Documentos dos Capuchinhos

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A missão no coração da Ordem (Carta Circular nº 5)

Carta Circular nº 5Carta Circular a todos os Frades da Ordem sobre a Missão: A missão no coração da Ordem (Prot. N. 00782/09).

 

I. Uma gloriosa história a contar

1.1 - Um sonho que leva longe - “Eu quero partir, quero ir bem longe!” O jovem camponês apoiara o braço no cabo da enxada e dirigia o olhar ao longe, bem além do horizonte de suas terras. Ao pai que o observava e questionou, respondeu: “Os nossos campos são grandes, a família é numerosa e unida. Mas eu sinto que isto não me basta. Um dia eu partirei. Quero ser missionário” (1).

Dizendo sim à vocação, o jovem Lorenzo deixou a sua casa para entrar na ordem dos frades capuchinhos que lhe deram o nome de Guglielmo. Mais tarde ele encontrou o Papa Gregório XVI que o designou para a missão entre os Gala, povo da longínqua Etiópia, ao qual ele dedicaria todas as suas energias. Viveu entre eles por bons 35 anos enfrentando toda a sorte de provas e de adversidades. Por isso, se pode afirmar tranquilamente que na sua vida deu-se a realização da Palavra do Senhor aos seus discípulos: “Não haverá ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais agora, no tempo presente... com perseguições, e no futuro a vida eterna" (Mc 10, 29-30).

São passados 200 anos do nascimento do missionário capuchinho Cardeal Guglielmo Massaia, e neste aniversário somos convidados a interrogar-nos: “Quanto é forte em mim o desejo de partir como o jovem Massaia e ir além do meu campo? Até que ponto é forte na minha/nossa fraternidade capuchinha o desejo de ser missionário? O que estou/estamos dispostos a dar para revigorar a nossa missão no mundo?”.

1.2 - A memória do passado nos prepara para o futuro - Em 2009 celebram-se os 100 anos da morte de frei Bernardo Christen de Andermatt, Ministro Geral da Ordem de 1884 a 1908; ele é quase um segundo fundador da nossa Ordem. Ele empenhou-se a fundo para renovar a missão. Na trilha de frei Anastasius Hartmann, que há 150 anos (1858), foi nomeado como primeiro Procurador das Missões da Ordem, frei Bernardo Christen fez sucesso com a sua idéia: “Uma Província - Uma Missão”, chamando novamente a atenção de toda a Ordem para o empenho missionário dos capuchinhos. Graças a ele “a missão” voltou a ser um elemento essencial da nossa fraternidade e a Ordem teve um novo reflorescer.

1.3 - Ser Capuchinho é ser missionário - Junto com estas memórias felizes não esqueçamos que transcorreram oito séculos desde que Francisco de Assis escreveu a sua primeira Regra. São Francisco foi o primeiro entre os fundadores de uma Ordem a pôr na Regra “a missão”, um texto que os primeiros capuchinhos retomaram quase integralmente nas Constituições de Santa Eufêmia (1536) (2).

A nossa Ordem precisou de esperar até 1574 para obter a permissão de atravessar os Alpes e deixar a Itália(3) para ir “inter haereticos, schismaticos et paganos”(4), isto é, para os países protestantes(5), as nações ortodoxas(6) e junto dos não cristãos(7) . Um “partir” que nunca parou.

Hoje a Ordem trabalha em 103 países do mundo! Ultimamente, iniciamos novas presenças, em 2005 na Islândia e no Gana; em 2006 chegamos às Seicheles, à Bolívia e ao Haiti; em 2009 assumimos a responsabilidade pelo Kuwait e temos uma pequena presença no Nepal.

1.4 - As condições mudaram, a tarefa permanece - Por muito tempo, o princípio de frei Bernardo Christen de Andermatt, “Uma Província – Uma Missão” revelou-se uma intuição genial: isso foi favorecido pelo facto de que frequentemente os capuchinhos eram os únicos que estavam presentes no território confiado a eles pela Propaganda Fide e não surgira ainda a Igreja local. Assim, a Província dispunha da autonomia necessária para organizar e levar adiante a missão a ela confiada.

Hoje, as condições mudaram radicalmente não só na Igreja e na Ordem, mas também no campo político e económico. Basta pensar no conceito da “globalização”, que pode significar tudo ou nada, a menos que se considere como as economias e as políticas sociais de cada país têm sempre reflexos no sistema económico-político de outros países. Nenhuma das partes envolvidas é a única responsável por si mesma, mas ao mesmo tempo é responsável por todas. Isso vale tanto para os recuos como para os avanços. Se somos sabedores disso devemos-nos consciencializar de que também nós capuchinhos temos valores a propor pois somos depositários de um carisma capaz de transformar o mundo.

Fortalecidos pela promessa de Jesus: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20), não evitemos enfrentar os novos desafios que à primeira vista possam parecer difíceis e inacessíveis. Os primeiros capuchinhos expressaram a sua confiança incondicional em Deus abraçando a precariedade e a mobilidade dos lugares longe da cidade, para mergulhar na oração e na contemplação. Essa era e pode ser ainda hoje a origem da prontidão para deixar o ermo e ir ao encontro dos homens tanto no momento da necessidade material como no da busca de Deus.

O Papa Paulo VI na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi afirma que o anúncio “da mensagem evangélica não é para a Igreja um contributo facultativo: é o dever que a incumbe por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam crer e ser salvos” (EN 5). A Missão é pois “a mais profunda identidade” da Igreja (EN 14). Ressaltando a dimensão qualitativa da evangelização, afirma: “para a Igreja não se trata apenas de pregar o Evangelho em regiões geográficas sempre mais vastas ou a populações sempre mais extensas, mas também de atingir e quase abalar pela força do Evangelho os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que estão em contraste com a Palavra de Deus e os desígnios da salvação” (EN 19).

1.5 - A missão cria unidade - Em 1967, o então Dom Joseph Ratzinger, pôs em evidência que o conceito de missão, na Constituição Conciliar sobre a Igreja, surgiu no momento em que a catolicidade era tematizada como o “novo povo de Deus”. Assim escreveu: “O Deus uno criou o homem e quis a humanidade como unidade… A missão é a actuação do movimento salvífico fundamental da unificação, contra as divisões que proveem do pecado, e assim é a autêntica execução da linha do movimento da história da salvação”(8). Esta tarefa tem seu fundamento na ordem de Jesus “Ide e baptizai todas as nações” (Mt 28, 19), “para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). Onde o ser uma só coisa implica claramente relações novas, transformadas pelo encontro com Cristo. A nossa fraternidade franciscano-capuchinha, tendo em si mesma a tensão na fraternidade universal, é chamada, pela sua mesma índole, a testemunhar uma vida transformada, expressão de “relações redimidas” (VII CPO, 46).

1.6 - Relações redimidas: de Francisco aos Capuchinhos - Francisco de Assis não só foi homem todo “evangélico”, mas também homem “católico”, isto é, universal com e na Igreja. Inserindo na Regra a norma de como “andar entre os sarracenos” quer indicar antes mesmo da dimensão do martírio, a dimensão da relação. Sem esconder a própria identidade de cristão, o “Poverello” buscava em primeiro lugar encontrar o outro e ver nele o irmão. O encontro com o Sultão testemunha isso de modo surpreendente. Neste sentido a acção missionária da Ordem não deve ser entendida em primeiro lugar como uma difusão quantitativa, mas como um tornar presente o carisma de são Francisco em culturas que ainda não o conhecem. A nossa quer ser uma presença que deseja incidir sobre a realidade que a circunda para enriquecê-la. Esta presença não deixará de ser um apoio à comunidade cristã. Para se fazer presente deste modo é preciso antes de tudo ter clareza da própria vocação de frades menores: o que vem antes, quer da preparação intelectual, quer do desejo de “partir” em missão.

1.7 - “Partir”: sinal da missão - Na definição de missão está claramente o “partir”. As nossas Constituições definem o serviço do missionário como anúncio da Boa Nova aos que não creem em Cristo e como serviço às “jovens Igrejas” (Const 174, 5-6). Hoje porém, as “jovens Igrejas” já amadureceram e assumiram um rosto puramente local. Do mesmo modo as nossas fraternidades  enriqueceram-se com irmãos oriundos das comunidades cristãs locais. No actual processo de revisão das nossas Constituições será necessário ter presente estas mudanças e fazer a devida atualização nesse sentido.

Hoje o ser missionário significa ser aquele que leva o Evangelho, trabalhando para que o Reino encontre terra fértil para crescer. O horizonte missionário compreende além dos que ainda não conheceram o Evangelho, também aqueles que o esqueceram ou abandonaram. Missionário no sentido estrito é aquele que parte para um outro país, abraça a nova cultura empenhando-se em aprender a língua. Pondo-se totalmente ao serviço da causa do Reino, o missionário torna visível a universalidade da Igreja e revela a força inovadora do Evangelho de Cristo, que como tal não conhece fronteiras.

Se a exigência da missão é ir ao encontro de quem não conhece ou abandonou o Evangelho, para o frade menor capuchinho isso implica ir onde ninguém está disposto a ir! E para isso é preciso ter um coração inflamado pelo amor de Deus e do homem.

1.8 - Ultrapassar as fronteiras dos próprios projetos - A força missionária está radicada no amor e  robustece-se aprendendo a olhar para além dos projectos pessoais ou dos próprios desejos e com humildade pondo-nos ao serviço d’Aquele que nos chamou. Fomos libertados por Cristo para que ficássemos livres (cfr. Gl 5,1) para servir melhor os outros restituindo assim a Deus o que d’Ele recebemos. Eu estou mais do que convencido de que os nossos missionários fizeram muito e não poucos deles deram suas vidas até o último suspiro; não obstante isso, ainda há muito  que fazer para crescer na dimensão do agir comum e no fazer com que “os meus projectos” junto com “os projectos dos outros” se tornem na palavra e na ação “os nossos projectos”.

1.9 – Deixar-se interpelar para além do que fazemos ou do que já fizemos - Na minha Carta Circular nº. 04 “Reacendamos a chama do nosso carisma!” pus em evidência a queda do espírito missionário, sublinhando a pouca disponibilidade para ser enviados para a primeira evangelização em lugares marcados por situações difíceis por diversas razões e o ser missionários por um tempo bem determinado que exige, terminado o tempo, uma recompensa (nº 1.1.6-7).

As reacções às minhas observações foram várias: houve quem entendeu e aprovou e quem se sentiu ferido pois o seu empenho é sério e fiel, mas também quem simplesmente disse: “fizemos a nossa parte, agora cabe aos outros!”. Eu estou certo de que a missão é para qualquer idade e qualquer cultura, posto que faz parte da essência mesma da Igreja. Usando uma imagem, eu diria que ela é o termómetro que indica o vigor e a maturidade da fé de seus membros. A propósito, quanto está indicando o termómetro do fervor de nós capuchinhos pela missão?

1.10 - Em que ponto estamos - Nestes últimos anos a Ordem cresceu, ampliou os seus confins. Constatamos o fenómeno do crescimento notável das fraternidades na Ásia, África e América Latina, sobretudo no Brasil, e o constante decréscimo das fraternidades na Europa e na América do Norte, com variações regionais que às vezes indicam um processo muito rápido como também a estabilização da nossa presença na Europa Oriental. Ao lado desta constatação, que se refere ao que se vê neste momento, existem problemáticas menos visíveis e que incidem directamente sobre a missão ou sobre o nosso modo de ser missionários. Menciono algumas:

- confiar a jovens Circunscrições a responsabilidade da missão de primeira evangelização e, ao mesmo tempo, a implantatio Ordinis;

- a nova solidariedade que, do sul, onde as fraternidades são numerosas e florescentes, parte para o hemisfério norte, onde a presença do carisma, depois de longa tradição, está a diminuir;

- ou a presença em territórios nos quais a nossa acção apostólica nem sempre é permitida livremente e está diante de novos desafios e requer renovada atenção e energia.

Da parte do Governo Central da Ordem hoje requer-se certamente um prosseguimento no esforço económico, mas diria sobretudo na capacidade de acompanhar as novas realidades missionárias para evitar a escolha daquilo que é mais fácil ou da novidade ou mesmo do que favorece melhor a realização do “meu projecto”.

 

II. Para continuar uma história

2.1 - Reacender na Ordem o trabalho missionário - Neste ponto julgo que dar alguns dados históricos a mais não faz mal! O impulso que frei Bernardo Christen deu ao empenho missionário da Ordem encontra a sua colocação histórica no âmbito do despertar da consciência missionária que atinge toda a Igreja do século XIX. Na França e na Alemanha existiam as assim chamadas sociedades missionárias, das quais, entre outras, surgiu na Alemanha a notável “Hilfswerk Missio Aachen”(9). Por toda  a parte surgiram novas Congregações Missionárias.

Além dos tempos politicamente inquietos, também as estruturas internas dos capuchinhos não correspondiam mais às exigências. Embora seja verdade que a Ordem foi um dos principais suportes da Propaganda Fide(10), mas isso implicava que os frades não “pertencessem mais à Província” e recebessem as orientações directamente da Congregação. Os limites impostos pelas distâncias e a falta de meios de comunicação fizeram com que se perdesse o contacto entre a Ordem e os frades empenhados nas missões.  

Frei Anastasius Hartmann, Bispo de Patna e Bombaim, tinha pedido a ajuda da Ordem, mas os poucos missionários que lhe foram enviados não estavam de modo nenhum à altura da sua tarefa. “A maior parte não mostrava um real empenho na aprendizagem das línguas e na dedicação autêntica ao ministério”(11). O mal básico estava no facto de que a Ordem cedia os seus missionários à Congregação da Propaganda Fide mas em contrapartida a Ordem não se sentia directamente empenhada na missão. Os próprios frades missionários sentiam-se “mercadoria sem dono e os desertores eram renegados pela Ordem”.

Frei Anastasius Hartmann elaborou uma ampla reforma da actividade missionária da Ordem pondo no centro o Procurador das Missões. A sua tarefa devia ser a de manter um estreito contacto com as Províncias, incentivar o envio de missionários e fornecer relações que promovessem a atcividade missionária. A Propaganda Fide aceitou a proposta, mas não a deu ao Ministro Geral da Ordem, reservou-a para si mesma. Foi frei Bernhard Christen quem realizou de modo pleno o plano de frei Anastasius Hartmann restituindo a missão à Ordem.(12)

2.2 – A Ordem inteira é força missionária – Com as condições mudadas parece que também hoje constatamos a situação em que a missão foi posta nas mãos e na responsabilidade da única fraternidade que é a Ordem. O empenho pela missão é coisa séria. Naquele tempo como hoje não se sustentam as considerações que afirmam que há muito para fazer onde nós estamos. Não se trata disto! O que escrevia frei Anastasius Hartmann a respeito dos superiores, poderia dizer-se hoje, em geral, para cada um dos frades: “O motivo principal pelo qual os Superiores Provinciais e locais têm em pouca consideração as missões é devido ao temor de perder os melhores membros da Ordem, que eles consideram serem indispensáveis à Província. Por isso, a quem manifesta o desejo de dirigir-se às Missões é posto ante os olhos, recorrendo às cores mais vivazes, a situação de indigência da Província. Apela-se à consciência e assim faz-se vacilar o santo propósito… O preconceito contra as missões infelizmente é tão arraigado que qualquer um que queira ir para as Missões é considerado um desertor e perde o bom nome… Descreve-se como na própria pátria pululam os infiéis; quem quiser pode empenhar o seu zelo apostólico mas não deve ir além do Oceano”.(13)

2.3 - Aonde vamos? – Alguma coisa de tudo isto certamente é verdade, mas alguma coisa mudou. Muitos frades ainda hoje respondem ao chamamento missionário. Partem e chegam a lugares onde ainda nem o Evangelho nem a fraternidade capuchinha haviam chegado. Foram criadas novas estruturas para o seu sustento. Permanece contudo uma pergunta: “Tudo isto é suficiente e realiza plenamente a missão?”. Talvez seja necessário perguntar-nos: “Por que o fazemos? Qual é o objetivo? Porque quereremos sempre novos capuchinhos? Aonde vamos? Qual é a meta?”. Enquanto não tivermos respondido a estas questões, não seremos capazes de dar muito mais do que um grande activismo. Se continuarmos ao lado das pessoas para apoiá-las na fé, para fazer o bem mediante tantas obras sociais, e o elenco poderia ser longo, parece-me absolutamente necessário parar e consciencializarmo-se que trabalhando juntos - nós somos mais de 10.500 frades – faremos uma verdadeira mudança de mentalidade, para levar de modo renovado, a mensagem do Evangelho, na sociedade, na vida eclesial, onde vivemos e alhures!

2.4 - A missão é para todos - Caros confrades, no início citei os vários jubileus que estamos a celebrar este ano e isto estimula-me a lançar o olhar sobre a missão e sobre o que nos leva a ela, perguntando-nos: “Porquê partir para a missão?”. É tempo de reflectir, mas é também tempo de acção.

Se no III CPO em Mattli se afirmou: “A missão, qualquer que seja o modo ou o lugar de sua realização, esteja no coração da Província” (III CPO, 34c), hoje devemos dizer: “A missão esteja no coração da Ordem”. Por este motivo em janeiro de 2009, como Definitório Geral ,decidimos reforçar o Secretariado Geral para a Animação Missionária para que assuma a tarefa de ajudar os frades a sentirem-se responsáveis pela missão qualquer que seja o sector de seu trabalho na Ordem. Todos nós somos missionários como se afirmou em Mattli: “a tarefa missionária não comporta, por si, uma vocação especial, diferente da vocação comum de todos os frades…” (III CPO, 11). A missão é pois intrínseca à própria vocação e chamamento a ser frade menor, frade menor capuchinho.

Não há como não recordar o episódio de quando o cardeal Hugolino de Óstia fez algumas queixas a Francisco porque tinha enviado frades para fora da Itália. «Por que enviastes teus frades tão longe para morrer de fome e para suportar outras tribulações?» Com grande fervor e inspiração profética Francisco respondeu: «Senhor, julgais porventura que Deus suscitou frades somente para estas regiões? Na verdade vos digo, que o Senhor escolheu e enviou os frades para proveito e salvação das almas de todos os homens deste mundo; não só nos países dos cristãos, mas também serão acolhidos nas terras dos infiéis e conquistarão muitas almas». Com suas palavras, o senhor bispo de Ostia ficou admirado, afirmando que ele dizia a verdade.” (Espelho de Perfeição, FF 1758).

2.5 - A missão é de todos - As nossas Constituições falam da “inspiração divina” que chama à actividade missionária, chamamento que se pode realizar também através dos superiores (Const 176, 1) e, não raramente, através do diálogo com os missionários. A Regra afirma que os Superiores não se oponham a este chamamento, excepto no caso em que o frade realmente não seja idóneo para isso (Rb, XII) e as nossas Constituições advertem que não é motivo suficiente para negar a permissão de ir para as missões o facto de que haja escassez de frades na Província (Const 176,3).

Admito que concretamente nem todos os frades são chamados a partir para a missão; mas enquanto filhos de São Francisco somos todos chamados a ser missionários (III CPO, 10). O frade menor capuchinho não pode subtrair-se a este empenho. A obediência missionária não se realiza somente no partir, mas também com o apoio dado ao irmão que parte, acompanhando-o com a oração, com um activo apoio e uma colaboração, com a animação para que outros, frades ou leigos, assumam a responsabilidade pela missão.

2.6 – O que falta fazer

• Os Secretariados das Missões: É empenho do Definitório Geral promover, através do Secretariado Geral para a Animação Missionária, um Secretariado das Missões em todas as Províncias e Vice-Províncias, activamente empenhado na colaboração com o Secretariado Geral (Const 178,3).

Colaboração: É importante que o Departamento Geral da Formação, o Secretariado Geral para  a Animação Missionária e o Departamento de Justiça, Paz e Ecologia, âmbitos de animação da Ordem, colaborem estreitamente entre si, para fazer com que a mensagem evangélica “e o Reino de Deus que vem transformem o homem e criem um mundo novo, justo e pleno de paz. Assim a Igreja cada dia se edifica e torna-se sempre mais perfeita” (Const 174,3).

Coordenar os projetos: Dez anos(14) após a fundação do Departamento da Solidariedade Económica, lugar de colaboração no âmbito dos recursos económicos, é preciso repensar, devido às condições económicas mudadas, numa maior coordenação de projectos. O próximo passo é na linha de uma solidariedade mais forte e verdadeira que faça passar do pensar que o próprio projecto é prioritário a uma partilha que contemple a complexidade das necessidades da Ordem e mais concretamente às necessidades do irmão.

Formação franciscana para os missionários: A preparação dos missionários deve ser organizada e especializada. O curso interfranciscano de Bruxelas constitui um início, mas precisa de ser programado noutras línguas além do inglês e francês. É preciso também disponibilidade de alguns irmãos para acompanhar os (futuros) missionários.

Secretário Geral para a Animação Missionária: O sinal visível de que a Ordem tem a missão no coração foi o reforço do Secretariado Geral da Animação Missionária, designando um frade para dedicar-se a tempo pleno a este serviço. Ele será apoiado no seu trabalho pelo Promotor da Solidariedade. O objetivo é dar uma maior atenção e animação ao âmbito missionário de toda a Ordem, cuidando em particular das colaborações ou coligações entre as diversas áreas da Ordem. Como todo o Secretariado, o serviço exprime-se numa estreita ligação com o Ministro Geral e seu Definitório.

 

II. Conclusão

3.1 - Construir o futuro sobre o presente - Estou consciente de que o discurso sobre a missão é muito complexo e alguém poderia ficar surpreso pelo facto de que nem tudo são rosas neste campo. É verdade que há também o outro lado, mas quis antes de tudo manifestar o que está em meu coração: despertar o empenho e o interesse pela missão entre nós e reafirmar que a vocação para a missão está no coração da nossa vocação de frades menores capuchinhos.

Como não recordar também as coisas belas que acontecem no campo da missão e encorajar os irmãos a prosseguir no caminho e a fazer eventualmente ainda mais? Mencionemos algumas. Antes de tudo, capuchinhos de todos os continentes vivem noutros outros países e em contextos culturais diferentes do seu. Isto significa que a Ordem se moveu, foi anunciar o Evangelho, está vizinha ao pobre e o socorre nas suas necessidades. São muitas as novas Províncias ou Circunscrições que após ter recebido o carisma da fraternidade capuchinha, tornaram-se por sua vez portadoras do carisma em outras partes do mundo. São realidades missionárias!

Em toda parte que eu vou encontro frades que se sacrificam pela missão e pelos que eles encontram como dom de Deus. Cansaço e doença amiúde fazem parte de sua condição pessoal, mas nem por isto eles param. Às vezes no final de um domingo, alguns, após ter celebrado a Eucaristia com comunidades cristãs cinco ou seis vezes, sentem-se cansados mas profundamente contentes. Encontrei frades que após uma noite inteira num autocarro por estradas más para participar num encontro entre irmãos, manifestavam sobretudo a alegria de se poderem encontrar! Há também os que durante o dia todo não tiveram um só minuto para si mesmos, porque chamados para atender  necessidades urgentes: quem pede uma veste, um alimento, um pouco de atenção pois está marginalizado pela AIDS, um gesto humano num mundo marcado por contínua violência - também neste caso eu encontrei frades contentes. E vi também que tudo isto tem sua raiz numa fé viva em Deus uno e trino. Se esquecessemos de louvar e de bendizer, a nossa acção seria como o sal que se torna insípido e não se poderia mais chamá-la “missão”.

3.2 - Jamais estacionar no presente pois amanhã ele já será o passado - Não esqueçamos que a solidariedade económica na nossa Ordem também faz parte da nossa missão. Além de permitir uma evangelização solidária, ela por si mesma é solidariedade evangelizadora.

Sem a conversão do coração não há desenvolvimento que leve à meta. Poderemos ter à disposição todo o dinheiro deste mundo para construir estruturas, que além da caridade façam justiça dando a todos as mesmas condições de vida, mas isso não significa necessariamente que atingimos a meta. Somente acentuando e vivendo as relações redimidas das quais a nossa fraternidade é portadora, mesmo se com menos meios à disposição, contribuiremos para construir uma sociedade nova, para tornar novas todas as coisas.

Durante o Capítulo Internacional das Esteiras, frei Raniero Cantalamessa usou uma imagem muito apropriada. Ele disse: “Nós católicos pelo nosso passado, estamos mais preparados para sermos “pastores” do que “pescadores” de homens, isto é, estamos mais preparados a pastorear as pessoas que são fiéis à Igreja, do que a trazer para ela novas pessoas, ou a “repescar” as que se afastaram”. (15)

O jovem Lourenço deixou as terras, não teve medo de tomar a estrada que o levou a aprender a pescar, ele que era agricultor. Contente, com aquilo que São Francisco lhe havia ensinado, ele foi anunciar aos homens, na pobreza e na oração, o mistério de Deus que é comunhão e chama à fraternidade toda a criação. Caros confrades, a missão pode não só estar no coração da Ordem, mas ser o próprio coração da Ordem.

 

Roma, 29 de novembro de 2009, Festa de todos os Santos da Ordem Seráfica.

 

Frei Mauro Jöhri,
Ministro Geral OFMCap

 

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(1) Cf. EGIDIO PICUCCI, Abuna Messias, Epopea etiopica del Cardinale Guglielmo Massaja, Centro Studi Massajani. Editrice Alzani, Pinerolo (TO), 1988, p.11.
(2) Cfr. Costituzioni 1536 in Frati Cappuccini. Documenti e testimonianze del primo secolo, a cura di COSTANZO CARGNONI, Perugia, 1988, 450.
(3) GREGORIO XIII, Ex nostro pastoralis officii debito, 1574.
(4) Cfr. MELCHIOR A POBLADURA, Historia Generalis Ordinis Fratrum Minorum Capuccinorum, Vol I-III, Romae 1947.
(5) São Lourenço de Brindes e são Fidélis de Sigmaringa.
(6) Pelo fim do século XVI houve alguns contactos "não oficiais" no Oriente Médio com os "Cismáticos". Basta citar o nome de frei José de Leonessa.
(7) Durante o século XVII inicio da atividade missionária de “além-mar”: Brasil, América Central, Índia e especialmente África com a “Missio Antiqua” do Congo. O primeiro capuchinho chegou à África em 1535 depois que o exército de Carlos V convenceu o Papa a conceder aos capuchinhos a permissão de atravessar os Alpes e iniciar a missão nas regiões protestantes.
(8) JOSEPH RATZINGER, Konzilsaussagen über die Mission außerhalb des Missionsdekrets, in JOHANNES SCHÜTTE, Mission nach dem Konzil, Mainz 1967, 22.
(9) Enquanto em 1832 o médico Heinrich Hahn, de Aix-la-Chapelle (Aachen) iniciou a Franziskus-Xaverius-Verein; o rei Luis I (1825-1848, de Wittelsbach), fundou em 1838, na Baviera a Ludwig-Missionsverein.
(10) São Fidelis de Sigmaringa é o primeiro mártir da Propaganda Fide. Para a missão do Congo se colocaram à disposição cerca de 400 frades de todas as Províncias da Ordem. Vedi WALBER BÜHLMANN, A Congregação da Propaganda Fide e a Ordem Capuchinha, in: Vita Minorum (1/1972) 47.
(11) WALBER BÜHLMANN, Aus dem Leben etwas machen. Anastasius Hartmann – ein Modell, Mainz 2000, 135 ss.
(12) Cfr Ibidem, 168.
(13) Ibidem, 176
(14) No dia 23 de março de 1999 foram nomeados os membros do novo organismo.
(15) RANIERO CANTALAMESSA, Osserviamo la Regola che abbiamo promesso, in La maturità evangelica di Francesco (a cura di Enzo Fortunato), Padova 2009, 116-117.