1) Oração Inicial

Ó bem-aventurada pobreza,
penhor de eternas riquezas
para os que a amam e abraçam.
Ó Santa pobreza,
pela qual Deus promete o Reino dos céus
aos que a possuem e desejam (cf. Mt 5, 3),
e certamente concede
a glória eterna e a vida bem-aventurada.
Ó sagrada pobreza,
que o Senhor Jesus Cristo
se dignou abraçar,
preferindo-a a todas as riquezas.
Ele que governa o céu e a terra (Sl 32, 9; 148, 5)
e que tudo criou com o poder da sua Palavra. 1ª CCL, 3

Concede-nos, Senhor Jesus, que, com Francisco e Clara entendamos o significado profundo da condição de POBRE que quiseste abraçar, pela nossa salvação, para Te podermos seguir com sincera gratidão e amor. Assim seja.

 

2) Introdução

Nesta reflexão, vamos meditar nas características da FRATERNIDADE POBRE, constituída por Santa Clara e suas irmãs, no Mosteiro de S. Damião. A POBREZA, precioso legado do Pai S. Francisco, era o distintivo daquela fraternidade, como a mesma Clara afirma: “Sempre me preocupei em observar e fazer observar a santa pobreza que prometemos a Deus e ao nosso Pai São Francisco”. (TCL 40)

E na defesa da mesma Pobreza assentava a sua fidelidade a Jesus Cristo, que se fez Pobre para nos enriquecer.

 

a. Dimensão bíblica

Os Actos dos Apóstolos descrevem-nos os primórdios da Igreja como Fraternidade Pobre, na qual ninguém possuía nada e nada a ninguém faltava porque tudo era comum, partilhado segundo as necessidades.

“Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um. Como se tivessem uma só alma …” (Act, 44-46).

Ao longo da história da Igreja, a constituição das comunidades religiosas tem-se revisto neste modo de viver da Comunidade Apostólica. Mas o fundamento basilar da Pobreza na teologia de Vida Consagrada prende-se a Fil 2, 5-11. É a kenose de Jesus Cristo que motiva e dá sentido à POBREZA como voto, na Vida Consagrada. E é aqui que a Fraternidade de S. Damião bebe e experimenta a POBREZA como doçura e riqueza.

“Se, pois, um tão grande Senhor desceu ao seio da Virgem Maria e apareceu desprezível, desamparado e pobre neste mundo, para que os homens pobres, desamparados e carenciados do divino alimento, n' Ele se tornassem ricos possuindo o Reino dos Céus, alegrai-vos e rejubilai, enchei-vos de grande contentamento e de alegrias espirituais, vós que preferistes o desprezo do mundo às honrarias mundanas,
a pobreza às riquezas temporais” (1ª CCL, 19-22).

Porque essa foi a condição que o Senhor Jesus Cristo abraçou na sua vida terrena, o que fazia estremecer de ternura e compaixão o seu servo Francisco, a Pobreza abraçada pela Fraternidade de S. Damião era “o seguimento da pobreza e humildade do dilecto Filho de Deus e da gloriosa Virgem sua mãe”. (TCL)

 

b. Dimensão franciscana:

Podemos considerar a pobreza da fraternidade de S. Damião, sob três aspectos:

 

- Fraternidade rica de pobreza

O epiteto é da própria Santa Clara, que: “Nas palestras às irmãs, procurava convencê-las de que a fraternidade só seria agradável a Deus se fosse rica de pobreza e que só teria garantias de perpetuidade se protegida pela única muralha capaz, a torre da altíssima pobreza” (LCL, 13).

A Pobreza, vivida na Fraternidade de S. Damião não tem, propriamente, o sentido de carência, mas é considerada “tesouro”, o modo de POSSUIR, mais seguramente, Jesus Cristo ”, ou mesmo o modo único se ligar totalmente a Ele. Assim o exprime Celano na Legenda:

“Clara esforçou-se seriamente por se identificar na perfeitíssima pobreza com o pobre Crucificado, para que nenhum bem caduco apartasse a amada do amado, nem estorvasse o seguimento do Senhor” (LCL, 14).

A pobreza não é, pois, o não ter, mas o TER somente a nosso Senhor Jesus Cristo como Sumo e único Bem:” De tal modo se uniu em íntima aliança com a santa pobreza e era tal o amor por ela, que nada mais queria possuir senão Jesus Cristo”. LCL 13

É o “MEU DEUS E MEUS TUDO” de S. Francisco. E neste abraço ao Cristo Total, tão característica de Francisco e de Clara, o desvelo para com a irmã e o irmão, a grande riqueza que o Senhor nos dá. “O Senhor me deu Irmãos”. O cuidado e solicitude para com cada irmã, que Clara pede, sobretudo à Abadessa, mostra-nos a pobreza não é, acima de tudo, míngua, mas doação no amor. E do mesmo modo, a Fraternidade de S. Damião era uma porta sempre aberta aos Pobres.

 

- Fraternidade de olhos fitos no Céu
A Fraternidade Pobre de S. Damião mantém os olhos fitos no céu, abandonada nas mãos do pai em relação aos bens temporais e, em sentido escatológico, esperando firmemente os bens prometidos. A Pobreza, libertando os corações das Irmãs, firmava-as na Fé e na Esperança, como se refere de Moisés: “Pela fé, Moisés, já crescido, recusou ser chamado filho da filha do Faraó, preferindo ser maltratado com o povo de Deus, a desfrutar por breve tempo o gozo do pecado. Ele considerou a humilhação de Cristo uma riqueza maior do que os tesouros do Egipto, pois tinha os olhos fixos na recompensa.” (Heb 11, 24-26).Este olhar, fixo no céu, é constante nos escritos de Santa Clara que, com convição e beleza, apresenta a Pobreza como garante e moeda com que se compram os bens eternos, como diz a Santa Inês:
“Não é verdade que preferiste o tesouro incomparável, escondido no campo deste mundo e no coração dos homens (cf. Mt 13, 44), mediante o qual se compra, nada menos, que Aquele que tudo criou do nada? E que O abraçaste com a humildade, a força da fé e os braços da pobreza? (3ª CCL, 3)E na primeira Carta, regozija-se pela troca maravilhosa dos bens temporais pelos eternos. "Na verdade, é uma troca maravilhosa e digna de todo o louvor, renunciar aos bens temporais e preferir os eternos, perder o que é terreno, para merecer o que é celeste, renunciar a um para ganhar cem e possuir para sempre a vida bem-aventurada”.
(1ª CCL, 5)

Neste clima “celestial” que transparece, tanto nos escritos de Clara como nos biográficos, a Pobreza não dedigna as Irmãs, mas, antes, as nobilita, desposando-as com o Esposo de mais nobre linhagem, Jesus Cristo, como exorta Clara a Stª Inês:

“Vós que preferistes o desprezo do mundo às honrarias mundanas, a pobreza às riquezas temporais e antes juntar um tesouro no céu que na terra, onde nem a ferrugem nem a traça o corrompem, nem os ladrões o desenterram ou roubam (cf. Mt 6, 20), tereis no céu a recompensa (Mt 5, 12) e mereceis ser chamada irmã, esposa e mãe do Filho do Pai altíssimo e da Virgem gloriosa” (1CCL, 22-24).

O mesmo se verifica na linguagem nobre usada pelo Pai S. Francisco, ao dirigir-se às Irmãs, chamando-as Princesas e Rainhas, como sucede na primeira e última mensagem dirigida às Irmãs Clarissas:

“Pois que, por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do altíssimo e soberano Rei e Pai Celestial, e vos tornastes esposas do Espírito Santo, abraçando uma vida conforme a perfeição do Santo Evangelho” (RCL VI, 3).

“Que as vossas fadigas vos sejam muito caras, já que cada uma de vós será rainha, coroada no céu, com a virgem Maria” (Ex Au, 6)

Podemos, ainda, dizer que o Privilégio da Pobreza sintetiza, de algum modo, este aspecto da Pobreza, vivida de olhos no céu:

“A falta das coisas materiais não vos demove do vosso propósito; a mão esquerda do Esposo celeste sustenta vossas cabeças (Cant 2, 6; 8, 3) para proteger a fraqueza do vosso corpo que vós submetestes e ordenastes às leis do Espírito. 

Com efeito, Aquele que alimenta as aves do céu (Mt 6, 16) e veste os lírios dos campos (Mt 6, 28), não vos faltará com o alimento e a roupa, até que Ele mesmo vos sirva (Lc 12, 37) na eternidade, quando a sua direita felizmente vos abraçar (Cant 2, 6; 2, 8) na plenitude da visão beatífica” (PP, 4-6).

 

- Fraternidade fundada na fidelidade

Clara identifica a Pobreza com o seguimento de Jesus Cristo. Não conhece outra forma de “ser cristã” senão a de colocar os pés nas pegadas do Mestre, como refere Celano:

“O Papa Gregório, de santa memória, […] prevendo eventuais circunstâncias e os perigos do tempo, tentou persuadi-la a aceitar a posse de alguma propriedade que ele mesmo lhe oferecia. Mas Clara opôs-se sempre radicalmente e nunca cedeu minimamente a tais pretensões. Perante tal relutância, o Santo Padre explicou-lhe: “Se temes pelo voto, nós dispensamos-te dele”. Mas ela respondeu: “Santíssimo Padre, por nenhum preço quero ser dispensada de viver o seguimento de Cristo por todo o sempre” ( LCL , 14).

Ser dispensada POBREZA seria ser dispensada do seguimento de Jesus Cristo e trair a “forma vivendi” recebida de Francisco, que ela tem sempre presente:
“Escreveu-nos, depois, a forma de vida, insistindo sobretudo que perseverássemos sempre na santa pobreza. Não contente em nos exortar durante a vida, com muitas palavras e exemplos, ao amor e observância da santíssima pobreza, deixou-nos também muitos escritos, para que, depois da sua morte, de modo nenhum nos afastássemos dela, a exemplo do Filho de Deus que, enquanto viveu neste mundo, nunca da santa pobreza se quis desviar” (TCL 33 ).

Ora, a partir do IV concílio de Latrão, as novas Ordens deviam professar uma das Regras já existentes, na prática, a de S. Agostinho ou de S. Bento. Francisco obtivera, anteriormente, a aprovação oral de Honório III, não sendo a sua Ordem abrangida por esta lei. O mesmo não sucedia com Clara e suas Irmãs, que, sentindo-se, na sua génese, inseridas na nova Família, não eram assim reconhecidas oficialmente, pelo que tiveram de professar, por motivos canónicos, a Regra de S. Bento.

Neste contexto, e perante a oferta de bens que ia sendo feita às comunidades, Clara teme pelo desmembramento da “plantazinha” do seu tronco e recorre ao “santo estratagema” do Privilégio da Pobreza a fim de salvaguardar a ligação espiritual à Ordem dos Frades Menores e “o timbre da Pobreza” (LCL 14) que sempre defendera para a sua Ordem, como ela mesma conta:

“para maior garantia, solicitei ao Senhor Papa Inocêncio, sob cujo pontificado começámos, e a todos os seus sucessores, que confirmassem com os seus privilégios a nossa profissão da santíssima pobreza, para que em tempo algum, e de nenhuma maneira dela nos desviássemos. (TCL 42,43).

Desse modo, professando, embora, a Regra de S. Bento, mantêm-se fiéis à forma vivendi não podendo ser obrigadas a receber propriedades, como refere o mesmo privilégio:

“Por isso, tal como haveis suplicado, confirmamos com benignidade apostólica o vosso propósito de altíssima pobreza e determinamos por força do presente escrito que ninguém vos possa obrigar a receber propriedades” (PP,7).

Esse timbre da POBREZA unia a fraternidade de S. Damião num compromisso comunitário, renovado com frequência, como refere Clara:

“Frequentemente renovamos a nossa adesão voluntária à nossa senhora, santíssima pobreza, a fim de que depois da minha morte, as irmãs, tanto as presentes como as futuras, de nenhuma maneira dela se apartem. (TCL 39).

Conta-nos a terceira testemunha do Processo de Canonização que, “No fim da vida, chamando todas as irmãs, recomendou-lhes encarecidamente o Privilégio da Pobreza. O seu maior desejo era obter a bula de aprovação da Regra da sua Ordem, de beijar um dia a bula e morrer no dia seguinte. E assim aconteceu. Quando já se aproximava a hora da morte, chegou um irmão com o documento aprovado. Ela tomou-o com muita reverência e levou-o aos lábios para o beijar E no dia seguinte, madona Clara, verdadeiramente clara, sem mancha ou sombra de pecado, passou desta vida para o Senhor, para a claridade da luz eterna” (PC 32).

A Fraternidade Pobre de S. Damião é coroada, em Clara, com a palma da vitória.

 

3) Actualidade do tema

Na celebração do 750º aniversário da morte de nossa mãe Santa Clara, Frei Giacomo Bibi, então Ministro Geral da Ordem, escreveu uma carta, intitulada “Clara de Assis um hino de Louvor”, como reflexão para toda a Ordem. E concluía assim: “O Privilegium paupertatis, que Clara tanto defendeu, é a alegria de seguir e partilhar a vida de Jesus, a garantia de fidelidade ao nosso carisma; recordai-nos [irmãs clarissas] que um irmão ou uma irmã que não são pobres e livres evangelicamente serão condenados a ser estéreis e tristes (cf. Mc 10,22), apesar da grandiosidade das obras e da riqueza das tradições” (Clara de Assis, um Hino de Louvor – 2002).

Reconhecemos que a Pobreza está no cerne da espiritualidade franciscana. Uma Pobreza que não seja entendida como pura carência de coisas nem só no sentido espiritual. O estilo de vida sóbrio faz parte deste entendimento da Pobreza. E não pela Pobreza em si, mas pela necessidade de ter o Senhor como TUDO. De tal modo que, ocupando Ele o primeiro lugar, tudo seja relativizado; as coisas adquiram o seu autêntico valor de estar ao serviço das necessidades. Logo, eu sirvo-me na medida em que me são necessárias. Não sou mais importante por possuir mais, porque elas não me valorizam. A presença do Senhor em mim, é que me dignifica.

Também o Papa Francisco nos diz, na GE, que “As riquezas não te dão segurança alguma. Mais ainda: quando o coração se sente rico, fica tão satisfeito de si mesmo que não tem espaço para a Palavra de Deus, para amar os irmãos, nem para gozar das coisas mais importantes da vida. Deste modo priva-se dos bens maiores. Por isso, Jesus chama felizes os pobres em espírito, que têm o coração pobre, onde pode entrar o Senhor com a sua incessante novidade” (GE, 68).

Perante estas afirmações concluímos que, o exemplo da Fraternidade de S. Damião é plenamente actual, via de santidade para todo o cristão, em sintonia com a carta magna do Reino, que Jesus inicia com: “Bem-aventurados os pobres em espírito” (Mt 5, 3).

 

Compromisso: Dedicar mais tempo e atenção à escuta da Palavra do Senhor; meditar na grandeza da Sua entrega por Mim e ajudar-me, nesta reflexão, dos escritos de S. Francisco e Santa Clara.

 

Oração. Senhor Jesus Cristo, que chamastes Santa Clara ao vosso seguimento, e a fizestes conhecer de modo a admirável a riqueza da Vossa Graça, levando-a a abandonar as riquezas para abraçar a Pobreza que escolheste para Vós e vossa Mãe, ajudai-nos a, como ela, seguir os exemplos de Francisco, antepondo o vosso seguimento a todas as solicitações do mundo. Vós que sois Deus com o Pai… Ámen.

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