Testemunhos

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Frei Fernando Alberto

frei_fernando_alberto_320Em Outubro de 2003 chegava a Timor-Leste, com mais dois missionários franciscanos capuchinhos, vindos de Portugal. Antes de nós, o Evangelho já tinha chegado há séculos. A Evangelização, da cultura e dos corações, talvez nunca terá sido (bem) feita, e continua a ser o grande desafio, hoje mais que nunca.

Laleia, um dos Sub-Distritos do Distrito de Manatuto, foi o lugar designado pelo Bispo de Baucau, Dom Basílio do Nascimento, para iniciar a presença franciscana capuchinha em terras timorenses. Encontrámos uma igreja bonita e de interesse histórico e turístico, mas pouco cuidada. Encontrámos também uma comunidade cristã, fiel a novenas, devoções e outras tradições, mas a precisar de centrar a sua fé em Jesus Cristo, alicerçada na Palavra, a exemplo da Padroeira e Rainha Nossa Senhora do Rosário. E encontrámos ainda um grande sonho, já várias vezes adiado, que era o de ser constituída Paróquia.

Pouco a pouco fomos conhecendo a realidade geográfica, humana e cultural. Laleia, Samalai e Kairui são terras que passaram a fazer parte do “mapa” da nossa vida. Carências de toda a ordem, a par de um sorriso contagiante, eram o “cenário” do drama que os nossos olhos viam todos os dias. A maneira de pensar, de ser e de se expressar, tão diferente da nossa, levou-nos a tomar consciência de quanto estávamos longe da nossa terra e de nós mesmos.

Pouco a pouco fomos também aprendendo a lidar com as dificuldades. Algumas de carácter climatérico como a aridez dum clima excessivamente quente. Outras pela deficiência de infra-estruturas como a escassez de água e electricidade. Outras ainda na linha da comunicação, numa terra em que o falar mais se parece com a dispersão de Babel do que com a comunhão de Jerusalém. Mas a dificuldade mais marcante é a do insucesso naquilo que tentamos fazer, às vezes com tanta ilusão e cansaço.

Apesar de tudo, a semente lançada à terra foi dando o seu fruto. Foram aparecendo jovens em grande número, dispostos a abraçar o ideal missionário de viver e servir ao jeito de São Francisco de Assis. E hoje, alguns dos primeiros, continuam a sua caminhada vocacional já no Noviciado. A comunidade cristã de Laleia foi crescendo na vivência da fé e viu o seu grande sonho realizado ao ser elevada a Paróquia em Outubro de 2005. Procurou-se despertar os cristãos para uma maior vivência da liturgia. Promoveram-se algumas iniciativas de iniciação à Bíblia. Iniciou-se a catequese sistemática das crianças e adolescentes, traduzindo para tétum catecismos e adaptando-os à realidade timorense. E ultimamente, voltados um pouco mais para a área social, está em marcha a possibilidade da construção duma carpintaria.

Com a criação da Paróquia, sentiu-se a necessidade de ir ao encontro dos cristãos que viviam mais afastados dos três centros pastorais onde já havia celebração dominical. Assim, foram surgindo pequenas capelas nesses lugares mais afastados, tão pobres e frágeis quanto os materiais locais utilizados. A primeira visita dos missionários a estes lugares foi recebida com muita alegria, pois nunca tinham tido a visita dum missionário. Pelo testemunho das pessoas presentes, foi a primeira Eucaristia celebrada naqueles lugares. A partir dessa primeira visita e celebração, Hatukarau, Ra’e-Bu’u e Turiaha passaram a receber mensalmente a visita do missionário, reunindo os poucos fiéis para a celebração da Eucaristia. Para chegar a estes lugares, só se pode caminhando a pé, ao longo de algumas horas. Para Hatukarau, subindo e descendo montanhas. Para Ra’e-Bu’u e Turiaha, caminhando por entre as pedras da ribeira e atravessando o curso de água, às vezes a chegar quase até à cintura.

A presença dos missionários franciscanos capuchinhos, e de alguns missionários leigos, que nestes primeiros anos passaram por esta missão em Timor-Leste, constituem o melhor investimento para a construção do Reino nestas terras e entre este povo. A Província Portuguesa dos Franciscanos Capuchinhos suporta todos os encargos inerentes a esta presença missionária, particularmente acrescidos pela formação a dar aos candidatos que vão surgindo, dispostos a abraçar o ideal franciscano. Mas a generosidade dos cristãos não tem faltado, quer na vontade individual de ajudar quer na resposta às campanhas da cooperação missionária junto das comunidades cristãs.

A semente do Evangelho vai-se lançando à terra, nestas terras regadas pelo sangue de mártires e heróis. Com a ajuda de muitos, vai sendo cultivada e regada. O crescimento é lento. Com paciência e esperança, vamos esperando os frutos que ajudem a manter neste povo uma fé viva e consciente, possibilitem o desenvolvimento necessário e consolidem cada vez mais o desejo da paz.