Testemunhos

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Frei Manuel Arantes

frei_manuel_arantes_a_320A minha passagem pelas missões “ad gentes” foi acidental, mas deixou marcas profundas na minha vida de irmão capuchinho. Todos os meus colegas de curso: Frei Manuel Rito Dias, frei Manuel Maria da Silva e frei Alípio Martins Quelhas (falecido) viveram a maior parte da sua vida em Angola. Eu estive lá apenas 3 anos!

Nunca pedi para ir, mas os superiores sabiam da minha disponibilidade. Quando o Bispo D. Francisco da Mata Mourisca passava pelas nossas casas, eu dizia-lhe que tinha o coração em Angola, mas ele respondia, com graça: “Enquanto não vir lá os pés, não acredito”. Até que chegou a oportunidade. No Capítulo VII da Província, em 1984, frei Manuel Rito, participante como delegado dos missionários de Angola levantou-se e lançou um repto aos capitulares dizendo: “Quem dos presentes se oferece para ir para Angola?” Levantaram o braço três capitulares e eu fui um deles. Meses depois, o Provincial eleito nesse Capítulo, frei António Monteiro, veio com a notícia de que o frei Luís Leitão, (ainda pós-noviço, à espera da profissão perpétua) e eu estávamos destinados às missões de Angola.

No dia 22 de Janeiro de 1985 partimos e fomos integrados na Fraternidade de Santo António de Luanda. Frei Luís Leitão ainda lá está, eu regressei três anos depois, a pedido do Provincial de Portugal para assumir o serviço de Mestre de Noviços.

Em Angola fiz um pouco de tudo, como qualquer missionário: Pároco do Cacuáco e de Santo António da Cuca; responsável da formação dos irmãos de votos temporários; professor do inter-noviciados de Luanda e do CER (Centro de estudos para religiosas/os); retiros, cursos bíblicos etc.

Mas o que me enchia mais a alma era o contacto com as populações, as visitas aos bairros de refugiados da guerra: Bairro de S. Francisco, Kikolo, S. Bento, Kauelele, Cacuáco, Caxito etc. Era tempo de guerra e as dificuldades eram muitas.

O que mais me doía era ver as pessoas a sofrer e não ter meios para ajudá-las. Muitas vezes bastava uma aspirina para arrancar um sorriso às pessoas.

Quando vinha a Portugal de férias aproveitava para fazer campanhas a favor daquela gente. Fiz a campanha dos remédios, resoquinas (para combater a malária), aspirinas, pomadas, algodão, álcool e outros; a campanha das camisolas e outras roupas leves; a campanha dos bancos para a capela do kikolo; a campanha das bicicletas para os catequistas etc.

Foram poucos anos, mas foram os que mais marcaram a minha vida de Capuchinho e posso dizer com toda a verdade que foram os mais felizes.