Na linguagem daquele tempo, o Prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, cardeal Caetano Cicognani, sintetizou a vida de S. Lourenço neste elogio: «Lourenço foi um varão todo apostólico, poderoso em obras e mestre nas palavras. Principalmente por meio destas nutriu a fé e fomentou a piedade de inumeráveis almas, defendeu valorosamente a doutrina católica e a Igreja Romana, protegeu fortemente a sociedade cristã e, na luta acérrima travada contra os erros do Protestantismo, foi um intrépido bandeirante. […] Com a sua atividade apostólica, tão eficaz e tão ampla, unida harmoniosa e oportunamente a uma doutrina exímia, brilhou no meio da Igreja como luzeiro esplendorosíssimo, ilustrou egregiamente o tesouro da fé, dispersou as trevas dos erros, dilucidou pontos escuros, esclareceu questões duvidosas e abriu os enigmas das Escrituras, de modo que merecidamente lhe podemos chamar Doutor Apostólico»[1].

E foi com este mesmo título que, em 19 de março de 1959, ultimando um processo já iniciado no tempo de Pio XII, João XXIII o proclamou Doutor da Igreja universal, na Carta Apostólica “Celsitudo ex humilitate” (A grandeza pela humildade). Aí, dizia dos seus escritos:

«É admirável quantos livros sobre as disciplinas sagradas de toda a espécie escreveu em horas muitas vezes roubadas às outras ocupações este homem, que quase nunca descansou das pregações piedosas e dos trabalhos apostólicos. As suas Obras Completas, que são verdadeiros tesouros de sabedoria, tiradas há pouco dos arquivos e impressas, constam de quinze volumes. Entre elas, apraz-Nos comemorar o livro intitulado Explanação do Génesis, no qual Lourenço, usando também da doutrina dos Judeus, dos Padres da Igreja, dos Doutores, que chamam escolásticos, investiga subtilmente a verdade divina e, como árbitro gravíssimo, julga sobre as várias sentenças e controvérsias. Os mais dos volumes, porém, são sobre a sagrada eloquência, pois neles se encontram os sermões que pregou à maneira de um rio a transbordar, sobre o tempo da Quaresma e Advento, sobre as domingas, sobre as festividades dos Santos do Céu e sobre outras solenidades. 

«Não se pode deixar de louvar principalmente o Mariale, que assim se chama e abraça toda a doutrina sobre a santa Mãe de Deus. Aí, com frases sapientíssimas e com palavras de suavidade admirável discutem-se as razões e os assuntos variados desta disciplina, ocupando-se antecipadamente também do que os nossos predecessores de imortal memória, Pio IX e Pio XII, com certíssimo oráculo, a saber, que a Bem-aventurada Virgem Maria foi imune da primeira queda e foi levada com corpo e alma para a glória celestial. Finalmente, nos três volumes, cujo título é Lutheranismi hypotyposis, este defensor da lei católica, sobressaindo com uma profunda erudição, procura fazer esquecer ao povo os erros disseminados pelos mestres da heresia»[2].

Logo em 16 de abril, o ministro geral dos Frades Menores Capuchinhos, frei Clemente de Milwaukee, dirigiu uma bela Carta aos seus confrades, na qual, além da biografia do novo Doutor, falava da «excelentíssima doutrina mariológica, teológica e bíblica de Lourenço», perguntando: «Donde tirou o nosso Santo de Brindes a abundância da doutrina que o fez tão forte para refutar e redarguir com a palavra e com os escritos os erros do seu tempo? Principalmente da leitura assídua e da meditação da Sagrada Escritura, e em especial do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, precisamente daqueles Livros sagrados que os hereges se gabavam de revelar novamente ao povo cristão e de que abusavam para difundir os seus erros. […] Encarregado pelos Sumos Pontífices, de pregar aos Judeus, não só estudou as línguas orientais, mas também remexeu diligentemente e leu muitíssimos comentários da Sagrada Escritura, escritos desde o nascimento de Cristo até ao seu tempo, adquirindo assim uma ciência tão grande nessa matéria que os próprios Judeus o chamavam arca dos Livros Sagrados e uma Bíblia viva.» 

E arrematava: «Com muitíssima razão se tem dito que S. Lourenço contém em si os ornamentos e louvores da Ordem Seráfica fundada por S. Francisco. Como S. Boaventura, foi ele mestre incomparável das verdades da fé, louvador amantíssimo da bem-aventurada Virgem Maria, inflamado devoto do Santíssimo Sacramento e perfeito exemplar de superiores. Como Santo António, morto em Pádua e como S. Bernardino de Sena, foi pregador poderoso em obras e palavras; como S. João Capistrano e como S. Tiago da Marca, foi um propugnador incansável da fé contra os hereges. Além disso, foi legado fidelíssimo da Sé Apostólica nos mais árduos negócios políticos e conselheiro perspicaz dos príncipes cristãos em governar os povos e em defender a fé»[3]

O acontecimento foi, então, celebrado com várias festividades, de que damos nota nas páginas 152-154 [revista Bíblica Científica, nº 27]. Eu próprio, encontrando-me a estudar no Convento de León (Espanha), tive a sorte de participar na de Villafranca del Bierzo: uma semana de pregação concluída na Eucaristia solene de 26 de julho, com vários bispos e representantes de todos os conventos capuchinhos das Províncias de Espanha e Portugal, e num concerto público pelo Coro do nosso Colégio.

 

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[1] Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, a determinar para S. Lourenço o título de Doutor da Igreja. In Boletim Oficial, Comissariado Geral dos Frades Menores Capuchinhos de Portugal, vol. II, nº 7 (abril-junho de 1959) 372-373.
[2] In Boletim Oficial, Comissariado Geral dos Frades Menores Capuchinhos de Portugal, vol. II, nº 7 (abril-junho de 1959) 370-372.
[3] In Boletim Oficial, Comissariado Geral dos Frades Menores Capuchinhos de Portugal, vol. II, nº 7 (abril-junho de 1959) 373.