O lugar e o contributo da Inteligência Emocional e da Inteligência Espiritual na convergência entre a Fé a a Ciência

 

Introdução

As emoções e os sentimentos, a vida espiritual, são parte constituinte do sujeito histórico e parte integrante do desenvolvimento humano. São também eles que manifestam se uma pessoa é “socialmente adequada” e permitem as relações e interações com outros. Seria impossível estabelecer qualquer tipo de relação de proximidade e ajuda sem a existência de emoções e de sentimentos, pois “qualquer mudança só é possível se conseguimos “cativar” emocionalmente as pessoas envolvidas. Seria impossível sem a existência de um sentido de ser. Uma ação puramente racional tornaria o ser humano semelhante a um autómato, conduzido por um programa de estimulo-reação sem que essa reação fosse imbuída de “coração”, ou seja, de sentir, ou que fosse imbuída de confiança.

Neste quadro, Miguel Castelo-Branco (2014), médico, neurocientista, num artigo intitulado Neurociências e espiritualidade, refere que “a medicina baseada na evidência tem sugerido que a religiosidade e a espiritualidade influenciam de forma efetiva o desenlace em muitos domínios clínicos, incluindo a dependência de droga (…) A experiência espiritual é benéfica para a saúde humana e o tipo de bem-estar psicológico que proporciona pode ser procurado ativamente” (cf. Castelo-Branco, 2014), da mesma forma que a experiência e o desenvolvimento de sentimentos e emoções positivas.

Neste sentido, as características apontadas pela inteligência emocional e pela inteligência espiritual (Goleman, 1995; Damásio, 2002; Zohar e Marshall, 2004; Torralba,2010) podem colaborar para entendermos em que medida os critérios da ciência e da fé podem convergir na transformação do conhecimento em sabedoria. 

 

1. Fé e ciência: caminhos convergentes para a sabedoria

O ser humano acede ao conhecimento não somente pela via da ciência, mas também pela via da fé. Não podemos abdicar destes dois radares que nos ajudam a entender os sinais da nossa existência. Por isso a necessidade de um dispositivo de orientação global que dê sentido ao conhecimento e o transforme em sabedoria, pois a sabedoria é a possibilidade de aceder ao conhecimento através de uma realidade superior. Essa realidade pode ser-nos dada pela via da fé, sendo esta um espaço de certeza e de dúvida, de encontro e desencontro. Mas também um espaço de confiança. E esta confiança, esta certeza e esta dúvida são vividas numa matéria. Habitada espiritualmente, é certo. Ainda assim, numa matéria: o nosso corpo. 

O homem pensa com o corpo todo e a verdade do Homem é a verdade do Universo e o Homem é do tamanho do Universo. Somos seres criados á imagem e semelhança de Deus numa matéria (o corpo) mas com um espírito (o sopro de Deus em nós). Por isso, tudo o que emerge espiritualmente, todas as nossas emoções, os nossos sentimentos, o sentido de vida, emergem numa matéria que tem uma vida espiritual. Esta vida, pode emergir da fé que nos sustenta e ajuda a entender o incompreensível a partir do compreensível. Somos seres espirituais numa matéria. Somos seres que nos interrogamos acerca do sentido da vida e da nossa existência, numa matéria. Somos seres que acreditamos na vida eterna, numa matéria. E essa matéria é profundamente divina e profundamente humana. E é nesta humanidade divina que vivemos a educação dos nossos sentimentos e emoções, no (re)colocamos perante a vida e perante os outros, nos (re)construímos, numa escola iniciada e nunca terminada. Somos seres em permanente construção, conhecedores (de tão pouco!) e nem sempre sábios, mas sequiosos por acesso ás águas da eternidade. Já aqui, já agora. A fé e a ciência são duas escolas numa só – a da vida - em que podemos ter acesso ás fontes da vida mais profunda e mais intima: os mistérios da fé não são menores que os mistérios da ciência. Intermináveis. 

 

2. Inteligência emocional e espiritual e convergência entre fé e ciência

Quando falamos de uma escola da educação emocional e espiritual falamos de desenvolvimento pessoal, apontando para indicadores que nos transportam para o bem-estar físico, psíquico, social, emocional e espiritual. Para o ser saudável. Constituir o ser saudável de mim é também construir o ser saudável do todo de que faço parte. Somos seres integrados e integrantes e por isso, quando desenvolvemos emoções positivas quando sabemos por onde e para que caminhamos, partindo da nossa existência e da dimensão da fé, partindo deste ser saudável a que somos chamados, estamos também a contribuir para que a vida espiritual como dimensão que me habita, seja ela também um espaço integrador e colaborador de um mundo melhor. Quando desenvolvemos emoções e sentimentos positivos, quando temos esclarecido em nós o caminho pelo qual andamos, estabelecemos maior proximidade com todos aqueles que navegam neste estágio de desenvolvimento que é a vida humana e contagiamos outros.

O espaço de tensão entre fé e ciência, razão e emoção é permanente. No plano das relações humanas e da convivência universal é um exercício diário este de carregarmos a nossa materialidade e a nossa essência e percebermos em que momento devemos retirar aquilo que nos pode revestir de maior humanidade e que pode ser agregador. Somos seres que aparentemente vivemos alheios da vida e – quantas vezes – da vida uns dos outros. Porém, há uma fome e sede e uma busca incessante de felicidade – desejo íntimo de cada ser humano – e que de uma forma efetiva passa por integrarmos as várias dimensões do nosso ser. Somos pessoas dotadas de grandeza e de pequenez, de células onde mora uma alma que deseja o infinito. Somos esse “ponto de Deus” de que nos falam as neurociências (cf. Zohar e Marshall, 2004), situado numa área do nosso cérebro, mas que se torna expressão de todas as dimensões da vida que há em nós. Não se trata sequer de tornar palpável o espírito humano. Trata-se de identificar o espírito na matéria que é cada um de nós. Somos seres habitados pela grandeza do divino. E é nesta matéria que somos divinizados. 

 

Conclusão

Carregamos em nós o infinito num corpo finito. Somos o perecível e o eterno. Ansiamos pelo dia em que se faça luz e possamos obter respostas e as nossas dúvidas existenciais. Somos perguntas, mas também respostas. Aquelas que temos e as que (não) viremos a ter. Somos desafiados a conviver com a ciência como instrumento de transformação progressiva, de informação em conhecimento, e a conviver com a fé como intuição existencial à escala micro e macro (do interpessoal ao planetário) que pode transformar esse conhecimento em sabedoria. Pois tudo o que emerge espiritualmente, emerge da matéria, e, por isso, o Homem é espírito.

 

Bibliografia

Castelo-Branco, Miguel (2014). Neurociência e espiritualidade, in Deus Ainda tem Futuro? Coord. Anselmo Borges. Lisboa: Gradiva
Damásio, António (2002). “Uma vez mais com emoção”. Educação Emocional, Cadernos de Criatividade, Número 4. Ano 2002. ISSN 0874-8047, Publicação da Associação Educativa para o Desenvolvimento da Criatividade, pp. 23-25.
Dinis, Alfredo; Paiva, João (2010). Educação, Ciência e Religião. Lisboa: Gradiva.
Duarte, Cristina; Ventura, Pedro (2017), “Contributos para um Serviço Social holístico: o lugar da espiritualidade no Serviço Social Organizacional”,Boletín Redipe Vol 6 no.2 Fevrero de 2017 ISSN 2256 – 1536, pp. 33-44.
Guiton, Jean (1991). Deus e a Ciência. Lisboa: Editorial Notícias.
Goleman, Daniel, (1997). Inteligência emocional. Lisboa: Temas e Debates
Lessa, Almerindo (1989). Uma história da Vida e do Homem sobre o cone do tempo, Saparata do Boletin nº 16-Lisboa 1989, Academia Internacional de Cultura Portuguesa.
Rogers, Carl (2011). O poder pessoal. Lisboa: Padrões Culturais Editora.
Torralba, Francesc (2010). Inteligencia espiritual. Barcelona: Plataforma Editorial.
Zohar, Danah; Marshall, Ian (2004). Inteligência Espiritual. Lisboa: Sinais de Fogo

 

Sobre a autora

Cristina Paula Pereira Duarte tem um Doutoramente em Ciências Sociais, Especialidade em Serviço Social

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