Cada evangelista nos apresenta a figura de Jesus segundo a sua própria perspectiva teológica. Por isso, em cada Evangelho sobressaem certos traços, certas cores.

O baptismo é o sacramento por excelência da Páscoa. Os primeiros cristãos faziam todos os baptismos na vigília do domingo de Páscoa, depois de uma longa preparação de alguns anos e no fim da Quaresma. Este deveria ser também o dia dos baptismos dos cristãos do nosso tempo.

  1.  SENTIDO DO BAPTISMO CRISTÃO

Comecemos por dizer que há três baptismos, com sentidos diferentes: o que João administrava, o que Jesus recebeu e o que os cristãos recebem. Portanto, apesar de ter origem no baptismo de João, o nosso é muito diferente, por ter um alcance mais profundo: de um baptismo de água passa-se a um baptismo do Espírito Santo; de um baptismo administrado como preparação para a vinda do Messias, passa-se a um baptismo que confirma uma salvação já presente no mundo, sobretudo na Igreja; de um baptismo dado no nome de João, passa-se a um baptismo administrado no nome de Jesus, fonte de unidade dos cristãos (1 Cor 1,12-16).

Paulo é o que maior relevo dá ao baptismo cristão. Para ele, o lugar do nascimento e do renascimento para Cristo concretiza-se pelo baptismo, pois este efectua a união mística com Ele. De facto, os cristãos já não se apoiam na Lei de Moisés nem em outros factores humanos, mas unicamente em Cristo:

É que todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé (Gl 3,26-27).

1.1. SINAL DE IMERSÃO NO MISTÉRIO DE CRISTO MEDIANTE A FÉ. Pelo simbolismo da imersão baptismal nas águas "profundas" do baptistério, o cristão imerge na morte de Cristo, para se levantar seguidamente para uma vida nova, à semelhança da do Senhor ressuscitado. Assim, o discípulo de Jesus participa de uma vida nova "em Cristo", num movimento para Cristo, de uma apropriação e de uma pertença a Cristo. O texto mais significativo a este propósito é o da Carta aos Romanos:

Ou ignorais que todos nós, que fomos baptizados em Cristo Jesus, fomos baptizados na sua morte? Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova. De facto, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. É isto o que devemos saber: o homem velho que havia em nós foi crucificado com Ele, para que fosse destruído o corpo pertencente ao pecado; e assim não somos mais escravos do pecado. É que quem está morto está justificado do pecado. Mas, se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos. Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morrerá; a morte não tem mais domínio sobre Ele. Pois, na morte que teve, morreu para o pecado de uma vez para sempre; e, na vida que tem, vive para Deus. Assim vós também: considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus (Rm 6,3-11; ver Gl 3,27).

Tudo indica que os cristãos já sabiam o que Paulo está a ensinar, pois talvez fizesse parte dos temas das primeiras pregações cristãs. Mas apenas Paulo, em todo o Novo Testamento, nos fala do baptismo como participação na morte e ressurreição de Cristo. Parece que se tratava já de uma tradição, quando Paulo lembra este acontecimento. É interessante ainda notar que a fórmula em Cristo Jesus é o resumo de uma outra: no nome de Cristo Jesus.

O baptismo pré-cristão, de João Baptista, tinha o sentido penitencial de remissão dos pecados. Paulo dá mais um passo em frente e coloca o baptismo em relação com o acto redentor de Cristo no Calvário. Este acto reveste, pois, uma função expiatória em favor da humanidade pecadora. Para isso, serve-se da imagem da piscina baptismal: entrar nas águas equivale a matar o homem velho; levantar-se, equivale a assumir o homem novo.
Daqui, Paulo parte para a espiritualidade cristã, que é toda baptismal: o cristão "mergulha" em Cristo, na sua personalidade mística (Gl 3,27-28). Por isso, Paulo - e cada cristão - pode dizer: Para mim, viver é Cristo (Fl 1,20); Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (Gl 2,20).

O baptismo torna-se um pequeno drama que leva a efeito a adesão a Cristo morto e ressuscitado. É também imitação da vida nova e realização da "nova criatura" (Rm 6,3-4; Tt 3,5-6). Judeus e pagãos, pelo baptismo, tornam-se membros de um mesmo corpo. Este é o grande mistério que S. Paulo tem como incumbência proclamar e constitui a síntese teológica contida na fórmula em Cristo, que ele utiliza muitas vezes.

Segundo esta visão de Paulo, o cristão foi inserido em Cristo pelo baptismo e passou a fazer parte do seu Corpo místico, que é a Igreja. Portanto, Cristo é o alicerce da Igreja: Ninguém pode pôr outro alicerce diferente do que já foi posto (1 Cor 3,11).

Como pode cada baptizado morrer com Cristo para o pecado, se Cristo já não morre? De algum modo, o baptismo torna-nos contemporâneos do acontecimento do Calvário, no sentido em que esta morte foi a libertação de todos os homens de todos os tempos. Cristo Ressuscitado está completamente morto para o pecado, está definitivamente separado do mesmo e da possibilidade do mesmo. Portanto, Ele é o único capaz de ser dado em troca da condição pecadora, da qual não nos conseguimos libertar. Cristo morre no pecado e morre para o pecado, libertando-nos do pecado e colocando-nos na condição de pertença a Deus, e não apenas como separação (negativa) do pecado. Paulo não diz que o baptizado não pecará, ou deixará de pecar. Apenas diz que já não está sob a morte e prisioneiro dela, graças a Cristo.

1.2. O BAPTISMO SUPÕE A PALAVRA DE CRISTO QUE CONVERTE. Paulo diz que o baptismo é dado em nome de Cristo, isto é, está ligado ao Evangelho, palavra que converte o coração do discípulo a Cristo. Deste modo, torna-se um acto de fé e de obediência à palavra de Cristo. É neste sentido que os cristãos ficam a pertencer ao Senhor, por um elo que os liga a Ele, pelo coração, pela fé. Portanto, não é a água do baptismo que estabelece essa pertença a Cristo, mas a sua Palavra. Por isso, este laço torna-se indelével, apenas na medida em que o cristão mantiver o coração aberto a Cristo e se dispuser a viver a sua Palavra, na fé. Para aquele que romper o laço da fé que o liga a Cristo, a água do baptismo deixa de ter qualquer sentido.

A ligação estabelecida com Cristo deve marginalizar outras ligações de pertença e de união, que devem ser relativizadas à ligação íntima com Cristo. Por isso, Paulo diz que os cristãos não se devem reclamar de outros partidos ou grupos, ou mesmo de Apóstolos, mas única e profundamente de Cristo:

Estará Cristo dividido? Porventura Paulo foi crucificado por vós? Ou fostes baptizados em nome de Paulo? Dou graças a Deus por não ter baptizado nenhum de vós, a não ser Crispo e Gaio, para que ninguém diga que fostes baptizados em meu nome. Baptizei também a família de Estéfanes, mas, além destes, não sei se baptizei mais alguém. Na verdade, Cristo não me enviou a baptizar, mas a pregar o Evangelho, e sem recorrer à sabedoria da linguagem, para não esvaziar da sua eficácia a cruz de Cristo (1 Cor 1,13-17).

1.3. O BAPTISMO EXIGE UM COMPROMISSO EXISTENCIAL COM CRISTO. Paulo descreve a vida nova oferecida à humanidade, à maneira da vida nova que Jesus adquiriu depois da sua ressurreição. Para ele, trata-se de uma passagem da escravidão para a liberdade de filhos de Deus. Há um antes, que se caracterizava pela submissão à Lei de Moisés, ao Pecado e à Morte. Estas três entidades escravizavam a humanidade; mas, agora, o cristão está colocado sob a mão libertadora de Cristo. Incorporado à ressurreição de Cristo, pelo baptismo, coloca-se agora ao serviço da vida, vida que se vive, como se já estivéssemos ressuscitados.

1.4. O BAPTISMO É UM ACTO COMUNITÁRIO. Costumamos dizer que o baptismo é o acto oficial da entrada do cristão na Igreja. Assim o diz Pedro no seu discurso do dia de Pentecostes aos já convertidos pela palavra sobre Jesus Cristo:

"Que havemos de fazer, irmãos?" Pedro respondeu-lhes: "Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo" (Act 2,37-38).

Ora, se o baptismo é conferido aos convertidos a Cristo, ele é, ao mesmo tempo, o sinal da entrada oficial no grupo dos discípulos, pois ser cristão é essencialmente viver em comunidade, em Igreja. Sendo sinal de união a Cristo, é também sinal de união aos outros cristãos, de modo a formarem, todos juntos, o corpo de Cristo. Assim, quando alguns cristãos de Corinto pretendiam monopolizar o Espírito Santo, com os seus carismas e particularismos, Paulo argumenta-lhes com o baptismo, num só Espírito:

Pois, como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. De facto, num só Espírito, fomos todos baptizados para formar um só corpo, judeus e gregos, escravos ou livres, e todos bebemos de um só Espírito (1 Cor 12,12-13).

Parece que estes cristãos, depois de serem baptizados e, entusiasmados com a nova vida em Cristo, baptizavam-se em vez dos mortos, e em vez deles. S. Paulo argumenta sobre a ressurreição de Cristo e sobre a nossa própria ressurreição, a partir deste facto:

Se assim não fosse, que procurariam os que se fazem baptizar pelos mortos? Se, de facto, os mortos não ressuscitam, por que motivo se fazem baptizar por eles? (1 Cor 15,29).

Deste modo, o baptismo não se junta à fé; é, antes, a sua expressão viva e oficial, perante a Igreja. Feito para nos unir a Cristo, o baptismo cria entre Ele e o fiel um laço místico que faz deste "membro de Cristo" e, desde então, tudo o que é de Cristo (filiação divina e glória) torna-se próprio do fiel. Mas o cristão deve também levar em si o sofrimento de Cristo e a morte ao pecado, como condição para viver, desde já, a glória futura.

 

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