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Novo capítulo de uma gesta heróica

timor_leste_um_novo_capitulo_de_uma_gesta_heroicaA abertura de uma nova frente missionária foi sempre, para os filhos de São Francisco, sinal de vitalidade, de fé corajosa e de esperança para a Igreja. O facto de recentemente se ter inaugurado uma nova missão em Laleia, Timor Leste, pelos irmãos da Província de Portugal, leva-me a invocar o fervor missionário dos primórdios da Ordem, quando os franciscanos penetraram no misterioso e longínquo Extremo Oriente, impelidos por um misto de zelo apostólico e de aventura cristã. É de todos conhecido o grande amor que São Francisco nutriu pelas missões. Foi ele o primeiro fundador a inserir na Regra um capítulo sobre as missões ad gentes. Mais ainda, lançaria um novo estilo de cruzada cristã, assente no respeito pela pessoa humana e no esforço pela inculturação, antecipando-se assim em muitos séculos ao Vaticano II.

Os irmãos que partem, de dois modos podem viver espiritualmente entre eles (os moiros); O primeiro é não abrirem debates nem discussões, mas mostrarem-se submissos a toda a humana criatura por amor de Deus, e confessarem que são cristãos...” (1R, Cap. 16).

Tratava-se essencialmente de um apostolado de presença testemunhante.

Interpretando o mandato de Cristo como dirigido a si mesmo e aos irmãos:” Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho”, o poverello enviou os companheiros em 1217, não só para os países da Europa, mas também para o médio Oriente. Ele mesmo daria o exemplo ao escolher o cenário mais perigoso quando se dirigiu a terras sarracenas. Nessas paragens, a presença franciscana deixaria algumas marcas de simpatia entre os muçulmanos, provavelmente devido à simplicidade, coragem e respeito que viram no Poverello de Assis aquando do encontro com o sultão Melek al Kamel, antes da desastrosa batalha de Damieta. Desde então, a Santa Sé, tem confiado aos franciscanos a guarda dos lugares santos da Palestina, bem como inúmeras missões apostólicas e diplomáticas quer entre os muçulmanos, quer junto da Igreja Oriental separada. Em geral, poucos frutos se puderam colher entre os seguidores de Maomé, ficando o registo da sua memória marcada com muitas páginas rubras de sangue.

Onde nos parece ter chegado mais longe e mais alto o sonho missionário e aventura dos filhos de São Francisco, foi no século XIII e XIV ao oferecer-se-lhe oportunidade de penetrar no imenso e misterioso Extremo Oriente. Um dado novo chamava a atenção da Europa cristã em relação àquele continente. “Em 1241, os mongóis, donos de quase toda a Ásia, irromperam na Europa, enchendo de consternação toda a cristandade. Ninguém acreditava ser possível fazer frente com armas, àquele furacão devastador que em trinta anos havia criado o maior império continental registado na história, sem sofrer uma só derrota”. Julgou-se melhor seguir uma via indirecta, lançando mão das duas Ordens mendicantes. Estas começaram por ser embaixadas de paz, terminando por implantar uma considerável rede de missões, protegidos pela tolerância dos rudes conquistadores.

A primeira embaixada, encetada em 1245 sob a direcção de João de Pian di Carpine, falhou. A segunda tentativa, liderada pelo dominicano André de Lonjumeau, e a terceira, chefiada por outro franciscano, Gulherme de Rubruck, teve a mesma sorte das anteriores. De positivo ficou a recolha de preciosas informações sobre aquele mundo impenetrável e misterioso, que permitiam sonhar com um esperançoso trabalho missionário.

Fracassada a via diplomática optou-se por empreendimentos evangelizadores que se foram planeando nos Capítulos Gerais, principalmente após as viagens dos irmãos Polo, portadores de uma carta do imperador Khan, pedindo cem sábios europeus para instrui-lo na religião cristã. O sonho passou a tornar-se realidade no pontificado de Nicolau IV, mediante os missionários já presentes na Polónia e na Hungria, donde partiram e se foram introduzindo no território mongólico.

Por seu lado, os capítulos gerais da Ordem seguiam com grande atenção o rolar dos acontecimentos e tentavam anuir aos pedidos da Santa Sé no sentido de disponibilizarem o maior número de irmãos para serem enviados a esse novo campo que se abria ao evangelho. O pedido de Kubilay Khan, solicitando cem sábios europeus para o instruírem na religião cristã, era elucidativo da abertura que se oferecia e das perspectivas que se abriam à evangelização cristã.

Em 1291 o Papa Nicolau IV incumbia de nova tarefa evangelizadora o famoso fundador das missões da China, João de Motecorvino. Acompanhado de um dominicano, atravessou a Pércia, e ladeou a Índia pela costa marítima. Aqui morreu o dominicano que o acompanhava, seguindo ele sozinho o seu caminho até Khambalik (Pequim).

Em 1303 recebia reforços de novos missionários. E quando ao fim de 12 anos chegaram as cartas descrevendo os frutos obtidos e a simpatia que lhe era dispensada na corte do imperador, logo o Papa Clemente V diligenciou para que o Ministro Geral da Ordem Franciscana designasse religiosos aptos para lhes confiar a implantação de uma ampla hierarquia apostólico-missionária nessas paragens. Pouco tempo depois partia uma nutrida expedição acompanhada de alguns Bispos sofraganeos de Montecorvino a quem eles deveriam sagrar como Arcebispo de Pequim. Muitos ficaram pelo caminho vitimados por febres.

Repetiram-se sucessivas expedições missionárias não só ao Extremo Oriente, mas também aos demais territórios tártaros. Em 1353, nova mensagem do Grande Kan, pedindo mais operários evangélicos a Inocêncio VI que sem perda de tempo solicitou ao Geral novas ajudas. Infelizmente a resposta não encontrou o eco desejado, nem por parte do Papa, nem dos superiores franciscanos e dominicanos também eles empenhados na mesma tarefa evangelizadora, devido à pandemia da peste negra que provocara uma verdadeira hecatombe entre os missionários. Não obstante, em 1371 organizou-se uma nova expedição com cerca de sessenta missionários, que já não teve o sucesso das anteriores, porque três anos antes da sua chegada, a dinastia reinante passou para mãos rivais que não viam os missionários com os mesmos olhos.

Foram cinquenta anos de heroísmos e sucessos apostólicos, verdadeira epopeia protagonizada pela família minorítica. O seu campo apostólico estendeu-se do Aquilonar até ao mar Cáspio, abrangendo toda a Orda de Ouro, além dos territórios que compreendiam a China, a Índia, a Arménia, a Mesopotâmia e a Pércia. Estava lançada pela primeira vez a semente do Evangelho num amplo espaço geográfico e humano, onde no decorrer da história, se viriam a reiterar outras tentativas de missionação, com perseguições à mistura, como sempre acontece nos caminhos daqueles que se propõem seguir o Cordeiro para onde quer que Ele vá.

Os Capuchinhos portugueses, conscientes da sua vocação missionária e acreditando na força do Espírito Santo, que acompanhará e iluminará os missionários de hoje como os de ontem, abriram há 6 anos um novo capítulo nas terras do Oriente distante, ao serviço de Deus e dos homens. Oxalá saibam entender os sinais dos tempos e responder à chamada com a mesma generosidade e o mesmo espírito de São Francisco e de tantos outros que lhe seguiram os passos.