No passado dia 13 de maio, o Papa Francisco recebeu em audiência o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Becciiu, na qual autorizou o Dicastério romano a promulgar o decreto com o qual se reconhece as virtudes heroicas do Servo de Deus Salvador Pinzetta (nome de batismo: Hermínio Pinzetta), religioso da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos; nascido em Casca, no Rio Grande do Sul (Brasil) em 27 de julho de 1911 e falecido em Flores da Cunha (RS) em 31 de maio de 1972.

 

Biografia

 

Início

A imigração de italianos para o Brasil intensificou-se a partir de 1875. A maioria era composta por agricultores católicos, que trouxeram de Itália sólidas convicções religiosas e éticas. A família Pinzetta foi uma dessas.

Luigi, filho dos agricultores Giacomo Pinzetta e Beatrice Mantovani, nasceu em 31 de março de 1847, em Mântua, na Itália. Casou, mas pouco depois ficou viúvo. Passado algum tempo, firmou compromisso com Adele Schiavetti e vieram juntos para o Brasil em janeiro de 1878. Adele, faleceu no dia 5 de fevereiro do mesmo ano, deixando Luigi viúvo pela segunda vez. No dia 17 de setembro de 1878, com a bênção do padre Giovanni Menegotto, Luigi casou com Teodora Romani, filha de Pietro Romani e Isabel Maccarini. Conterrânea de seu esposo, Teodora migrou para as terras tupiniquins também em 1878.

 

Família

Luigi e Teodora, depois de morarem noutros locais, estabeleceram residência na Linha 16, em Casca (RS). Não perderam tempo e trataram logo de construir uma capela dedicada a Santo António. O casal teve diversos filhos, dentre eles: Anareo, Fiorentino (pai do frei Salvador), Marcelo, António, Beatrice e Prosperina. Luigi faleceu no dia 28 de julho de 1923, com 76 anos.

Atualmente, no município gaúcho, existe a Capela de Santo António do Trinta, onde em 2002 foi inaugurado um museu e espaço cultural dedicado a Luigi Pinzetta e sua família.

Fiorentino, filho de Luigi Pinzetta e Teodora Romani, nasceu em Bento Gonçalves (RS), no dia 2 de outubro de 1888. Já sua esposa Isabela era natural de Guaporé (RS), filha de Quintino e Gentilla Romani. Fiorentino e Isabela uniram-se pelo sacramento do matrimónio por volta de 1909. Em 20 de julho de 1910 nasceu a primeira filha, Levínea. Numa quinta-feira, em 27 de julho de 1911 (no registo 29), imerso em ambiente simples, alegre e religioso, nasceu Hermínio, o segundo filho do humilde casal de agricultores, que foi abençoado com 13 rebentos no total. Os dois primeiros seguiram a vida religiosa: Levínea entrou na Congregação das Irmãs Carlistas Scalabrinianas e atendia pelo nome de irmã Flora; Hermínio ingressou com 32 anos na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul, assumindo o nome de frei Salvador de Casca.

 

Batismo

Fiéis aos costumes e à tradição cristã, os pais de Hermínio queriam batizar logo o menino. Contudo, a distância (13 Km da Igreja de Casca), o tempo frio e as condições precárias das estradas, adiaram o batizado por quase três meses. Assim, ele ocorreu apenas no dia 21 de outubro de 1911, pelo padre João Zanella. Foram padrinhos os tios Anareo Pinzetta e Cecília Romani.

 

Infância

Não lhe faltou afeto da família, a companhia dos irmãos, parentes e amigos. Acompanhava e auxiliava com pequenos serviços os pais na roça, onde teve a oportunidade de viver no meio de plantações e com zelo no trato com os animais. Foi no colo da mãe que aprendeu a fazer o sinal da cruz, a balbuciar as primeiras orações, a invocar o nome de Deus, de Nossa Senhora, do Anjo da Guarda e dos santos. Através do incentivo e exemplo dos pais, do nono Luigi e demais familiares, compreendeu que existe um Deus bom a velar por nós. Rezava ao levantar e deitar; antes e depois das refeições, no começo dos trabalhos. O terço em família era sagrado. Desde pequeno, Hermínio revelou personalidade dócil aos ensinamentos dos pais e da Igreja. Apreciava comungar a sua vigorosa religiosidade e fé com todos da Igreja. Apesar da introversão e do caráter nada espalhafatoso que lhe era peculiar, participava ativamente de jogos e brincadeiras com as crianças e jovens da comunidade.

A Gripe Espanhola alastrou-se pelo Estado, semeando pânico e mortes em 1918. A doença atingiu a família dos tios e padrinhos de Hermínio, Anareo e Cecília. A primeira vítima foi a filha do casal, de poucos meses. Depois, faleceu a própria Cecília e, por fim, Anareo. O casal deixou cinco filhos, todos com menos de 11 anos. As crianças, órfãs de pai e mãe, foram acolhidas e criadas pelos avós paternos, Luigi e Teodora. Hermínio e os irmãos Levínia, Rinaldo e Pedro, além dos pais, passaram a morar também com os avós Luigi e Teodora durante 13 meses, por medo da epidemia. Luigi contava então com 19 pessoas na família, entre crianças e adultos. As lições de catecismo e o ensinamento das orações ficou sob responsabilidade de Luigi. E, Teodora, era uma mãe para todos.

 

Educação

Frequentar a escola sempre foi um desejo de Hermínio. Porém, apenas teve oportunidade de receber estudos rudimentares, onde o ensino primário não foi concluído. A principal escola foi a vida, a família, a comunidade, a Igreja e o trabalho. Gostava de ler, sobretudo a História Sagrada e livros religiosos. Autodidata, Hermínio desenvolveu um conhecimento intuitivo, experimental e prático que lhe forneceu grande capacidade de discernimento e bom senso. O Padre Alexandre Studzinski, seu pároco e confessor, afirma: “Ele foi alguém que manifestava um profundo conhecimento espiritual”.

A catequese de Levínea, Hermínio e Rinaldo começou no colo da mãe, no testemunho do pai. O nono Luigi, domingos à tarde na capela, preparou-os para a primeira Comunhão. O bom velhinho era estimado por todos, pois as suas palavras eram confirmadas pelo testemunho da sua vida cheia de fé. “Hermínio era dos melhores da catequese. Bom companheiro, brincava com todos, mas não dizia bobagens”, afirma o colega Fortunato Provesi. Hermínio aplicou-se no catecismo. Rezou muito e esperou ansioso o dia de receber pela primeira vez a Comunhão. Tinha quase 12 anos e uma particular abertura de coração ao mistério da presença eucarística. Na véspera, o Padre Aneto Bogni foi à capela para ouvir as crianças em confissão. Naquela noite, Hermínio, como afirmam os familiares, quase não dormiu. Ansioso, por diversas vezes se levantou e rezou ajoelhado. O ambiente familiar carinhoso e a fé favoreceram as disposições já fortes dos três irmãos.

 

Eucaristia

Hermínio recebeu Cristo Eucarístico na capela de Santo António do Trinta, em março de 1923. Em jejum, como era costume, os comungantes dirigiram-se com felicidade e entusiasmo à capela. O Padre Aneto Bogni e a comunidade os acolheram com grande alegria. O ambiente era festivo, de muito fervor e devoção. Aproximaram-se à mesa da comunhão para receber o Corpo e Sangue de Cristo como lhes havia explicado o catequista Luigi. Ao ressoar os cânticos eucarísticos, “a hora de concentrar-se para acolher o Senhor e conversar com Ele”, chegou a Hermínio. Aquele dia foi marcante para todos.

Daquele momento em diante, Hermínio continuou a participar da Ceia do Senhor e do sacramento da Reconciliação, sempre firme e forte, sem jamais esmorecer. Rinaldo testemunha que ao aproximar-se da mesa da Comunhão o seu irmão chegava a tremer. Imaginou que fosse de acanhamento, vergonha do padre. Mas era por um sentimento de reverência de quem se sente indigno de receber em Comunhão aquele que é o Criador do universo. Mais tarde, Hermínio diria: “Deus é tudo, nós somos nada.”.

Os sinos da capela “Tre Campane” tocaram no dia 28 de julho de 1923, por ocasião da morte de Luigi Pinzetta, com 76 anos. O nono foi uma figura marcante e primordial na vida de Hermínio, devido ao testemunho da sua fé, a alegria de viver e a coragem perante as dificuldades e obstáculos. Com a morte de Luigi, Fiorentino, pai de Hermínio, assumiu a missão de catequista. Continuou a preparação para o sacramento do Crisma dos próprios filhos, Levínia, Hermínio e Rinaldo e de outros catequizandos. O arcebispo de Porto Alegre (RS), Dom João Becker, administrou o Crisma na Capela de Santo António do Trinta no dia 13 de outubro de 1924 e Rinaldo foi um dos crismados. Já no dia 14 de outubro de 1924, na Igreja de São Luiz Gonzaga de Casca, o arcebispo crismou Hermínio, na época com 13 anos, sendo padrinho Jacob Corso.

 

Adolescência

Hermínio foi assumindo aos poucos com os pais e irmãos o trabalho da roça, da criação e dos afazeres domésticos. Cavalgava pelas estradas a caminho do moinho ou às casas comerciais da região em busca do necessário à família. Era prestativo, respeitoso e amigo, ao nutrir bom relacionamento com a família e comunidade. Em companhia dos pais e irmãos participava de “filós noturnos”. “Era muito estimado e ouvido pelos irmãos”, diz o Padre Alexandre Studzinski. As suas ordens, na condição de mais velho entre os rapazes, eram acolhidas de boa vontade pelos demais, porque elas tinham por base justiça e sensatez. Quando algum irmão ou irmã não cumpria os seus deveres, ele repreendia-os com energia, galgado, ao mesmo tempo, em piedade, serenidade, bondade e amabilidade.

O Padre Alexandre afirma que Hermínio “era um jovem como os demais, bom companheiro e muito feliz, com sorriso permanente estampado no rosto e uma refinada sensibilidade no trato com as pessoas, principalmente com os doentes e necessitados de ajuda; comedido nas palavras, sóbrio nos divertimentos, moderado no comer e beber; vivia mais ligado à penitência do que à diversão, mais voltado para a igreja do que à bodega ou salão de festas”.

Cristão autêntico, Hermínio julgava-se pecador e recorria com frequência ao sacramento da Confissão. O Padre Alexandre, que foi seu confessor nos últimos sete anos na família, relata que “ele costumava confessar-se quase todos os domingos e festas, nas primeiras sextas-feiras do mês ou na visita do padre à comunidade”. A sua vida foi muito discreta e pessoas atentas logo perceberam nele uma presença “diferente”, com sabor de plenitude. Iracy Savaris Castagnaro diz: “Na minha juventude conheci Hermínio e a sua família. Uma família muito religiosa e cumpridora dos seus deveres. Mas quem se destacava em plenitude, humildade e paciência era o Hermínio. Ele tinha “um jeito diferente” que eu não sei explicar, mas no meu parecer ele era como “um vaso cheio”, mas cheio mesmo, dos dons do Espírito Santo. Posso afirmar isso sem medo de errar”. Ele descobriu o tesouro de que fala Jesus e estava disposto a pagar qualquer preço para tê-lo. Esse foi o segredo, o tesouro, a fonte de água viva que a amizade de Cristo lhe ofereceu. E Hermínio soube aproveitar muito bem.

Sem se queixar da fadiga ou do calor, Hermínio conheceu cedo o árduo trabalho diário do campo. Gostava de fazer o serviço bem feito e caprichado. Apreciava as plantações, a natureza e os animais. Não raras vezes, durante o trabalho, demorava-se em silenciosas orações ou em conversas produtivas e úteis, frequentemente sobre assuntos religiosos. Ninguém jamais viu Hermínio alterado, mal-humorado ou envolvido em conversas depreciativas. Estava sempre em algum trabalho, leitura ou oração. A sua mãe, Isabela, insistia: “Filho, descanse um pouquinho! Um dia vou amarrar você na perna da mesa para ver se para um pouco”. Essa disposição foi posta em prática também na sua vida religiosa capuchinha.

A oração era o forte de Hermínio, a sua paixão, a sua alegria e a sua razão de ser. Rezar era para ele viver uma relação pessoal de amizade com Deus, estar na sua presença, escolhê-lo como Senhor absoluto da sua vida e do seu destino. A oração não era afetada ou artificial. Ela acompanhava-o por toda a parte. Amava a Eucaristia. A missa era uma festa para a família Pinzetta. Quando chegava o padre na Capela (no início só duas vezes ao ano), a alegria era geral. Todos vestiam a melhor roupa, porque era um evento, uma festa. Na véspera, preparavam-se para a Comunhão. Rinaldo, irmão de Hermínio, lembra que “os serviços terminavam mais cedo. Hermínio ia-se preparar assobiando ou cantarolando. Depois recolhia-se no quarto para ler algum livro piedoso e rezar. Nós gostávamos de ir à missa e chegávamos a brigar pela nossa vez. A Igreja de Casca ficava a 12/13 Km e não havia cavalos para todos”.

As devoções populares e a leitura faziam parte da vida do jovem Hermínio, sendo que a mais forte e a que cresceu em vigor e fé até o fim da sua vida foi a Eucaristia. Relacionada com a Eucaristia está a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Participava nas primeiras sextas-feiras do mês, enfrentando a chuva e o frio. Era fidelíssimo devoto de Nossa Senhora, a quem amava com toda sinceridade filial. Recitava o terço. Gostava de cantar os seus louvores. Falava com gosto a seu respeito e dizia: “O que nós pedimos a Nossa Senhora ela concede, porque ela é como uma mãe que não abandona o filho. Este vai uma vez, vai outra e ela acaba dando sempre. Temos de ter muita fé em Nossa Senhora”. Nutria também uma devoção especial a São Luiz Gonzaga, padroeiro da paróquia e da juventude; a Santa Terezinha do Menino Jesus; a Santo António, padroeiro da Capela do Trinta; às almas do purgatório; às grandes festas do ano e, mais tarde, a São Francisco de Assis. O pároco Padre Alexandre afirma sobre a família Pinzetta que “na casa havia terços por todo o lado, eles rezavam de facto”.

Mesmo com pouco estudo e dificuldades, ele apreciava a leitura. Lia livros religiosos, a História Sagrada e outros devocionais. Além de biografias de santos e santas lia: Massime Eterne, o Maná, Adoremos, Sursum Corda, Anjo da Infância (orações para meninos). A Imitação de Cristo foi uma obra que leu durante a vida toda, quando se espelhava e alimentava o desejo de assemelhar-se a Cristo, imitá-lo e segui-lo. Essas leituras iam despertando e fomentando o gosto pela oração, pela escuta da Palavra de Deus e pela prática das virtudes. Rinaldo, falando de si e de Hermínio, diz: “Desde pequenos o pai explicava-nos a História Sagrada e começamos a gostar do Evangelho”. O Padre Alexandre referindo-se a Hermínio relata: “Lia e relia os santos Evangelhos e assimilava sua doutrina. Ele manifestava um profundo conhecimento espiritual e sabia discernir o que Cristo desejava de nós. Sendo um jovem pouco culto, julgo que Deus lhe concedera alguma iluminação sobrenatural”. Hermínio lia bastante e escutava com atenção o sermão do padre. Ao voltar para casa explicava o sermão aos que não tinham ido à igreja. Assim, exercitava a sua vida espiritual e o amadurecimento vocacional.

 

Vocação

Os indícios vocacionais de Hermínio surgiram quando ele tinha cerca de 20 anos. Teve a ideia de ser padre, mas não a manifestou por entender que já passara da idade e, por isso, não seria aceite. Na festa de Santo António, na Matriz de Evangelista, em julho de 1943, o pároco Padre Alexandre Studzinski convidou o capuchinho frei Alberto Stawinski para fazer a pregação. Nas confissões, frei Alberto atendeu um jovem que o surpreendeu pela sua atitude devota, diferente dos demais. O frei então, curioso, questionou o Padre Alexandre quem era aquele jovem, e de imediato respondeu: “Conheço-o bem. Pertence a uma das melhores famílias da paróquia. É fervoroso e irrepreensível. Tem todas as condições para a vida religiosa. Acho que poderá tornar-se excelente e santo religioso”.

Hermínio, então com 32 anos, possuía uma personalidade já madura e grande familiaridade com os assuntos divinos. O Padre Alexandre conhecia-o bem. Acompanhara-o desde que assumira a paróquia em 1937. A transparência da sua vida, a solidez da sua fé, a profundidade da sua oração o impressionavam. Um dia o zeloso pastor fez uma proposta: “Hermínio, penso que este mundo não é para você. Deus o chama para coisas mais altas. Abandone este mundo e entre no Convento dos Capuchinhos. Lá você encontrará o que procura”. E lembrou-lhe: “Quem dá sua vida por Cristo encontrará a vida eterna”. Porém, advertiu-o: “Estas coisas não se fazem de uma hora para outra. Tudo requer tempo. Portanto, pense e reze. Eu também vou rezar por você”.

Passadas algumas semanas, Hermínio voltou a falar com o padre. Alegre, esfregando as mãos de contente, afirmou convicto: “Padre, eu já rezei muito, pensei muito e resolvi entrar mesmo no Convento dos Capuchinhos”. O Padre Alexandre não pôde esconder o contentamento e, logo em seguida, foi conversar com os frades de Marau (RS) a respeito do jovem. Ficaria ali algum tempo a título de experiência. Caso não gostasse, retornaria a sua casa. O jovem preparou as malas. Uma semana depois, no início de 1944, despediu-se dos familiares e partiu para o Convento de São Boaventura de Marau, acompanhado do pai Fiorentino. “Vai com Deus, meu filho! Que Nossa Senhora o acompanhe”, desejou a mãe Isabela. A separação custou-lhe muito, pois estava ligado a cada familiar por profundos sentimentos. Os olhos de todos acompanharam os dois até desaparecerem na curva da estrada.

Foi-se entrosando com os frades, no seu modo de viver, de rezar e trabalhar. Trabalhava na horta, parreiral, cantina, cozinha e portaria. Agradou-lhe a experiência e firmou o propósito de levá-la adiante, pois via que ali era o seu lugar. Nas anotações escreveu: “Convento dos Padres Capuchinhos de Marau. A primeira vez que entrei para abraçar a vida religiosa, o meu nome era Hermínio Pinzetta. Foi em 2 de fevereiro de 1944, dia de Nossa Senhora, que entrei para começar a vida de Capuchinho. Fiquei em Marau um mês. Trabalhava com os irmãos capuchinhos, começando a vida religiosa. Depois fui para Flores da Cunha”. O frei Venâncio Pivatto, guardião da comunidade, manteve até ao fim da vida a recordação daquele rapaz, comentando com orgulho as suas atitudes. A breve permanência de Hermínio em Marau foi suficiente para despertar nos frades uma eloquente admiração. Frei Marcos Fachinelli guarda a lembrança do seu jeito humilde, a sua disponibilidade e piedade. Outros recordam a sua figura discreta e recolhida, delicado no trato e prestativo no trabalho, alguém que rezava a todo o instante e passava longas horas na capela com livro ou terço na mão.

Certo dia, o Padre Alexandre estava em casa e avistou de longe Hermínio e imaginou o pior. Ainda distante, perguntou: “Então Herminio, não gostou das panelas dos frades?”. Todo sorridente, respondeu em seu dialeto peculiar: “Nó, nó, Padre, lé proprio el me posto. Lá se prega, lá se vá a Messa tutti i giorni, se fá la Comunion. Lá tuto el giorno serve al Signore.” (Não, não, Padre. É lá mesmo o meu lugar. Lá se reza, lá se vai à Missa e se comunga todos os dias. Lá se serve o dia inteiro a Deus). E ainda explicou: “Vim para a família a fim de juntar alguns trapos e em seguida voltarei para o Convento. São orientações que recebi e preciso obedecer”. Permaneceu umas três semanas em casa e, então, partiu para o Convento do Sagrado Coração de Jesus de Flores da Cunha (RS).

No Convento de Flores da Cunha, após a experiência com os frades de Marau, participou do ano de Noviciado. Ali exerceu a sua missão e apostolado até ao fim da vida, exceto por dois anos passados em Garibaldi (RS). A chegada ao Convento foi no dia 22 de março de 1944 e encaminhado pelo frei Venâncio Pivatto. O mestre de noviços, frei Fulgêncio Caron, já tinha a carta de recomendação do provincial, frei José Cherubini:

Caxias do Sul, 28 de fevereiro de 1944.

Muito Reverendo padre,

Pax et Bonum

Aproveito a ocasião da ida do R. P. Afonso para escrever duas linhas à pressa. O Padre Venâncio vai-lhe mandar um Postulante com os seus 32 anos de idade, mas parece que é ótimo jovem. De maneira que, quando ele chegar, pode recebê-lo tranquilamente e fazer dele um bom fradinho (...).

Sem mais, Vale!

Pe. José OFMCap-Provincial.

Com a recomendação, Hermínio foi bem recebido pelos frades, porém com certa estranheza, devido à sua idade avançada, 32 anos. Ao falar misturava português e dialeto com conotações típicas, voz aguda e fala mansa. No aspeto físico era alto, magro, cabelos claros e nariz reto. A mãe esquerda era defeituosa. Olhar sereno e transparente e rosto discretamente risonho. Modo cortês e simples, típico do homem da roça. Tornou-se familiar na casa de maneira bastante rápida, aquela figura leve, recolhida e silenciosa, mas ativa, sempre comunicando bondade e piedade sincera e notável, despertando admiração e respeito nos seus semelhantes. Sob a aparência humilde e frágil, escondia-se a personalidade vigorosa de quem luta de forma destemida pelos seus propósitos. Estava disposto a mergulhar nas águas profundas da nova vida, ultrapassando qualquer obstáculo ou dificuldade do caminho.

Dez dias depois, Hermínio enviou uma carta aos pais, a qual foi datilografada no 1° dia de abril, onde diz: “Logo ao chegar fui admitido na companhia de bons companheiros capuchinhos e comecei com eles a vida de frade. Estou gostando e já me acostumando”. No caderno escreveu: “Fui a Flores da Cunha em 22 de março de 1944. Comecei o trabalho espiritual e também o trabalho braçal na horta, na cozinha, disposto a mudar de vida... Passei alguns meses assim, trabalhando e rezando”, e completa com um desabafo, “Para mim a horta era pesada, porque nunca tinha trabalhado na horta. Todos estes trabalhos, dificuldades... Enfim um dia fui pedir ao padre Mestre: esta vida não dá. Trabalhar na horta é muito difícil para mim, e também os outros trabalhos. Eu quero ir para casa”. É de estranhar a situação crítica pelo trabalho, ele que estava acostumado na roça. Talvez a mão atrofiada lhe dificultasse a labuta. O certo é que foi difícil para ele. Esteve a ponto de desistir.

O mestre frei Fulgêncio Caron entendeu o rapaz e aconselhou-o a não se precipitar. Instruiu que ficasse mais um tempo e que de momento fosse à capela rezar. Hermínio, então, escreveu no caderno: “Eu então fui. E aos poucos a serenidade voltou”. Mais tarde ele falaria ao mestre: “Agora estou contente com esta vida. No princípio, muitas dificuldades. Mas depois daquele dia, sempre mais contente”. E concluía: “De certo, no principio da vida religiosa, era o diabo que me tentava”.

Hermínio preparou-se para o Noviciado com muita dedicação. Enquanto aspirante à vida religiosa participou em dois retiros. No dia 6 de julho de 1944 deu mais um passo, ao ser admitido como “postulante” com unânime parecer favorável da comissão encarregada de avaliar os candidatos à vida religiosa. No caderno escreveu: “Comecei o postulantado no dia 2 de julho à tarde, dia de Nossa Senhora. Nossa Senhora sempre me ajudou durante o postulantado, de modo a poder terminá-lo com a graça do meu bom Jesus”. Com seriedade e piedade viveu o período de formação na expectativa do passo seguinte, o Noviciado. No retiro pregado por frei António de Caxias, fez um pedido a Deus: “Vinde a mim meu bom Jesus para que eu possa fazer penitência dos meus pecados e da humanidade”. Ao recordar que Jesus morreu por nossa salvação conclui: “Então, eu devo fazer penitência dos meus pecados”.

No retiro orientado por frei Fulgêncio, Hermínio assumiu um propósito, uma meta que podemos notar em toda a sua trajetória: “Tornar-se sempre mais santo”. E esclarece: “Ser santo não é fazer milagres; é amar a Jesus de todo o coração e entregar-se a Ele sem reservas; é crer firmemente no seu amor e fazer unicamente e em tudo a vontade de Deus”. Em cada Missa pedia a graça de alcançar “aquela santidade que Deus quer dele”. Recomendava-se às orações dos outros e rezava por eles. Escrevendo à sua irmã religiosa Flora, dizia: “Rezo para você alcançar a santidade que Deus espera de você”.

Nas suas anotações expressa a convicção de que a santidade passa pelo caminho da oração e do amor, da abnegação e do trabalho. Ele escreveu: “O trabalho que é a minha enxada, por esta enxada e oração espero chegar ao céu” (retiro de 1950). “Devo fazer bem a minha meditação se quero ser santo” (retiro de 1961). Meditava, refletia o quanto Jesus, Nossa Senhora e os santos fizeram por nós e questionava-se: “E eu, pobre pecador, o que é que eu vou fazer?”. E pedia: “Senhor, dai-me a graça de vos amar sempre mais e alcançar aquela santidade que vós quereis de mim” (retiro de 1966).

O Noviciado começava com a “vestição”. Expressando a mudança de vida, os jovens despiam o casaco e vestiam o hábito castanho de São Francisco, cordão branco e o terço de grossas contas de nó de pinho, confecionados por eles mesmos. O celebrante pedia que Deus os despojasse do “homem velho” e os revestisse do “homem novo”: Jesus Cristo. A partir desse dia, substituíram os sapatos pelas sandálias; deixavam crescer a barba; guardavam o cabelo bem curto e trocavam de nome. Hermínio Pinzetta passou a chamar frei Salvador de Casca. Durante o ano de Noviciado, aprofundaram a vivência capuchinha, bem como o conhecimento da Regra de São Francisco de Assis. Buscaram seguir Cristo a exemplo de Francisco e dos demais santos capuchinhos.

Frei Salvador estava radiante de alegria, pois dera mais um passo no seguimento de Cristo e seu Evangelho como frei franciscano capuchinho. Sempre primeiro na oração, disponível e caprichoso nos trabalhos, incapaz de ofender a qualquer irmão, aberto e transparente com o mestre de noviços. Dava a ideia de um caminhante experiente e maduro; alguém que deu tudo e estava feliz e convicto de sua entrega. No seu caderno anotou: “Comecei o Noviciado no dia 5 de janeiro de 1945. O meu nome agora é frei Salvador de Casca. O ano de Noviciado foi para mim um ano santo. Nunca passei um ano tão bom como o Noviciado. Rezei muito a Nosso Senhor e também a minha Mãe Maria Santíssima, a São José, ao nosso Pai São Francisco e ao Sagrado Coração de Jesus. E assim também o ano de Noviciado terminou com as graças de Nosso Senhor Jesus Cristo... Viva Jesus, Maria e José. Jesus Cristo Crucificado”.

Na preparação para a Profissão Religiosa, frei Salvador insiste no desejo de imitar e seguir Cristo, seu Evangelho, suas práticas e sentimentos, decidido e disposto a abraçar a vida e a regra dos Frades Menores Capuchinhos. Lê-se nas anotações: “Jesus Menino era pobre, obediente a Maria e José; viveu 30 anos com eles trabalhando na casa de Nazaré; por três anos pregou o Evangelho. Eu pecador!” (retiro de 28.12.1945).

Na véspera da Profissão, o mestre frei Fulgêncio quis certificar-se da sua decisão e perguntou se o frei Salvador estava contente por fazer a Profissão religiosa. “Contentíssimo, porque vou entregar-me totalmente a Deus. Mas sou um coitado, com estes meus dedos defeituosos eu receio que vou ser inútil para a Ordem em que vou entrar”, respondeu o sincero Salvador. “Não tenha receio”, garantiu o mestre. “Você foi aprovado unanimemente pelos frades, e o defeito que você tem não vai impedi-lo de ser um bom religioso, utilíssimo à Ordem. E agora diga-me: por que motivo quer fazer a Profissão religiosa?”. E Salvador, ”Eu quero rezar e sacrificar-me para me entregar sem reservas a Deus, pela sua glória e honra. Quero ser religioso para salvar muitas almas. E também para rezar e sacrificar-me pelos sacerdotes e missionários à imitação de Santa Terezinha do Menino Jesus”. O mestre, por sua vez, questiona se ele tem alguma outra intenção. “Tenho sim. Quero rezar e sacrificar-me para que Nosso Senhor mande muitos irmãos capuchinhos, pois vejo que somos poucos em comparação com o número de padres e as necessidades que temos”. Frei Fulgêncio abençoou o noviço despedindo-o com palavras de carinho: “Vai em paz, frei Salvador. Que o Senhor ouça os seus pedidos e você possa ser o religioso santo que deseja. Eu também rezarei para que os seus desejos se realizem. Em nome de São Francisco eu o abençoo de coração”.

Hermínio fez a Profissão Religiosa simples como irmão leigo na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul, no dia 6 de janeiro de 1946. De seguida, foi a Garibaldi (RS) e lá residiu por dois anos. Em 29 de janeiro de 1948, retornou a Flores da Cunha, onde no dia 6 de janeiro de 1949 fez a Profissão solene e definitiva na Ordem dos Capuchinhos. Exerceu a sua missão como frade capuchinho durante mais ou menos 27 anos em Flores da Cunha. Faleceu no dia 31 de maio as 18h00, hora da Ave-Maria e véspera da festa de Corpus Christi. Duas devoções que viveu intensamente: Nossa Senhora e a Eucaristia. Antes da sua morte, três sacerdotes administraram-lhe a Unção dos Enfermos. Foi sepultado no Cemitério Municipal, no jazigo dos Frades Capuchinhos. O seu enterro coincidiu com a procissão de Corpus Christi. Ele dizia: “Sou o que sou diante de Deus”. Considerava-se um pecador e o povo tem convicção de que é um “santo”. Todos o conheciam como o “Padre Santo”. “Eu tenho a plena certeza de que frei Salvador é um santo. Eu já o achava “santo” quando estava em vida”, confessa Gema Pagno. “Eu penso que frei Salvador será beatificado. Para mim é um verdadeiro santo”, declara monsenhor João Benvegnu.

Durante mais ou menos 27 anos da sua missão em Flores da Cunha, frei Salvador exerceu diversas atividades: na cozinha, na portaria, na horta, no jardim, na roça, na apicultura, na coleta da uva das famílias, na cantina preparando o vinho. Trabalhava acompanhando os jovens candidatos à vida religiosa. Durante o trabalho, rezava o terço e outras orações com os companheiros ou fazia momentos de silêncio. Frei Salvador não vivia ocioso. Quando não estava no serviço, vivia na capela rezando, semelhante à sua postura quando ainda era jovem. O povo recorda com saudade e carinho o atendimento que ele prestava na portaria, acolhia a todos com alegria e bom trato. Aos necessitados, antes da esmola, dava-lhes conselhos e mensagens. Repartia com as famílias sementes, mudas de hortaliças, recomendando que as plantassem acompanhadas de oração e muita fé.

Frei Salvador foi, por longo tempo, auxiliar de mestre dos Postulantes e Noviços dos Irmãos Leigos. Visitava, por iniciativa própria, os enfermos nas residências e no hospital, mas não levava a comunhão. Os freis Eduardo Reginatto e Manoel Baldissera perceberam a grande importância das visitas do Irmão. Alguém, então, perguntou: “Você não gostaria de visitar os doentes em nome da paróquia?”. Ele respondeu de imediato: “Ah! Se entendesse que esta é a vontade de Deus e me fosse dada autorização, gostaria sim”. Os freis conversaram com o bispo Dom Benedito Zorzi para conceder-lhe o Mandato de Ministro da Eucaristia. O Bispo pensou bem e, depois de vários encontros, consentiu dizendo: “Sim, podem deixar o frei Salvador levar a Eucaristia aos enfermos. Ele fará um grande bem nesta missão”. O piedoso Irmão ficou feliz e repetia: “Mi portar in man el paron Del mondo?” (Eu carregar nas mãos o dono do mundo?). O Mandato de Ministro Extraordinário da Eucaristia e dos Enfermos foi instituído no dia 22 de abril de 1970 e entregue no dia 26, juntamente com os símbolos do ministério. Recebeu-os de joelhos, comovido e radiante de uma alegria semelhante à de uma criança ainda inocente. Apesar do esmagamento do mistério, sentia-se feliz de carregar Ari Finger consigo, Jesus pelas ruas e de levá-lo aos enfermos nas casas e no hospital. Recomendava as orações de todos para exercer de forma digna o serviço. Ari Finger afirma: “Tornou-se muito querido do povo neste trabalho e foi nele que frei Salvador deixou mais saudade”.

Com respeito e responsabilidade, piedade e bom senso, frei Salvador levava a Comunhão aos doentes, mas não indiscriminadamente. A uns só levava de mês a mês, porque percebia a pouca disposição. A outros, de forma quinzenal ou semanal. Se um doente não manifestasse fé ou interesse pela oração, nem sinais de crescimento espiritual, suspendia temporariamente a Comunhão e visitava mais seguido, levando consigo mensagens bíblicas e importantes conselhos. Quando passava em frente de casas de pessoas indiferentes ou até fábricas onde reinava a injustiça, parava um pouco com a Eucaristia nas mãos e rezava pedindo a Jesus por aquelas pessoas. Muitas conversões são atribuídas ao modo como frei Salvador agia. Ao falar das conversões, ele dizia: “Eu sei que o Senhor faz milagres, se a gente pede e acredita”. A voz do povo afirma que ele é “santo”, como provam os diversos depoimentos.

 

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Oração

Ó Deus, que vos revelais aos simples e pequeninos,
ouvi a oração que vos fazemos por intercessão de frei Salvador.
Concedei-nos a mesma fé e boa vontade,
a mesma simplicidade de vida,
o mesmo espírito de oração e serviço.
Dai-nos olhos limpos e um coração puro,
para perceber, como ele percebia,
a vossa presença nas pessoas e no mundo.
Glorificai-o, aqui na terra, com a glória dos santos,
e dai-nos, por sua intercessão,
as graças de que necessitamos.
Amém.

(Aprovada por Dom Nei Paulo Moretto Bispo de Caxias do Sul, em 20.12.1988)

 

Poster para divulgação

 

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