Testemunhos

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Frei Lopes Morgado

frei_lopes_morgado_320Estou a escrever-vos no dia 2 de Fevereiro, Solenidade da Apresentação do Senhor. É um Domingo à tarde, e coincide com o 1º Dia da Vida Consagrada oficialmente declarado pelo Papa no dia 6 de Janeiro deste ano.

Sentado ao computador (finalmente, mas só a partir de Agosto passado), pergunto-me se é este o meu lugar de sacerdote e de religioso. Pergunto isto a mim próprio muitas vezes, há vários anos, para não perder o rumo do essencial. E a resposta dou-a escrevendo como se participasse num acto de culto com todos os leitores da bíblica. Esta comunidade invisível, incontável, diversa e dispersa pelos vários continentes – é a minha comunidade cristã. Sem a conhecer, nela penso e por ela trabalho dias seguidos e noites inteiras desde Outubro de 1965. Talvez anos de mais. Como tantos párocos doutras paróquias ou aldeias. Incluindo os das tão faladas aldeias globais, nada evidentes a nível planetário, mas possíveis no circuito mais restrito dos fiéis de uma revista, de uma estação de rádio ou de um canal de televisão.

Quero garantir-vos: quando não viver este serviço como um sacerdócio para o anúncio do Evangelho, ou deixarei de trabalhar aqui ou já não serei sacerdote nem consagrado. Aliás, o desejo interior de me consagrar numa ordem missionária a este anúncio que tinha recebido, foi um dos impulsos mais fortes para seguir em frente nas crises de vocação que felizmente experimentei.

É um Domingo à tarde, sou pároco de uma aldeia global ou virtual, mas de manhã presidi a três Eucaristias em comunidades locais e concretas diferentes: numa capela exclusivamente para religiosas, numa capela de religiosas aberta ao culto público dos fiéis, e na igreja paroquial de Mira Daire. Mais uma vez senti na pele a missão quase impossível de um sacerdote, nestas circunstâncias, ser verdadeiro animador. Celebrar a ressurreição exige que a paz, a frescura, a vivência da liberdade e a alegria da salvação rebentem espontâneas de todos os gestos e sinais. A fé, hoje, não sobrevive numa celebração em que o principal agente está mais morto que vivo, e fala de Páscoa com cara de Sexta-feira Santa. O clima gerado na comunidade será, naturalmente, o de um velório. Também temos olhos e ouvidos; e estes precisam de sentir, ver e ouvir para crer.

Recordo a prevenção que a Conferência Episcopal fez aos católicos na Carta Pastoral sobre Jesus Cristo Nosso Salvador e Senhor, datada em 24 de Novembro passado: «A fé que nos introduz na salvação não pode assentar num conhecimento de Jesus Cristo baseado no “ouvir dizer”; tem de basear-se num encontro pessoal com Jesus glorioso» (nº 14).