Após dois Sínodos sobre a Família, porquê um Sínodo sobre os Jovens? A convocação dum Sínodo dedicado aos jovens dos 18 aos 29 anos revela que a Igreja sente o dever de proclamar a Boa-Nova aos jovens na idade das grandes decisões. E isso, por si só, deve constituir motivo de otimismo.

 

I. A FAMÍLIA E OS JOVENS

A Família, célula base. Comecemos pela família. Sondagens recentes revelam que os jovens ainda consideram a família como fonte dos valores, que marcam o sentido da vida. Isso, porém, não implica obrigação de submissão passiva a todas as tradições familiares. Os jovens adultos, no meio da insegurança da sociedade atual, querem encontrar na família, acima de tudo, o garante de estabilidade emocional e até social.

Família, educadora de valores O Papa Francisco, na exortação A Alegria do Amor, considera a família escola de «educação dos valores, da vontade, da liberdade e da responsabilidade» (n. 270-27). Na linha dos valores religiosos, ela deveria oferecer ambiente propício ao início de um «itinerário da fé», que culmina numa fé madura e adulta. Porém, o caminho de maturação da fé quase sempre   implica romper com os modelos religiosos familiares. Nesta fase, a família não pode enfiar nos filhos crescidos o vestido da Primeira Comunhão [1]. Ao contrário, deve preocupar-se em ajudá-los a amadurecer espiritualmente, integrando-os em grupos de fé, ou proporcionando-lhes contactos com adultos, que se mostrem coerentes na fé.

 

2. JOVENS E SOCIEDADE

Uma força de contestação Por natural rebeldia e espírito de contestação, houve quem colasse aos jovens o epíteto de “geração rasca”. Mas, com uma visão mais otimista os sociólogos creditam aos jovens uma força única para mudanças sociais e até políticas. Recuando no tempo, lembremos que foram eles a provocar o movimento hippie dos anos cinquenta, o Maio 68, e, entre nós, a contestação nas universidades, antes e depois do 25 de Abril. Por isso, os jovens chamam-nos a despertar e aumentar a esperança, «porque trazem consigo as novas tendências da humanidade e abrem-nos ao futuro, de modo que não fiquemos presos à nostalgia de estruturas e costumes, que já não são fonte de vida no mundo atual» (EG 108).

Imperativo: Escutar os jovens! Alguém disse que «quando a juventude arrefece, o mundo treme de frio». Importa, por isso, abertura e compreensão dos seus problemas, embora custe aos adultos ouvir os jovens pacientemente, «compreender as suas preocupações e falar-lhes na linguagem que eles entendem» (EG 105). Ao convocar este Sínodo, a Igreja manifesta a necessidade de escutar os jovens. Se a sociedade e a própria Igreja derem espaço e tempo a escutá-los, ter-se-ão dado passos importantes para um mundo mais harmonioso.

 

3. OS JOVENS E A IGREJA

Igreja aberta aos jovens? Estranhamente, ou não, sociólogos da religião atribuem o «inusitado interesse das igrejas pela juventude» à vontade de garantir a continuidade das suas tradições [2]. Mas, parece pouco sério pretender, apenas, integrá-los nas suas instituições e trazê-los “de volta à Igreja”. Importa, sim, trabalhar para torná-los protagonistas e não consumidores passivos de uma fé não assumida, especialmente quando os jovens não encontram, «nas estruturas ordinárias, resposta às suas preocupações, necessidades, problemas e feridas» (EG 105).

Boa-Nova para os jovens. A realização de um Sínodo constitui verdadeira Boa-Nova para os jovens e para a Igreja, e o despertar de uma onda de otimismo nas esferas eclesiais. A adesão entusiasta ao Simpósio promovido pelas conferências episcopais da Europa e organizado pela arquidiocese de Barcelona em ordem à preparação deste Sínodo, parece comprová-lo. Surpreende a presença de 27 países com 275 responsáveis da pastoral juvenil, além de 32 bispos e quatro cardeais. Para isso podem contribuir os objetivos do Sínodo, como por exemplo:

a) Fé como vocação ao serviço. Afogados nas promessas de uma vida barata e de baixo custo, nesta era de consumismo e materialismo, o Sínodo apresenta a Boa-Nova de uma vida radicalmente centrada na resposta ao «para quem sou eu» em vez de uma existência centrada, egoisticamente, no «quem sou eu?».

b) Fé questionante. Em vez de oferecer aos jovens respostas teológicas e certezas matemáticas, o Sínodo quer ser afirmação de uma fé questionante, que suscite nos jovens «interrogações sobre o modo como vivem a fé no meio dos desafios do nosso tempo e o modo como podem amadurecer um projeto de vida, discernindo a vocação em sentido amplo, seja no matrimónio, no âmbito local e profissional, ou na vida consagrada e no sacerdócio» (Papa, Mensagem JMJ).

c) Fé comprometida. Com o Sínodo, a Igreja deseja habilitar «cada jovem a tomar consciência de que tem uma missão na terra e é por isso que está neste mundo» (EG, 273). É bom que os jovens sejam «caminheiros da fé, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra!» (EG 106). Perante comunidades cristãs envelhecidas, urgem transfusões de «fé jovem», para que se renovem como «luz do mundo» e «sal da terra».

 

[1] Conferência Episcopal Portuguesa, Catequese: A Alegria do Encontro com Jesus Cristo, 2017, 2.

[2] O. Frohlich, “Propor a Boa Nova aos Jovens”, in Nova Oportunidade para o Evangelho, p. 191.

 

Publicado na Revista Bíblica, nº 375 (março-abril 2018), pp. 32-33