Adão não é apenas do passado. O pecado das origens e os aspectos gerais da condição humana significam a condição do homem eterno, isto é, do passado, do presente e do futuro.

A PROBLEMÁTICA PATRIARCAL

 

Falar de Adão é falar do homem (‘adam). No tempo da sua organização - época de David/Salomão - o povo de Deus, quando começou a reflectir sobre a sua própria história, interrogou-se sobre as suas origens. Numa pesquisa retrospectiva, encontrou personagens que estavam nas suas raízes de povo, de tribos, de família.

Quem é o pai de todos esses povos? Numa época de ideologia tribal a resposta à grande questão era encontrada em epónimos, que de algum modo resumiam, representavam todo um povo.

Trata-se de uma técnica antiga que tem como base o género literário das genealogias. A genealogia procura justificar a ligação de uma pessoa do presente com os seus antepassados, em ordem a usufruir determinados privilégios ou cargos.

 

TRÊS GRANDES CONJUNTOS TEXTUAIS DO GÉNESIS: 1-11; 12-36; 37-50

 

Gn 1-11 PODERÁ AINDA SUBDIVIDIR-SE EM VÁRIOS CONJUNTOS: Todo o material recolhido em Gn 1-11 é uma colecção de quadros, mais ou menos unidos, com uma finalidade literária - escrever a "história" do povo de Deus e, sobretudo, apresentar uma mensagem catequética sobre Deus e sobre a humanidade.

Gn 1-2,4a: Texto de criação sacerdotal: séc. VI
Gn 2,4b-3,24: Texto de criação Javista (séc. X-IX): depende de 2 Sm 7
Gn 4-5: Descendência de Adão e Eva, ou a dupla origem do homem bom e do homem mau, até ao Dilúvio
Gn 5 e 10: Genealogias ou listas de povos
Gn 6-9: Narrativa do dilúvio ou a renovação da humanidade pecadora
Gn 11: A torre de Babel: tentativa frustrada de humanidade sem Deus: ruptura da unidade humana.

 

Gn 2,4b-3,24: TEXTO DE CRIAÇÃO JAVISTA

Texto muito mais antigo que o anterior (séc. X-IX). Ambiente geográfico do deserto (cosmologia do deserto, falta de água) e social de uma aldeia.

* A condição humana de base é definida como de terra (adam - adamah = terra). E o homem voltará à terra, donde foi tirado (3,19). Esta é a conclusão a que chegou o povo, vendo que as pessoas ao morrerem se tornavam terra, pó.

* Estrutura do texto: Este texto divide-se em duas partes claramente distintas: parte positiva (Gn 2,4b-24); e negativa (2,25-3,24). A parte negativa: não havia arbusto algum, planta, água, homem. Estamos numa situação de deserto.

* Parte positiva: A Criação de Deus consistirá no passar do deserto para a terra fértil, isto é, com água. Havendo água, bem doseada, há tudo.

Para ele, Deus plantou um jardim (v.8-14); o homem deve cultivar e guardar (v.15).

* A condição humana inclui o homem e a mulher (v.18-24). É sociável. Por isso, é que o homem é confrontado, primeiramente com os animais (v.18-20). A condição humana, material, integra-se pois, no ecossistema cósmico como acontecia também no primeiro texto de criação, mas tem também um espírito divino.

* A ideia de paraíso vem da Suméria e do Irão; daí, talvez, a menção do Tigre e do Eufrates (2,10-14). É uma ideia universal.

* Parte negativa: As quatro cenas do drama da Queda:

Tentação e pecado: 3,1-7.
Comparência dos culpados: 3,8-13.
Sentença do Juiz
É a árvore do conhecimento do bem e do mal (2,16-17).
Sobre a serpente; desmitizada (era divinizada): não há outros deuses nem Poderes, além de Deus. Em Gilgamesh arrebatava ao herói a Árvore da vida.

* A condição humana está ferida, pela maternidade, pelo trabalho, pela morte e sofrimento.

* Sentido da nudez: Referida à vergonha da derrota militar.

* Sentido da serpente: O animal, a hibernação, o conhecimento do subterrâneo e da terra = à totalidade do conhecimento: os mistérios do além.

* O Mal não recebe uma resposta adequada, a não ser pela serpente, que simboliza a imperfeição. É pela consciência de si mesmo - que lhe vem também do confronto com o outro (em casal) - e com Deus, que o homem toma consciência de quem é e da sua missão no mundo. E é nesta liberdade de opção pela lei (=Deus) que ele escolhe e cai.

Trata-se de uma escolha, mas também de uma explicação etiológica para dar razão do mal geral do mundo. Mas, depois deste mal, surge uma esperança (Gn 3,15).

Conhecer o bem e o mal: merismo de totalidade moral.

Convocação, julgamento e castigo:
• Da serpente, que é amaldiçoada.
• Da mulher: as dores de parto.
• Do homem: trabalho do deserto.
• Adão dá nome a Eva, como tinha dado aos animais.
• Falta de sentido de responsabilidade.
• A expulsão do jardim: Paraíso terrestre, saudade ou esperança?
• Os querubins e a espada.

 

CONCLUSÃO
Existe uma relação íntima entre Deus e o homem. Ele é a causa do homem, por criação e tem a iniciativa. Tudo vem dele. O diálogo é que os une, mas exige, por parte do homem, a aceitação de Deus e da sua palavra, perante a prova da liberdade perante a qual é colocado. Só Deus é Senhor absoluto. O Homem não pode comer de tudo. Todos os códigos terminam sempre com os Dois caminhos: Bem e Mal, aos quais correspondem, respectivamente, bênçãos e maldições: Gn 49,1-28; Dt 27,14-26; 28,1-68; 33; Sl 1...

O Paraíso tornou-se inacessível ao homem (3,24-25). O autor diz que será possível voltar a encontrá-lo na vitória da Mulher sobre a Serpente. Os profetas insistirão sobre esta idade de ouro, no futuro.

Resto de um mito em que aconteceu o drama de uma queda (ver Ez 28,11-19)?

Capítulos de mensagem original e sobre a condição humana. Não há nada de científico; não procurar concordismos com ciências, etc. (ver poligenismo). O pecado das origens e os aspectos gerais da condição humana significam a condição do homem eterno, isto é, do passado, do presente e do futuro.

Resumo de um artigo publicado na revista Bíblica nº 284, 2003, p.4-15.

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