Os homens que Jesus chamou a segui-lo seriam em geral relativamente jovens; mas, entre eles há um considerado o mais jovem de todos, diria mesmo um adolescente, ao ponto de, nas representações da Última Ceia, aparecer sem barba, ao contrário dos outros Apóstolos. É João, a quem está ligada a autoria do IV Evangelho.

 

1. O Autor do IV Evangelho?

Não vamos agora esmiuçar a complicada questão da autoria deste Evangelho; mas, em geral, todos reconhecem que, de algum modo, ele está ligado à pessoa do Apóstolo João. Um forte indício é que este nunca aparece no seu Evangelho, ao contrário do papel tão destacado que tem nos Sinóticos e nos Atos. Como pode ser ignorada uma figura de tamanha importância em todo o Evangelho? Mais ainda: no IV Evangelho, o João que ali aparece 19 vezes é sempre o Batista, e sem nunca se lhe acrescentar esta designação. A humildade tê-lo-á levado a ocultar-se, para que a atenção do leitor não se fixe na pessoa do autor, mas na de Jesus…

Pergunta-se, então, se não haverá rastos dessa relevante personagem ao longo de todo o IV Evangelho. Pois bem, logo no seu início, esse Evangelho refere dois discípulos de João [Batista] que seguem Jesus: um é André e o outro fica anónimo (Jo 1,35-39); em 19,35 fala-se de «aquele que viu e dá testemunho». Isto faz com que muitos pensem na figura do Apóstolo João. Em 18,15 surge «outro discípulo conhecido do Sumo-Sacerdote» (muitos pensam que não seria João).

Além disto, a partir da Última Ceia, sobressai a figura de um discípulo, sem nome, mas designado com um honroso título: «aquele que Jesus amava» (13,23; 19,26; 20,2. 8; 21,7. 20.23.24). Só em 21,2, e pela única vez, são referidos «os filhos de Zebedeu», tão conhecidos por esta designação nos Sinóticos como sendo Tiago e João (Mt 4,21; 10,2; 20,20; 26,37; 27,56; Mc 1,19; 3,17; 10,35; Lc 5,10). Nos Sinóticos, o Apóstolo João aparece entre os prediletos de Jesus chamados a presenciar o milagre da ressurreição da filha de Jairo, a Transfiguração e a agonia no Horto das Oliveiras.

São Paulo considera-o uma das colunas da Igreja junto a Tiago e Pedro (Gl 2,9).

No meio de toda a discussão, em que não há lugar aqui para nos determos, também considero que «o candidato mais provável para a identificação do Discípulo Amado é João, o filho de Zebedeu» (Muñoz-León).

Façamos, então, uma breve análise do percurso espiritual desse Discípulo anónimo no seguimento de Cristo. Não se trata de uma análise de fria exegese bíblica, mas de «buscar o significado do texto bíblico como Palavra atual de Deus» (Verbum Domini, 33). Diria que pretendo simplesmente oferecer mais uma pequena achega para uma frutuosa lectio divina. Com efeito, o Discípulo Amado, na sua dimensão simbólica, aparece como um modelo de vida para os discípulos que somos nós e para os discípulos de todos os tempos. Como constata Muñoz-León, «certamente a figura do Discípulo Amado tem uma dimensão simbólica (o discípulo fiel); mas essa dimensão, como todos os símbolos de João, assenta numa realidade...», e é sobre essa encantadora realidade que se movem as considerações que se seguem.

 

2. Mestre, onde moras? Na busca do sentido para a própria vida

Na primeira parte do IV Evangelho, o chamado “Livro dos Sinais” (cap. 1 a 12), nunca se fala do Discípulo Amado. Mas, como vimos, e segundo alguns comentadores, ele bem pode ser o discípulo anónimo colega de André, sendo assim um dos dois primeiros discípulos a encontrar-se com Jesus.

O relato evangélico tem a frescura e o encanto de quem viveu intensamente aquele momento único e decisivo da vida; uns 70 anos depois, ainda recorda aquela hora inesquecível – «a hora décima» –, e os pormenores daquele diálogo divinal. Seria o próprio Evangelista, um discípulo do Batista, que tomou a sério um tão surpreendente anúncio: «Eis o Cordeiro de Deus!» (Jo 1,36).

Sem dúvida, este Cordeiro era o Messias, que concretizava a esperança de todo o povo. É assim que surge, no coração do discípulo, um deslumbramento vertiginoso e uma atração irresistível que o leva a “seguir” Jesus (Jo 1,37).

Tamanha emoção não deixa lugar para palavras, e o silêncio só é interrompido pela pergunta daquele que lê nos corações a busca de Deus: «Que procurais?» E o desassossego do jovem leva-o a responder à pergunta com outra pergunta: «Mestre, onde moras?» (Jo 1,38). Esta pergunta constituiu o lema da XII Jornada Mundial de Juventude em Paris, que São João Paulo II comentou na homilia da Missa no hipódromo de Longchamp, apelando para o sentido a dar à própria vida:

«A pergunta é o fruto de uma busca. O homem procura a Deus. O jovem compreende no fundo de si mesmo que esta busca é a lei interior da sua existência. […] Cada um de nós pode repetir as palavras do salmista: “É a Vossa face, Senhor, que eu procuro; não escondais de mim o Vosso rosto” (Sl 27/26, 8-9).»

O mesmo Papa também comentou a pergunta dos discípulos, Mestre, onde moras?, dizendo: «A Igreja responde todos os dias: Cristo está presente na Eucaristia, o sacramento da sua morte e ressurreição.»

É por isso que em todas as JMJ’s, a partir de Bento XVI, o ponto alto é a adoração a Cristo na Eucaristia, com o silêncio total de uma multidão de milhões de jovens. Uma catequese dessorada que apresente Jesus como o Amigo que viveu há já dois mil anos e a uns cinco mil quilómetros de distância não convence um jovem a frequentar a Missa por mais animada que esta seja. Se a catequese não levar ao sacrário, está destinada ao fracasso que já estamos a verificar, por mais que se atrase a receção do Crisma.

Vem a propósito citar as palavras proféticas de S. Manuel González: «Tenho a persuasão firmíssima de que todos os males e a causa de todo o mal, não só na ordem religiosa, mas também na ordem moral, social e familiar, é o abandono do Sacrário.»

«Vinde e vereis» foi a resposta de Jesus. Eis o comentário de Santo Agostinho (In Ioh tract 7,9): «O Mestre mostrou-lhes onde habitava e eles foram e permaneceram com Ele. Que dia feliz e que feliz noite passaram! Quem poderá dizer-nos o que eles ouviram da boca do Senhor? Façamos nós também uma habitação no nosso coração, e venha o Senhor até junto de nós para nos ensinar e falar connosco!» Na leitura meditada do Evangelho, feita diariamente, é Jesus a dizer-nos vinde e vereis; e continuamos a ouvir Jesus que nos fala, como então falava; aprendemos a levar vida de oração, a rezar, utilizando as mesmas palavras que lhe dirigiam os doentes, os cegos e os leprosos, os pecadores, os amigos como Lázaro, Marta e Maria, os Apóstolos, ou aquele jovem que lhe pergunta: «Que me falta ainda?» (Mt 19,20).

«Graças à coragem de ir e ver, os discípulos experimentarão a amizade fiel de Cristo e poderão viver diariamente com Ele, fazer-se interrogar e inspirar pelas suas palavras, deixar-se tocar e comover pelos seus gestos» (documento preparatório do Sínodo dos Bispos 2018).

 

3. O Discípulo Amado na hora da verdade

Mas, onde o Discípulo Amado aparece em evidência é na segunda parte do Evangelho (cap. 13 a 21), o chamado Livro da Glória (R. E. Brown), porque aí Jesus manifesta a sua glória, todo o seu poder, todo o seu amor, que consiste em dar a sua vida para nos dar a vida eterna. À hora da sua entrega – a hora da verdade, em que se põe à prova todo o seu amor – Jesus chama-lhe «a minha hora» (Jo 2,4; cf. 7,30; 8,20). E é então que o Evangelista não resiste a deixar que apareça a sua pessoa a intervir diretamente:

a) No anúncio da traição (Jo 13,21-30): «Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito»; e cheio de confiança no Mestre, «apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus», atreve-se a perguntar-lhe: «Senhor, que é» que te vai entregar? Nesta atitude ficou para todos nós um ícone vivo da intimidade que temos de cultivar com a pessoa de Jesus.

b) No alto do Calvário (Jo 19,25-27), quando todos os discípulos fogem e abandonam o Mestre, o Discípulo Amado permanece fiel e firme ao pé da Cruz; e Jesus entrega-o à sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho!», fazendo dela, na pessoa de João, a Mãe de todos os discípulos de todos os tempos: «Eis a tua Mãe!» São Jerónimo observa: “O Senhor virgem pôs sua Mãe virgem nas mãos do discípulo virgem".

c) Na manhã da Páscoa (Jo 20,1-10), ao ser alertado, juntamente com Pedro, de que o túmulo de Jesus estava vazio, lança-se em corrida acelerada, só parando à porta do sepulcro; espera por Pedro e entram ambos no túmulo. Pedro fica admirado com o que vê: «os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição». Mas é o Discípulo Amado que faz a leitura correta do que veem: «viu e começou a crer» na realidade da Ressurreição do Senhor.

d) Na aparição junto ao lago (Jo 21), é também o Discípulo Amado que, após tão maravilhosa pesca às ordens de um homem envolto na neblina da manhã, «ao romper do dia», pressentiu a presença do Ressuscitado e «disse a Pedro: “É o Senhor!”»

Com efeito, Jesus tinha proclamado: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8); de facto, a castidade e um olhar puro possibilita a descoberta de Deus, a visão sobrenatural, o ver tudo à luz de Deus. A alguns jovens, Deus não lhes diz nada… Que limpem o seu olhar de imundícies, que purifiquem a sua alma na Confissão, e hão de ver como a luz da fé voltará a brilhar nas suas vidas.

 

Concluindo

O Discípulo Amado é um apelo vivo a ter-mos sempre a alma jovem, enamorada de Cristo, capaz de sacrifício para a lutar pela verdade, pelo bem, pelo que é belo, com a ajuda da Virgem Maria para podermos ser fiéis até à morte. Mais ainda:

«A figura de João pode ajudar-nos a compreender a experiência vocacional como um progressivo processo de discernimento interior e de amadurecimento da fé, que leva a descobrir a alegria do amor e a vida em plenitude no dom de si e na participação no anúncio da Boa Notícia» (documento preparatório do Sínodo dos Bispos 2018).

  

Publicado na Revista Bíblica, nº 375 (março-abril 2018), pp.28-31

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