Marco Bartoli, 64 anos, leigo casado, é da Comunidade de Sant’Igidio, em Roma, que trabalhou pela paz em Moçambique. Professor de história medieval, foi formado pela universidade de La Sapienza, em Roma, e é um dos maiores especialistas em S. Francisco e Santa Clara. 

O ano passado orientou o Retiro aos Capuchinhos de Portugal, em Fátima, e entrevistámo-lo para a nossa revista.

Lopes Morgado (LM): O povo dá como adquirido, que foi São Francisco de Assis quem fez o primeiro presépio, em Greccio, em 1224, dois anos antes de morrer. Até que ponto esse facto é confirmado pelas Fontes Franciscanas?

Marco Bartoli (MB): O episódio de Greccio é contado na Primeira Vida, escrita por Tomás de Celano depois da canonização de S. Francisco. É com este episódio importante que o autor conclui a 1ª parte dessa Vida do santo (capítulo XXX); a 2ª parte fala dos dois últimos anos e da morte de S. Francisco.

 

CELEBRAR MISSA NUM CURRAL?!

Como descreve Celano esses acontecimentos? Ele diz que S. Francisco queria celebrar o Natal de um modo extraordinário, e pediu a alguém que preparasse tudo numa gruta – num lugar que não era igreja. Ora isso, então, era um pouco proibido. O Direito Canónico não previa que fosse possível celebrar a Eucaristia fora de uma igreja.

Mas, S. Francisco não queria apenas aquela Missa de Natal para ele; também convidou muitos frades e muita gente. E as pessoas vieram, com archotes, cantando belos cânticos. A coisa estranha é que, dentro da gruta, havia uns animais; com certeza, um burro e um boi, preparados pelo seu amigo João, dono do monte. Isto é o mais estranho: a Missa num espaço destinado a animais!

LM: E não consta que Francisco tenha pedido autorização para isso…
MB: Suspeitamos que Francisco não pediu autorização; pois, no ano seguinte, saiu uma carta na qual os frades recebiam autorização para terem altares portáteis a fim de poderem celebrar em qualquer lugar. Então, por um lado, Francisco fez uma coisa um pouco proibida; mas, por outro, era esta a sua intenção. Porque, a alguém que lhe perguntasse: «Não é escandaloso celebrar a Eucaristia num lugar próprio para animais?», ele podia responder: «O escândalo não é celebrar ali a Missa; o escândalo é Deus ter nascido num lugar para animais; e ter nascido como criança.»

LM: A opção foi de Deus…
MB: Exatamente. A opção foi de Deus. E nós, celebrando num lugar com as condições semelhantes àquelas em que Jesus nasceu, podemos imaginar o seu sofrimento. E Francisco escreveu num salmo para o seu Ofício da Paixão, no Tempo do Natal do Senhor até à Epifania: «Porque nos foi dado o santíssimo e dileto Menino, e por nós nasceu durante uma viagem e foi deitado num presépio, / por não haver lugar para ele na estalagem» (Salmo 15). Jesus nasceu «durante a viagem» (in via) – no caminho, na estrada.

LM: Algo semelhante ao que o papa Francisco diz hoje sobre uma Igreja “em saída”…
MB: É a mesma coisa. Francisco tinha a ideia de que Jesus não nasceu numa casa, mas na rua. E de facto no Evangelho está escrito que não havia lugar para eles na hospedaria (ver Lc 2,7). Então, nasceu “in via”.

Esta escolha de Francisco, em Greccio, foi uma coisa extraordinária. E a Vida escrita por Celano descreve que a admiração das pessoas chegou ao ponto de o tal João, provavelmente durante a celebração da Missa, ter tido a visão de que o Menino Jesus estava lá no altar!

Foi a partir disto que nasceu a “ideia” do presépio. Direi que Francisco não realizou o presépio naquela altura, porque não levou um Menino pa-ra fazer o papel ou ocupar o lugar de Jesus. Mas falou do Menino. E fê-lo de tal modo, com palavras tão bonitas e profundas, que as pessoas imaginaram ver ali a presença de Jesus.

 

A CRIANÇA, JESUS
E O PRESÉPIO

LM: Qual foi o impacte deste gesto na mentalidade comum da época?
MB: Há muitos aspetos diferentes, a considerar nisso. Mas um importante foi a reputação que a própria infância teve na Idade Média. Explico. Na Idade Média não havia o sentimento da infância. Hoje valoriza-se a atenção com as crianças. Na Idade Média, não.

LM: Como na Bíblia. A criança também não era muito considerada…
MB: Como aliás ainda hoje nos países do terceiro mundo, onde há muitas crianças. Ninguém sabe exatamente como elas vivem, antes de entrarem na idade adulta. Na Idade Média, a mortalidade infantil era muito elevada; por isso, a atitude das pessoas era não se afeiçoarem demais às crianças, para não sofrerem tanto. Normalmente, os especialistas dizem que o sentimento da infância só começou com Rousseu e os grandes pedagogos franceses da Idade Moderna.

Mas, não devemos desvalorizar a importância da devoção ao Menino Jesus. Pois, o que é que Francisco estava a explicar na liturgia daquela noite de Natal, em Greccio? Que Deus não apenas encarnou, mas tornou-se criança, fez-se menino. Então, cada menino que eu encontro pode ser a imagem de Deus. Isto dá a cada criança uma dignidade e uma importância enorme!

Com este gesto de celebrar o nascimento de Jesus num lugar de animais, Francisco disse-nos: Deus não apenas encarnou e nasceu num curral, mas nasceu indefeso, pobre e nu como qualquer criança. E assim, quando eu encontro uma criança, sobretudo pobre, posso pensar que ela é a imagem de Jesus.

Isto mudou o relacionamento com as crianças no futuro e deu-nos outra sensibilidade face ao abuso de que elas são vítimas tantas vezes.

LM: Daí a devoção ao Menino Jesus, na Ordem Franciscana?
MB: Penso que foram os frades que divulgaram a devoção ao Menino Jesus. Em Roma, no convento de Araceli, havia um Santo Menino que fazia milagres. Isto foi uma coisa muito importante, para a mentalidade da época, a partir do século XIII-XIV. Depois, no século XVI, em Nápoles, São Gaetano de Thiene deu início ao Presépio moderno, que todos conhecemos.*

 

DO MENINO AO CRUCIFICADO

LM: Na vida de S. Francisco, esse gesto e acontecimento em Greccio é um ponto de chegada, ou um ponto de partida? Qual a relação, por exemplo, na vida de Francisco, entre o Monte Greccio e o Monte Alverne, entre o encanto do Menino e o sofrimento das Chagas do Crucificado?

MB: Por um lado, é fruto de toda a sua vida. Francisco sempre foi à procura da humildade de Deus, da menoridade; apresentá-lo numa gruta com animais era a última fase da reflexão sobre isso.

Depois, há outra coisa importante: Francisco, no fim da sua vida, tinha esta enorme preocupação: Como falar de Deus às pessoas? Como comunicar o Evangelho? Como mostrar…? Ele era uma pessoa genial, muito particular. Pessoalmente, estabeleço uma relação entre Greccio e o Cântico do Irmão Sol, ou das Criaturas. Porquê? Porque Greccio é um modo de falar de Deus não apenas com palavras, mas também com imagens e atos. Isto é muito importante! Francisco percebia que se pode falar de Deus de maneiras diferentes. Greccio foi um exemplo, nisto.

O Cântico das Criaturas foi outro. Ali havia música, poesia, a língua vernácula do povo (não o latim). Por isso dizia aos frades que deviam ir às praças, cantar este Cântico e no fim dizer ao povo: “Nós somos jograis do Evangelho, arautos do Grande Rei. Apenas pedimos que se convertam e mudem de vida.”

LM: Captavam a benevolência do auditório, e depois pregavam…
MB: E convidavam toda a gente a louvar a Deus. Este era um modo muito especial de falar às pessoas; e não só nas igrejas…

LM: Aliás, como Jesus também fez no seu tempo: encontrava-se com as pessoas nas praças, nos montes ou nas praias, nos lugares onde elas viviam e trabalhavam, e aí falava-lhes de Deus servindo-se de comparações ou imagens da experiência comum. Mais que no templo.
MB: Exatamente. Como Jesus, Francisco foi original e criativo.

 

CRISTO, SÃO FRANCISCO, SÃO PIO

LM: E quanto às chagas? Até que ponto são consequência de Greccio?
MB: É a mesma coisa. Desde o início, Francisco foi conhecendo um Deus que se fez menino, sentiu a dor, precisava de apoio: “Não vês a minha Igreja a cair? Ajuda-me!”, ouviu ele ao crucifixo de São Damião. Desde o início, teve um chamamento à conversão muito estranho.

Mas, no fim, o crucificado é aquele que dá a graça. Francisco é totalmente transformado pelo amor desse Homem da Cruz. São Boaventura diz que, depois de receber as chagas, no Monte Alverne, Francisco tinha sede da salvação das almas. Como Cristo na cruz, tinha sede da salvação das almas. Por isso queria ir a todos os lugares, às aldeias e cidades. O seu corpo crucificado foi um sinal do amor de Deus.

LM: Não terá São Boaventura, de alguma forma, “construído” com passagens da Bíblia uma vida de São Francisco paralela à de Cristo, para sublinhar a identificação do santo com Ele…?
MB: Faz uma interpretação, sim. Porém, a sua interpretação não é baseada em coisas falsas, mas em acontecimentos reais, interpretados por ele teologicamente. E a utilização dos seus escritos sobre São Francisco – quer a Legenda Maior, quer a Legenda Menor – serviam para ensinar os frades a identificarem-se com Francisco, e também como se identificarem com Cristo. Ou seja: ajudar os frades a tornarem-se melhores, através de um duplo espelho. É uma pedagogia e uma teologia admirável. Uma releitura ou leitura teológica dos acontecimentos, como a Bíblia também faz.

LM: Nunca fui a San Giovanni Rotondo, mas tenho visto imagens dos mosaicos em que o padre Rupnik apresenta a vida do Padre Pio a par com a de São Francisco. A intenção é semelhante, não é?
MB: Sim. Eu fui lá e conheço esses mosaicos. Há um corredor que desce da igreja até à cripta onde está o corpo de São Pio. Do lado direito mostram a história de São Pio, e do outro, frente a frente, a história de São Francisco; e, ao chegar à cripta, todas as imagens são da vida de Cristo.

LM: Ou seja: ao aproximarem-se de São Pio, os fiéis descobrem São Francisco; e ao aproximarem-se de São Francisco, descobrem Jesus Cristo.
MB: Exatamente. São Pio, hoje, aproxima-nos de São Francisco, tal como São Francisco, na Idade Média, aproximou a Igreja de Cristo.