Não raras vezes, podemos cair na tentação de pensar que Maria sabia tudo, que teve tudo muito claro desde o início, um conhecimento prévio, que lhe pouparia a dúvida, o esforço e a obscuridade da fé. Esta imagem de Maria não tem muito a dizer a um jovem que honestamente queira discernir a sua vocação, o Projeto que Deus tem para si…

Bem diferente desta, é a figura da mulher que emerge dos relatos evangélicos relacionados com ela: uma peregrina da fé, que vai descobrindo progressivamente a sua vocação e missão. Também para ela, como para qualquer jovem, «o discernimento vocacional não se completa com um único ato, não obstante na narração de cada vocação seja possível identificar momentos ou encontros decisivos. Como todas as realidades importantes da vida, também o discernimento vocacional é um processo longo, que se desenvolve através do tempo, durante o qual é preciso continuar a velar sobre as indicações com as quais o Senhor determina e especifica uma vocação, que é primorosamente pessoal e irrepetível».

 

1. ANUNCIAÇÃO

evento fundante da vocação de Maria

A Palavra de Deus irrompe no quotidiano da jovem de Nazaré. Deus envia o seu mensa-geiro, o anjo Gabriel, para lhe revelar o projeto que tem para ela. A primeira palavra que anjo diz a Maria – «Salve» (Lc 1,28) – é muito mais do que uma simples saudação; é um convite à alegria, à felicidade: Alegra-te, Maria! Sê feliz. Deus vem a ti e traz uma promessa de felicidade. A razão de ser desta alegria é explicitada na segunda palavra do anjo: “«cheia de graça» (Lc 1,28).

É uma palavra inaudita, nunca antes pronunciada, que faz estremecer Maria: Deus inclinou-se sobre ti, deu-se a ti, tu transbordas de Deus. O teu nome é: amada de Deus. E anuncia-lhe que Deus a escolheu para ser a mãe do seu Filho, o Filho de Deus: «Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo» (Lc 1,31-32).

A resposta de Maria à Palavra escutada é a de uma pessoa de fé. Ela crê mais na promessa inacreditável de Deus e no poder da sua Palavra do que na sua manifesta impotência de a realizar. Quando ouve as primeiras palavras do anjo perturba-se e fica perplexa, surpreendida. Não tanto pelo que lhe é dito, mas por lhe ser dito a ela. O anúncio da sua maternidade divina suscita nela não a dúvida, mas a pergunta da fé que interroga e procura, a pergunta de quem tem um olhar realista sobre a sua condição: «Como será isso, se eu não conheço homem?» (Lc 1, 34).

Segue-se o completo assentimento, a total disponibilidade, o abandono da fé: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Maria é a ouvinte da Palavra, a sua fé é a da mulher que escuta a Palavra de Deus e cada dia lhe responde na oração e na. Também agora dialoga com a Palavra e a acolhe incondicionalmente. Acolhimento que se faz carne na sua carne.

Maria, visitada por Deus, diz “Sim” ao chamamento de ser a Mãe do Filho de Deus. Deus chama, mas não impõe – nem a Maria, nem a cada um de nós. Solicita sempre a nossa resposta. Podemos aceitar ou recusar. Maria aceitou, em total liberdade: porque dispunha plenamente de si, esteve disponível à vontade amorosa de Deus. Ela fiase completamente de Deus, acredita nele com todas as instancias do seu ser e, por isso, todas as gerações a chamarão Bem-aventurada (ver Lc 1,38). «Feliz de ti [Maria] que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor» (Lc 1,45).

O evento da Anunciação é fundante no percurso da vocação e missão da jovem de Nazaré. Evento que Maria incessantemente há de recordar (re-cor-dare), há de voltar a dar o coração, a dar o seu “Sim”, em cada novo passo que solicita a sua disponibilidade incondicional. Dará também o seu coração para aprofundar o pleno sentido do projeto que Deus lhe confia. Pois ela, como cada jovem, «progride na consciência da sua própria vocação através da meditação sobre as palavras que ouve e os eventos que lhe a-contecem, inclusive aqueles que Ela não compreende (ver Lc 2,50-51)».

Maria não aceita resignadamente os a-contecimentos da sua vida: a tudo dá lugar no seu coração, juntando e dispondo todos os fios com os quais se vai urdindo a trama da sua história, da história de amor de Deus com ela, com toda a humanidade. É um silencioso crescimento na compreensão, onde «o tempo é fundamental para verificar a orientação efetiva da decisão tomada».

 

2. VISITAÇÃO

disponibilidade de Maria para a missão

O encontro íntimo e decisivo com Deus e a comunhão total com Ele na Encarnação im-pelem Maria a pôr-se a caminho, a proclamar a sua felicidade, a sua alegria e gozo in-contidos. Dirigindo-se a casa da sua parente Isabel (ver Lc 1,39-40), corre sobre os montes, qual mensageiro da boa-nova:

«Que formosos são sobre os montes

os pés do mensageiro que anuncia a paz,

que apregoa a boa-nova

e que proclama a salvação!

Que diz a Sião: «O rei é o teu Deus!» (Is 52,7).

Tudo o que ela ouviu da parte de Deus, o que acolheu na fé, em obediência à Palavra, o que concebeu no coração pela sua fé antes de conceber no seu ventre, está desde o princípio destinado a pertencer a todos. «Como ensina cada página do texto bíblico, não existe vocação que não seja ordenada para uma missão acolhida com temor ou com en-tusiasmo.» A missão de Maria é dar Jesus ao mundo. Ela é a primeira evangelizadora, a primeira a levar a Boa-Nova da salvação. Em casa de Isabel, ela prenuncia e colabora com a missão de Jesus.

 

3. VIDA DE JESUS

Maria identifica-se com a missão do seu Filho

Maria dá à luz o seu Filho, o Filho de Deus, na mais estrita pobreza, numa gruta de Belém. Os primeiros a visitarem o recém-nascido são uns pastores que viviam na região, gente desconsiderada, que faz parte da grande periferia existencial do seu povo (ver Lc 2, 1-18). Como compagina Maria tudo isto com o que lhe foi anunciado pelo anjo acerca do seu Filho? Novamente, juntando e compondo tudo no seu coração (ver Lc 2,19).

Também na casa de Nazaré, onde o Filho de Maria cresce, a pobreza é uma presença constante. Deste modo, é manifestado o amor de Jesus que, sendo rico, se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a sua pobreza (ver 2 Cor 8,9). Por isso, «o contato com a pobreza, a vulnerabilidade e a carência revestem uma grande importância nos percursos de discernimento vocacional».

Maria é a fiel companheira de Jesus, segue-o até à cruz. Com o silêncio acompanha a missão de seu Filho, identificando-se plenamente com ela. A sua vida está toda centrada em Jesus. Esta sua forma de ser é absolutamente sugestiva para os jovem, pois «aceitar a missão implica a disponibilidade de arriscar a própria vida e percorrer o caminho da cruz, nos passos de Jesus que, com determinação, se pôs a caminho rumo a Jerusalém (ver Lc 9,51) para entregar a própria vida pela humanidade. Somente se a pessoa renunciar a ocupar o centro da cena com as suas próprias necessidades é que se abrirá o espaço para receber o projeto de Deus sobre a vida familiar, o ministério ordenado ou a vida consagrada, assim como para desempenhar com rigor a própria profissão e buscar sinceramente o bem comum. Em particular nos lugares onde a cultura é mais pro-fundamente marcada pelo individualismo, é necessário averiguar quanto as escolhas são ditadas pela própria autorrealização narcisista e, ao contrário, em que medida elas a-brangem a disponibilidade a viver a existência pessoal na lógica do dom generoso de si mesmo».

 

4. JUNTO À CRUZ DE JESUS

Maria chega à plena compreensão da sua vocação e missão

Maria chega à plena compreensão da sua vocação e missão no Calvário, no momento da consumação da missão do seu Filho no sacrifício da cruz. Aos pés da cruz, Deus torna-a novamente fecunda, alargando a sua maternidade a todos os discípulos do seu Filho, representados no «discípulo amado» (ver Jo 19,25-27). O “Sim” da sua fé na Anunciação chega à última estação da sua maternidade messiânica na cruz, e culmina na sua maternidade espiritual de todos os redimidos, a quem ela há de acompanhar sempre, como fez com Jesus.

 

CONCLUSÃO

O percurso da vocação e missão de Maria é sumamente inspirador para os jovens. «Ela, jovem mulher de Nazaré, que em cada etapa da sua existência acolhe a Palavra e a com-serva, «meditando-a no seu coração» (ver Lc 2,19), foi a primeira que percorreu este caminho. Cada jovem pode descobrir na vida de Maria o estilo da escuta, a coragem da fé, a profundidade do discernimento e a dedicação ao serviço (ver Lc 1,39-45).

Na sua «pequenez», a Virgem noiva de José experimenta a debilidade e a dificuldade de compreender a vontade misteriosa de Deus (cf. Lc 1,34). Também Ela é chamada a viver o êxodo de si mesma e dos seus projetos, aprendendo a entregar-se e a confiar. Fazendo memória das «maravilhas» que o Todo-Poderoso realizou nela (ver Lc 1,49), a Virgem não se sente sozinha, mas plenamente amada e apoiada pelo Não temas! do anjo (ver Lc 1, 30). Consciente de que Deus está com Ela, Maria abre o seu coração ao Eis-me!, inaugurando deste modo o caminho do Evangelho (ver Lc 1,38). Mulher da intercessão (ver Jo 2,3), diante da cruz do Filho, unida ao «discípulo amado», aceita novamente a chamada a ser fecunda e a gerar a vida na história dos homens. Nos seus olhos cada jovem pode voltar a descobrir a beleza do discernimento, e no seu coração pode ex-perimentar a ternura da intimidade e a coragem do testemunho e da missão.»

 

 

Publicado na Revista Bíblica nº 374 (janeiro-fevereiro 2018), pp.37-40.

*Os textos em bold são do próprio documento para o Sínodo dos bispos

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