Aniceto Koplin nasceu na Alemanha, em 1875. Aos 18 anos entrou na Ordem dos Capuchinhos. Ordenado sacerdote, destacou-se como bom pregador e confessor carismático. Sonhava ser missionário mas não lhe permitiram ir para “terras de infiéis”. Enviado para a Polónia, aí ficará até à morte. Manifestou uma grande dedicação aos pobres, aos desempregados, aos necessitados. À sua volta difundia a serenidade do espírito e alegria interior. Quando começou a II Guerra Mundial, em 1939, Fr. Aniceto não abandonou Varsóvia. Na noite de 26 para 27 de Junho de 1941, a Gestapo cercou o Convento dos Capuchinhos de Varsóvia, prenderam 22 religiosos e, entre eles, Fr. Aniceto. No dia 4 de Setembro, Fr. Aniceto foi transferido, juntamente com os restantes irmãos, para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreu no dia 16 de Outubro de 1941.

No dia 26 de Março de 1999, o Papa São João Paulo II inscreveu-o no Catálogo dos Mártires, juntamente com outros frades capuchinhos e uma irmã clarissa capuchinha, todos eles mártires da perseguição nazista na Polónia.

 

Oração

Deus omnipotente, Vós enriquecestes os beatos Aniceto e companheiros, presbíteros e mártires, com o espírito de sacrifício e a graça da perseverança na vocação ao martírio: concedei-nos, por sua intercessão, amar os inimigos e ser fortes na fé. Por nosso Senhor.

 

Hino ao Beato Aniceto Koplin e Companheiros

06 16 aniceto koplin hino

Mártires da perseguição nazi na Polónia

1. BEATO ANICETO KOPLIN

Aniceto Koplin era originário de Dbrzno, na Pomerania Ocidental, onde entram em contacto duas culturas, a eslava e a alemã; e duas comunidades religiosas, os luteranos e os católicos.

Nasceu no dia 30 de Julho de 1875. Os seus pais chamavam-se Lourenço (Wawrzyniec), de origem polaca, e Berta Moldenhau, alemã, pertencentes à comunidade luterana.

No baptismo, em 8 de Agosto de 1875, recebeu o nome de Alberto António. O primeiro nome foi, posteriormente, mudado por Adalberto. Tinha quatro irmãos. Frequentou a escola elementar e média superior em Debrzno.

Aos 18 anos, no dia 23 de Setembro de 1893, entrou na Ordem dos Capuchinhos, em Sigolsheim. Depois de um ano de noviciado, emitiu os primeiros votos religiosos no dia 24 de Novembro de 1894. Na nossa Ordem recebeu o nome de Aniceto. Depois de terminar a Escola Superior, começou os estudos universitários no Seminário em ordem ao Sacerdócio. Professou solenemente no dia 25 de Novembro de 1897. Ordenou-se sacerdote no dia 15 de Agosto de 1900, na festa da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.

Depois da ordenação, trabalhou em vários conventos da Província de Westfalia. Destacou-se como bom pregador. Sonhava ser missionário mas não lhe permitiram ir para “terras de infiéis”. Por ordem dos seus Superiores começou a trabalhar com os emigrantes polacos, como Capelão de prisioneiros e feridos de guerra.

No dia 20 de Março de 1901 chegou a Varsóvia. Não são muito claros os motivos desta mudança. Foi chamamento do seu espírito polaco ou teria sido enviado para aprender a língua a fim de ser mais eficaz o seu trabalho com os polacos? De qualquer modo, aquele ano foi marcante na vida de Fr. Aniceto. Ficará para sempre na Polónia.

Por volta de 1930 naturalizou-se polaco, mas, como religioso, permanece sempre como membro da Província Renano-Westfálica. Da língua polaca aprendeu o suficiente para poder ser entendido, mas tinha dificuldade em fazer uma homilia, por isso só o fazia em casos excepcionais.

Em Varsóvia, é famoso como confessor carismático. Procuram-no leigos e eclesiásticos. Foi confessor de Núncios Apostólicos, tais como: Aquiles Ratti, Lourenzo Lauri, Francisco Marmaggi e Felipe Cortesi. Também se confessavam com ele vários Bispos de Varsóvia: o Cardeal Alexandre Kakowski, Stanislao Gall, José Gawlina.

O seu carisma assentava numa doutrina moral clara, pontual, seguindo sempre o critério de estimular os penitentes para uma vida de perfeição. Possivelmente, neste trabalho, possuía o dom de perscrutar os corações. Era chamado para atender os doentes, mesmo aqueles que rejeitavam a confissão no momento da morte. Alcançou a conversão e a reconciliação de muitas pessoas com Deus.

Muita gente se impressionava com a solenidade e a inspiração com que celebrava a Eucaristia. Disso era sinais a calma e o lento desenvolvimento do ritual; dava a impressão de que vivia, efectivamente, a realidade do mistério da Eucaristia.

Em Varsóvia, conhecem-no como mendicante (esmoleiro) e protector dos pobres. Nos 20 anos que vive nesta cidade, Fr. Aniceto consagrou grande parte do seu tempo, exclusivamente, aos pobres, aos desempregados, aos necessitados. Consagrou-lhes as suas preocupações e capacidade. Inicialmente a sua acção cingiu-se ao distrito de Annpol, sobre a margem direita do rio Vístula. Os Capuchinhos tiveram a iniciativa de criar uma grande cozinha, capaz de distribuir até umas oito mil refeições. Fr. Aniceto abastecia a mesa com os produtos que conseguia, e isto cobria, em grande parte, as necessidades económicas. Arranjou trabalho a muitos desempregados, noutras ocasiões, ajudava nos estudos. Quem tivesse qualquer dificuldade podia contar com ele. Criou um sistema especial para pedir ajuda. Consegui que um grande número de pessoas oferecessem, semanal ou mensalmente, uma quota para os pobres. Além do dinheiro, recolhia víveres: farinha, pão, sêmola, azeite, açucar.

Pedia ajuda às pessoas com possibilidades económicas. Não evitava o assim dito, grande mundo. Ao pedir esmola foi objecto de grandes afrontas e humilhações que, nalguns casos, chegaram a ser físicas. Suportava tudo com calma, não obstante o seu forte carácter, o que causava assombro aos que o conheciam de perto.

Era poeta e sabia latim com perfeição. Frequentemente fazia poesias nesta língua, em versos acrósticos, ou declamava, em honra de vários personagens do lugar, e assim conseguia esmolas para os seus pobres. A sua poesia estava ao serviço da caridade cristã.

Era muito conhecido na cidade. Não havia uma cerimónia importante em Varsóvia para a qual não fosse convidado. Os transeuntes e cocheiros conheciam-no muito bem e, frequentemente, paravam-no para poderem acarinhar o famoso esmoleiro capuchinho.

Aniceto tinha sido muito dotado pela natureza, mas todos os seus talentos estavam ao serviço do próximo. À sua volta difundia a serenidade do espírito e alegria interior. Todos se reuniam à sua volta, e ele mostrava a sua bondade, escondida sob o hábito castanho escuro, a sua capacidade de consolar e a solidariedade humana. Encarnava aquela bondade humana que era capaz de atrair ao próximo e aproximá-lo de Deus. Os apelidos que o povo lhe atribuía - pai dos pobres e esmoleiro de Varsóvia, mostravam a dimensão social da sua figura e, com o tempo, a sua evidente santidade.

Quando começou a II Guerra Mundial, em 1939, Fr. Aniceto não abandonou Varsóvia. Estava diante de uma Guerra que punha frente a frente os seus dois países – a Alemanha, em que tinha crescido, e a Polónia que tinha eleito. Efectivamente, era alemão, mas a sua concepção era universal. Também no plano emocional se identificava como polaco.

Depois da capitulação de Varsóvia, Fr. Aniceto permanece no Convento da cidade. Apesar das dificuldades, foi pródigo na busca de auxílio para os pobres e necessitados, que tinham aumentado grandemente. Para este objectivo, valia-se do conhecimento da sua família alemã. Na Primavera de 1940, os jornais da resistência referiam que 90% da população estava sem trabalho e morria de fome. Aniceto, no limite das suas possibilidades e forças, a todos socorria.

Em Junho de 1940, Fr. Aniceto e o Guardião do Convento, Fr. Inocente Hanski, foram chamados à Sede da Gestapo para serem interrogados. Quando lhes perguntavam se liam o jornal clandestino, Fr. Aniceto disse a verdade. Naquele momento poderá ter dito aos homens da Gestapo que se envergonhava de ser alemão.

Na noite de 26 para 27 de Junho de 1941, a Gestapo cercou o Convento dos Capuchinhos de Varsóvia. Depois de pesquisarem durante algumas horas, prenderam 22 religiosos e, entre eles, Fr. Aniceto. Todos foram trasladados para a prisão de Pawiak a fim de serem interrogados. Os giardas escarneciam os frades. Atormentavam-nos com a conhecida ginástica. Apanharam Fr. Aniceto que, de todos, era o mais velho. Tiraram-lhe o hábito religioso, deixando-o apenas com a camisa e roupa interior, e somente uns dias mais tarde lhe deram roupa de leigo.

No dia 4 de Setembro, Fr. Aniceto foi transferido, juntamente com os restantes irmãos, para o campo de concentração de Auschwitz. Ao descer do comboio foi maltratado; depois, ao caminhar a marcar passo, bateram-lhe várias vezes, porque, dada a sua idade, não podia manter o ritmo. Cansado como estava, ainda foi mordido por um dos cães das SS. No bloco, recebeu o 30.376, como número de matrícula.

Depois do período, dito de quarentena, Fr. Aniceto foi confiado ao bloco 19, porque ele não tinha idade para trabalhar. Isto equivalia a uma tácita condenação à morte. No bloco nunca se tinha salvo ninguém, pelo contrário, em consequência de uma ginástica homicida, a morte deveria chegar quanto antes. Todos os dias morriam centenas de prisioneiros nestas circunstâncias. A morte era acelerada com uma injecção de fenol.

Fr. Aniceto morreu no dia 16 de Outubro de 1941. Não conhecemos, com precisão, quais as causas da sua morte: se homicídio ou condições desumanas. O certo é que, um mês e meio depois de entrar no campo de concentração, sofreu o martírio.

A fama do martírio de Fr. Aniceto teve grande repercussão. As numerosas publicações dedicadas à sua vida e martírio são o testemunho do fervor dos fiéis que se recomendam à sua intercessão.

No dia 26 de Março de 1999, o Papa João Paulo II inscreveu-o no Catálogo dos Mártires.

 

2. BEATO HENRIQUE KRZYZTOFIK

Nasceu no dia 22 de Março de 1908 em Zachorzew. Filho de José e de Francisca Franaszcyk. Foi baptizado ma paróquia de Slawno (diocese de Sandormiez – Polónia), no dia 9 de Abril de 1908. Puseram-lhe o nome de José.

Terminada a escola primária em 1925, apresentou-se no Colégio de São Fiel dos Capuchinhos de Lomza. Entro na Ordem dos Capuchinhos do Comissariado de Varsóvia. No dia 14 de Agosto de 1927 entrou no Convento de Nowe Miasto, onde recebeu o hábito Capuchinho, mudado o seu nome para Henrique (Henryk). Um ano depois, no dia 15 de Agosto de 1928, fez a sua profissão simples. Imediatamente foi enviado para a Holanda, para o Convento capuchinho de Breust-Eysden, Província de Paris. Aqui faz a sua profissão perpétua no dia 15 de Agosto de 1931, e no dia 30 de Julho de 1933 foi ordenado sacerdote. Por determinação dos Superiores, continuou os seus estudos na Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana, residindo no colégio Internacional de São Lourenço, dos Capuchinhos. Em 1935 obteve a Licenciatura em Teologia.

Regressando à Polónia foi destinado ao Convento de Lublín, onde foi professor de teologia dogmática no Seminário dos Capuchinhos. Pouco depois, foi designado Reitor do Seminário e Vigário do Convento. Na igreja do Convento pregou com grande entusiasmo espiritual e fervor interior. A Segunda Guerra Mundial, iniciada no dia 1 de Setembro de 1939, surpreendeu-o no cumprimento desta missão.

O Guardião do Convento de Lublin, Fr. Jesualdo Wilem de Holanda (naquele tempo, os Capuchinhos polacos eram ajudados por Capuchinhos provenientes da Holanda), foi obrigado a renunciar ao serviço de guardião e deixar a paróquia. Fr. Henrique é, então, nomeado guardião do Convento. Nesta condição e ao mesmo tempo Reitor do seminário, encontra-se em situação deveras complicada. Por causa da Guerra, as aulas no ano académico de 1939-1940 começaram muito atrasadas. O clima era extremamente tenso. As tropas alemãs atacavam ferozmente e as detenções continuavam sem interrupção. Neste clima desfavorável, Fr. Henrique tratou de tranquilizar os seminaristas.

No dia 23 de Janeiro de 1940, a Gestapo prendeu 23 Capuchinhos do Convento de Lublín, entre os quais estava o seu guardião, Fr. Henrique. O primeiro lugar de reclusão foi o Castelo de Lublín, à espera de um lugar na prisão.

Henrique disse: “Irmãos, enquanto temos lucidez mental façamos este bom propósito: qualquer coisa que aconteça, cada um de nós será uma oferenda propiciatória a Deus”. Durante todo o tempo que passou na prisão esteve atento a todos. Pela manhã celebrava a Eucaristia.

No dia 8 de Junho de 1940 foi transferido, juntamente com os outros irmãos, para o campo de concentração de Sachenhausen, perto de Berlim. Ali, “em condições muito precárias, não se esquecia de nenhum de nós”, - escreve um daqueles que partilhou o seu destino no campo de concentração, Fr. Ambrósio Jastrzebski. Quando no Outono de 1940 recebeu um donativo, comprou dois pães, partiu-os em 25 porções – era o número dos Capuchinhos – e disse: “Irmãos, recebamos os dons do Senhor, sirvámo-lo como Ele merece”. O já citado Fr. Ambrósio define assim o gesto do irmão: “Um gesto nobre, que só pode ser apreciado por quem esteve no campo de concentração; e quanta abnegação, diremos heroísmo, se requer para distribuir o pão quando se está com fome”.

No dia 14 de Setembro de 1940, Henrique, juntamente com os restantes irmãos, foi transferido para o campo de concentração de Dachau, onde recebeu o número 22 637. Apesar da dureza da vida no campo, não poupou esforços para ajudar os outros. Tal como estava, doente e fraco das pernas, ajudava os mais débeis, sobretudo os mais idosos. Esteve neste campo de concentração até ao Verão de 1941.

Em Julho de 1941, devido ao seu estremo cansaço que, agora, o impedia de caminhar sozinho, foi trasladado para o Hospital do Campo, o que equivale a uma condenação à morte. Fez chegar aos próprios clérigos uma mensagem secreta, que nos é recordada por um dos destinatários da mesma, Fr. Caetano Ambrozkiewicz: “Queridos irmãos, estou no corredor do bloco 7. estou totalmente magro e desidratado. Peso 35 quilos; só tenho ossos. Estou estendido sobre a minha cama como sobre a cruz, com Cristo. Ele deu-me a graça de sofrer como Ele. Rezo por vós e é por vós que eu ofereço estes sofrimentos a Deus” .

Morreu no dia 14 de Agosto de 1942 e foi incinerado no campo número 12.

No dia 26 de Março de 1999, o Papa João Paulo II inscreveu-o no Catálogo dos Mártires.

 

3. BEATO FLORIANO STEPNIAK

Fr. Floriano nasceu em Zdzary, perto de Nowe Miasto, no dia 3 de Janeiro de 1912. Os seus pais eram camponeses e chamavam-se Paulo e Ana Misztal.

Foi baptizado no dia 4 de Janeiro de 1912, com o nome de José. A sua mãe morreu quando ele era ainda muito pequeno. O seu pai casou-se novamente.

Terminada a escola primária em Zdzary, sentiu um grande desejo de estudar e ser Capuchinho. Graças aos Capuchinhos do Nowe Miasto terminou a escola secundária e, sucessivamente, em 1927, os estudos no Colégio de São Fiel dos Capuchinhos de Lomza.

Tinha pouca capacidade intelectual; supria esta carência com a diligência e o trabalho. Um companheiro de estudos, fr. Caetano Ambrokiewicz, descreveu-o do seguinte modo: “Uma alma santa. Solidário, franco, alegre, era, contudo, um pouco diferente de nós, rapazes inquietos e com a cabeça nas nuvens”.

Entrou na Ordem Franciscana Secular quando era estudante. Seguidamente, entrou na Ordem dos Capuchinhos, iniciando o noviciado no dia 14 de Agosto de 1931. Mudou o nome para Floriano. No noviciado o seu zelo, generosidade e devoção são evidentes. Faz a sua profissão simples no dia 15 de Agosto de 1932. Depois de terminar o curso de Filosofia, no dia 15 de Agosto de 1935, fez a profissão perpétua. Continuou os estudos teológicos em Lublín. Terminados estes, foi ordenado sacerdote no dia 24 de Junho de 1938. Depois, foi enviado para a Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lublín para estudar Sagrada Escritura.

Quando rebentou a Guerra, no dia 1 de Setembro de 1939, encontra-se em Lublín. Naqueles tempos cruciais não abandonou o Convento mas continuou a confessar, fielmente. Devido à perseguição, muitos sacerdotes estavam escondidos e não se encontrava ninguém para dar sepultura aos mortos. Fr. Floriano dedicou-se a isso com grande generosidade. Não fazia mais do que pôr em prática aquela frase da vida religiosa que tinha colocado, com a sua própria mão e letra, na faixa da sua ordenação sacerdotal: “Estejamos prontos não só a dar o Evangelho como a própria vida”. Uma frase que resumia a essência da sua vida.

Não pode continuar a trabalhar assim durante muito tempo em Lublín. No dia 25 de Janeiro de 1940, juntamente com os restantes irmãos, foi levado para o Campo de concentração de Sachsenhausen, perto de Berlim. Mesmo assim não perdeu o bom humor apesar da vida, no Campo de concentração, ser terrível. No dia 14 de Dezembro de 1940 foi transferido para o campo de Dachau, onde lhe deram o número 22 738.

O frio intenso terminou por afectar a sua saúde. Era um homem de estrutura forte e robusta, que necessitava de muito alimento. À debilidade, por causa da fome, segui-se a doença. No Verão de 1942, o seu estado de saúde agravou-se e foi levado ao Hospital do lugar chamado “corsia”. Naquele período, todos os que não podiam trabalhar e os doentes eram destinados para aqui; como inválidos eram transferidos para outro lugar que tivesse “melhores condições”. Para lá levaram Fr. Floriano. Depois de algumas semanas, malgrado as rações de fome e as péssimas condições do hospital, a sua saúde melhorou. Como convalescente foi levado para o bloco dos inválidos, o número 29. O seu companheiro de prisão no Campo, Fr. Caetano Ambrozkiewicz, recorda assim o comportamento do Fr. Floriano: “Alguns amigos sacerdotes, que tinham saído do bloco dos inválidos, diziam que Fr. Floriano tinha levado luz àquela barraca horrorosa. Lá, os homens doentes estavam condenados a morrer ali mesmo. Morriam às dezenas e muitos eram conduzidos em grupos para onde não se sabia. Só mais tarde se soube que eram conduzidos para a Câmara de gás, nos arredores de Munich. Quem não estivesse estado naquele lugar não podia fazer uma ideia do que significava, para aquela gente de pele e osso, uma palavra de ânimo e de consolação; o que podia representar o sorriso de um Capuchinho reduzido à mesma situação que eles”.

Quando chega a carta «S» (o seu apelido era Stepniak), Fr. Floriano foi levado para a secção dos inválidos, ainda que se sentisse bem e com forças para regressar ao trabalho. Morreu na câmara de gás no dia 12 de Agosto de 1942.

Supõe-se que o seu corpo tenha sido incinerado. As autoridades do Campo entregaram aos seus pais o hábito religioso dizendo-lhes, falsamente, que o seu filho José tinha morrido de angina de peito.

No dia 26 de Março de 199, O Papa João Paulo II inscreveu-o no Catálogo dos Mártires.

 

4. BEATO FIEL CHOJNACKI

Nasceu em Lodz, no dia da Festa de Todos o Santos, no ano de 1906. Era o mais novo de seis irmãos. No Baptismo, recebido três dias depois, os seus pais Waclaw e Leokadia Sprusinska, puseram-lhe o nome de Jerónimo (Hieronim).

Na família recebeu uma educação exemplar, frequentando a paróquia de Santa Cruz.. terminada a Escola Superior, inscreve-se na Academia Militar. Concluídos os estudos, não consegue encontrar trabalho. Graças à ajuda de uns parentes trabalha durante um ano em Szczuczyn Nowogrodsky, perto do Instituto da Providência Social (ZUS) e, sucessivamente, trabalha no Centro de Correios de Varsóvia. Era muito apreciado pela sua afabilidade. Ao mesmo tempo, juntamente com o seu tio, Pe. Estanislau Sprudiinski, colaborava na direcção da Acção Católica.

Abstémio, empenha-se na campanha contra o alcoolismo. Trabalhando na Acção Católica, sente a necessidade de uma profunda vida interior. Entrou na Ordem Terceira de São Francisco, na igreja dos Capuchinhos de Varsóvia. A nobreza do seu carácter conquistou a confiança das pessoas e deu-lhe o poder de reconciliar as pessoas desavindas. Naquela altura conquistou a amizade de Aniceto Koplin, famoso esmoleiro de Varsóvia. A proximidade constante com os Capuchinhos suscitou nele a vocação religiosa.

No dia 27 de Agosto de 1933, tomou o hábito capuchinho em Nowe Miasto, recebendo o nome de Fidelis. Não obstante os seus 27 anos e a sua experiência na vida, denotava uma grande simplicidade, mantendo com todos uma grande amabilidade. No noviciado teve a preocupação de conhecer os princípios da vida interior, e dedicou-se empenhadamente no seu próprio aperfeiçoamento espiritual.

Fez a sua profissão simples no dia 28 de Agosto de 1934 e parte para Zakroczym para estudar Filosofia. Aqui, com autorização dos Superiores, fundou um Círculo de Colaboradores Intelectuais para os seminaristas. Prosseguiu com o seu trabalho contra o alcoolismo e fundou um Círculo de Abstémios; além disso, cooperou com a Terceira Ordem Franciscana.

No princípio de 1937, superou com óptima classificação o exame final de Filosofia. No dia 28 de Agosto de 1937, fez a sua profissão perpétua. Depois, estudou Teologia no Convento de Lublín. No início da Segunda Guerra Mundial frequentava o terceiro ano de Teologia. Numa carta, datada de 18 de Dezembro de 1939, para o seu tio, Pe. Estanislau, manifestou alguma desorientação e batimento pelo facto de não poder viver e estudar normalmente.

Um mês depois do Natal de 1939, no dia 25 de janeiro de 1940, foi preso e internado na Prisão do castelo de Lublín. Suportou com serenidade e com certo bom humor as duras condições da prisão, a falta de movimentos, de espaço e de ar. Passados cinco meses, a 18 de Junho de 1940, foi transferido, juntamente com todos os do grupo, para o campo de concentração de Sachsenhausen. Trata-se de um Bloco modelo, de um verdadeiro selo prussiano, especialmente na disciplina e na ordem, cuja finalidade era o aniquilamento do indivíduo. Aqui, o Fr. Fidelis perdeu o seu optimismo. O tratamento inumano dos prisioneiros chocavam-no e induzia-o ao pessimismo.

No dia 14 de dezembro de 1940, num comboio de sacerdotes e religiosos, foi transferido para o Campo de concentração de Dachau, perto de Munique, na Baviera, onde o seu estado de espírito piorou. Imprimiram-lhe no braço o seu número: 22 473. As notícias das contínuas vitórias militares, vindas da frente de batalha alemã, não permitiam aos prisioneiros pensar em sair dali um dia. A fome, o trabalho e as perseguições eram cada vez maiores. Ia perdendo a esperança de sair, rapidamente, do Campo de concentração, e as as suas energias iam diminuindo. Devido ao trabalho superior às suas forças, à fome e à escassez de roupa, o Fr. Fidelis contraiu uma doença pulmonar.

Uma manhã de Inverno de 1942, enquanto transportava juntamente com outro companheiro uma grande caldeira de café para a cozinha, resvalou, e o café provocou-lhe uma grande queimadura. A dura situação a que o sujeitava o chefe do Bloco ainda o debilitou mais. Fr. Caetano Ambrozkiewicz, seu companheiro no campo de concentração, narra assim o adeus do Fr. Fidelis: “Nunca esquecerei aquela tarde de domingo do Verão de 1942, quando o Fr. Fidelis saiu da nossa barraca 28 para ser transferido para o Bloco dos inválidos. Estava estranhamente absorto, nos seus olhos havia um reflexo de serenidade, mas não era uma serenidade deste mundo. Despediu-se de todos com as palavras de São Francisco – Seja louvado Jesus Cristo, ver-nos-emos no Céu”.

Pouco tempo depois, no dia 9 de Julho de 1942, é internado no Hospital do Campo. O seu corpo foi levado ao crematório.

No dia 26 de março de 199, o Papa João Paulo II inscreveu-o no Catálogo dos Mártires.

 

5. BEATO SINFORIANO DUCKI

Nasceu no dia 10 de Maio de 1888 em Varsóvia. Os seus pais chamavam-se Julião Ducki e Mariana Lenardt. No baptismo, celebrado no dia 27 de Maio, recebeu o nome Félix (Feliks). Frequentou a escola elementar na sua cidade natal.

Em 1918, quando os Capuchinhos regressaram ao seu Convento, donde foram expulsos durante a perseguição Czarista de 1864, Félix apresentou-se como um aspirante de velha data à vida da Ordem Capuchinha, juntando-se a eles primeiro como aspirante. No di 9 de Maio de 1920, depois de dois anos de prova, entrou no noviciado em Nowe Miasto, com o nome de Sinforiano, que terminou no dia 20 de Maio de 1921 com a sua profissão simples. Terminado o ano do noviciado, dedicou-se ao serviço dos irmãos nos Conventos de Varsóvia, de 27 de maio de 1924 até à sua profissão solene que ocorreu no dia 22 de maio de 1925.

Em Varsóvia, exerceu o ofício de irmão esmoleiro, empenhando-se sobretudo em recolher donativos para a construção do Seminário Menor de São Fidelis, e depois, foi nomeado irmão Sócio do Ministro Provincial.

De carácter sociável, simples, cortês e amistoso, conquistava com facilidade a amizade das pessoas e conseguia novos amigos para a Ordem. Não obstante a sua vida muito activa entre as pessoas, não perdeu o espírito de oração devota e fervorosa. Era conhecido e estimado pelos habitantes da capital.

Ao começar a Segunda Guerra Mundial, preocupou-se com que não faltasse o necessário, até, que, no dia 27 de Junho de 1941, a Gestapo prendeu todos os Capuchinhos do Convento da capital. No início, Fr. Sinforiano foi internado na prisão de Pawiak, e, depois, no dia 3 de Setembro, no Campo de concentração de Auschwitz. De compleição física robusta, sente mais que os outros a fome e as perseguições, tudo suportando em silêncio. A pouca quantidade de comida dada pelos alemães, realmente, não satisfazia nem uma quarta parte das necessidades do organismo de um homem normal. Depois de sete meses foi condenado a morrer lentamente.

Uma noite, enquanto os alemães tinham começado a matar brutalmente os prisioneiros, partindo-lhes a cabeça à paulada, Fr. Sinforiano afrontou-os fazendo sobre eles o sinal da Cruz. A testemunha ocular – seu companheiro de prisão, Czeslaw Ostankowich, declara que foi golpeado na cabeça com um pau, caindo ao chão. Pouco depois, com a pouca força que lhe restava, volta a fazer o sinal da cruz. Foi nesse preciso momento que o assassinaram. Era o dia 11 de Abril de 1942.

A morte de Fr. Sinforiano pôs fim à tremenda execução que os alemães estavam a perpetrar, e uma quinzena de prisioneiros salvou-se graças à sua intervenção. Estes carregaram com grande veneração os restos mortais de Fr. Sinforiano, juntamente com outros, no carro que os levaria até ao forno crematório.

Com o seu martírio, Sinforiano demonstrou grande heroísmo, confessou a sua fé na Santíssima Trindade e salvou a vida a muitos companheiros.

No dia 26 de Março de 199, o Papa João Paulo II inscreveu-o no Catálogo dos Mártires.

 

6. BEATA MARIA TERESA KOWALSKA E COMPANHEIRAS

Pertencia ao Convento das Irmãs Clarissas Capuchinhas de Przasnysz. Ainda que ela tenha passado a sua vida em silêncio, a recordação da sua morte corajosa, o que não aconteceu com nenhuma outra monja naquele mosteiro, ainda está muito viva.

Mieczyslawa nasceu em Varsóvia em 1902. desconhece-se o nome e a profissão dos seus pais. Recebeu a sua primeira Comunhão no dia 21 de Junho de 1915, e o sacramento da Confirmação no dia 21 de Maio de 1920. O seu pai, simpatizante socialista, foi para a União Soviética na década de 1920 com grande parte da família.

Por uma nota escrita no seu livro religioso O Livro da Vida, sabemos que pertenceu a várias associações religiosas e fazia parte de várias confrarias. Tudo isto nos leva a supor que levava uma vida de piedade exemplar antes de entrar na Ordem das Capuchinhas.

Aos 21 anos, Mieczyslawa recebe a graça da vocação religiosa. Ingressou no Mosteiro das Clarissas Capuchinhas de Przasnysz no dia 23 de Janeiro de 1923. Tomou o hábito no dia 12 de Agosto de 1923 e recebeu o nome de Maria Teresa do Menino Jesus. Emitiu a sua primeira profissão no dia 15 de Agosto de 1924 e a profissão perpétua no dia 26 de Julho de 1928.

Era uma pessoa delicada e doente, mas disponível para todos e para tudo. No Mosteiro servia a Deus com devoção e piedade. Com o seu modo de ser conquistava o carinho de todos, diz uma das irmãs. Gozava de grande respeito e consideração por parte das superioras e das outras irmãs. Exerceu vários ofícios: porteira, sacristã, bibliotecária; Mestra de noviças e Conselheira. Maria Teresa vive a sua vida religiosa em silêncio, totalmente dedicada a Deus, com grande entusiasmo. Um dia este serviço a Deus foi posto a dura prova.

No dia 2 de Abril de 1941, os alemães irromperam no Mosteiro e prenderam todas as irmãs, levando-as para o Campo de concentração de Dzialdowo. Entre elas estava a Irmã Maria Teresa, doente com tuberculose. As 36 irmãs ficaram recluídas no mesmo local e suportaram umas condições de vida que ofendiam a dignidade humana: ambiente sujo, fome terrível, terror contínuo. As irmãs observavam com hurror a tortura a que eram submetidas outras pessoas ao mesmo tempo, entre as quais se encontravam o Bispo de Plock, A. Nowowiejski e L. Wetmanski, e muitos outros sacerdotes. Depois de passar um mês naquelas condições de vida, a saúde das irmãs debilitou-se. A Irmã Maria Teresa foi uma das que mais se ressentiu, que pelo menos se mantinha de pé.

Sobreveio-lhe uma hemorragia pulmonar. Faltava não só o serviço médico mas também a água para matar a sede e para a higiene. Suportou o sofrimento com coragem e, até onde lhe foi possível, rezou junto com as restantes irmãs. Outras vezes rezava ela sozinha. Durante a prova, e consciente da proximidade da morte, dizia: “Eu, daqui, não sairei; entrego a minha vida para que as irmãs possam regressar ao Mosteiro”. Isso mesmo dizia à abadessa: “Madre, ainda falta muito?”. Morreu na noite de 25 de Julho de 1941. Desconhece-se o paradeiro dos seus restos mortais.

A sua morte fez reflectir as outras irmãs. Estavam convencidas de que a Irmã Maria Teresa tinha terminado a sua vida de um modo santo e que viveria na glória dos santos, pelo que lhe dedicavam particular devoção. Tal como predisse, duas semanas depois da sua morte, no dia 7 de Agosto de 1941, as irmãs foram libertadas do Campo de Dzialdowo. Aquela libertação foi interpretada como uma graça recebida de Deus por intercessão da Irmã Maria Teresa. Tinha feito alguma coisa particular, porque normalmente os alemães não deixavam sair ninguém do Campo de concentração. Não puderam regressar ao Mosteiro de Przasnysz, mas estavam em liberdade.

Depois do regresso a este Mosteiro, em 1945, as irmãs sempre recordaram a sua vida santa e a sua morte como mártir. As irmãs fazem menção disto no Livro dos Mortos do Mosteiro de Przasnysz. O relato da vida e da morte da Irmã Maria Teresa transmite-se às novas candidatas e também aos parentes e visitantes que vinham ao Mosteiro. Na crónica do Mosteiro, quando se relata a prisão e a permanência das Irmãs em Dzialdowo, dá-se grande destaque à sorte da Irmã Maria Teresa. Devido às condições de vida dos mosteiros contemplativos, sob o regime comunista, não havia nada escrito sobre a Irmã Maria Teresa. Hoje, por causa do processo de beatificação, foi possível difundir a fama do seu martírio.

À Beata Maria Teresa, monja Clarissa Capuchinha, tratada de um modo tão terrível no Campo de concentração de Dzialdowo, podem ser atribuídas as palavras da Imitação de Cristo. Plenamente resignada à vontade de Deus, o seu ardente desejo era unir-se a Cristo: “Se sou provada e atingida com tanta adversidade, do sofrimento não terei medo, porque Tu estás comigo. A tua graça é a minha força, me aconselha e me conforta. És mais forte que todos os meus inimigos”. Deste modo, a Irmã Maria Teresa viu e testemunhou a Cristo com a sua vida santa e sobretudo com a sua morte exemplar.

No dia 26 de Março de 1999, o Papa João Paulo II inscreveu-a no Catálogo dos Mártires.

 

 

Estou cravado na cruz com Cristo

De um Sermão de Kajetan Ambrozkiewicz, presbítero, companheiro dos mártires.

(Lublin, 23.XI.1947: A. Bednarek – J. F. Duchniewski, Capuchinos en Polonia. La presencia en la historia y en la consciencia social, Lublin 1990, pp. 76-84)

Um capuchinho do nosso grupo, que não sobreviveu em Dachau, é o padre Enrique Krzyszttofik. Muitos dos que estão aqui presentes lembrarão, sem dúvida, a sua figura, débil e, ao mesmo tempo, tão simpática, cheia de fervor e de caridade.

Antes da guerra, ele era quem subia com mais frequência a este púlpito e as pessoas ainda hoje falam dos seus sermões fervorosos. Imagino-te no púlpito, padre Enrique. Quando pregavas a palavra de Deus, eras todo fervor e coração. E imagino-te na cátedra, na sala de aula do nosso seminário conventual no primeiro dia de aula, um dia no outono de 1939. As palavras que então proferiste ainda ressoam nos meus ouvidos. Disseste entre outras coisas esta frase: «É melhor uma curta labareda do que uma longa fumaça». Não, padre Enrique, na vida tu não fizeste fumo. Não fizeste fumo, não tiveste medo em 25 de janeiro de 1940, quando a Gestapo cercou o convento e prendeu todos os padres e coristas. Não fizeste fumo quando nos levaram para a prisão e, enquanto esperavam um lugar para o nosso grupo de vinte e três pessoas, nos fizeram ficar de pé numa cela escura, habitualmente destinada aos condenados à morte. Então disseste-nos: «Irmãos, enquanto tivermos a mente lúcida, façamos este bom propósito: tudo o que vier a acontecer connosco no futuro, aconteça o que acontecer conosco, que cada um de nós o ofereça a Deus».

E o que devo dizer sobre a tua vida no campo de concentração, padre diretor? O que devo dizer sobre os teus vinte e cinco meses passados em Sachsenhausen e Dachau? Oh não, padre, nem sequer ali fizeste fumo. Quando te trouxeram para a Polônia, a ti o primeiro, graças ao dinheiro que levavas contigo compraste na loja de Sachsenhausen dois pães – um imenso tesouro – partiste-os em pedaços tantos quantos eram os que estavámos lá e disseste-nos: «Coragem, irmãos, saboreai os dons do Senhor. Enquanto houver...!» Este gesto nobre, o teu, é capaz de o apreciar quem esteve num campo de concentração e sabe quanta abnegação, e até mesmo heroísmo, é necessária para distribuir dois pães quando se está com fome e um só os devoraria.

A tua maior desgraça, mas também a tua maior grandeza, foi a de não saber «fazer fumo» nem mesmo num campo de concentração, apesar do facto de que alí tu te queimavas, ardias. E logo em seguida a tua chama se apagou.

Quando te encontravas tão debilitado que não podias voltar ao trabalho sozinho; quando os teus irmãos te tiveram de levar desvanecido para o hospital, quando o bom senso teria aconselhado a não desbaratar a energia que resta de um corpo debilitado – porque naquele tempo levava-se ao hospital somente quem estava desvanecido ou moribundo – tu sentiste o gritos furiosos do enfermeiro, que era um acérrimo inimigo dos sacerdotes, e, com um último esforço, puseste-te de pé sozinho. Estavas nas últimas. E ainda nos disseste: «Quando eu morrer rezarei por vós, para que possais sair do campo e nunca mais sentir fome».

Alguns dias depois estavas tão exausto que nem sequer as vozes do desumano enfermeiro conseguiram fazer que te pusésses de pé. Hospitalizaram-te no último estado de esgotamento físico. Não sobreviveste alí dentro por muito tempo...

Não te vimos no leito do hospital. Mas pouco antes de expirar, escreveste-nos, a nós o teu querido grupo de clérigos, uma carta de despedida que é como que o teu testamento. Hoje já o sei de cor.

Porém, vejo as paredes esverdeadas do vigésimo oitavo bloco, o segundo camarote, perto dalí ouviamos a chamada à tarde. Escrevias assim, padre: «Queridos irmãos! Eu estou na galeria no bloco sete. Emagreci horrivelmente porque o inchaço da fome diminuiu. Peso trinta e cinco quilos. Tudo me faz sentir mal. Estou deitado no leito como sobre a cruz, unido a Cristo. E agrada-me estar assim e sofrer com Ele. Saúdo-vos a todos, um por um. Voltamos a ver-nos no céu».

Nós, que já somos veteranos do campo de extermínio, sentiamo-nos incapazes de chorar, tendo as fontes das lágrimas humanas secas pela fome e pelo embrutecimento. Apesar disso, levámos as mãos aos olhos e enxugámos as lágrimas que fluíam ao ler a última carta do nosso padre diretor.

Ardeste, padre, até ao fim. E antes de te apagares, acendeste-te numa última, excelente e clara labareda. Sempre sucede assim na história da Igreja: o sangue mártir dos nossos irmãos de Dachau, Auschwitz, dos demais campos de concentração e de todas as outras prisões é uma semente, semente de novos capuchinhos.

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