Aceitando o desafio, a Bíblia elevou ao nível do divino o ideal das relações entre irmãos. Se nos capítulos 2 e 3 do livro do Génesis uma narrativa de criação sublima as relações em casal, célula fundamental da sociedade humana, em Gn 4,1-16 outro escritor põe os leitores a meditar sobre outra relação humana fundadora: a relação entre os irmãos Caim e Abel. Comece por ler o texto na sua Bíblia.

 

1. Atenção à linguagem do relato

O documento da Comissão Bíblica Pontifícia, A interpretação da Bíblia na Igreja, advertiu sobre os textos bíblicos em geral: «não foram escritos sob o ditado de Deus como um texto infalível que contém toda a verdade no plano histórico e científico.» Neste caso, é absurdo entender à letra a narração de Gn 4 sobre Caim e Abel como acontecimento histórico, como fazia a leitura tradicional.

Então, se não é história propriamente dita, qual é o seu género literário? Tem a estrutura dos mitos de origem, que queriam ‘explicar’ as coisas boas e más da vida, fazendo-as remontar a um ato divino criador colocado antes – ou acima – da história humana.

Estamos perante um mito de origem, a linguagem mais apropriada para dar o sentido supremo às coisas aproximando-as da esfera do sagrado. Esta foi uma das muitas formas literárias que os autores bíblicos usaram, como a parábola, a lenda, a epopeia, o conto histórico, o relato apocalíptico...

Pintando um quadro imaginado, composto de imagens numa sequência temporal, o mito põe a fundação de tudo num ‘tempo’ antes da história, com o intuito de a sublimar e integrar na totalidade da vida. Por isso, todos os mitos são mitos de origem. Descrevem as origens, mas não querem ‘explicar’ cientificamente o começo físico e material do universo: querem dar o sentido último à vida atual fazendo-a remontar, para isso, a um ato criador divino.

O mito é essencialmente religioso: a história imaginada de um contemplativo habituado a ver todas as coisas à luz de Deus e a ver Deus em todas as coisas.

No texto, é evidente o contexto das origens do mundo e da humanidade:

a) Diz-se que Caim e Abel são gerados pelo casal primordial, miticamente descrito na segunda narração da criação em Gn 2,4b até 3,24 (chamada «história de Adão e Eva», embora não se deva chamar assim). A história de Caim e Abel aparece como seguimento dela e tendo-a presente. Diferente, tem pontos em comum.

b) As duas narrações estão relacionadas pelos motivos do “cultivo do solo arável”, de uma transgressão cometida pelo ’adam primordial e por Caim, de uma “maldição” e da “expulsão”, que se repetem em ambas, com função específica em cada uma.

c) Ambas têm traços estilísticos comuns e recorrem a figuras sedutoras: a serpente (Gn 3,1-5) e um “ameaçador”, uma espécie de demónio mítico emboscado à porta das casas (Gn 4,7). E ao «onde estás?» de Gn 3,8 corresponde o «onde está o teu irmão?» de Gn 4,9.

 

2. Compreender a narrativa como mito de origem

Lendo, então, a história bíblica de Caim e Abel na clave de mito, esperamos extrair dele outros conteúdos.

1º. O início da narração pinta miticamente uma SITUAÇÃO HARMONIOSA: o nascimento primordial, simbólico, de seres humanos, profissões primordiais, oferendas primordiais à divindade. Descrevendo a criação de irmãos primordiais após se ter descrito a criação do casal primordial, o compilador das narrativas de criação em Gn 1-11 pode sugerir que todos os seres humanos partilham a condição de irmãos ou, pelo menos, que a humanidade assenta na base da fraternidade. Mas, que significa ser e reconhecer-se ‘irmão’? E donde dimana a dimensão fraternal do ser humano entre dois indivíduos que não são do mesmo sangue? Como se realiza a ‘irmandade’ entre as pessoas? Que é que a gera e impede?

Na natureza não se observa a vivência de uma fraternidade universal, nem algo que no-la possa ensinar ou fundamentar; o facto de habitarmos o mesmo planeta não nos torna irmãos: até poderíamos ser rivais. Que resposta se pode encontrar então para esta pergunta? De quem seríamos filhos os humanos para nos podermos considerar irmãos? O mito responde que na fraternidade aparece implicada a divindade, que – na perspetiva bíblica – é o fundamento absoluto em que a fraternidade humana assenta e cobra sentido: «… com o auxílio do Senhor», diz o texto. Para a fé bíblica, se partilhamos a mesma procedência, esta só pode ser (de) Deus. Só nos podemos considerar irmãos na terra se nos reconhecemos filhos do céu. A viagem às origens por meio do mito remete-nos para a transcendência, que fecunda a imanência, aprofundando dimensões da vida para reconhecer o lugar de cada pessoa no mundo.

A seguir, o mito tece e desfaz as relações fraternais em que também se joga a perceção de ser pessoa e a relação eu-tu. Pensaria que a vivência da fraternidade é difícil e exigente? O certo é que a põe à prova, testando a resistência do irmão primogénito no cenário apropriado para o efeito. E ele cai, transgride.

2º. A TRANSGRESSÃO é imaginada nos mitos de origem como violação da ordem cósmica, divinamente estabelecida no processo de criação até ao momento narrativo em que se diz cometida. Na história de Caim e Abel, o que estava estabelecido era a relação de fraternidade de dois irmãos (prototípicos), que, portanto, deveriam respeitar a vida um do outro por ser sangue do seu sangue.

A criação supunha que os irmãos também se guardassem mutuamente («sou porventura o guarda do meu irmão?»), não que se eliminassem e matassem. Por isso Deus pede, a Caim, contas do irmão Abel. Um filho do Homem primordial assassinar o irmão é uma ‘transgressão’ porque o seu sangue/vida é pertença de Deus (Gn 4,10-11), o único a poder criar e dispor da sua vida; fere o princípio da filiação e da fraternidade – ser para o outro e não contra o outro –, estabelecido por criação divina. A resposta de Caim («não sei») denota desconhecimento no alcance da relação fraterna.

Porém, embora sendo uma transgressão mítica – no sentido de perturbar a disposição querida pelo Criador para a condição humana, com pais, filhos, irmãos a viverem em harmonia – este fratricídio não tem caráter moral. Se o narrador entendesse que sim, teria posto Deus a considerá-lo como tal. Mas não. Deus continua a falar com Caim, pondo-se do lado dele. Mas tem carácter funcional: está em função da ‘explicação’ de realidades penosas da vida, nomeadamente do nomadismo, para este poder ser apresentado, a seguir, como forma de sanção, como veremos.

A interpretação do ato de Caim como moralmente condenável vem de critérios morais da literatura moderna e da Teologia. A sua gravidade e negatividade consiste, não na violação moral de uma lei de Deus em tempos históricos, mas no atentado contra os desígnios da criação, que implica definição divina de cada ser na organização do universo, em que as relações entre pessoas têm a sua parte. O fratricídio que mata Abel atenta contra as devidas relações fraternas entre humanos. Nem Caim nem Abel são homens históricos. São míticos, não podendo, pois, cometer um pecado moral histórico!

3º. Porque a transgressão contra Abel desfazia a ordem cósmica da criação em curso, o narrador pôs logo Deus a redimensionar esse ‘excesso’ com uma SANÇÃO. O redimensionamento do fratricida consiste na sua «expulsão para longe do solo cultivável». Quer dar sentido aos aspetos duros da vida dos nómadas, então comum na Palestina e nas cercanias (sabendo bem que os patriarcas hebreus tinham sido pastores nómadas).

Esta “maldição” é miticamente imposta a Caim enquanto representante dos nómadas («vagabundo e nómada»: vv.12 e 14), com o intuito de ‘justificar’ o género de vida ainda mais duro do que o amanho do solo arável (o nómada não tinha eira nem beira de sua propriedade). Como a transgressão, tampouco a sanção tem caráter moral: apenas interpreta uma realidade sociológica da vida. Deus limita-se a descrever o futuro, isto é, a realidade do tempo do narrador, colocando o atual em ‘tempo’ primordial. A arte narrativa atribui ironicamente a Caim um castigo da mesma natureza que a sua transgressão: tendo matado o pastor (a pastorícia), é reduzido ele próprio a pastor, mas agora pastor transumante, condição mais desconfortável que a do simples pastor: de agricultor com terreno próprio, é rebaixado a nómada errante pelo deserto.

Lida como mito de origem e contendo a riqueza antropológica e religiosa dos mitos de origem, a história de Caim e Abel não causa dificuldades, pois é próprio do mito não limar arestas e incongruências de pormenores mas montar o cenário apropriado, por meio de causas gratuitas e desproporcionadas, para fazer a espiritualidade desejada. Não é dito por que Deus preferiu a oferta de Abel e preteriu a de Caim. Nem faz sentido sondar as causas ou tentar justificar o comportamento de Deus, escusando-o de favoritismo ou arbitrariedade. O narrador só queria preparar a transgressão metafórica de Caim, para dar razão da violência humana e do nomadismo.

 

3. Profundidade humana do mito de Caim e Abel

A partir da constituição biológica de fraternidade, a história de Caim e Abel põe a nu a radical contradição que pode tomar posse do coração humano. O mito grita: muitos desistem de ser irmãos ou demitem-se de o ser. Deixar azedar os sentimentos e deixar-se «irritar sobremaneira» fez Caim incorrer no provável mau uso da palavra (o original hebraico só diz que «Caim falou com o seu irmão Abel»). Este mau “falar” e o consequente fratricídio exprimem simbolicamente a dificuldade de Caim para respeitar o irmão: porque o irmão é familiar, está humanamente muito perto, fazendo-lhe sombra; ou porque Caim era narcisista, em vez de «ser para o irmão» – como estava determinado por Deus na criação. Estando Abel «junto dele», Caim sentia-se constrangido na sua vida autocentrada: a proximidade do irmão tornava-o seu inimigo. Caim não tinha nada contra a presença de Deus, mas não suportou a presença do irmão. Crer em Deus sem investir no irmão é uma religião vaporosa, longe da fé bíblica.

Caim tornou-se o deserto de si próprio; pois, tendo matado o irmão, matou o seu outro eu: ficou só, com o seu remorso. Portanto, esta «guerra de irmãos» simboliza o pior do ser humano enquanto aniquilador de si próprio; simboliza a sua potência maléfica, destruidora também do irmão. É uma ‘guerra’ simbólica extrema, para além da qual não se pode dizer mais nada: marca os limites dos humanos e de qualquer humanismo.

Também é o total ‘falhanço/fracasso’ da vocação do ser humano, que se diz criado para ser irmão, profissionalmente integrado (agricultor – pastor), mas se torna “fugitivo” de si próprio e do remorso da sua consciência de «não realizado» humanamente. Deus pôs o mítico Caim em guarda, usando o verbo «falhar o alvo»; mas foi o que Caim fez: com um comportamento errante, ele teceu a destruição do irmão e a sua própria.

O mito faz do assassino do irmão um falhado, um fugitivo sem lar, desnaturado sem meta e sem repouso, sem objetivo pelo qual viver, degradado sem lugar e sem Deus, continuamente ameaçado pelo desamparo (vv.13-14). A violência torna-o um desterrado, expatriado, perene migrante compulsivo, desalojado, deserdado do solo fértil, perseguido pelo fado que o impele daqui para ali sem rumo.

O mito insinua: especialmente na rede social entre irmãos, o mal da agressividade e do confronto brutal volta sempre ao seu autor, em forma de boomerang: depois de dar umas voltas fazendo mal a outros familiares e causando catástrofes no círculo dos amigos, mata muita coisa no próprio agressor. E não é Deus que aplica o castigo. Se no mito de Caim e Abel Deus é posto a castigar o fratricida, trata-se de uma ação simbólica, a sugerir que a sanção é inapelavelmente aplicada, sim, pela própria vida: nem Deus a consegue evitar.

O mito insinua quão profunda é a rutura social e psicológica com o irmão, por vezes irreparável: é perda da família e do lar como primeira estrutura de acolhimento e como referência espacial fundamental do ser humano. A “expulsão” forçada, uma imposta saída do espaço de amparo cordial e pacificador da pessoa, entende-se como a negatividade mais próxima do inferno.

 


Publicado na Revista Bíblica, nº 375 (2018), pp.18-21

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