Entre Francisco e Clara há uma autonomia e liberdade a toda a prova. Mas, entre eles, subsiste também uma profunda relação de "reciprocidade vital".

Na sua extensa "Bênção", Santa Clara escreve: «Eu, Clara, serva de Nosso Senhor Jesus Cristo, plantazinha do nosso pai São Francisco, irmã e mãe vossa e de todas as Irmãs Pobres...»

A designação de plantazinha é expressiva e carinhosa. Mas deve ser lida e interpretada com cuidado e ponderação. É verdade que o Espírito do Senhor quis servir-se de Francisco para lançar no coração da jovem Clara a aventura do Evangelho e da pobreza. Mas sem servilismos nem infantis dependências, tão frequentes no campo eclesial.

Clara não é a réplica feminina de Francisco. O protestante Paul Sabatier, a quem tanto devemos no aprofundamento do carisma e do estudo das fontes franciscanas, constata que, se não fossem rivalidades surgidas entre as várias fundações franciscanas, «Clara estaria hoje entre as maiores figuras femininas da história».

Sim. Entre Francisco e Clara há uma autonomia e liberdade a toda a prova. Mas, entre eles, subsiste também uma profunda relação de "reciprocidade vital". Em 1992, João Paulo II falou, de improviso, às Irmãs Clarissas, em Assis. Destaco:

«É verdadeiramente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... Há entre eles algo de profundo que não pode ser compreendido com critérios humanos, mas tão-somente de Espiritualidade franciscana, cristã e evangélica. Não eram puros espíritos! Eram corpos, pessoas, espíritos. Francisco via-se a si mesmo à imagem de Clara, esposa de Cristo, esposa mística. Nela vi-a retratada a santidade que devia imitar. Via-se a si mesmo como irmão pobrezinho, à semelhança dessa esposa autêntica de Cristo, em quem reconhecia a imagem da esposa perfeitíssima do Espírito Santo, Maria Santíssima.»

Estas palavras ficam para a História.