Carta circular do Ministro Geral dos Capuchinhos sobre o início do ano Laurenciano

(Prot. N. 00678/18)

A todos os Frades da Ordem
Às irmãs clarissas capuchinhas

 

Caríssimos irmãos,

Foi no mês de setembro de 1993, quando querendo preparar dois pós-noviços à profissão perpétua, propus-lhes fazer o Caminho de Santiago. Chegados a Lião, os frades acolheram-nos muito fraternamente. O mesmo aconteceu em Pamplona, Estella e Logroño, e informaram-nos que em Vila Franca de Bierzo poderíamos pernoitar no mosteiro das irmãs clarissas. Chegados àquele mosteiro fiquei surpreso quando as Irmãs me disseram que na igreja delas estava sepultado o corpo do nosso São Lourenço de Brindes.

No próximo ano celebram-se exatamente 400 anos da morte de São Lourenço: considero muito significativo que do dia 21 de Julho de 2018 ao dia 21 de Julho de 2019 seja celebrado um ano jubilar em sua honra e esta carta pretende ser uma chamada para tal.

Faço um breve aceno à sua figura; o que desejo é que neste ano a Ordem recorde São Lourenço, promovendo iniciativas de vário tipo com a finalidade de aprofundar os aspetos históricos e a sua mensagem. De notar que São Lourenço de Brindes é até hoje o único Ministro Geral da nossa Ordem que foi elevado às honras da Santidade, e que foi proclamado Doutor da Igreja.

Nascido em Brindes no dia 22 de Julho de 1559 com o nome de Giulio Cesare Russo, com a idade de apenas 7 anos ficou órfão de pai e poucos anos depois morreu também a mãe. No ano 1574 mudou-se para Veneza, em casa do tio Dom Pietro e passado aproximadamente um ano, o jovem Giulio, foi bater a porta do convento dos Capuchinhos da Giudecca em Veneza. O seu pedido de ser acolhido entre os frades capuchinhos foi aceite. Seguiram-se os anos de noviciado e de estudo da teologia, e em janeiro de 1582 foi ordenado presbítero. Concluídos os estudos de teologia, fr. Lourenço dedicou-se ao ensino da teologia, à formação dos noviços e à pregação. Mas muito cedo, foi chamado para o exercício de grandes responsabilidades e de governo. No ano 1590, foi eleito Ministro Provincial da Toscana; no ano 1594, Provincial de Veneza; no ano 1596 Definidor Geral; no ano 1598 o encontramos com a função de Ministro Provincial da Suíça; no ano 1599 de novo Definidor Geral. Naquele mesmo ano foi-lhe confiada a missão de fundar um convento em Praga. No Capítulo Geral de 1602, no dia 24 de Maio, o frei Lourenço foi eleito Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. O serviço a que foi chamado comportava o encargo de visitar todas as Províncias da Ordem. Durante os três anos do seu mandato na qualidade de Ministro Geral, frei Lourenço percorreu toda Itália, passou pela Suíça, viajou pelos Países Baixos, pela França e depois chegou a Espanha, visitando a pé todas as Províncias.

Terminado o seu mandato, os papas e vários príncipes europeus, confiaram-lhe diversas missões diplomáticas. Estas tarefas não o permitiam dedicar-se completamente à vida contemplativa e ao estudo que ele percebia e tinha como aspetos muito importantes e significativos da sua vocação. Por três anos, de 1610 à 1613, frei Lourenço esteve em Mónaco como representante da Santa Sé. Eram os anos em que os reis e príncipes católicos preparavam-se para contrastar o avanço dos reis e príncipes protestantes. Naqueles mesmos anos, frei Lourenço foi chamado para missões de paz nos conflitos mais complexos. Junto com a atividade diplomática, frei Lourenço continuou sendo um pregador muito ouvido e veio a ainda a ser chamado para o serviço de Ministro Provincial.

No Capítulo geral de 1613 foi eleito pela terceira vez Definidor geral. Enviado como visitador na província de Génova, foi eleito Ministro provincial. Muito conhecido e muito apreciado pela gente, sempre que o futuro Santo chegava a uma cidade, a população acorria em massa para vê-lo e foram-lhe atribuídas numerosas curas.

Apesar da intensa atividade, transcorria horas inteiras absorto na oração, a que juntava longos momentos de contemplação durante a celebração da eucaristia.

A última missão diplomática levou-o a Lisboa onde interveio a favor da população de Nápoles que se sentia oprimida pelo vice-rei espanhol duque de Osasuna.

Frei Lourenço morreu no dia 22 de Julho de 1619 em Lisboa com a idade de 60 anos. O seu corpo foi transportado e sepultado no mosteiro das Clarissas de Villafranca del Bierzo, em Espanha. Foi beatificado no ano 1783 por Pio VI e canonizado no ano de 1881 pelo papa Leão XIII.

Não obstante o tempo transcorrido nas viagens, os gravosos encargos de governo e intensa atividade diplomática, frei Lourenço encontrou tempo e inspiração para redigir numerosos escritos, que permaneceram inéditos até à edição da sua Opera omnia feira entre o ano 1928 e 1956. A publicação da versão integral dos seus escritos foi muito significativa na decisão do papa João XXIII, que no dia 19 de março de 1959, proclamou São Lourenço de Brindes “Doutor da Igreja” com a qualificativo de Doctor Apostolicus. [1]

Apresentei alguns traços essenciais sobre a vida de São Lourenço que foi rica de viagens, de encargos de vários géneros, mas também rica de estudo, de dedicação ao ensino e de uma profunda vida de oração. Como acenado no início deste escrito, convido a Ordem a organizar uma adequada celebração da Santidade de São Lourenço de Brindes no IV centenário da sua morte. Um lugar onde auguro que este evento venha a ter uma importância particular é o nosso Colégio Internacional São Lourenço de Brindes em Roma.

Caríssimos irmãos, esta é a última carta que vos escrevo e aproveito esta ocasião para agradecer a cada um de vocês pela paciência e pela benevolência que sempre me manifestaram. Tenho consciência que não me foi possível responder a esperanças e espectativas de todos. Agradeço o acolhimento que em qualquer lugar sempre me reservaram e peço humildemente que continuem a rezar por mim.

Sinto-me feliz ao enviar a cada um de vós a minha saudação fraterna unida ao augúrio franciscano de Paz e Bem.

 

Fr. Mauro Jöhri
Ministro Geral OFMCap

Dado em Roma, na Cúria Geral, no dia 21 de Julho de 2018
Festa de São Lourenço de Brindes

 

_ _ _ _ _

[1] Ao redigir estas poucas linhas tive como referência a breve biográfica escrita por Niklaus Kuster: Laurentius von Brindisi: Apostel auf den Straßen Europas. (Topos Taschenbücher, Band 714, Kevelaer 2010.). È desejável que este texto venha a ser traduzido também noutras línguas.

Agenda

Mais lidos