JOÃO BATISTA 

Testemunha da Luz
Voz da Palavra
Precursor do Messias

 

A pessoa histórica de João Baptista é uma figura fundamental na História da Salvação. A sua missão foi enquadrada pelo Novo Testamento na história das origens de Jesus, que «viveu no meio de nós, a partir do batismo de João Batista até ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto» (At 1,21-22). A leitura das narrativas bíblicas sobre João Batista ajuda-nos a descobrir, hoje, a nossa missão de “precursores” e “testemunhas” de Cristo como ele o foi no seu tempo.

 

IMAGEM BÍBLICA DE JOÃO BAPTISTA

João é uma personagem da História da Salvação que faz parte da dinamização bíblica do povo de Deus. Mas essa dinamização não se faz com descrições e fotografias da sua geografia física e humana – como o “deserto” onde ele viveu e foi educado, o seu alimento e o seu vestuário – nem da cadeia de Maqueronte onde foi preso e decapitado. A verdadeira dinamização bíblica está em aprender com ele a reconhecer os sinais do advento do Salvador no mundo e na Igreja de hoje, e os sinais da presença do Salvador na nossa vida.

De facto, a “mediação da Palavra de Deus” também passa pelos textos sagrados da Bíblia; mas só a descobrirá quem estiver possuído pelo mesmo Espírito de João Baptista. Sem esse Espírito, é fácil cair numa leitura fundamentalista ou meramente cultural das Escrituras como fazem alguns doutores da religião, roubando mais uma vez as Escrituras ao povo de Deus, tal como Cristo já denunciara: «Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. [...] Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Nem entrais vós nem deixais entrar os que o querem fazer» (Mt 23,1.34)

 

FIGURA HISTÓRICA DE JOÃO BAPTISTA

Afigura histórica de João Baptista é apresentada pelos quatro Evangelhos e evocada noutros livros do Novo Testamento, mas também nas Antiguidades Judaicas de Flávio Josefo.

Segundo o Evangelho de LUCAS, João nasceu de uma família piedosa da classe sacerdotal.
O seu pai Zacarias era da «classe de Abias» e sua mãe Isabel «era da descendência de Aarão. Ambos eram justos diante de Deus, cumprindo irrepreensivelmente todos os mandamentos e preceitos do Senhor» (Lc 1,5-6).

Quanto à sua juventude, é referida a consagração a Deus pelo voto dos “nazireus” (ver Nm 6,1s): «Pois ele será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo já desde o ventre da sua mãe e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus.» (Lc 1,15-16) Lucas refere, também, a sua presença no deserto, quando diz que «a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto» (Lc 3,2).

 

FAMÍLIA DE JOÃO E DE JESUS

No Evangelho da infância de Jesus, o mesmo evangelista apresenta ainda a figura de João Baptista com os seus pais em paralelismo com a família de Jesus e seus pais:

■ A apresentação dos pais de João Baptista, pessoas avançadas em idade, sem poderem ter filhos (Lc 1,5-7); apresentação da mãe de Jesus, uma jovem chamada Maria e desposada com um homem chamado José (1,26-27).
■ A aparição do Anjo a Zacarias, pai de João, quando exercia as suas funções sacerdotais no Templo de Jerusalém (1,8); aparição do anjo a Maria de Nazaré, mãe de Jesus (1,26).
■ A perturbação de Zacarias e de Maria, face ao anúncio do anjo sobre os seus respetivos filhos (1,12-19.29-33).
■ A incredulidade de Zacarias por ser de idade avançada, tal como sua mulher; a dúvida de Maria, por não ser casada. E a diferente resposta do Anjo a cada um (1,18-20.34-37).
■ O nascimento de João Baptista e de Jesus; e a alegria gerada nos vizinhos e parentes dos pais de João Baptista, por um lado, e nos anjos e nos pastores de Belém, por outro (1,57-58; 2,6-20).
■ A circuncisão e o nome de João Baptista em paralelismo com a circuncisão e o nome de Jesus (1,59-63; 2,21).
■ O hino de Maria (“Magnificat”: 1,46-55) e o hino de Zacarias (“Benedictus”: 1,67-79).
■ A maneira como os dois bebés cresciam e a indicação do lugar de permanência dos dois jovens adultos: João Baptista no deserto; o menino e o jovem Jesus, em Nazaré (1,80; 2,51-52).

«HÁ-DE CHAMAR-SE JOÃO»

«Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela.
Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há de chamar-se João.” Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.”
Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: «O seu nome é João.»
E todos se admiraram. Imediatamente a sua boca abriu-se, a língua desprendeu-se-lhe e começou a falar, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos, e por toda a montanha da Judeia se divulgaram aqueles factos. Quantos os ouviam, retinham-nos na memória e diziam para si próprios: «Quem virá a ser este menino?» Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. (Lc 1,57-66)

O mesmo Evangelista evoca a pregação e o batismo de conversão de João, para o perdão dos pecados, no enquadramento da vida histórica de Jesus: «No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um batismo de penitência para remissão dos pecados.» (Lc 3,1-6)

O «décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério» seria a Primavera do ano 28 d.C..
Quanto aos conteúdos da pregação do Baptista, os três SINÓPTICOS coincidem: «um batismo de penitência para a remissão dos pecados» (Lc 3,3; ver Mt 3,6.14; Mc 1,4). Além disso, destacam: a atitude do Baptista como servo daquele que virá depois dele, e a quem não é digno de desatar a correia das suas sandálias (Mt 3,11; Mc 1,7; Lc 3,16; Jo 1,27; Act 13,25), o batismo de João, apenas na água, e o de Jesus, no Espírito Santo (Mt 3,11; Mc 1,8; Lc 3,16).

 

JOÃO BAPTISTA MENSAGEIRO DO MESSIAS

A pessoa de João Baptista é descrita de maneira histórica, mas sempre de harmonia com as Escrituras para designar a ordenação divina na História da Salvação. Todos os Evangelhos apresentam a sua pessoa e atividade em relação com Jesus.

Segundo a tradição judaica sobre as figuras do mensageiro do Messias, MARCOS apresenta-o como precursor de Cristo, a partir do texto de Isaías 40,3 paralelo de Malaquias 3,1 e do Êxodo 32,20: «Eis que envio à tua frente o meu mensageiro, a fim de preparar o teu caminho. Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.”» (Mc 1,2-3)

Dentro desta tradição, os EVANGELHOS veem João Batista como o “Elias redivivo” de Malaquias 3,23, dada a importância que Elias tinha exercido no seu tempo para repor o monoteísmo judaico, visto como exemplo a seguir em tempos de crise religiosa: «E fizeram-lhe esta pergunta: “Porque afirmam os doutores da Lei que primeiro há de vir o Elias?” Jesus respondeu-lhes: “Pois bem, digo-vos que Elias já veio e fizeram dele tudo o que quiseram, conforme está escrito”» (Mc 9,11-13).

João Batista assume a atitude de servo, destacando a desigualdade entre ele e a pessoa de Jesus: «Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe desatar as sandálias» (Mt 3,11). Mais tarde, o evangelista JOÃO sublinha isto mesmo, destacando o dito do Batista: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (3, 30). Ao longo dos três primeiros capítulos, acentua o seu papel apenas como percursor e servo:

■ no hino ao Verbo, do Prólogo, apresenta-o «como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele» e «como o mais pequeno frente àquele que já existia antes dele» (1,6-8 e 15);
■ é ele que anuncia Jesus como «o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (1,29); ■ e, em resultado disso, dois dos seus discípulos tornam-se os primeiros discípulos de Jesus (1,35-39).

Os QUATRO EVANGELHOS destacam a relação de João Batista com Cristo enquanto seu “precursor” e “servo”, ao narrarem o Batismo de Jesus de modo diferente por causa desse João Baptista.
■ Lucas apresenta João na prisão e só depois é que narra o batismo de Jesus. Segundo ele, não foi João quem batizou Jesus, porque quando tal aconteceu, o Baptista já estava na prisão (ver 3,19-20).

■ Em Mateus, João Baptista pergunta a Jesus: «Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e Tu vens a mim?» (Mt 3,14)

■ Segundo João, o Baptista afirma duas vezes: «Eu não o conhecia bem» (1,31.33); e outras duas vezes: «Vi o Espírito descer sobre Ele» (1,32-34). E, desde que viu o Espírito descer sobre Jesus, ficou a conhecê-lo como o Filho de Deus e como «aquele que dá o Espírito sem medida» (ver 3,27-34).

Contudo, mais tarde surgiu um certo conflito entre João e Jesus, porque Jesus não ligava às interpretações rabínicas das leis mosaicas. As palavras de Jesus acerca da Lei devem ter escandalizado João, que tinha sido educado na sua estrita observância (ver Mt 5,1s). Por isso, estando já na prisão de Maqueronte, para dissipar dúvidas sobre o messianismo de Jesus enviou alguns discípulos a perguntar-lhe: «És Tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?» (Mt 11,3)

A resposta de Jesus aos enviados de João inclui esta frase misteriosa: «E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo» (Mt 11,6). Ou, na versão de Lucas, «feliz de quem não tiver em mim ocasião de queda» (Lc 7,23).

Mas, a frase não parece ser para João; porque, «depois de eles terem partido, Jesus começou a falar às multidões a respeito de João: “Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas aqueles que usam roupas luxuosas encontram-se nos palácios dos reis. Que fostes, então, ver? Um profeta? Sim, Eu vos digo, e mais que um profeta. É aquele de quem está escrito: ‘Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho.’ Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele”» (Mt 11,7-10; Lc 7, 28).


A MENSAGEM PENITENCIAL DE JOÃO BAPTISTA

A mensagem e a vida de João estão estreitamente unidas. O Novo Testamento conservou a memória da sua atividade batismal e do seu modo de vestir e de comer, bem como o lugar da sua missão, que ajudava os contemporâneos a interpretarem a sua mensagem.

A atividade que desenvolve “no deserto” domina a sua espiritualidade, porque ele vive o deserto como lugar do futuro esperado, do novo começo escatológico e da conversão. Viver no deserto é demonstração escatológica de alguém que se considera profeta. Ao vestir-se com pele de camelo à maneira típica de profeta, e alimentar-se de gafanhotos e mel silvestre, a sua pregação é enquadrada na tradição do Êxodo.

De facto, João via-se a si mesmo como profeta quando se apresentou com as palavras do profeta Isaías (Is 40,3), declarando: «Eu sou a voz de quem grita no deserto: “Retificai o caminho do Senhor”, como disse o profeta Isaías»(Jo 1,23).

MAQUEREONTE

Sobre esta colina escarpada, próximo da margem oriental do Mar Morto, Herodes Antipas, sucessor de Herodes o Grande, mandou construir uma das suas grandes fortalezas (as ruínas veem-se no monte em primeiro plano). Dentro dela, foi preso João Batista, antes de lhe ser cortada a cabeça.

João considerava-se um pregador da penitência que anunciava o juízo iminente de Deus. O núcleo da sua mensagem está contido no texto seguinte: «Vendo, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos de conversão e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai a Abraão!’ Pois, digo-vos, Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo.”» (Mt 3,7-10; ver Lc 3,7-9)

João pretende purificar o mundo para a vinda do Juiz, quando se dirige aos judeus nos termos de «raça de víboras» e os compara aos pagãos, a quem os judeus consideravam animais (ver Mc 7,27; Mt 15,26). Dirige-se aos judeus, únicos que podem refugiar-se na «promessa de Abraão», mas inclui a todos quando diz que «Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão». A sua pregação contem um apelo à “conversão-metanoia” recorrendo à comparação semita da «árvore que dá fruto» para exigir a prática dos «frutos dignos de conversão».

João não prega um “evangelho” de boas-novas, de mensagem gozosa da salvação. É um profeta de desgraças, ameaçando com o juízo iminente de Deus, recorrendo para isso às expressões da antiga tradição dos profetas como o «machado posto à raiz das árvores» (Is 10,18.19; Jr 21,14; 22,7; Ez 21,2-3; Zc 11,1s), o “crisol” (Is 1,24-25) e o “fogo purificador”.

«Estando o povo na expetativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, João disse a todos: “Eu batizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão a pá de joeirar para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro: mas queimará a palha num fogo inextinguível.” E, com estas e muitas outras exortações anunciava a Boa-Nova ao povo» (Lc 3,15-18) .

 

O BAPTISMO DE JOÃO

João é um profeta da antiga estirpe, mas distingue-se pela novidade do seu batismo como parte essencial da sua mensagem sobre a conversão. «João Baptista apareceu no deserto, a pregar um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados» (Mc 1,4; Lc 3,3; At 10,37; 13,24). “Submergir-se na água” por motivos de “metanoia” era conhecido em Israel há muito tempo; mas, ser batizado por João ou pelos seus discípulos era algo novo que lhe mereceu o cognome de “batista”, porque a prática habitual era submergir cada pessoa na água.

O batismo constituía parte essencial da sua interpelação à conversão e era considerado a garantia para escapar ao fogo devorador do juízo divino. O seu imperativo «Fazei penitência» está sempre relacionado com o batismo; ele batiza com água para a conversão (Mt 3,11).

 

O BATISTA E QUMRÁN

Há quem pretenda estabelecer uma ligação entre João Baptista e a comunidade de Qumrân, dizendo que, se não foi um membro dessa comunidade, pelo menos inspirou-se na sua filosofia de vida para a “ação” que aparece descrita no Novo Testamento. Trata-se de um "modismo" que, como tantos outros acabará por passar; mas importa denunciá-lo, pois oculta a intenção de denegrir as origens do cristianismo e as suas raízes teológicas e filosóficas.

Negamos categoricamente a pertença do Batista a esse grupo, baseados naquilo que se conhece da comunidade de Qumrân, do seu estilo de vida e das suas regras de conduta, bem como dos seus usos e costumes de higiene, alimentação e separação absoluta do mundo exterior e de qualquer contacto com “impuros” ou “pecadores”. Com efeito, os membros desta comunidade, muito provavelmente essénios, viviam uma vida de absoluta separação, considerando-se os únicos e verdadeiros israelitas, e rezando cada dia para que Deus lhes concedesse o controle do Templo, terminando com aquele sacerdócio que eles consideravam corrupto.

Mais ainda, o “batismo” e os banhos rituais da comunidade de Qumrân simbolizavam a entrada nessa forma de ser separada do mundo, em preparação não para a vinda do Messias, mas para a batalha final entre o bem e o mal. A sua reflexão teológica e catequética era dirigida apenas aos membros da seita, sendo impensável uma pregação aberta como a de João Baptista. A relação deste com aquela comunidade foi, quando muito, apenas geográfica e temporal.


Fernando Ventura

● Ver: GARCIA MARTINEZ, FLORENTINO, Os Manuscritos de Qumrân, coleção Atualidade BÍBLICA, n° 2, Fátima, 2001, Difusora Bíblica; IDEM, The Dead Sea Scrolls Translated, Brill, 1994; VANDERKAM, JAMES, The Dead Sea Scrolls Today, SPCK, 1994; FITZMYER, JOSEPH A., The Dead Sea Scrolls, SBL, 1990.
● Ler, ainda, na Revista Bíblica nº 376 (maio-junho de 2018) 99-104, o artigo de Ariel Álvarez Valdés: João Batista teria pertencido à seita dos essénios? O autor também responde que não.

 

A conversão dá pleno sentido à sua atividade batismal. Ser batizado por ele, enviado por Deus, significa ser transformado gratuitamente por Deus, pois a pessoa humana não pode fazê-lo por si mesma. Por isso, nas tradições cristãs posteriores, diz-se que o batismo de João é “batismo do céu” (Mt 21,25). Converter-se e ser batizado é um mesmo caminho, que faz do batismo de João “um batismo de penitência”.

A mensagem sobre o juízo de Deus e o convite para o batismo são as características da atividade de João; daí ele ser reconhecido por “profeta” e “batista”. O batismo praticado por ele é um compromisso de conversão; é a última oportunidade oferecida por Deus para evitar a calamidade iminente (ver Mc; Lc 3,8). E um batismo necessário para a salvação, pois cria uma relação real com o destino no juízo iminente e com o juiz escatológico da salvação, que é Jesus, identificado com «Aquele que está para vir»; reconhece João Batista como precursor de Jesus Cristo e este, como Filho do homem evocado por Daniel 7,11-14.

Na polémica dos fariseus com Jesus, sobre a sua autoridade, aquando da entrada messiânica em Jerusalém e a purificação do templo com a expulsão dos vendilhões, a evocação da autoridade de João implica o seu próprio reconhecimento: «Respondeu-lhes: “Também Eu vou fazer-vos uma pergunta. Dizei-me: o batismo de João era do Céu, ou dos homens?” Eles começaram a discorrer entre si, dizendo: “Se respondermos que era do Céu, Ele dirá: ‘Porque não acreditastes nele?’ Se respondermos que era dos homens, todo o povo nos apedrejará, porque consideram João como profeta.” Responderam, então, que não sabiam de onde era. Jesus disse-lhes: “Também Eu não vos digo com que autoridade faço isto”» (Lc 20,3-8).

Embora João viva num ambiente apocalíptico, a sua pregação não é apocalíptica mas de penitência; é de conversão como caminho para se aproximar de Deus, sem os rasgos apocalípticos da intervenção cósmica de Deus nem a destruição dos inimigos de Deus ou de Israel. João é o profeta que une a expectação do futuro com o compromisso ético-religioso, na perspetiva do juízo de Deus.

 

JESUS É BATIZADO POR JOÃO BATISTA

Tudo o que disse antes foi para melhor compreendermos o batismo de Jesus por João. Não foi um mero episódio na vida de Jesus, mas também não significou que o famoso neófito se convertesse em discípulo de João (ver Mc 2,18; Mt 11,1-2; Jo 1,35; 3,22).

Tal batismo aconteceu historicamente e foi administrado por João Batista, embora haja várias tentativas dos evangelistas para darem a volta ao texto e fugir à célebre questão do batismo de João Batista estar relacionado com o perdão dos pecados, e ser incompatível com o mistério de Jesus, que não tem pecado.

A atitude de servo, assumida por João, carateriza as duas pessoas e os dois batismos: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3,30). Com o seu batismo, Jesus realiza uma ação profética ou uma profecia em ação: confirma que a conversão é necessária para a salvação, atribuindo ao batismo de João um significado para além do que o próprio Batista lhe atribuía.

Quando interpretaram o batismo de Jesus à luz da Páscoa, os evangelistas rodearam-no de uma aura de glória pós-pascal (ver Mc 1,9-11; Mt 3,13.17; Lc 3,21-22; Jo 1,29-34). Mas só o carácter profético, de que falámos, pode situar o batismo de Jesus em forma coerente no conjunto da sua atividade. Isto não implica que a sua mensagem seja idêntica à de João, mas que Jesus está de acordo com o núcleo da mensagem do Precursor acerca do «batismo de conversão», considerado descido do Céu (Lc 20,4). Além disso, o movimento batismal de João é o contexto da primeira revelação divina da salvação em Jesus.

MARCOS reconhece o começo da Boa-Nova de Jesus Cristo na atividade batismal de João (1,1-5). O batismo de Jesus por João Baptista é a chave hermenêutica para entender Jesus e a sua atividade, sendo a primeira manifestação da sua consciência profética. Embora pouco saibamos sobre a origem da consciência que Jesus tinha da sua vocação, podemos afirmar que a sua atividade pública como profeta está relacionada com o seu batismo no Jordão. Contudo, há diferenças entre Jesus e João. Para os seus contemporâneos, João é um asceta severo, enquanto Jesus dá a impressão de ser «um glutão e um bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores», como é insinuado na parábola das crianças que jogam na praça pública (ver Mt 11,16-19; Mc 2,16; Lc 7,31-35). E há esta diferença radical: João é um profeta de calamidades; Jesus, o profeta da salvação.

 

O MARTÍRIO DE JOÃO BATISTA

Segundo as notícias dos Evangelhos e as fontes profanas, João entrou em conflito com Herodes Antipas, que o meteu na prisão de Maqueronte e, por fim, usando da faculdade de decapitar (direito da espada), mandou assassiná-lo. Há diferentes interpretações da prisão e da execução de João Batista. Segundo os Evangelhos, foi mandado para a prisão por causa da linguagem dura e forte com que denunciava em público o facto de Herodes Antipas ter despedido a sua mulher, que era árabe, refugiando-se na casa do seu pai, o rei Arepas, e viver com Herodíade sem esperar a carta de divórcio. A pedra de escândalo não estava no duplo casamento, porque o direito matrimonial judaico era polígamo; mas no matrimónio com Herodíade, a mulher do seu irmão Filipe, que estava proibido pela lei. Por isso «João dizia a Herodes: “Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão”» (Mc 6,17-18; ver Lv 18,16).

Também se julga que foi preso porque o imperador temia que a sua fama provocasse uma revolta. Herodes mandou-o apenas prender, porque tinha medo do povo e certa superstição, por considerá-lo um profeta: «Herodes tinha prendido João. [...] Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo que o considerava um profeta» (Mt 14,3.5).

Porém, os acontecimentos precipitaram-se. No aniversário do rei Herodes Antipas houve uma grande festa, com um ritual de costumes pagãos e judaicos, no qual o bailado de Salomé, filha de Herodíade, deslumbrou a todos. Terminado o baile, Herodes chamou-a e prometeu-lhe o que ela quisesse. Instigada pela mãe, Salomé pediu a cabeça de João Baptista num prato, dizendo: «Quero que me dês imediatamente, num prato a cabeça de João Batista» (Mc 6,25).

Ao ser decapitado, João sofreu a forma romana mais desonrosa da pena de morte. Depois, os seus discípulos pediram o cadáver do mestre (Mc 6,29). Parece que o tetrarca se sentiu perseguido pela sombra do Baptista durante o resto da vida, a julgar pelo que disse quando ouviu falar de Jesus: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou» (Mc 6,16).

 

A COMUNIDADE DOS DISCÍPULOS DE JOÃO

A pregação de João criou uma comunidade, que se considerava uma comunidade de preparação messiânica. O seu movimento cresceu tanto, que alguns viam em João o Messias em pessoa. Foi contra essas crenças que surgiram algumas afirmações do IV EVANGELHO. No hino cristológico do prólogo, feito em honra de Cristo, foi introduzido este dito sobre João: «Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz» (Jo 1,6-8).

Foi com a mesma intenção que o Conselho dos judeus de Jerusalém enviou sacerdotes e levitas para submeterem João a um exame sobre a sua identidade. «Este foi o testemunho de João, quando as autoridades judaicas lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: “Tu quem és?” Então ele confessou a verdade e não a negou, afirmando: “Eu não sou o Messias.” E perguntaram-lhe: “Quem és, então? És tu Elias?” Ele disse: “Não sou.” “Es tu o profeta?” Respondeu: “Não.” Disseram-lhe, por fim: “Quem és tu, para podermos dar uma resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo?” Ele declarou: "Eu sou a voz de quem grita no deserto: ‘Retificai o caminho do Senhor’.”» (Jo 1,19-23).

Como vimos, segundo a informação do autor do IV EVANGELHO, os primeiros discípulos de Jesus eram discípulos de João Batista: «No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus» (Jo 1,35-37).

Com a morte de João Batista, não desapareceu o seu batismo de preparação messiânica; e permaneceu esta comunidade de preparação para receber o futuro Messias. No livro dos ATOS encontramos alguns ecos da sua presença: Lá pelo ano 53, «chegara a Éfeso um judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e muito versado nas Escrituras. Fora instruído na “Via” do Senhor e, com o espírito cheio de fervor, pregava e ensinava com precisão o que dizia respeito a Jesus, embora só conhecesse o batismo de João» (At 18,24-26).

«Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, depois de atravessar as regiões do interior, chegou a Éfeso. Encontrou alguns discípulos e perguntou-lhes: “Recebestes o Espirito Santo, quando abraçastes a fé?” Responderam: “Mas nós nem sequer ouvimos dizer que existe Espírito Santo.” E indagou: “Então, que batismo recebestes?” Responderam eles: “O batismo de João.” “João – disse Paulo – ministrou apenas um batismo de penitência e dizia ao povo que acreditasse naquele que ia chegar depois dele, isto é, Jesus” Quando isto ouviram, batizaram-se em nome do Senhor Jesus» (At 19,1-7).

Não precisaremos também, muitos de nós, que fomos batizados sem a necessária consciência nem preparação, de reviver o nosso Batismo e assumir o compromisso de sermos discípulos de Jesus, conduzidos pelo seu Espírito? A leitura das narrativas bíblicas sobre João Batista vai ajudar-nos a descobrir a nossa missão de “precursores” e “testemunhas” de Cristo, hoje, como ele o foi no seu tempo.