A irmã Isabel Baldino, fmm, aborda aqui a primeira parte do documento preparatório do próximo Sínodo dos Bispos.


«Sentinela, que vês na noite?

Sentinela, que vês na noite?»

E a sentinela responde: «Chega a manhã e a noite também.

Se quereis uma resposta, voltai a perguntar.» (Is 21,11-12)

 

E o Papa Francisco voltou a perguntar. O próximo Sínodo dos Bispos quer colocar face a face, os jovens, a sociedade e Deus. É um encontro centrado nos desafios para as novas gerações. Um documento preparatório foi publicado, sob a designação: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Está dividido em três partes. Aqui, vou abordar a Parte I – “Os jovens no mundo de hoje”.

Esta parte faz uma breve análise do tempo atual, na sua complexidade, apontando uma realidade patente: estamos num mundo

1. que se transforma rapidamente;

2. em que as novas gerações se deparam com desafios de (i) pertença e participação, (ii) pontos de referência pessoais e institucionais, (iii) numa dinâmica (hiper)conectada;

3. e em que, por vezes, as escolhas se tornam difíceis.

O documento é bastante pragmático e apresenta um elenco abrangente dos desafios da atualidade. Não querendo repeti-lo, partilho algumas reflexões e inquietações sobre os tópicos que ele aborda.

 

VELOCIDADE

Tanto na condução da vida como de um carro, precisamos de acelerador e travão. Temo-nos tornado exímios no acelerador, mas perdemo-nos na vertigem. Todos os processos precisam de tempo; não é impunemente que se queimam etapas – de desenvolvimento, de aprendizagem, de treino, de relação, de cura, de reconciliação… A pressão do tempo leva à tentação do despacho, da superficialidade, do lucro fácil.

A noção de que “isso é óbvio” contrasta com a noção de que isso não é tido, realmente, em consideração. Recomendo, a este propósito, um livro de Michael Ende, “Momo”, uma parábola – só aparentemente infantil – sobre a vida e o tempo. Não nos disse Antoine de Saint-Exupéry, «Foi o tempo que perdi com a minha rosa que fez a minha rosa tão especial»? À velocidade o que é da velocidade é à lentidão o que é da lentidão.

 

PLURALIDADE

Pegando no tópico de cima, temos uma solene tendência a generalizar. Se a velocidade é uma qualidade de vencedores, tudo tem que ser rápido; se a competitividade é uma caraterística de sucesso, tudo tem que ser competitivo. Que falácia! Assim, no apogeu da inteligência, ai de quem não é sobredotado; e, no auge das emoções, coitado de quem não é artista. E nesta engrenagem, a pressão sobre crianças e jovens para corresponderem ao formato do dia é tremenda. Alguns, para atravessar a pressão, desumanizam-se, outros são simplesmente excluídos…

De qualidade messiânica em qualidade messiânica (ao sabor do melhor marketing), absolutiza-se o atributo e perde-se a noção de complementaridade e de conjunto. Fenómenos associados à perceção de “ingroup/outgroup” ou ‘nós/eles’ são muito sérios e dramaticamente atuais. Se há coisa em que a história natural, civilizacional, bíblica e científica concordam é que a vida se compõe de pluralidade. Quando as diferentes partes (opiniões, gerações, grupos, culturas…) se dedicam tempo/atenção juntas, potencia-se o enriquecimento mútuo; já quando prevalece a mera justaposição, pode ser perigoso!

 

DIÁLOGO

Volto a encadear no tópico de cima. Como se dialoga na pluralidade? Portugal foi, em Outubro passado, palco da Web Summit. Muitas personalidades de muitos quadrantes discutiram muitos pontos de vista. Honra seja feita ao fator discussão (no sentido construtivo). Não obstante o sentido futurista, ficou considerada a relevância da memória, da responsabilidade, da sustentabilidade, do sentido da vida nos palcos de um debate honesto. Precisa-se de sentido crítico (a par de humildade) e, «ter uma opinião dá muito trabalho» (João Lobo Antunes). Demasiadas vezes, no diálogo, dá-se mais crédito à cor (desportiva, politica, nacional, etc.) que ao conteúdo.

A cada interveniente o seu mérito e a cada assunto o seu papel. E o papel da ciência e tecnologia é instrumental, torna-se ‘bom’ ou ‘mau’ mediante o uso que lhes damos. A memória narra bem alto o preço de absolutizar ideias. Subestimar a nossa ingenuidade é tão grave como subestimar o nosso génio; Edgar Morin dizia que o Homo Sapiens é irmão gémeo do Homo Demens. No diálogo, a articulação de diferentes posições é tão complexa que, por vezes, precisa de ser regulada para garantir a escuta, o confronto e o respeito; um verdadeiro amigo, com bom senso, também serve.

 

GLOBALIZAÇÃO

Expõe as diferentes sociedades e seus habitantes, vulnerabilizando-os. Se a exposição ao amor faz crescer, a exposição à indiferença – mata. A globalização expandiu admiravelmente tanto fenómenos solidários sem precedentes como fenómenos de exploração em valores record. A exponenciação da vida ou exponenciação da morte estão em jogo na globalização. E não vai de improviso! As velhas perguntas: o quê, quando, como, quem, para quê, devem acompanhar as reflexões entre crianças, jovens e adultos na hora de se exporem ao mundo global.

Mais uma vez, a noção de que tal é óbvio contrasta com a noção de que tal não é tido, realmente, em consideração. Quando fiz parte da Comissão de Apoio à Vitima de Tráfico de Pessoas, acompanhei casos de recrutamento de pessoas formadas e informadas. A qualidade das relações humanas não tem paralelo no mundo digital, virtual ou robótico e, sem ela, não há erudições ou ‘salvações’ que nos valham.

 

NOVAS GERAÇÕES

Identidade e intimidade são necessidades humanas básicas que se delineiam, segundo Erikson, na adolescência e juventude. Quanto mais nós, adultos, nos esforçarmos por ser sãos e membros de uma sociedade sã, mais ajudamos os jovens, uma vez que somos a sua principal referência.

Particularmente nesta era de novas tipologias familiares, das segundas gerações de famílias migrantes, de complexos processos de socialização, põem-se desafios do que é, ou não, referência. Se, por um lado, impor-se como referência é constrangedor, por outro lado, demitir-se deixa o jovem oco, no vazio.

A ideia é propor-se, dando da verdade do que se é. Por vezes ouve-se: «Não mando o meu filho à catequese; quando for mais velho, ele que decida.» Se privar uma criança de aprender a falar português, para não ser eu a escolher a língua que ela vai falar, inibo processos que ficam irremediavelmente afetados; porém, se ensinar a língua que sei, ela vai cri-ar estruturas, não só para aprender a língua que eu lhe ensinei, mas que lhe facilitarão, depois, a aprendizagem de outras.

É assim no idioma, nos afetos, na cultura, na religião. É importante passar o testemunho. E, se nos preocupa tanto a questão da liberdade, é bom não confundir uma referência fundamentada (que vive de abertura e flexibilidade), com outra fundamentalista (que vive de fechamento e rigidez).

 

ESCOLHAS

O «Ser ou não Ser» de William Shakespeare poderia enquadrar um primeiro desafio no campo das escolhas, com uma pequena alteração: «Ser Eu ou não Ser Eu». Às vezes, particularmente na juventude, a salvação parece estar em (escolher) ser o mais longe do ‘eu’ possível. E aqui começa o imbróglio. Imagens ‘perfeitas’ saltam-nos para dentro dos olhos e ouvidos, do acordar até deitar (quer vivamos na Holanda ou no Zimbabué). Nada contra o sonho e a ambição, mas estes só têm pernas para andar na aliança positiva consigo próprio, passo a passo. Para além disto, a máxima «Anything you want, you got it» (Orbison) é irreal, até porque às vezes queremos, ao mesmo tempo, uma coisa e o seu contrário. Queremos, na mesma hora, estudar e dormir, que o nosso amigo desapareça e não vá embora, aliar-nos a gregos e troianos! De igual modo, «I want it all and I want it now» (Queen), sendo lícito como arte, no plano objetivo atenta contra a nossa condição. Viver é uma aposta; mas hoje cresce a tendência em apostar só em bilhetes (escolhas) premiados (como se existissem!): casamento, carreira, amigos…

A noção de risco, perda, limitação não circula no quadro conceptual vigente; por isso, como não se está preparado para os enfrentar, reivindica-se o prémio antes do jogo, adia-se ou desiste-se! O Papa Francisco repetiu aos jovens: «Arrisquem!» E um professor meu, Guimarães Lopes, autor do livro A escolha de si próprio, repetia-nos, aula após aula: «A vida é insistir, persistir, resistir e consistir.»

De resto, penso que o jovem de hoje, como o de ontem e de amanhã, nos pede a experiência de ser amado (mesmo na imperfeição que o amor humano constitui), a experiencia de amar (tanto na sua condição de limitado como na sua condição de promessa existencial e eterna), a experiência de sentir que acreditam nele (apesar dos desvarios de juventude)… e que não desistem.

 

Jovem, que me dizes de ti?

Sou Promessa de Deus

palavra a acontecer

o mundo a ser escrito!

Ouço os teus passos de adulto

e vejo bem por onde vais

as tuas vergonhas e ais

e a tua ventura e conquistas,

que quero para mim…

Sonho ser assim, gozar da tua fama

Ser aceite por quem ama

Aumentar a tua chama

e chegar lá, ao infinito!

Ser provocador e bendito,

quero colo e conflito,

quero viver

não sei bem por onde, nem porquê:

avanço e logo se vê.

O sangue corre nas veias

As ruas da tarde vão cheias

E nas redes há teias de gente,

À minha espera…

Sou primavera

Sou explosão para os sentidos

Faço-me ouvir aos teus ouvidos

Quero o mundo, ser maior,

quero tudo

E às vezes fico mudo… e vazio.

Percebam que cresci

Tenho lugar e papel

Não sou literatura de cordel,

sou promessa de Salvação, como tu

Também eu, no jardim, nu,

Ator na minha redenção

Distraído do que dizes

Mais atento do que julgas

Estou em pulgas para viver

Quero Ser!

 

Publicado na Revista Bíblica, nº 374 (janeiro-fevereiro 2018) pp. 28-31


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