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Os novos caminhos da missão ad gentes

jose_ornelas_carvalho_os_novos_caminhos_da_missao_ad_gentes_2008Transcrevemos aqui a comunicação que o Sr. Pe. José Ornelas Carvalho, apresentou no Congresso Missionário que se realizou no Centro Paulo VI, em Fátima, de 3 a 7 de Setembro de 2008, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa, e que teve por lema mobilizador: "Portugal, vive a Missão, rasga horizontes".

 

Introdução

 

Agradeço aos organizadores do Congresso missionário o convite que me dirigiram para participar neste significativo evento da Igreja portuguesa, bem na linha da sua tradição missionária, que continua bem viva e mobilizadora das comunidades cristãs.

O tema que me foi pedido para tratar ─ “Novos caminhos da missão ad gentes” ─ não pode deixar indiferente quem quer que se preocupe com a missão da Igreja, num mundo em constante mudança que requer novos modelos para apresentar a mensagem de sempre do Evangelho. Por outro lado, é, de algum modo, um título demasiado audaz e pretensioso, pois a busca desses novos paradigmas da missão é o que toda a Igreja vai procurando, sob o impulso do Espírito.

Não tenho a pretensão de apresentar soluções ou receitas já feitas para a missão, mas aceitei, com gosto, o desafio de organizar algumas observações sobre a realidade que se vive hoje na Igreja, a partir daquilo que tenho encontrado na missão em diversas partes do mundo, como contributo para uma reflexão que deve continuar a buscar os caminhos de fidelidade e de anúncio do Evangelho, neste início do terceiro milénio.

As considerações que partilho convosco são devedoras sobretudo a tantos missionários e missionárias que, nos mais diversos contextos culturais, fazem do anúncio do Evangelho, não apenas uma verdade a comunicar, mas uma vida a partilhar e a oferecer, sobretudo aos mais carentes e esquecidos da sociedade. A eles, o meu sentido agradecimento. 

 

 

1. A missão universal na identidade da Igreja (Actos dos Apóstolos)

 

1.1. O mandato do Senhor

A missão constitui um elemento fundamental, não apenas no desenvolvimento e extensão da Igreja, mas na sua própria essência e identidade. O mandato do Senhor ressuscitado faz com que a comunidade dos discípulos se entenda como destinada a levar a Boa Nova até aos confins da terra: “Ide, fazei meus discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo e ensinando-os a cumprir tudo quanto vos mandei. E eu estarei convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,19-20). “Recebereis uma força do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo” (Act 1,8). De facto, o início da Igreja, no dia de Pentecostes, traduz-se na formação de uma comunidade “de judeus piedosos, provenientes de todas as nações que há debaixo do céu” (Act 2,5), atestando, em forma embrionária, a constituição universal da comunidade de Jesus.


1.2. Um Messias para os judeus ou para todos os povos?

O alcance e as consequências concretas deste destino essencial da Igreja não foram, porém, imediatamente compreendidos pelos discípulos. Eram todos judeus ─ mesmo os neo- convertidos ─ e pensavam-se, antes de mais, como o “novo Israel”, alicerçado sobre a aceitação de Jesus como o Messias prometido aos descendentes de Abraão. Continuavam a frequentar o templo e eram tidos como uma espécie de judaísmo renovado ou herético, segundo as perspectivas.

De facto, o judaísmo não pode ser missionário, porque ser judeu não é uma questão de opção ou de conversão, mas sim de nascimento. Quem não é da descendência de Abraão, pode ser um “temente a Deus”, um prosélito, mas as promessas de Deus destinam-se exclusivamente à raça de Israel. A primeira comunidade de Jerusalém assumiu das suas origens judaicas, entre outras coisas, também esta mentalidade como natural. Dedicavam-se, de facto, à missão, mas essa restringia-se aos judeus.

Só com o tempo, e quase forçados pelo Espírito, os discípulos foram entendendo e aderindo ao projecto universal da salvação que lhes estava confiado. O primeiro círculo deste alargamento da geografia e da mentalidade foi a difusão do evangelho em Samaria, depois da perseguição desencadeada na Judeia (cf. Act 8,1ss) e o baptismo do etíope, por obra do diácono Filipe (cf. Act 8,26ss). Mas, nos dois casos, trata-se de algo que se enquadra dentro da perspectiva profética da restauração de Israel, e não de uma integração de gentios.

 

1.3. O Espírito também para os gentios

Daí o espanto e as resistências de Pedro, quando vê o Espírito descer sobre a família do centurião Cornélio (Act 10-11). Depois de reagir escandalizado à ideia de se misturar com o mundo impuro do paganismo, acaba por deixar-se levar pelo Espírito e manda baptizar estes primeiros gentios, agregando-os à Igreja. Mas teve de enfrentar uma comunidade escandalizada que, só a custo, foi levada a aceitar a grande novidade de que o dom da salvação em Jesus não era só para os judeus. E davam glória a Deus, dizendo: “Deus também concedeu aos pagãos o arrependimento que conduz à vida” (Act 11,18). Nesse dia, por impulso directo do Espírito, a missão abriu-se “ad gentes”.

Aceite este princípio fundamental, tornou-se possível a missão entre os gentios, a partir de Antioquia, por obra sobretudo de Barnabé e Paulo (cf. Act 13-14). Mas a entrada dos gentios na Igreja suscita uma importante questão cultural, a princípio não tão radical como a anterior, mas que acaba por pôr em causa a inclusão efectiva dos gentios na comunidade cristã. É que os primeiros gentios que entraram na comunidade da Palestina eram já prosélitos que haviam assumido um modo judaico de viver que incluía a circuncisão, a pureza alimentar e as interdições altamente regulamentadas pelos rabinos. Ora, a partir de Antioquia e sobretudo depois da primeira viagem apostólica de Paulo e Barnabé, muita gente aderiu à comunidade cristã, não tendo nenhuma relação anterior com o mundo judaico. Foi-lhes anunciado Cristo, e Paulo e Barnabé achavam que não era necessário submeterem-se às complicadas regras do judaísmo, perante as quais o próprio Jesus se tinha mostrado muito crítico.

 

1.4. Evangelho e pluralismo cultural

Não pensava, porém, assim a corrente mais intransigente dos cristãos da Palestina, para quem era uma aberração só o pensar nas impurezas que esses novos irmãos praticavam à mesa, tornando impossível qualquer comunhão fraterna. Parecia que se tinha voltado à estaca zero. O problema cultural, surgido com a missão entre os povos, tornara-se um problema teológico e eclesial e ameaçava inviabilizar a própria missão entre os não judeus.

A assembleia ou concílio de Jerusalém (cf. Act 15) representa, sem dúvida, o ponto de viragem mais importante da Igreja nascente. O Espírito lançara a Igreja na missão entre os povos. Esta levou a comunidade a confrontar-se consigo própria, com a sua natureza e finalidade, perante as novas e diversificadas condições com que se deparava. Sob o influxo da palavra de Paulo e Barnabé, que falavam a partir da sua experiência missionária, a assembleia acaba por adoptar uma corajosa declaração de universalidade da comunidade cristã, libertando-a dos laços étnicos do judaísmo, para ser capaz de acolher a multidão dos povos e culturas e oferecer a todos o dom do Evangelho.

A partir daí, os missionários do Evangelho vão percorrer os caminhos do império e ultrapassar as suas fronteiras, capazes de adaptar-se às diversas línguas e culturas, sem a pretensão de misturar-se com os poderes públicos e muito frequentemente em contraste com estes, entendendo-se como fermento e semente de um mundo novo. Precisamente por se sentir pequena e minoritária, a Igreja dos primeiros séculos foi capaz de se tornar semente e fermento na diversificada sociedade romana e casa universal para todos os povos.

 

1.5. Observações iniciais

Este breve esboço dos primórdios da missão da Igreja mostra como o Espírito foi orientando a comunidade cristã a sair dos seus esquemas estabelecidos e a aprofundar a sua própria identidade e função à luz do Evangelho e a abrir-se à universalidade do amor de Deus que abarca toda a humanidade. Podemos fazer algumas observações sobre este primeiro passo da nossa reflexão, que nos orientem na sua prossecução:

· Pela sua própria natureza, a Igreja tem de ser missionária, pois só na missão ela realiza a sua essência de sinal e caminho universal de salvação para todos os povos.

· Para ser universal, a Igreja não pode ligar-se de tal maneira a um poder ou a uma cultura, que acabe por secundarizar outras. O seu património e a sua mensagem encontram expressão e enriquecem-se no contacto crítico com a diversidade das culturas.

· A universalidade é incompatível com uma Igreja de poder. Pelo contrário, a vitalidade da Igreja está em ser independente das autoridades constituídas e em não pretender competir com elas em termos de conquista e manutenção do poder.

· A Igreja missionária sente-se como semente e fermento na diversidade das sociedades, oferecendo, a partir de cada uma das suas comunidades, a mensagem do amor de Deus a todos os homens.

 

 

2. Terras cristãs e terras de missão

 

2.1. Identificação da Igreja com a cultura ocidental

Ao longo da história, a Igreja sempre assumiu como fundamental a sua dimensão missionária, adaptando-se à diversidade de situações em que se veio a encontrar. Não cabe aqui analisar as odisseias missionárias no interior do império romano, a evangelização dos chamados povos “bárbaros”, que viriam a constituir o mapa da Europa, a fundação da Igreja na cultura eslava, os novos horizontes missionários abertos com a época das descobertas, bem como o grande esforço de missão dos últimos 150 anos, particularmente na África, América Latina e Ásia.

Cada um destes períodos tem as suas características próprias, as suas virtualidades e defeitos, que reflectem a própria auto-compreensão da Igreja nas suas relações com o mundo. Simplificando muito uma realidade historicamente complexa, podemos dizer que, com a difusão do evangelho no império romano e sobretudo com a paz de Constantino, a Igreja se foi gradualmente identificando com a cultura do próprio império, tornando-se um factor importante da política imperial, patrocinada ou hostilizada, segundo os jogos de poder, até se converter em verdadeira religião de estado.

A promiscuidade com o poder acabou por ter uma grande influência na própria missão. A identificação da Igreja (e das igrejas) com uma determinada cultura, regime político ou espaço geográfico descambou frequentemente em “guerras religiosas”, tanto no interior do mundo dito cristão, como no confronto com outras tradições religiosas, sobretudo o Islão. Ao longo dos séculos, foi-se consolidando a identificação do cristianismo com a cultural ocidental, distinguindo, mesmo aí, entre países de tradição católica, ortodoxa ou de diversas denominações protestantes.

Esta identificação do Ocidente com a chamada “cultura cristã” acentua-se a partir da época das descobertas e do contacto com novos povos e novas culturas. Nas Américas, na África e na Ásia, o Evangelho chegou sobretudo a bordo das caravelas dos descobridores e colonizadores, sob a protecção das potências europeias. Não se distinguia grandemente entre obra de evangelização e extensão da autoridade e sistema colonial, pois uma tal distinção também não existia nas sociedades de origem. A evangelização era parte daquilo que se considerava a obra “civilizadora” do Ocidente. A superioridade militar, técnica e organizacional demonstrada pelos europeus acabou por se traduzir no desprezo e subordinação, quando não mesmo na repressão das culturas locais. Também não raramente a missão assumiu e legitimou esta ideia de superioridade, conferindo-lhe um carácter religioso e utilizando métodos de repressão e de supressão, mesmo no confronto de veneráveis e antiquíssimas tradições culturais.

 

2.2. Luzes e sombras de uma longa história

Seria, porém, injusto pensar que a evangelização, nos séculos que nos precederam, foi uma simples carroça atrelada às ambições de conquista e aos jogos políticos do devir histórico. Sem ser imune aos jogos de poder e de expansão, a missão evangelizadora, ao longo dos séculos, constituiu, no seio da Igreja e das sociedades, um elemento inestimável de intercâmbio e criação de cultura, com um papel fundamental na formação do mundo que somos hoje. Em nome do Evangelho, os missionários cruzaram as fronteiras dos impérios, ligaram povos, conheceram e deram a conhecer culturas, criaram relacionamentos humanos e civilizacionais, muito frequentemente em contraste com as suas terras de origem e com as próprias hierarquias eclesiais. Se é verdade que a implantação do Evangelho nos novos mundos está cheia de conivências e silêncios comprometidos perante as arbitrariedades das potências coloniais, não há dúvida igualmente que foi sobretudo da Igreja missionária que surgiu a denúncia desses atropelos, a defesa das populações e das culturas indígenas, o estudo das suas língua e tradições, bem como o grosso da obra de educação, cuidados sanitários e promoção humana que constituem a alavanca para a consolidação e desenvolvimento destes novos países.

Um dado importante, que não cabe aqui desenvolver, é o papel dos religiosos e religiosas na obra de evangelização, nas fronteiras da Igreja, em todo o mundo. A composição multinacional da maioria destes institutos acentuou a liberdade da missão em relação aos poderes administrativos e as componentes étnicas locais, contribuindo para abrir perspectivas de internacionalidade, não apenas no interior da Igreja, mas igualmente nas sociedades civis.

Além disso, as missões criaram nas próprias igrejas e países de origem uma ideia diferente destes novos mundos, vista pelos olhos dos missionários e não simplesmente dos administradores e colonos, criando movimentos de solidariedade e de interesse cultural e contribuindo para a evolução de uma opinião pública favorável a um relacionamento mais humano, justo e dignificante entre povos e culturas. Ao longo dos séculos, um impressionante cortejo de missionários, motivados pela sua adesão a Cristo e modelados pelo Evangelho, passaram para além das fronteiras políticas e culturais, ultrapassaram preconceitos e limites pessoais e étnicos, dando um contributo inestimável para a construção de um mundo mais justo e fraterno. Muitíssimos selaram com o próprio sangue o dom da vida profeticamente dedicada ao serviço dos outros.

 

2.3. O missionário oriundo do Norte

Fruto desta história, que fica aqui apenas mencionada, herdámos uma ideia de missão e de missionário que está profundamente marcada pelo Evangelho, mas igualmente colorida com a diversidade das culturas deixadas e encontradas, marcada pela limitação das pessoas, pela ganância e pelos ideais de expansão nacional, romanceada pela curiosidade dos exploradores, alimentada com o sonho e a esperança de construção de um mundo mais humano. Particularmente nos séculos mais recentes, a missão ficou muito ligada, como ponto de partida, ao continente europeu, a que se veio a associar a América do Norte ─ os chamados “países cristãos” ─ tendo como destino os países do hemisfério sul: América do Sul, África e Ásia.

A figura típica do missionário, que fez sonhar tantos jovens, era a de um filho desta cultura do hemisfério norte ocidental, de batina branca e possivelmente com chapéu colonial a cobrir um rosto tisnado pelo sol dos trópicos e ornado de longas barbas, generosamente dedicado a levar a fé (e a cultura) às populações pobres e não cristãs (pagãs) dos novos mundos. Não pretendo discutir o que este quadro revela de paternalismo, de eurocentrismo e de preconceito, bem como de genuína motivação altruísta e de capacidade de sonho para colaborar na construção de um mundo mais justo e fraterno, com base na autêntica mensagem evangélica. Acho que uma boa parte desta mentalidade está ainda bem presente no imaginário missionário europeu, com a sua positividade e os seus limites. O mundo e a Igreja de hoje apresentam, porém, uma imagem muito distinta dos séculos e mesmo decénios passados, exigindo o repensamento destes modelos.

 

 

3. Uma grande alteração de modelos

 

3.1. “Países cristãos” e “países de missão”

Este quadro tradicional da missão já não se aplica à realidade de hoje. Antes de mais, a distinção entre “países cristãos” e “países de missão” é, no mínimo, difícil de aplicar. Pode dizer-se, com alguma propriedade, que os países europeus são “países cristãos”, tanto no que diz respeito à prática religiosa e dos valores, como no tocante às instituições políticas e sociais? Não apresentam alguns países da África e sobretudo da América Latina, índices de adesão e de prática cristã superiores aos dos países europeus? Hoje, o continente com maior número de cristãos é, sem dúvida, a América Latina, sendo o Brasil o país com maior número de católicos.

Do ponto de vista especificamente missionário, um outro dado se reveste de grande importância. Até recentemente, as igrejas de tradição mais antiga, particularmente as da Europa, foram as que mais missionários ofereceram, sobretudo religiosos e religiosas. Hoje, conhecemos bem a crise de vocações que atravessam estas igrejas e as congregações religiosas, no contexto europeu e norte-americano.

As entusiásticas festas de partida de nutridos grupos de missionários de poucos decénios atrás são hoje mais frequentemente substituídas por justas e saudosas celebrações de bodas de ouro e de diamante de missionários de retorno das suas missões.

Pelo contrário, no hemisfério sul é onde encontramos um grande número de candidatos ao ministério eclesial e à vida religiosa, embora com as dificuldades que são conhecidas. Isto significa que identificar, sem mais, a ideia da missão a um movimento do Norte cristão para um Sul descristianizado não se pode aplicar à realidade dos nossos dias. Embora se encontre ainda um grandíssimo número de missionários europeus nos outros continentes, o seu número diminui de ano para ano, visto que são cada vez menos os que vêm substituir aqueles que deixam a missão, por idade ou incapacidade.

Este deslocamento para Sul é mais evidente no âmbito da vida consagrada, uma vez que no seio dos institutos internacionais, os problemas do Norte e do Sul são vistos em paralelo, dentro da mesma família religiosa. Para dar-se conta do fenómeno, basta ver, nesta veneranda Europa, o número de conventos à venda, as casas de formação vazias e os programas de futuro ocupados, em muitos países, com o cuidado dos mais idosos. Pelo contrário, nos chamados países de missão, continua-se a construir seminários e conventos e as grandes preocupações estão ligadas à formação dos jovens religiosos e ao atendimento a comunidades cristãs em crescimento.

Esta mudança na implantação geográfica e cultural da Igreja tem já enormes consequências, que não deixarão de intensificar-se no futuro, tanto nas igrejas de antiga tradição como nas novas comunidades eclesiais surgidas da obra evangelizadora mais recente.

 

3.2. O Norte ou as igrejas de longa tradição

A Norte, particularmente na Europa, a diminuição do número de fiéis, aliada à secularização e à autonomia da sociedade, vai retirando à Igreja o seu papel tradicional de associada ao poder, remetendo-a para a esfera privada, quando não mesmo obstaculizando a sua acção. Habituada a um regime de cristandade, em que todos os caminhos da aldeia vinham dar ao templo, onde os membros do clero pontificavam sem apelo, não tem sido fácil para a Igreja situar-se neste novo contexto social. Não servem atitudes de ofendida defesa perante a sociedade, de catastróficas invectivas contra a modernidade ou de simples resignação perante a indiferença. Há que redescobrir o sentido da missão neste mundo moderno e pós-moderno, do ser fermento, em modelos novos: vinho novo, em odres novos.

O Leste europeu, com a sua veneranda tradição ortodoxa, apresenta também um panorama de grande mudança: após a queda ou transformação dos regimes totalitários que dominaram estes países, um grande vazio de valores e de perspectivas apela a atitudes novas, tanto da Igreja Ortodoxa, como da Igreja Católica. É grande a tentação de utilizar as novas oportunidades para readquirir os antigos privilégios e rivalidades, mas o que faz falta são novas atitudes para colaborar, com a semente do Evangelho, na  construção das novas sociedades que estão a surgir.

A América do Norte apresenta um quadro, em alguns aspectos semelhante ao da Europa Ocidental, mas também elementos muito distintos. Um peso histórico mais ligeiro, a tradicional separação entre Igreja e Estado e a diversidade das confissões cristãs, entre outros elementos, fazem com que, em alguns aspectos, não haja uma reacção anti-religiosa tão forte. Mas, por outro lado, deparamos com idênticos desafios perante a indiferença religiosa e a busca de novos caminhos de evangelização do mundo da ciência, da técnica e do bem-estar. Também aqui não faltam as tentações de regresso a um passado tradicionalista e intransigente, em lugar de buscar respostas novas para problemas novos.

Não nos fechemos, porém, no costumeiro lamento sobre a decadência do Ocidente. Não há dúvida que foi fundamentalmente destas igrejas temperadas pelo tempo, que surgiu o grande movimento de renovação conciliar, que abriu novos horizontes à Igreja, habilitando-a para um novo relacionamento com o mundo dos nossos dias. Além disso, a vida destas igrejas tem sido sempre fecundada pelo surgir de movimentos de espiritualidade e de missão que dinamizam as comunidades eclesiais e abrem novas formas de evangelização nas complexas sociedades deste início de milénio.

 

3.3. O Sul e as igrejas de recente evangelização

A Sul, encontramos situações eclesiais distintas, como fruto dos últimos cinco séculos de missão. Nas regiões de evangelização mais antiga, sobretudo na América Latina, deparamos com igrejas vivas e criativas, onde a situação maioritária do cristianismo não anulou o esforço missionário. A Igreja foi encontrando caminhos mestiços de cruzamentos e influxos culturais europeus, indígenas e africanos, para responder a uma sociedade com um profundo sentido religioso e uma grande sede de justiça e de perspectivas de futuro. É desta inculturação latino-americana que surge o primeiro significativo movimento de reflexão teológica provocado pela evangelização fora da Europa e da bacia mediterrânica. Independentemente das opiniões que cada um possa ter sobre o assunto, não há dúvida que a teologia da libertação representa o esforço de busca de novas linguagens e modelos para reflectir e dizer a fé à gente do nosso tempo. Tem certamente os seus limites, mas acho que, para além disso, muitas das reacções que causou nos ambientes eclesiais da Europa têm origem na falta de habituação a um tipo de pensamento diferente daquele a que, desde sempre, estamos habituados. Não só na reflexão e na criatividade litúrgica, as igrejas latino-americanas têm vindo a fazer ouvir a sua voz. O envio de missionários para outros continentes, nomeadamente para a Europa, testemunha a auto-consciência e a vitalidade destas comunidades cristãs e a sua participação crescente na missão universal da Igreja.

A África tem uma evangelização mais recente. Em muitas zonas do interior do continente, estamos na primeira geração de cristãos e apenas nos últimos decénios as comunidades cristãs começaram a ter líderes locais. As igrejas africanas - refiro-me claramente à África subsaariana - têm as virtudes e os limites da sua juventude, num continente, também ele, em profunda mudança e nem sempre no melhor dos modos. Criadas sobretudo durante a época colonial, estas comunidades foram, durante muito tempo, consideradas como apêndices das “igrejas metropolitanas” da Europa e começam agora a caminhar pelos seus próprios pés. Há, por um lado, a justa busca da própria autonomia e dos próprios caminhos e, por outro, a consciência da importância das ligações tradicionais e da dependência de meios para manter e desenvolver as estruturas eclesiais. No meio das profundas transformações políticas, sociais e económicas em curso no continente africano, a Igreja tem tido e continua a ter um papel importante na construção do futuro. Mas também ela está à procura de novos modelos de cristãos, de pastores, de líderes sociais que encarnem o ideal evangélico na diversidade das neo-culturas africanas.

O grande continente asiático, onde vive mais de metade da humanidade, constitui um grandíssimo desafio para Igreja e para toda a comunidade internacional. As ancestrais tradições culturais e religiosas locais, as atitudes ciosas da maioria dos regimes políticos em relação à influência e ao domínio ocidental, com que o cristianismo é geralmente identificado, bem como a complexidade dos relacionamentos com o resto do mundo, explicam o baixo número de cristãos, que não chegam a 3% da população. Mas, nas fervilhantes sociedades asiáticas, encontram-se comunidade eclesiais vivas e significativas, que assumem sem complexos o seu carácter minoritário e se colocam numa atitude missionária, não baseada no poder dos meios, mas no testemunho da vida e, não raramente, no meio de todo o tipo de obstáculos e, até mesmo, de perseguições. Basta mencionar a situação da Igreja na Índia, China, Coreia e Indonésia, para não falar da situação das Filipinas e de Timor Leste, onde os cristãos são maioritários. À medida que a velocíssima evolução económica, social e política deste continente se vai afirmando, abrem-se certamente novos horizontes para a evangelização. Mas, mais do que em qualquer lugar, são necessários aqui novos modelos, que tragam o Evangelho, sem pretender impor a cultura e a influência ocidental, de modo a plantar realmente a Igreja na sociedade asiática.

 

3.4. Eurocentrismo versus universalidade

Gostaria de incluir, nesta breve panorâmica sobre a mudança de paradigmas, quatro observações de carácter mais genérico. A primeira refere-se ao eurocentrismo ou à convicção da supremacia ocidental - incluindo a América do Norte - que tem dominado, sem grande questionamento, o pensamento deste lado do mundo, a nível político, cultural e também eclesial. É uma atitude resultante do domínio colonial dos séculos passados, reforçada pela exuberância da economia e da técnica, que se reflecte nos mais diversos sectores da vida política, científica e cultural. Mas esta é uma situação que está a mudar rapidamente, a começar pela economia. Já no próximo ano, a indústria transformadora chinesa deve ultrapassar o volume da dos Estados Unidos e o peso estratégico dos países emergentes, como a China, Índia e Brasil está a mover os braços da balança dos equilíbrios planetários. Além disso, os modelos culturais europeus, sem deixarem de exercer uma grande atracção nos outros continentes, começam a conhecer a concorrência das culturas locais, quando não são directamente rejeitados ou considerados decadentes ou superados.

Esta mudança de mentalidades tem muito a ver com a Igreja e com a sua missão. Mercê do seu percurso histórico e apesar de a maioria dos cristãos se encontrar hoje no hemisfério sul, o peso das  instituições eclesiais e dos centros de reflexão e de decisão da Igreja, bem como dos seus recursos económicos, concentram-se no hemisfério norte, sobretudo na Europa. Não se trata apenas de um factor geográfico, mas de uma mentalidade que envolve todos os sectores da vida e da organização da Igreja.

A situação está a mudar rapidamente, mercê, antes de mais, da deslocação geográfica dos recursos humanos no seio da Igreja. Nos institutos de vida consagrada, por exemplo, para além da responsabilidade das províncias missionárias estar a passar progressivamente para as mãos de religiosos e religiosas locais, também a nível das sedes dos respectivos governos gerais, a multi-culturalidade vai-se tornando cada vez mais evidente. O esforço de formação e especialização de pessoas, em todos os continentes, apresenta hoje novas possibilidades de escolha de especialistas nas diversas matérias e de responsáveis pela vida da Igreja e dos institutos religiosos, contribuindo para uma mais equilibrada visão do mundo e da Igreja. É necessário, não apenas sofrer ou suportar esta evolução, mas sobretudo assumi-la e utilizá-la para criar uma  Igreja mais universal, mais enriquecida pela diversidade das culturas que a compõem e também mais descentralizada e fraterna.

 

3.5. Globalização e universalidade do Evangelho

O segundo elemento desta mudança de perspectiva é a chamada globalização. Tanto se tem discursado sobre esta realidade invasora e incontornável, que não me demoro a descrever os aspectos positivos e negativos dos novos sistemas de comunicações, interdependências e intercâmbios humanos e culturais que determinam a vida hodierna no nosso planeta. É certamente um mundo pleno de novas oportunidades e novos riscos que não pode ser deixado à espontaneidade dos seus próprios dinamismos, mas que precisa de ser orientado para que não se converta numa nova selva regida apenas pela lei do mais forte.

Muito antes de se falar da globalização, a Igreja viveu essa realidade universal, particularmente através da missão dirigida a todos os povos. As novas possibilidades de comunicação, de deslocação e de intercâmbios, embora aliadas à multiplicação de barreiras e a fenómenos preocupantes de xenofobia e de nacionalismos exacerbados, representam novas oportunidades de encontro, de solidariedade e de missão, no contexto eclesial, contribuindo para desfazer equívocos e preconceitos e tornar mais imediata a experiência da universalidade da Igreja. Ao mesmo tempo, a experiência internacional e inter-cultural da missão, no sentido de encontro e solidariedade entre raças e continentes, constitui um elemento positivo para evitar os efeitos nocivos da globalização, fazer ouvir a voz dos mais fracos e lutar pela justiça, o direito e a paz.

 

3.6. Os movimentos migratórios

Ligado ao fenómeno da globalização, as migrações humanas constituem, hoje, uma realidade muito importante nos equilíbrios planetários e na visão do futuro da humanidade, à qual a missão da Igreja não pode ficar indiferente. No passado, as grandes migrações humanas deram sempre azo à criação de novas realidades políticas e culturais, umas vezes de modo pacífico, outras com recurso a formas destruidoras de violência. Pense-se nas deslocações das tribos do Oriente que deram origem à Europa de hoje e, a partir das descobertas, nas migrações europeias para as Américas e a África. Hoje, as migrações fazem-se em sentido inverso, desses mesmos continentes, em direcção à Europa e à América do Norte.

A migração de Norte para Sul deu ocasião a um grande movimento missionário e á implantação da Igreja nos novos continentes. O alcance das actuais migrações do Sul para o Norte do planeta está ainda para verificar, mas o que a Igreja não deve é alhear-se deste fenómeno.  A sua experiência missionária pode  ser  muito  útil  neste  contexto.  A  multi-culturalidade encontra-se, agora, em nossa casa e esta situação precisa de uma acção pastoral específica e uma mudança de mentalidades: queremos apenas assimilar estas pessoas nas nossas comunidades e instituições ou desejamos que tragam um contributo novo para as nossas igrejas e para a nossa sociedade? As recentes migrações, que sem dúvida vão continuar, representam uma ocasião preciosa de revitalização de muitas igrejas adormecidas do Norte, bem como de colaboração com as novas igrejas do Sul, de onde provém a maioria dos imigrantes.

 

3.7. Uma nova mentalidade eclesial

Mas a mudança de paradigmas não é fruto apenas de factores externos à Igreja. A nova mentalidade eclesial gerada com o Concílio Vaticano II contribuiu para que os cristãos não fossem simples espectadores  passivos do cortejo da história, mas nele tomassem um papel activo. Não se trata de recuperar privilégios ou  poder político do passado, com que alguns ainda sonham, mas de apresentar-se como proposta de valores humanos, sociais e espirituais, como voz dos que clamam por justiça e dignidade, como semente de esperança para a construção de um mundo fraterno e solidário, na diversidade das suas culturas.

Particularmente no que diz respeito à missão, a Igreja vai redescobrindo e aprofundando, com avanços e recuos, o seu papel de anunciar sem impor, de não pretender ser senhora, mas de tomar o seu  verdadeiro lugar de serva, particularmente em relação àqueles que são deixados à beira da estrada. Sem renunciar à fidelidade à herança recebida, há lugar para o respeito pela diversidade que enriquece a sua unidade e universalidade, bem como para o diálogo com outros credos e tradições religiosas, buscando pontos de encontro e de colaboração.

Apesar de todas as debilidades, hesitações e perigos de involuções saudosistas, a Igreja em que nos é dado viver, hoje, não tem que invejar os séculos passados. Precisamos, sim, de tomar consciência da importância do tempo em que vivemos, de abrir-nos ao Espírito que não deixará de nos acompanhar, para fazer face aos desafios que se nos deparam e criar perspectivas novas no início deste terceiro milénio do Evangelho.

 

 

4. Desafios e perspectivas

 

4.1. Partir de Cristo

O primeiro desafio da missão é partir do fundamento que é Cristo. Neste ano paulino, é oportuno regressar às motivações e perspectivas missionárias do grande apóstolo dos povos: “O amor de Cristo nos impele…” (2Co 5,14). Não há outra motivação válida para a missão a não ser o amor de Cristo, vivido e oferecido. Todas as outras estratégias, programas e motivações caem, cedo ou tarde, quando não corrompem mesmo a autenticidade do anúncio do Evangelho. E, se é verdade que existem muitas razões para as crises da missão e dos missionários, acaba-se sempre por chegar à falta de comunhão com Cristo, que cria pessoas novas, à sua imagem, estabelece as prioridades da missão e forja os modelos pelos quais ela se deve realizar.

É na configuração com o Senhor Jesus que se entende o fazer da vida um dom e um serviço para os outros, não de forma autoritária, interesseira ou paternalista, mas através da partilha da própria vida daqueles a quem se leva o Evangelho de Cristo: “Ele, que era de condição divina… despojou-se a si próprio, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens…” (Flp 2,6-7); ou, como diz a carta aos Hebreus, solidário connosco e capaz de se compadecer da nossa debilidade, porque se fez “igual a nós excepto no pecado” (Hb 4,15). Esta solidariedade com a pessoa, em nome e segundo o estilo de Cristo, é a base da missão. A essa luz se entendem tantas outras dimensões da vocação missionária, como a justa inculturação e a universalidade, a solidariedade com os mais débeis e a denúncia profética da injustiça, a misericórdia para com os que sofrem a pobreza, a exclusão e a doença, e sobretudo a oferta da própria vida, como testemunho e continuação da missão de Cristo.

Evidentemente que esta é uma atitude a cultivar pessoal e comunitariamente, mas é também um caminho de formação e de aprendizagem que há que desenvolver. A formação dos missionários para uma sólida vida espiritual aliada a uma visão correcta da Igreja e do mundo é fundamental, num mundo em constante evolução, que apresenta desafios complicados e pede respostas que abram caminhos válidos para o futuro.

 

4.2. A missão no centro da vida da Igreja

A partir da centralidade de Cristo se entende a urgência de voltar a colocar a missão no centro da vida das comunidades cristãs. Particularmente nas igrejas de antiga tradição, há que fugir à tentação de limitar-se a administrar a comunidade já existente ou de converter-se em agências de serviços religiosos, para um grupo de fiéis sempre mais reduzido e envelhecido. Há que tirar as consequências de já não sermos uma “sociedade cristã” e assumir-se como semente e proposta de Evangelho. Como repetia insistentemente o Pe. Leão Dehon, fundador dos Dehonianos, “é preciso sair das sacristias”. Este convite é dirigido ao clero, religiosos e leigos, a  toda a comunidade. Neste aspecto, as comunidades de recente evangelização têm uma postura muito mais  activa, atribuindo-se um papel crucial de proposta evangélica para fora de si próprias, em direcção às sociedades onde se inserem. É preciso que esta atitude contagie toda a Igreja, pois a urgência da missão encontra-se em todo o mundo.

A percepção de não sermos uma cristandade que domina a sociedade pode ser uma oportunidade para desenvolver uma nova tomada de consciência da própria comunidade cristã e do seu relacionamento com o mundo. O assumir-se como pequeno rebanho amado e cuidado pelo seu pastor (cf. Lc 12,32) e como fermento e semente (cf. Mt 13,31-33) destinados a oferecer nova vida ao mundo constituem a base para a verdadeira missão, baseada no dom, no serviço e na confiança no poder de Deus e na presença do seu Espírito.

 

4.3. Missão de todas as Igrejas, para todo o mundo

Por outro lado, há que redimensionar a ideia tradicional de uma missão a partir das igrejas do Norte em direcção Sul, como vimos anteriormente. Hoje a missão é de todas as Igrejas, para todo o mundo. As Igrejas de recente evangelização têm de consciencializar-se de que o dom que receberam é para ser comunicado. Na missão não há nunca uma estação final de destino, mas cada estação do comboio da história e da geografia se converte num ponto de partida para novas direcções e destinos. Esta perspectiva de intercâmbio missionário é uma lídima expressão da universalidade e solidariedade da Igreja, sem paternalismos nem complexos, ao mesmo tempo que permite responder aos novos desafios da globalização, das migrações e da multi-culturalidade que caracterizam as grandes metrópoles dos nossos dias.

O intercâmbio missionário, já em curso (veja-se a quantidade de sacerdotes e religiosas/as, que estão ao serviço das igrejas de fundação mais antiga, nos países europeus) deve, porém, ser bem  entendido e purificado de interesses espúrios, para se tornar realmente um serviço ao Evangelho. Há que evitar, por um lado, que as Igrejas com maior capacidade económica sejam, por esse motivo, recrutadoras privilegiadas de “mão de obra pastoral”, para manter de pé estruturas do passado, adiando a sua necessária renovação. Por outro lado, também não ajuda a real solidariedade entre as igrejas, o voluntarismo ou interesse de pseudo-missionários, desligados das próprias igrejas ou institutos de origem, que partem como franco-atiradores solitários, para outros países, sem nunca chegarem a inserir-se realmente numa nova realidade pastoral. Pelo contrário, a solidariedade organizada entre igrejas de diferentes continentes e latitudes, com intercâmbio de recursos humanos e materiais, vai-se revelando um válido elemento de implementação da comunhão e da missão universal de toda a Igreja.

Os institutos religiosos, pela sua composição e experiência internacional, podem ter um papel importante neste intercâmbio, em ligação com as igrejas locais, identificando necessidades, coordenando recursos e facilitando a correcta inserção apostólica de missionários de origens diversas através do seu enquadramento comunitário. Mas, para isso, é necessário que também eles, sob a pressão da falta de vocações no hemisfério norte, não caiam na tentação de recorrer aos irmãos e irmãs do Sul (quando não a simples candidatos recrutados à pressa), como mão-de-obra acessível, para “tapar buracos” e manter de pé obras inadaptadas à situação presente ou para encher estruturas formativas vazias. Pelo contrário, a experiência recente vai demonstrando a validade de iniciativa de colaboração internacional, viradas, não simplesmente para manter estruturas, mas para criar novos projectos de revitalização de regiões mais envelhecidas dos institutos religiosos, responder a necessidades pastorais concretas, particularmente no domínio das migrações e da multi-culturalidade ou desenvolver programas de formação internacional.

 

4.4. Comunidade e missão

Passar do paradigma de cristandade para o de semente e fermento no meio da sociedade pode contribuir também para fomentar o espírito de comunidade e de participação dos leigos na evangelização. No modelo tradicional europeu, a vida das comunidades repousava sobre um corpo bem organizado de clérigos, que eram, por assim dizer, os produtores de religião para o consumo dos “fregueses”, que, ao máximo, eram seus “colaboradores”. Quem conhece minimamente a realidade missionária nos outros continentes, sabe bem como os missionários presbíteros, na maior parte dos lugares, visitam as comunidades umas poucas vezes por ano, estando a vida e organização dessas comunidades entregues à generosidade de catequistas e outros líderes comunitários, bem como ao precioso trabalho de religiosas. Embora este modelo, gerado pela falta de padres e pelas distâncias, apresente muitas carências, não há dúvida que acaba por favorecer a formação de comunidades muito mais vivas e fraternas do que quando se verifica a dependência de uma única pessoa que é responsável por tudo. Sabemos como este modelo de comunidades de base deu um grande e duradouro impulso, não apenas à difusão do Evangelho, como também à promoção do desenvolvimento social e à consciencialização política na defesa da dignidade e da justiça, para além de ter permitido a sobrevivência de inúmeras comunidades cristãs, durante decénios de guerra, sem nenhuma assistência de padres, por exemplo em Angola e Moçambique.

Desde o início da difusão do Evangelho, após o Pentecostes, a comunidade em si mesma constitui uma proposta e um testemunho do Senhor ressuscitado, que atrai aqueles que com ela contactam. Esse dinamismo não se esgotou, hoje, também nas sociedades ocidentais. Pelo contrário, vemos como os movimentos, no interior da Igreja, e os grupos, no contexto paroquial, constituem, na actualidade, os ambientes onde se encontram, se formam e se inter-ajudam os cristãos mais activos e empenhados, nas próprias comunidades e na missão fora delas. É importante que os cristãos se sintam sujeitos, com voz e vez, integrados numa comunidade, e não simples objectos da direcção de outros. Estou convencido de que a reevangelização do mundo moderno, em qualquer latitude, tem de passar por uma igreja mais comunitária e mais fraterna. O modelo de assistência passiva a um “espectáculo litúrgico”, protagonizado por um único actor, tem cada vez menos audiência. Enviando os discípulos dois a dois, Jesus indica o modelo da missão que deles pretende: os missionários devem ser enviados por uma comunidade, para formar comunidades fraternas e vivendo o espírito comunitário de quanto anunciam. Não se trata de desvalorizar o papel dos ministérios ordenados, mas há que entendê-los e inseri-los realmente no contexto dos outros ministérios que concorrem, em conjunto, para a vida e o crescimento da comunidade eclesial.

Neste contexto, merece especial referência o auspicioso desenvolvimento da participação activa de leigos na missão, tanto no seio das próprias igrejas locais, como na colaboração além-fronteiras. Não sendo embora uma novidade absoluta, esta forma de voluntariado missionário vai-se desenvolvendo, particularmente ao redor das congregações missionárias e movimentos eclesiais, abrindo perspectivas interessantes de benéfica cooperação entre as igrejas e despertando, sobretudo os jovens, para o valor de outras culturas e para o dom de si próprios em favor de um mundo mais justo e fraterno, em nome do Evangelho. Para que estas iniciativas não se fiquem por uma espécie de “turismo missionário”, é necessário cuidar da preparação humana e espiritual e do apoio àqueles que participam em missões deste tipo, para que possam realmente inserir-se num projecto de missão e não ficar apenas como colaboradores externos. A experiência mostra que, quando estas iniciativas são bem conduzidas e sobretudo quando envolvem as comunidades  cristãs  de origem e de destino da missão, têm um resultado muito positivo, tanto para os que nelas participam, como na nova sensibilidade e co-responsabilidade eclesial que originam.

 

4.5. Igrejas locais e comunhão universal em Cristo

A missão dos últimos séculos levou à formação de numerosas igrejas locais, em muitos países que acederam recentemente à independência. Este facto representa uma enorme riqueza e um fascinante desafio para a vida e o futuro da Igreja no seu conjunto. Estão relativamente ultrapassados os antigos esquemas de dependência das “igrejas da metrópole” e as novas igrejas têm-se afirmado, com os seus líderes e dinamismo próprio, fazendo frente às dificuldades e porfiando no esforço de expressão da fé nas suas próprias culturas. O período que estamos a viver representa, para muitas destas novas igrejas, a passagem da época missionária, fundamentalmente protagonizada por missionários estrangeiros, para a consolidação da vida eclesial local.

Este é um momento delicado e importante para o futuro destas igrejas que requer, da parte de todos os intervenientes, espírito eclesial fraterno e generoso. Os missionários têm de assumir-se não como os senhores das comunidades que lhes são confiadas, mas como estando ao serviço de uma igreja já presente e activa, com os seus serviços e ministérios. É, pois, natural e desejável que sejam os filhos desta igreja a assumir a responsabilidade fundamental da sua gestão, desde que para isso estejam preparados. Por outro lado, é importante que as igrejas locais se capacitem de que, na Igreja de Cristo, não há estrangeiros: “Em Cristo, não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher…” (Gl 3,28). Todos são membros de pleno direito da igreja onde vivem e exercem o seu ministério e a todos podem ser pedidos serviços de responsabilidade para o desenvolvimento das comunidades cristãs.

Em vez de serem consideradas um limite, a presença multicultural e a diversidade de nacionalidades hão-de ser vistas como riqueza e vantagem para cada igreja, em qualquer parte do mundo. Tal diversidade enriquece a igreja local com a experiência de outras igrejas, torna visível a universalidade do Evangelho e representa também um antídoto contra todas as formas de tribalismo, etnocentrismo e regionalismo. De facto, a exacerbação dos nacionalismos conduz, com muita frequência, à desintegração das comunidades em grupos étnicos, tribais ou regionais, que contradizem o espírito do Evangelho e tornam impossível a vida da comunidade cristã.

Muitos institutos religiosos estão, neste momento, a viver esta fase de passagem da época missionária à constituição de entidades locais, geridas por irmãos e irmãs autóctones e experimentando estes mesmos tipos de desafios. Na minha Congregação existem várias situações deste tipo. Pelos motivos acima mencionados, costumo dizer, a este respeito, que gostaria muito que todas as províncias do Instituto fossem geridas maioritariamente por confrades locais, mas desejo igualmente que nenhuma delas seja mono-nacional ou  mono-cultural. Também aqui, os institutos religiosos podem ter um papel importante na formação da mentalidade das igrejas onde estão presentes, se se afirmarem como comunidades multi-culturais e multi-nacionais,  capazes de se inculturar onde vivem e trabalham, sem perder de vista a comunhão multi-cultural da Igreja.

 

4.6. Missão e diálogo inter-religioso

Um tema muito sensível nos nossos dias é o da relação entre missão e diálogo inter- religioso. Infelizmente os conflitos de índole religiosa e a instrumentalização dos sentimentos religiosos, aliados a campanhas étnico-nacionalistas, não constituem apenas temas da história passada, mas continua a ensombrar dramaticamente a realidade deste início de milénio. A esta luz, não falta uma opinião pública que questiona mesmo a legitimidade da acção missionária, que é frequentemente descrita como proselitismo invasor das crenças de cada povo e que, sobretudo no ocidente, se interroga se o mundo não seria melhor sem religiões. Em muitas partes do mundo, os  cristãos  experimentam  as  consequências  destes  conflitos,  tendo  de enfrentar toda a espécie de dificuldades e mesmo dura perseguição, para viverem e exprimirem a própria fé. Estas situações são frequentes sobretudo nos países de tradição islâmica e, recentemente, em vários estados da  Índia, para não falar dos regimes totalitários que ainda defendem a legitimidade de determinar aquilo que deve pensar a própria população.

A Igreja tem na sua história uma larga experiência de perseguição e de atitudes de imposição violenta da fé, não só sofrida, mas também exercida. Os repetidos pedidos de perdão feitos oficialmente, nos últimos anos, em relação a muitas destas situações testemunham a visão crítica de um passado que não se pode mudar, mas que pode ajudar a construir um futuro diferente. Por isso, no contacto missionário com o mundo, é importante desenvolver, a nível teológico e prático, uma atitude de respeito e de colaboração para com as outras tradições religiosas e para com os diferentes modos de pensar. O conhecimento das grandes tradições religiosas onde se actua e a preparação para o diálogo ecuménico e inter-religioso constituem, hoje, um imperativo da missão.

Por outro lado, a experiência histórica em todos os quadrantes demonstra que, onde não se deixa à pessoa humana a liberdade de pensar e de seguir os ditames da própria consciência, dentro do respeito pelos direitos dos outros, a liberdade e a dignidade humana ficam em grave perigo. Infelizmente, onde se procura suprimir a liberdade de exprimir e propor a própria fé, muitos outros direitos da pessoa humana são igualmente amachucados. Não por nada, a liberdade religiosa consta dos principais artigos dos direitos da pessoa humana, constituindo uma meta que os Estados fixaram para a própria actividade política.

Para além do natural desejo e do direito de partilhar e propor o próprio pensamento e a própria crença, a defesa e afirmação do direito de viver, exprimir e propor a própria fé é um serviço à liberdade, à democracia e ao justo relacionamento entre os povos e nações. Para que tal seja possível, é importante, porém, que a missão da Igreja se dispa de qualquer forma de violência, fazendo-se profecia da palavra que se anuncia sem temor e dom da vida que se oferece e que, exactamente porque não se impõe, pode ser aceite com alegria e criar relacionamentos de fraternidade e de paz.

 

 

Conclusão

 

A jeito de conclusão, gostaria de deixar uma parábola que pode exprimir muito daquilo que procurei transmitir sobre a missão no contexto actual da Igreja e sobre as perspectivas de futuro. Ela aplica-se, antes de mais, às igrejas de evangelização mais antiga, mas igualmente a muitas situações e mentalidades da Igreja em todo o mundo.

 

Um grande proprietário tinha um numeroso e fecundo rebanho. Tendo organizado e providenciado pastores para cuidarem das ovelhas, viajou para outras paragens a tratar de outros rebanhos.

Um dia voltou e foi inteirar-se do seu primeiro rebanho. Viu que tinham substituído a cerca de madeira tosca do antigo redil por um grande e elegante muro bem decorado, criado novas e mais cómodas instalações, estruturado e automatizado os cuidados das ovelhas, para que nada faltasse e até tinham exportado o modelo para outras terras, onde tinha conhecido sucesso. Mas, abrindo o pesado e solene portão, o senhor encontrou o recinto meio vazio. No andar superior, um grupo de pastores, muito nervosos, discutia as razões e soluções da crise, enquanto, em baixo, no amplo pátio, outros pastores se afadigavam com toda a sorte de estruturas e serviços, ajudados por umas ovelhas, a maioria de idade avançada, que baliam o melhor que sabiam, para animar um grupo de cordeirinhos, sempre de olho posto na porta.

Foi ter com eles e perguntou-lhes:

─ Onde estão os outros? E vocês, porque razão não se foram também embora?

Alguns reconheceram-no e, com um misto de saudade, alegria e nova esperança, responderam:

─ Estávamos à espera; sabíamos que havias de voltar.

Ele olhou-os com carinho e, no seu coração, passou o nome de cada um deles, porque os conhecia a todos. Depois, chamou os pastores, juntamente com as ovelhas e criticou a sua timidez e falta de iniciativa, ao mesmo tempo que lhes infundia novo ânimo:

─ Não vêem que esses muros e essas estruturas, que tanto vos dão a ideia de segurança força e comodidade, impedem que a voz do pastor e o balir das ovelhas de dentro chegue às que estão lá fora e que vocês mesmos se dêem conta do que se passa no resto do mundo? Saiam daí; venham comigo; abram essas portas!

Quando abriram, o grupo estremeceu, sacudido por uma forte rajada de vento, que trazia odores e convites de outros campos e outras cidades. Alguns ainda objectaram que eram poucos, mas ele respondeu:

─ No meu primeiríssimo rebanho eram muito menos. Nenhum rebanho é pequeno se segue o bom pastor que lhe dá vida. Vocês, pastores, gritem bem alto o meu pregão, mas façam igualmente coro com as ovelhas. Façam ouvir, juntos, o vosso canto, dizendo que estou de volta. Outros hão-de escutar e querer juntar a sua à vossa voz.

E foram pelos caminhos e praças, gritando e balindo, à procura das ovelhas que se tinham perdido e de outras que nunca sequer tinham ouvido aquela música.

Com surpresa, foram-se dando conta que, aqui e ali, havia grupos que cantavam partes das melodias de sempre do rebanho, embora nem soubessem da sua origem e, por vezes, tivessem introduzido variações, algumas mais apropriadas que outras. E começaram a verificar que, sem perder a entoação original, era possível fazer novos coros, que curavam feridas do corpo e da alma e infundiam alegria, força e esperança no coração da gente.


 

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Texto reproduzido com a devida autorização das Obras Missionárias Pontifícias