SAMUEL: MODELO DO JOVEM QUE ESCUTA OUTRAS VOZES (Sm 3)

Samuel é um dos muitos nomes teofóricos da Bíblia, ou seja, que transportam em si mesmos um dos nomes dados a Deus. Samuel é composto de shem (nome) e El (Deus). Deste modo, pode significar “o seu nome é Deus” ou “nome de Deus”.

Isto diz-nos, antecipadamente, que ele vai ser um “homem de Deus”, pois leva Deus consigo. E levar Deus consigo é a mais alta dignidade e riqueza a que pode aspirar o ser humano: quem tem Deus consigo tem tudo e tem a felicidade possível neste mundo. Assim, pelo nome, Samuel já é considerado modelo dos que aspiram à riqueza e à felicidade, sobretudo os jovens.

 

1. Infância e juventude: preparação para o serviço de Deus e do povo

O que acabamos de afirmar aparece claro no relato da infância e juventude de Samuel, que tem todas as caraterísticas do relato de infância de qualquer personagem importante, na Bíblia.

Esta importância vem-lhe, ainda, pelo facto do seu nascimento ser anunciado no santuário de Silo à mãe, que era estéril como a mãe de Isaac (Sara), à qual o anjo do Senhor disse: «Nada é impossível a Deus» (Gn 18,14; ver Lc 1,37). O mesmo aconteceu com a mãe de João Batista (de idade avançada) e com a de Jesus, Maria (virgem). Deste modo, tal como outros personagens bíblicos nascidos em circunstâncias idênticas, Samuel é filho do milagre, pois, «nada é impossível a Deus».

Este facto manifesta que Samuel aparece como profecia e modelo, a nível literário e simbólico, precisamente de João Batista e de Jesus; antecipa de modo profético estes dois personagens centrais do Novo Testamento.

Com relatos deste género, pretende-se mostrar que, já no seu nascimento, determinado personagem manifestava a presença do divino, que vai caraterizar a sua vida futura; quanto maior importância tiver o personagem na História da Salvação, maiores são os fenómenos que acontecem na sua infância e vice-versa. Por outro lado, tais relatos representam também o sonho que o pai e a mãe fazem do futuro do próprio filho.

No caso da Bíblia, poderia dizer-se que as infâncias de tais personagens representam o sonho de Deus a seu respeito: vão atuar em favor de todo o povo. Na narrativa do nascimento e da juventude de Samuel, já se adivinham os seus futuros atributos de profeta e de governante. Por isso, o relato da sua juventude é, claramente, um relato de vocação profética.

É frequente, na Bíblia, introduzir uma nova etapa da História da Salvação com o aparecimento de um personagem-chave, que a inicia e lhe dá um sentido transcendente. É o que acontece com Abraão, Jacob, Moisés, Samuel, João Batista e Jesus.

 

2. Momentos fundamentais na infância e juventude, preparação do profetismo:

a) A conceção e o nascimento, preparados por um relato (1 Sm 1,1-2,11), devido ao voto de Ana, sua mãe, que o oferece ao Senhor, no santuário de Silo, lugar de revelações.

b) A permanência de Samuel em Silo (2,11.18-21; 3,1), onde se prepara para ser um “homem de Deus”;

c) O chamamento de Deus, em Silo recebe (3,1-4,1). Este chamamento explícito de Deus é puramente pessoal e “exige” (por ser repetido 3 vezes) o sim de Samuel (3,10). Ao mesmo tempo, tem como primeira eficácia a maldição dos dois filhos de Eli e de sua casa sacerdotal (3,11-14). É um modo (negativo) de dizer que, finalmente, surgiu um jovem que escuta a voz de Deus. Tal chamamento apresenta já Samuel como aquele que escuta a Palavra, para ser profeta do Senhor, isto é, mediador de uma Palavra do Céu para o povo (3,20-21; 4,1), que vive numa situação muito complicada da sua história. Devido à escuta da Palavra celeste, Samuel torna-se o representante de Deus na solução destes problemas de ordem político-militar e sobretudo religiosa.

 

3. Do Cântico de Ana ao Magnificat de Maria.

Certamente, o santuário de Silo, onde a sua infância e juventude acontecem, estava marcado pelo profetismo. Por isso, o cântico profético de sua mãe (1 Sm 2,1-10) antecipa e profetiza o de Maria, Mãe daquele que não é apenas um qualquer “Samuel” (Lc 1,46-55), mas o próprio Filho de Deus.

O autor do livro de Samuel coloca, pois, na boca de Ana, um poema belíssimo, misto de poesia e profecia, o “Magnificat” do Antigo Testamento (1 Sm 2,1-10), que antecipou o Magnificat da Mãe do Deus-connosco (Emanuel). Esse poema, de beleza e elevação raras em todo o Antigo Testamento, reúne caraterísticas de um poema messiânico. Pela primeira vez, aparece no Antigo Testamento o termo “ungido” ou “messias”:

«O Senhor julga os confins da terra!
Ele dará o império ao seu rei
e exaltará o poder do seu ungido» (1 Sm 2,10).

Tal como Samuel antecipou e profetizou a vinda do verdadeiro profeta Jesus, Ana, sua mãe, antecipou e preparou o Magnificat da Mãe de Jesus (Lc 1,46-56). Mais ainda: a infância de Samuel tornou-se, no Evangelho de Lucas, o modelo da infância e juventude de João Batista e do próprio Jesus. Os evangelistas captaram de tal modo esta verdade, que aplicaram a Jesus e a João Batista o que se disse de Samuel (compare 1 Sm 2,26 com Lc 1,80; 2,40.52). Este acento de Samuel como modelo, põe-no em contraponto com os filhos de Eli, que eram modelos de depravação, apesar de serem sacerdotes herdeiros. Isso marca também o fim do seu sacerdócio de família e a aparição de um novo sacerdócio, o de Samuel, ligado à profecia. Assim, ele reúne na sua pessoa a profecia e o sacerdócio, para além de juiz das 12 tribos.

Neste sentido, Samuel é um seguidor de Moisés, primeiro condutor do povo, com todas essas funções, e uma profecia de Cristo, sacerdote, profeta e rei. Mas Samuel é, antes de mais, o modelo dos que escutam a Palavra, para a proclamar a outros. E foi precisamente como jovem que ele se colocou às ordens do Senhor, para O servir, num serviço permanente ao seu povo, preparando as condições para o libertar do poder dos filisteus. Ou seja, escutou uma Palavra que o colocou ao serviço. Quem não a escuta, dificilmente se colocará ao serviço dos mais pobres e pequenos, mas, frequentemente, apenas ao serviço de mesquinhos interesses pessoais, comos os filhos de Eli.

 

Resumindo

O jovem Samuel, que escutou a voz de Deus, é um modelo perfeito dos jovens disponíveis para escutarem essa mesma voz e se colocarem ao serviço do seu povo. Deste modo, Samuel manifestou, em toda a sua vida, o verdadeiro sentido do existir humano neste mundo. Não escutar essa voz é perder o sentido da vida, vivendo apenas de ilusões passageiras de felicidade.

 


JEREMIAS: O JOVEM PROFETA AO SERVIÇO DO POVO (Jr 1,5-19)

Tal como o jovem Samuel, também o jovem Jeremias recebeu um chamamento para ser profeta e colocar-se ao serviço da voz de Deus em favor do seu povo. Aqui aparece claro um género literário muito próprio da Bíblia: uma narrativa de vocação profética, que é iniciada com uma frase repetida em todos os profetas como um refrão: «A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos…»

Qualquer narrativa de vocação (há muitas ao longo da Bíblia) tem um esquema bastante definido, aqui apresentado em termos gerais:

 

1. Deus conhece o profeta e envia-o ao meio do povo

Ou seja, as raízes do chamamento do profeta são anteriores ao seu nascimento, no conhecimento e na missão que o próprio Deus lhe iria confiar ao longo da vida:

«Antes de te haver formado no ventre materno,
Eu já te conhecia;
«antes que saísses do seio de tua mãe,
Eu te consagrei e te constituí
profeta das nações» (v. 5).

É maravilhoso este Deus que se lembra de cada um de nós, que nos conhece, mesmo antes de nascermos, porque projetou a nossa existência desde toda a eternidade. E, ao longo da nossa vida, vai-nos dirigindo a sua Palavra para O conhecermos e orientarmos os nossos passos em ordem a sermos colaboradores no seu projeto de salvação da humani-dade; isto é, para sermos seus profetas, como Jeremias e tantos outros ao longo da História da Igreja, e não só. No fundo, esta é a maior honra a que pode aspirar qualquer ser humano: ser colaborador do próprio Deus, para maior felicidade dos outros.

Interessa destacar que Deus consagrou (termo de caráter litúrgico) e constituiu (termo de caráter jurídico) o jovem Jeremias co-mo profeta; o qual reforça a origem divina da sua vocação profética e, sobretudo a sua autoridade, como delegado de Deus na sociedade do seu tempo, pregando em nome d’Aquele que o chamou. Ele não vai dizer ao povo as suas palavras, mas a Palavra daquele que o escolheu e o constituiu seu profeta.

O chamamento de Deus exige do profeta uma responsabilidade enorme, não apenas pela origem do chamamento, mas também pela abrangência e importância da missão a cumprir.

 

2. Resposta-objeção do chamado

Jeremias, como qualquer ser humano, tem a tendência a esquivar-se desta incumbência divina, arranjando duas desculpas: diz que não sabe falar e é ainda muito jovem:
«E eu respondi: Ah! Senhor Deus,
eu não sei falar, pois ainda sou um jovem» (v.6).

Estas desculpas aparecem praticamente sempre que há um chamamento de Deus (Ex 3,11-20). Infelizmente, cada um de nós também arranja com frequência desculpas semelhantes para não viver segundo o projeto que Deus nos manifestou no Evangelho.

 

3. O Senhor responde à objeção do chamado com autoridade divina:

«Mas o Senhor replicou-me:
Não digas: “Sou um jovem”.
Pois irás aonde Eu te enviar
e dirás tudo o que Eu te mandar» (v.7).

Por outro lado, o Senhor sabe que a sua juventude manifesta ainda muita insegurança e, por isso, assegura-o:

«Não terás medo diante deles,
pois Eu estou contigo para te livrar
– oráculo do Senhor» (v.8).

 

4. Um gesto que dá autoridade ao profeta.

O jovem Jeremias recebe ainda uma outra segurança no Senhor, com um gesto que significa a transmissão da força divina ao profeta, para vencer vários tipos de perigos e dificuldades sem conta, ao longo da sua missão profética:

«Em seguida, o Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: “Eis que ponho as minhas palavras na tua boca; a partir de hoje, dou-te poder sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares» (v.10-11).

Este poder (negativo) de destruição, com a fortaleza divina, é tirado da linguagem militar e da engenharia de então (arrancar, demolir, arruinar, destruir); mas é um poder que está ao serviço de um novo edifício, isto é, da “construção” de um novo povo que viva segundo os projetos de Deus e não dos simples projetos humanos. Por isso, também deve edificar e plantar. Esta, sim, é a essência da sua missão profética.

 

5. Missão do profeta

A seguir, o Senhor confirma este poder divino dado ao profeta, agora com linguagem militar (ver 2 Rs 4,29), que lembra a conquista de uma cidade fortificada:

«E eis que hoje te estabeleço
como cidade fortificada,
como coluna de ferro
e muralha de bronze,
diante de todo este país,
dos reis de Judá e de seus chefes,
dos sacerdotes e do povo da terra» (v.18).
«Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar» (v. 19).

Porque é jovem, revolucionário, cheio do poder e fortaleza divinos, Jeremias não vai ter medo de nada nem de ninguém; nem sequer dos reis. Daqui em diante, é um soldado, não só ao serviço do povo, mas também do seu próprio Deus. E, sobretudo, tem um apoio infinitamente forte, uma certeza divina: «Eu estou contigo para te salvar.» Ele é o Emanuel, Deus connosco: quem poderá vencer-nos? «Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?» (Rm 8,31). Eis o lema que o Senhor do profeta lhe deixa:

«Cinge os teus rins,
levanta-te e diz-lhes tudo o que Eu te ordenar.
Não temas diante deles;
se não, serei Eu a fazer-te temer na sua presença» (v. 17).

 

6. Jeremias é perseguido porque a sua mensagem não agrada às autoridades (Jr 20).

Preso, o profeta queixa-se a Deus por tê-lo “seduzido”, isto é, enganado, dando-lhe uma missão demasiado difícil. E afirma claramente:

«A palavra do Senhor tornou-se para mim motivo de insultos e escárnios, dia após dia. A mim mesmo dizia: “Não pensarei nele mais!
Não falarei mais em seu nome!”»

No entanto, o profeta – que é um con-vertido à Palavra de Deus – afirma a força interior da Palavra que está no seu coração, e o leva a continuar a sua missão divina, contra tudo e contra todos:

«Mas, no meu coração, a sua palavra era um fogo devorador,
encerrado nos meus ossos.
Esforçava-me por contê-lo, mas não podia» (Jr 20,8-9).

E continua:

«O Senhor, porém, está comigo
como poderoso guerreiro» (20,11).

Esta última afirmação do profeta é a chave de leitura, não apenas dos profetas bíblicos, mas também dos profetas de todos os tempos e, portanto, também dos profetas de hoje. Tal como os jovens profetas Samuel e Jeremias, os jovens deveriam ser também os profetas de hoje, pois são eles que têm capacidade e força para fazer a revolução profética do Espírito de Deus, na divulgação do livro revolucionário, que é o Evangelho de Jesus.

O documento preparatório deste Sínodo diz, a propósito:

«Através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa, inclusive nos dias de hoje. Assim como outrora Samuel (1 Sm 3,1-21) e Jeremias (Jr 1, 4-10), existem jovens que sabem vislumbrar aqueles sinais do nosso tempo, apontados pelo Espírito. Ouvindo as suas aspirações, podemos entrever o mundo de amanhã, que vem ao nosso encontro, e os caminhos que a Igreja é chamada a percorrer» (Introdução).

 

 

Publicado na Revista Bíblica, nº 374 (janeiro-fevereiro 2018), pp.19-25