, não enraizadas em Deus, de ordem cultural, ideológica, religiosa, que competem de igual para igual com as certezas da fé, obnubilando a abertura que para estas existe espontaneamente no mais íntimo do coração humano. Analisarei, assim, algumas características das expressões espirituais do mundo contemporâneo, cada vez mais globalizado, procurando intuir o contexto que criam ao anúncio e à vivência da fé cristã.

Na acção evangelizadora da Igreja, cruzaram-se sempre duas perspectivas: a dimensão teologal da evangelização, cuja fonte é Deus, e a realização do seu desígnio salvífico cujo dinamismo brota de Jesus Cristo, como expressão perene da Sua Páscoa, que se plenifica no dom do Espírito Santo; e a realidade do mundo e da sociedade a que é dirigida a mensagem, com as suas culturas e religiões, com a sua interpretação da vida humana e sentido da história. Aliás, o Evangelho e a vivência do cristianismo aparecem como força de transformação positiva desses quadros culturais e sociais, anunciando o homem novo, a definitiva perfeição humana, que será escatológica. O cruzamento destas duas perspectivas, a teologal e a histórica, exigem da missão da Igreja a fidelidade e a ousadia do mistério da Encarnação.

 

 

A dimensão teologal da evangelização

 

2. A evangelização é a primeira concretização do dinamismo de encarnação continuado no tempo. Toda a Igreja é mistério de encarnação, a sua missão é realização continuada da missão de Jesus Cristo, brota do desígnio salvífico de Deus, definitivamente consumado na Páscoa de Jesus. O dinamismo evangelizador tem a sua fonte em Deus, e tende a pôr os homens em contacto com Deus, levando-os a conhecê-l’O e a amá-l’O; na evangelização, Deus continua a revelar-Se.

Deus revela-Se, salvando. E na longa realização do Seu desígnio salvífico, na história dos homens, Deus mostrou ser potência criadora, Palavra e Amor, tudo unificado numa comunhão de amor que abraça o mundo criado. O Seu poder criador realiza-se tanto através da Palavra como do amor: a Palavra é criadora e o amor transforma e envolve. Jesus Cristo é encarnação da Palavra e é possuído pelo amor; por isso nos pode comunicar o Espírito de amor. A Palavra é possuída pelo amor e este tem a força criadora da Palavra.

A Igreja é o fruto mais excelente da encarnação. Ela é uma comunhão gerada pela Palavra e fecundada pelo amor. Ela aparece na história “como um povo que tira a sua unidade da unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (LG. nº4). No alto da Cruz, Cristo, a Palavra eterna, está possuído pelo amor salvífico de Deus e envolve a criação inteira nesse amor. A missão da Igreja é envolver o mundo nesse amor de Deus, plenamente manifestado em Jesus Cristo. Mesmo aqueles que ainda não chegaram ao conhecimento de Jesus Cristo, podem ser abraçados, envolvidos nesse amor infinito. E esse abraço de amor salvífico é o abraço da Igreja, que ela intensifica, cada vez mais, através da missão.

Isto diz-nos que o sujeito da missão é a Igreja e não só cada missionário ou missionária. Em toda a concretização da missão, é a Igreja que abraça o mundo. Digamos isto com as palavras de João Paulo II, pronunciadas em Lisboa em 1991, no Estádio do Restelo. Valorizando a tradição missionária do Povo Português, afirmou: “Outrora o trabalho missionário poderia parecer, de algum modo, reservado aos missionários. O Concílio Vaticano II, ao colocar a actividade evangelizadora no coração da vida eclesial, desejou responsabilizar em relação a ela todas as comunidades e todos os fiéis cristãos, toda a Igreja, por sua natureza, é missionária” (Ad Gentes, nº2), pelo que “os crentes em Cristo devem sentir, como parte integrante da sua fé, a solicitude apostólica de a transmitir aos outros, pela alegria e luz que ela gera. Essa solicitude deve-se transformar, por assim dizer, em fome e sede de dar a conhecer o Senhor, quando estendemos o olhar para os horizontes imensos do mundo não cristão” (Redemptoris Missio, nº80).

Segundo João Paulo II, esta dimensão eclesial da missão deve transformar-se em urgência pastoral em todas as realidades da Igreja. Por isso acrescenta: “Exorto as comunidades cristãs, paróquias, grupos, movimentos apostólicos, com todos os seus membros, a intensificarem o seu dinamismo evangelizador, e a não descurarem o seu dever de levar o Evangelho de Cristo às pessoas e ambientes dele carecidos. Tereis de vos tornar crentes corajosos, dotados de uma fé inquebrantável, alimentada constantemente por uma profunda vida interior, que faça brilhar diante dos homens, cada vez com maior intensidade, a luz de Cristo”

3. Esta dimensão teologal da evangelização exige da Igreja e de cada cristão a identificação com Cristo, Ele que é a única motivação da missão. A fragilidade da nossa coerência cristã pode estar na origem de algumas daquelas incertezas, internas à própria Igreja: a fragilidade da fé – ouvimos João Paulo II a falar de uma fé inquebrantável – a perda da consciência do carácter único do cristianismo como caminho de salvação, num quadro mundial de convivência de várias religiões; a fraca consciência da densidade cultural do cristianismo e da sua racionalidade como religião da Palavra; tudo isto pode levar à alteração das motivações da missão, sobretudo quando se trata de a situar na realidade concreta do mundo contemporâneo.

 

 

São Paulo como modelo de evangelizador

 

4. Neste Ano Paulino é inevitável olharmos para o grande Apóstolo dos Gentios e contemplar nele o dinamismo da missão evangelizadora. Descobrimos nele todos os grandes traços da missão evangelizadora: a fé inquebrantável em Jesus Cristo, percebendo a identificação da Igreja com Jesus Cristo; o anúncio da esperança na plenitude da vida; o encarar, com realismo, as certezas e incertezas do mundo no seu tempo; o dar a vida pelo Evangelho.

Paulo era fariseu, formado nas melhores escolas rabínicas. Ele acreditava que a Lei era a mais perfeita expressão da Palavra de Deus em favor do Seu Povo. Mas também acreditava que, quando viesse o Messias, Ele seria a Palavra definitiva, relativizando a Lei Mosaica. Persegue os cristãos porque são seguidores de mais “um falso Messias”, pondo perigosamente em risco a Lei como Palavra de Deus. Quando Cristo Se lhe revela, a começar na aparição na Estrada de Damasco, Paulo percebe que Ele é o Messias esperado e faz uma mudança radical, de acordo com aquilo em que acreditava: quando vier o Messias, Ele é a Lei, nele está a Salvação. A partir daí, torna-se claro que o caminho da salvação é a fé em Jesus Cristo, a união com Ele, e não a Lei dada a Moisés.

É impressionante a fé de Paulo em Jesus Cristo. Na alegria e na tristeza, na morte e na vida, para ele viver é Cristo, realização de todas as promessas, Ele que encerra e realiza a verdadeira promessa, a da vida eterna. A solução da humanidade está em Jesus Cristo, tanto para o Povo de Israel como para todos os outros homens. É urgente dá-l’O a conhecer e levar os homens a encontrarem-se com Ele. “Ai de mim se não evangelizar”. A fé é o segredo da sua vida e a fonte da sua inquietação evangelizadora. “Sei em Quem acreditei, combati o bom combate, guardei a fé, resta-me esperar a coroa de glória”, escreve ele a Timóteo à maneira de testamento espiritual.

A firmeza da fé em Jesus Cristo é a única certeza da vida de Paulo, que lhe dá força para enfrentar tudo, sobretudo as outras certezas daqueles a quem se dirige, os judeus e os gentios. Os judeus continuam a absolutizar a Lei e perseguem Paulo por não a seguir; os gentios adoram uma infinitude de deuses sem mensagem nem coração, que não podem transformar a vida. Refugiam-se nas diversas sabedorias, de raiz filosófica ou gnóstica, que tocam em alguns aspectos do mistério do homem, mas sem o horizonte de esperança do homem novo, definitivamente renovado. A sabedoria cristã, ou seja, o sentido da vida humana tem a sua fonte em Cristo, sobretudo na Sua Páscoa, em Cristo morto e ressuscitado. Paulo tem a consciência que esta nova sabedoria escandaliza os judeus e os gentios consideram-na uma loucura. Mas ele sabe que esta é a verdadeira sabedoria, o verdadeiro caminho da vida. Não abandona a experiência da dimensão comunitária da salvação, recebida da sua tradição judaica. Mas percebe que essa comunidade é agora a dos que são um com Cristo, o Novo Povo, o Israel de Deus, de que Cristo faz parte e com que se identifica, sendo a Sua cabeça, o princípio e a origem de toda a plenitude. Em Cristo, Paulo pode enfrentar diante do mundo as eternas questões do homem, a morte e a vida, a relação da vida presente com a vida eterna, o encontro do mistério do princípio e do fim, a exigência da moralidade de vida, não por causa da Lei, mas porque se é fiel a Jesus Cristo e coerente com a vida nova que Ele depositou no coração dos crentes, através do dom do Espírito Santo.

 

 

As certezas e incertezas do mundo contemporâneo

 

5. A Igreja, na sua missão evangelizadora, confronta-se com uma sociedade com muitas características semelhantes àquela a que Paulo anunciou o Evangelho: as diversas sabedorias, a complexidade do fenómeno religioso, o hedonismo, a alteração dos valores. Todas estas componentes assentam em certezas vulneráveis, precárias, pouco profundas, que se transformam facilmente em incertezas. Claro que vou falar do nosso mundo e não do séc. I depois de Cristo.

 

 

As diversas sabedorias

 

Entendemos por sabedoria um quadro de interpretações da vida, no seu sentido, no exercício da liberdade, na fundamentação ética, na compreensão da vida e da morte, do sofrimento e da felicidade. Quando olhamos o mundo como um todo, ressalta à vista a variedade destas sabedorias, inspiradas em culturas e religiões diversas. Mas não nos iludamos: a globalização cultural é um dinamismo imparável, as sabedorias entrecruzam-se com o aspecto preocupante de as menos profundas serem as que mais influenciam as outras.

6. Começo por referir aquela que, no Ocidente, foi nascendo de sistemas filosóficos que valorizaram a autonomia do homem em relação a Deus e à religião, autonomia da razão na identificação da verdade, primado do indivíduo sobre a comunidade, idolatria da liberdade individual, concebida como capacidade e direito de cada indivíduo decidir da sua verdade, do sentido da sua vida, em última análise, do que é bem e do que é mal. A vida humana é considerada como dependendo apenas do homem e da sua capacidade. O homem terá a felicidade que for capaz de construir. Deus deixou de ser um agente decisivo na realização da plenitude humana e interventor na história, afastando-se radicalmente da tradição judaico-cristã, tão bem expressa no Salmo 43: “Não foi a espada que lhes conquistou a terra, nem seu braço lhes alcançou a vitória. Mas sim a vossa direita e o vosso braço e a luz da vossa face, porque os amaste” ou a frase de Jesus, “sem Mim nada podeis fazer”. Deus passou a inútil e facilmente a inexistente. A forma mais preocupante de ateísmo é o daqueles que, mesmo aceitando que Deus existe, vivem como se Ele não existisse. Esta forma de “ateísmo prático” é mais frequente e mais preocupante que o ateísmo teórico, racionalmente estabelecido.

Claro que esta sabedoria é incapaz de dar respostas válidas nos momentos cruciais da existência: o sofrimento, a morte, a solidão, a inquietação interior. Mas na normalidade da vida humana transforma-se numa barreira para o acolhimento da mensagem cristã; esta sabedoria profana, limitada ao horizonte da vida terrena, incapaz de transcendência e de vida eterna, atinge também muitos cristãos, que não encontram em Deus a companhia amorosa em todos os passos da Sua vida, o que alarga o horizonte da missão a multidões de cristãos baptizados, não crentes ou mal-crentes, que não vivem a vida segundo a sabedoria da Cruz. O Evangelho só é acolhido quando Cristo aparece como resposta de vida. Quem não se interroga e não deseja ir mais longe, nem sequer ouve a mensagem. O evangelizador tem de estar atento às buscas e inquietações do coração humano. O primeiro fruto do Evangelho é levar o homem a uma visão mais profunda de si mesmo, ensiná-lo a desejar.

Neste aspecto temos de estar conscientes que as sociedades inspiradas nesta sabedoria profana, aceitam a Igreja apenas pelos serviços que presta à sociedade, inserindo-a no esforço de melhoria da sociedade no horizonte deste mundo. A evangelização tem de ser, cada vez mais, um grito de transcendência e de esperança na vida eterna.

 

 

A complexidade do fenómeno religioso contemporâneo

 

7. É também nesse quadro que as sociedades democráticas se abriram ao respeito pelo fenómeno religioso, expresso nos quadros legais da liberdade de consciência, de que a liberdade religiosa é uma expressão maior. Mas, nesse quadro, corre-se o risco de considerar todas as religiões de igual valor, sem capacidade de discernimento do contributo específico de cada uma para a plena realização humana.

A globalização tende a universalizar todas as grandes religiões, o que exigiria um estudo sério e continuado de religiões comparadas. Para os cristãos isto é muito importante, para descobrirem o carácter único do cristianismo, o que não porá em questão o respeito pelas outras religiões e pelos valores que têm em comum. Nesta fase da globalização, sentimos que no Ocidente, a par da experiência nova de convívio com crentes de outras confissões, começam a surgir sintomas de fascínio por outras religiões. Se as religiões se equivalem no seu sentido fundamental, que sentido tem a missão cristã, que nunca se pode confundir com proselitismo? Quando a própria teologia começou a equacionar o sentido salvífico de todas as religiões, porquê inquietá-los com a mensagem cristã? Quando o cristianismo é apenas mais uma religião, a missão evangelizadora perde a sua urgência. A Teologia das religiões tem de estabelecer a convergência de todas elas, pelo menos escatológica, com Jesus Cristo, salvador de todos os homens.

Para além da negação absoluta da liberdade religiosa na prática de algumas grandes religiões, assistimos a um outro fenómeno, no quadro da globalização, que acarreta novas dificuldades para a missão cristã. Dada a real e inegável relação entre religião e cultura, muitos países encontraram a sua identidade cultural na valorização da sua religião tradicional, impedindo ou pondo dificuldades à expansão do cristianismo. É o caso de muitos países islâmicos, da Índia, com a valorização do Hinduísmo, onde a entrada de missionários estrangeiros é praticamente impossível. Nesses países, onde a Igreja está implantada, afirma-se sobretudo como serviço à sociedade, na educação e na assistência, o que exige dela que faça passar, através desse serviço prestado, o anúncio de Jesus Cristo.

A China é, apesar de tudo, um caso à parte, em que as dificuldades que a Igreja encontra hoje são de outra ordem. A longa história da China é, sobretudo, marcada por uma cultura, o confucionismo, e não tanto por uma religião. Várias religiões se têm afirmado na China e o seu sucesso depende muito da sua capacidade de integrar essa cultura. A evangelização da China dependerá da capacidade do cristianismo para fazer a síntese com a cultura chinesa. O fracasso da evangelização da China, no passado, deveu-se a essa incapacidade de inculturação do cristianismo. Há hoje na China muitos intelectuais que consideram o cristianismo a religião mais capaz de integrar a cultura chinesa, o que transforma a China no grande desafio da evangelização dos nossos tempos.

Neste quadro complexo do fenómeno religioso contemporâneo, o sincretismo é a grande tentação, de que não ficam isentos os próprios cristãos. Houve mesmo já quem propusesse que se fosse buscar a cada religião os melhores elementos e se fizesse uma religião universal. Os cristãos têm de descobrir, viver e anunciar a especificidade do cristianismo, o que não impede de reconhecer valores comuns, que encontrarão a sua plenitude em Jesus Cristo. Penso mesmo que a valorização desse património comum da  humanidade, em termos culturais e religiosos, um “universal humano”, pode ser importante para o progresso da humanidade, na construção da justiça, da solidariedade e da paz.


 

O hedonismo e o conceito fácil de felicidade

 

8. Chamo hedonismo a um conceito de vida e de felicidade a conseguir imediatamente, fruindo tudo o que a natureza nos oferece. O que é natural é bom e legítimo, excluindo a dimensão sobrenatural de reconstrução do homem. O modelo de vida e de felicidade que as sabedorias profanas veiculam é hedonista, consumista, exclui o sentido do sofrimento e relativiza a perenidade da felicidade a construir na fidelidade. A avidez, a ganância, o materialismo, a relativização das escolhas de vida que se fizeram, são consequência dessa perspectiva. Este modelo de felicidade é insaciável, exige-se sempre mais e culpam-se facilmente os outros por não o conseguirmos. A felicidade a construir, com o esforço e persistência do  atleta que corre no estádio, quase desapareceu. São os outros que têm obrigação de garantir que eu seja feliz. Percebemos melhor o Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm um coração de pobre”, e o Evangelho anunciado aos pobres, devido à sua maior disponibilidade para acolher a surpresa de Deus.

Não é fácil anunciar o Evangelho a pessoas que têm esta concepção da felicidade. É o escândalo da Cruz, de que falava Paulo. A mensagem cristã, com a sua exigência renovadora, é considerada desadaptada para o homem, ele que se considera capaz de resolver todas as interrogações da sua existência e de construir a sua própria felicidade.

Só uma compreensão da felicidade como plenitude da vida, que vencerá o sofrimento e a morte, se abre à esperança escatológica da vida eterna. Quem só procura a felicidade possível neste mundo e ao alcance das capacidades humanas, não deseja a vida eterna, na plenitude de Deus. E esses não podem seguir Jesus Cristo na etapa decisiva e definitiva da sua vida. Toda a vida humana neste mundo, para ser caminho de felicidade, precisa de ser vivida com Cristo. Mas Ele é decisivo para nós, porque inaugurou no meio de nós e para nós, a vida definitiva. Para o cristão desejar a felicidade é desejar estar com Cristo para sempre, mergulhar na Sua plenitude de vida, até que Ele venha definitivamente na Sua glória. É impressionante o número de contemporâneos nossos que deixaram de acreditar na vida depois da morte. Para muitos, essa é a incerteza fundamental, mas não encontram na sua fé a resposta. Anunciar Jesus Cristo é, necessariamente, anunciar a ressurreição dos mortos e Cristo ressuscitado como a terra prometida. Já o referimos atrás, isto tem a ver com a profundidade da esperança que nos faz viver. O mito da felicidade imediata pode matar a esperança.

 

 

O que é que move o coração humano

 

9. O homem é um ser espiritual e para além dos objectivos imediatos para alcançar a felicidade no presente, não consegue calar as grandes inquietações do seu coração, embora os desejos mais profundos que encaminhariam o homem para a busca de Deus possam ser abafados pela busca do imediato e do mais fácil. É a adulteração do desejo. Desejar é um sentimento fundamental no coração humano. O horizonte da caminhada para a vida mede-se, também, pela profundidade dos nossos desejos. Se desejo apenas a felicidade imediata, pela fruição e pelo prazer, pela posse e pelo domínio, nunca aprenderemos a desejar a plenitude da vida. A esperança cristã, mais do que assegurar a felicidade imediata, aprofunda o desejo. Tudo o que já experimento de bom, é marcado pelo desejo de mais e melhor, na certeza de que só a participação na plenitude da vida nos satisfará. Perceber que só Deus saciará os nossos desejos mais profundos, é sinal de que se entrou no verdadeiro ritmo da vida. Santo Agostinho reconhece-o nas “Confissões”: o meu coração estava inquieto enquanto não repousou em Vós. E Santa Teresa agradece ao Senhor o tê-la feito perceber que procurá-l’O e encontrá-l’O são a mesma coisa, porque o prémio que Ele dá àqueles que O procuram é um mais ardente desejo de O encontrarem.

O cristianismo não consegue anunciar a esperança a quem está satisfeito com o que é e com o que tem; Jesus Cristo é resposta para os corações inquietos, incapazes de serem felizes só com a felicidade que já construíram. A fragilidade do desejo e a falta de profundidade do modelo de felicidade que se procura, está na causa das grandes desilusões, no nosso tempo. Refiro apenas algumas:

* As desilusões no amor. Quantos paraísos imaginados que ruíram perante a exigência do amor e da fidelidade. O amor não é fácil, é experiência de dom generoso, supõe tenacidade e fidelidade. O amor, no seu início, não garante a felicidade definitiva. É antes a ousadia de a procurar em conjunto, de mãos dadas, com a força de Deus no coração. O amor humano é garantia de felicidade se nunca se desistir de a procurar e não se quiser procurá-la sozinho.

* As desilusões com a sociedade que construímos. O mito da sociedade perfeita neste mundo, tenha ela o modelo da “sociedade sem classes” ou da sociedade democrática, onde todos têm igual direito à felicidade, é sempre causa de desilusões para quem pensou que podia construir o Céu na Terra. As injustiças, a violência, o desrespeito pela dignidade humana, o fosso cada vez mais profundo entre ricos e pobres, geram muitas desilusões: nos sistemas económicos, nos mecanismos políticos, no sistema judicial, etc. Sem perceber que, em cada momento, o modelo de sociedade ideal está em construção, que é tarefa generosa de todos, mobilizados por valores superiores e que aqueles que semeiam a justiça e a paz talvez não cheguem a colher os frutos neste mundo, o que não significa que fiquem sem recompensa. Os homens grandes que construíram a História foram aqueles que não exigiram receber imediatamente o prémio do seu esforço.


 

Conclusão

 

10. Evangelizar é remar contra a corrente; a expressão é de João Paulo II, é sempre anunciar uma revolução, uma profunda transformação na vida. “Mudai o vosso coração”, foi o primeiro desafio da pregação do Evangelho do Reino por Jesus.

Evangelizar não é fácil, porque são hoje muitas as resistências à mensagem. Mas vale a pena. Devemos isso a Jesus Cristo; essa é a Sua urgência que só pode realizar através da Sua Igreja, que continua a enviar, custe o que custar, aconteça o que acontecer.

 


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Texto reproduzido com a devida autorização das Obras Missionárias Pontifícias