Obviamente que nem o Sínodo nem os documentos são por acaso. As grandes linhas do pontificado do Papa Francisco ajudam-nos a entender melhor as iniciativas que nele se dão. Aplicando-as, o Papa e a Igreja querem chegar às periferias do mundo juvenil, sem esquecer os pobres; querem também “abanar” os jovens anestesiados na vida – inúmeras intervenções de Francisco vão neste sentido [1]. Querem fazer um esforço de nunca deixar ninguém de fora, nem os marginalizados da sociedade, nem os jovens de outras religiões ou sem religião [2].

 

FÉ E VOCAÇÃO

É a partir da fé que cada cristão se relaciona com Deus, e Lhe pergunta a Sua vontade. Aqui trata-se da grande vocação à alegria do amor, vocação baptismal, vocação universal à santidade.

É normal que, no caso dos jovens, também haja uma ênfase nas grandes escolhas da vida, ou seja, no seu próprio estado de vida. Mas o caminho é o mesmo: Receber este dom da graça [a fé] com alegria e disponibilidade requer que ele se torne fecundo através de escolhas de vida concretas e coerentes.

O texto põe em relevo o carácter operativo da fé, bem como a sua capacidade para ser antídoto para o individualismo.

Todos os fiéis são convidados a escutar o Espírito, em diálogo com a Palavra, com toda a sua inteligência e afectividade e a dar uma resposta. E toda a ajuda é boa para que isso realmente se realize. No entanto, distinguir a voz do Espírito dos outros apelos e decidir que resposta dar é uma tarefa que compete a cada um: os outros podem acompanhá-la e confirmá-la, mas jamais substituí-la. Isto às vezes é difícil de aceitar: o outro (jovem) é realmente uma pessoa livre que pode, ou não, acolher a minha ajuda e orientação.

Rejeição e fracasso sempre haverá. Mas não têm a última palavra. A novidade cristã convida-nos a acolher a força da regeneração, para nunca desanimarmos diante de qualquer jovem que tenha mais dificuldades em fazer as escolhas certas.

 

O DOM DO DISCERNIMENTO

Entramos no âmago do documento. É uma proclamação de esperança: é possível oferecer a todos os jovens – mesmo aos mais afastados ou em maior dificuldade – a chave cristã para que sejam cada vez mais livres nas suas escolhas, oferecendo-lhes um verdadeiro acompanhamento.

Os três pontos de força deste documento são, então, o discernimento, a vocação e o acompanhamento.

Sobre o discernimento, o texto recorda o seu lugar no património da Igreja e as perspectivas complementares: discernimento dos sinais dos tempos; discernimento moral; e discernimento espiritual.

É neste quadro que se fala de discernimento vocacional – processo com que a pessoa, em diálogo com o Senhor e à escuta da voz do Espírito, chega a fazer as opções fundamentais, a começar por aquela sobre o estado de vida.

E ao concretizar, percebe-se também o alcance de “vocação”: Como viver a Boa-Nova do Evangelho e responder ao chamamento que o Senhor dirige a todos aqueles a quem vai ao encontro: através do casamento, do ministério ordenado, da vida consagrada? E qual é o campo em que se pode fazer frutificar os talentos pessoais: a vida profissional, o voluntariado, o serviço aos últimos, o compromisso na política?

Aqui fica claro o que não é o Sínodo: não é uma reunião de especialistas de pastoral para arranjar mais padres e religiosos para a Igreja… O que está em causa é como ajudar os jovens a tornarem-se cristãos adultos, com todas as consequências para a sua vida pessoal, familiar, profissional, social…e isso através de um processo de discernimento acompanhado.

Passa-se então a algumas dimensões que hão-de caracterizar esse processo: reconhecer, interpretar, escolher (Evangelii Gaudium, 51).

Reconhecer

O reconhecimento diz respeito antes de tudo aos efeitos que os acontecimentos da minha vida, as pessoas com as quais me encontro, as palavras que ouço ou que leio produzem na minha interioridade: uma variedade de «desejos, sentimentos, emoções» [as paixões] (Amoris Laetitia, 143).

É importante não reprimir as paixões; mas é também importante pô-las no seu lugar e “ao serviço” da edificação da pessoa. Para tudo isto é fundamental a Palavra de Deus, porque, por um lado, coloca em contacto as experiências narradas na Escritura com as paixões de cada um, lançando luz sobre elas e, por outro, permite que a pessoa se reconheça na Palavra.

Tudo isto sublinha a necessidade da escuta, do silêncio e da vida interior. Reconhecer constitui uma dimensão de grande valor, particularmente para os jovens que experimentam com maior intensidade o vigor dos desejos e podem sentir-se também assustados diante deles, alguns deles ao ponto de, com esse medo, renunciarem infelizmente a grandes passos na vida, para os quais até se sentiam impelidos.

Interpretar

Não é suficiente reconhecer aquilo que nós experimentamos: é necessário «interpretá-lo» ou, por outras palavras, compreender para o que o Espírito nos chama.

É bom conseguir contar o que já reconhecemos (não apenas vivemos) na nossa experiência. Mas mais importante é compreender a origem e o significado dos desejos e das emoções sentidas e avaliar se eles nos orientam numa direcção construtiva ou, pelo contrário, se nos levam a fechar-nos em nós mesmos.

Estamos na fase mais delicada do discernimento, que exige paciência, vigilância e também uma certa aprendizagem. Além disso, saber interpretar é também considerar com realismo as possibilidades objectivas que estão à disposição de cada um, para não se cair em fantasias. Na direcção contrária da fantasia que prejudica, está o confrontar-se honestamente, à luz da Palavra de Deus, também com as exigências morais da vida cristã, procurando inseri-las sempre na situação concreta de vida.

E, para tudo isto, novamente se põe em destaque o acompanhamento:

Este trabalho de interpretação realiza-se num diálogo interior com o Senhor, com a activação de todas as capacidades da pessoa; no entanto, a ajuda de um especialista na escuta do Espírito constitui um apoio inestimável, que a Igreja oferece e do qual é pouco prudente não lançar mão.

Escolher

Uma vez reconhecido e interpretado o mundo dos desejos e das paixões, o acto de decidir torna-se exercício de autêntica liberdade humana e de responsabilidade pessoal, obviamente sempre situadas e, portanto, limitadas.

O objectivo é sempre a verdadeira liberdade, quer interior quer exterior. Já se apresentou como alcançar a liberdade interior, de maneira que a escolha não fique prisioneira da força cega dos instintos. Mas é igualmente importante que se garanta uma verdadeira liberdade exterior. Por isso, o documento enfrenta certas formas culturais em que as decisões fundamentais da vida não eram tomadas directamente pelas partes interessadas (casamentos arranjados, entradas em conventos por imposição familiar, etc.), para afirmar que promover escolhas verdadeiramente livres e responsáveis (…) permanece o objectivo de qualquer pastoral vocacional séria.

A escolha, para ser válida, não pode ficar apenas na interioridade. Deve ser posta à prova dos acontecimentos. Até porque, quando isso acontece, se dá início a um percurso, no qual se aceita o risco de que surjam novos desejos e emoções: reconhecê-los e interpretá-los permitirá confirmar a bondade da decisão tomada ou aconselhará a revê-la. Por isso, é importante «sair» também do medo de errar que se pode tornar paralisante. Nada disso, porém, faz esquecer a índole irreversível de algumas das opções fundamentais da vida.

 

O ACOMPANHAMENTO

Antes de mais, apresentam-se três convicções que permitem que se faça discernimento: Deus age no coração de cada homem; o coração apresenta-se normalmente dividido por causa da fragilidade e do pecado; contudo, a vida obriga a decidir.

Depois, há a oferta do acompanhamento para que o discernimento chegue a essa boa decisão: No entanto, é preciso dispor dos instrumentos para reconhecer o chamamento do Senhor para a alegria do amor e decidir dar-lhe uma resposta. Entre estes instrumentos, a tradição espiritual põe em evidência a importância do acompanhamento pessoal.

Mas logo surge um alerta, particularmente aos acompanhadores: Para acompanhar outra pessoa, não é suficiente estudar a teoria do discernimento; é preciso viver na própria pele a experiência de interpretar os movimentos do coração para neles reconhecer a acção do Espírito, cuja voz sabe falar à singularidade de cada um.

O acompanhador saberá distinguir a sua missão de um apoio psicológico, mas valorizando, sem absolutizar, o contributo de um técnico. Mas, sobretudo, irá encontrar em Jesus o seu grande modelo – nos encontros do Senhor com as pessoas traça-se o perfil ideal de quem acompanha o jovem no discernimento vocacional.

 

_____ 

[1] Logo no primeiro ano do seu pontificado, na Jornada Mundial da Juventude do Rio, Francisco vincou algumas ideias a que depois tem voltado noutras ocasiões: “Desejo dizer-lhes qual é a consequência que eu espero da Jornada da Juventude: espero que façam barulho.” Encontro com jovens argentinos, 25/07/2013; “Os jovens (…) querem ser protagonistas da mudança. Por favor, não deixem para outros o ser protagonistas da mudança! (…) Queridos jovens, por favor, não «olhem da varanda» a vida.” Vigília de oração, 27/07/2013.

[2] Na Reunião Pré-Sinodal de Março de 2018 participarão também jovens e especialistas de outras confissões cristãs, de outras religiões ou sem religião.

 


Publicado na Revista Bíblica nº 374 (janeiro-fevereiro 2018) pp. 33-36

 * As palavras transcritas em itálico ao longo do artigo são textuais do Documento Preparatório do Sínodo.

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