O que em Assis era novo residia no facto de a oração não ser a de uns contra os outros, mas a prece fraterna de uns pelos outros.

Há 30 anos, em Assis, nasceu o desejo de realizar um encontro das religiões em favor da paz. Não era então uma coisa evidente, nem hoje o é, num mundo persistentemente separado por fundamentalismos, blocos, inimizades e terrorismos de vária espécie. O Papa João Paulo II provocou o degelo, congregando na cidade de São Francisco uma jornada histórica que o mundo não se lembrava de haver visto. A imagem impressionava: juntava-se o cristianismo do Ocidente com o do Oriente e as Igrejas da reforma, partilhando o espaço com a religião hebraica e islâmica, abraçando o budismo e o hinduísmo, saudando cordialmente a polifónica vitalidade de tantas outras tradições espirituais presentes. Wojtyla afirmou então que, talvez em nenhuma época do passado como hoje, se tornara necessário consolidar a perceção de um ligame obrigatório entre religião e paz. Tratava-se de rezar, é verdade, coisa que em si nada tem de extraordinário para qualquer geografia religiosa. Mas o que em Assis era novo residia no facto de a oração não ser a de uns contra os outros, como aconteceu durante séculos. Era, agora, a prece de uns feita ao lado da dos outros; a prece fraterna de uns pelos outros. Os diversos líderes religiosos, com o ineditismo desta abertura e o colorido misturado das suas vestes, ofereciam aos fiéis das suas tradições, como recorda o fundador da comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, não apenas uma ética de que o mundo precisa mas também uma estética para o diálogo futuro.

Esta cimeira que se passou a realizar anualmente, percorrendo várias cidades do mundo (lembremos que a XIII aconteceu em Lisboa, no outono de 2000), retornou a Assis no seu 30º aniversário. O Papa Francisco levantou ali a sua voz para, em nome dos presentes, dizer que só a paz é santa e nunca a guerra. E exortou: “Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: são respostas espirituais concretas para superar a grande doença do nosso tempo: a indiferença.

Coube ao sociólogo Zygmunt Bauman fazer a intervenção inicial, refletindo sobre a história da Humanidade a partir do pronome “nós”. A primeira vez que o termo foi utilizado não incluiria mais de 150 pessoas, na época em que os homens eram caçadores e recoletores. Aos poucos, este número foi aumentando, aplicando-se sucessivamente à tribo, à aldeia, à cidade, ao estado ou aos impérios. Mas em todas essas etapas o uso do pronome “nós” tinha um elemento em comum: formulava-se em contraposição aos “outros”, num regime de inclusão e exclusão. E isto construiu a história do modo que conhecemos. Hoje, porém, vive-se um novo limiar. Num mundo cosmopolita e globalizado, o “outro” tradicional deixou de existir, porque descobrimo-nos todos dependentes uns dos outros. O grande problema qual é? Na opinião de Bauman, é vivermos numa época inédita, mas insistirmos em utilizar as velhas antinomias de sempre. Por isso, segundo ele, faríamos bem em escutar os três conselhos que repetidamente, por palavras e gestos, tem dado o Papa Francisco.

1) Antes de tudo, a necessidade de instaurarmos uma cultura de diálogo para assim reconstruirmos o tecido da sociedade;

2) Depois, fazermos valer a equidade na distribuição dos frutos da terra e do trabalho, deixando para trás esta economia líquida, apostando na criação de postos de trabalho reais;

3) Por fim, compreendermos que temos de confiar mais na educação, nos processos longos que requerem de nós planificação, paciência e coerência.

in Revista Expresso, Ed. 2292, 01/10/2016

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