É conhecido o episódio dos chamados Reis Magos, que aparece unicamente no Evangelho de Mateus (Mt 2,1-11). Não vamos aqui descrever o episódio nem o seu sentido global, mas apenas vê-lo na perspetiva enunciada no título: Que relação tem o episódio dos Reis Magos com a missão universalista do Evangelho de Jesus?

A esta pergunta temos que responder com um pressuposto, certamente já conhecido: o episódio situa-se no Evangelho da Infância, um género literário que não faz parte do Evangelho como tal. É fácil entender isto, pois o género literário “Evangelho” – limitado aos conhecidos quatro exemplares segundo Mateus, Marcos, Lucas e João – situa-se antes da pregação de Jesus, e esta é que constitui o Evangelho como tal. 

Estamos, assim, perante uma literatura cristã, cujo género literário não pretende ser rigorosamente histórico, mas sobretudo catequético, acerca de uma verdade essencial do cristianismo, a saber: a divindade de Jesus, desde a sua conceção e o seu nascimento.

A este pressuposto, temos de acrescentar que os Evangelhos da Infância (que apenas se encontram em Mateus e Lucas) são posteriores ao Evangelho pregado por Jesus; portanto, escritos depois da sua ressurreição. Pretendem dar resposta a certos problemas e interrogações que as primeiras comunidades cristãs se colocavam. Por exemplo: Como era Jesus, em criança? Era uma criança normal ou já manifestava algo de extraordinário? E outra pergunta, de caráter teológico e mais complicada: Jesus, quando nasceu, já era o Filho de Deus?

A estas perguntas, poderíamos acrescentar uma outra, também pertinente: Porque é que os Magos vieram do Oriente e não de outra parte qualquer? Tentaremos responder, dividindo as questões nos itens seguintes:

 

OS MAGOS, OS PRIMEIROS CHAMADOS, PELA ESTRELA

Segundo as tradições dos povos do Médio Oriente Antigo, havia sempre uma estrela que anunciava o nascimento de um personagem importante, sobretudo um rei ou um imperador. Os autores dos Evangelhos da Infância acharam por bem aplicar a Jesus esta mesma ideologia do maravilhoso, e com maior motivo do que a outro rei ou imperador humano. Jesus é o verdadeiro Senhor de toda a humanidade e não apenas de um qualquer reino terreno.

No tempo de Jesus, os judeus também contavam a história de uma estrela que apareceu no céu para anunciar o nascimento de Abraão. E acreditavam que o Messias seria anunciado por uma estrela. Assim o escreveram os cristãos, depois da sua ressurreição, constatando que, afinal, era Ele o Messias.

A missão evangelizadora supõe um chamamento, uma voz ou um sinal do Alto. A estrela foi, para os Magos, esse sinal. Quem não é chamado nunca será missionário. Os Magos foram precisamente chamados por uma estrela especial, que eles nunca tinham divisado no céu. Sendo conhecedores de astros, o Deus das alturas revelava-se-lhes no seu estudo das estrelas, como se pode revelar a qualquer outro ser humano nas circunstâncias normais da sua vida.

Ora, os Magos, que representam o mundo pagão do Oriente, são os primeiros – em Mateus e Lucas – a serem chamados para a Missão, ao receberem o anúncio do Alto, mediante uma estrela especial que descobriram no céu. Significa isso que a Missão do Menino que eles procuram, para O adorar, vem irradiar uma luz especial para todos os povos, como diz o profeta Simeão, ao referir-se a Jesus, que acabava de nascer. E qualifica-O precisamente como «Luz para se revelar às nações e glória de Israel teu povo» (Lc 2,32).

 

OS MAGOS, PRIMEIROS “MISSIONÁRIOS” DE JESUS

Os Magos vêm do Oriente, a terra do Sol nascente, para anunciar o novo Sol, a Luz verdadeira que vem para iluminar as trevas em que a humanidade se encontra (Jo 1,9; 1 Jo 2,8). É uma espécie de regresso ao primeiro dia da criação (Gn 1,3-5), em que a luz apareceu como “vida” do próprio Deus, antes do 4º dia, quando foram criados o Sol e a Lua, para iluminar a Terra, onde moram os seres vivos.

O Oriente é, também, o lugar privilegiado para Israel, pois aí se encontram as últimas raízes deste povo (Gn 12, com Abraão; Dt 26,5: «Meu pai era um arameu errante…»). Assim, os Magos vêm do Oriente a Jerusalém anunciar o Messias como «luz para todos os povos», uma vez que foram eles os primeiros evangelizados, mediante uma estrela celeste.

 

OS JUDEUS IGNORAM A CHEGADA DO MESSIAS

Ao chegarem a Jerusalém, os Magos dirigem-se ao rei Herodes, como mandam as boas regras da diplomacia. No entanto, apesar de todas as suas boas intenções, foi a pior pessoa a quem poderiam dirigir-se. Isso vai torna-se claro, quando ele mostrar as suas verdadeiras intenções e a sua hipocrisia, pretendendo matar esse «rei dos judeus que acaba de nascer». De facto, Herodes tentou “apanhar” esse rei dos judeus, ao mandar matar todos os meninos de Belém com menos de dois anos de idade (Mt 2,16-18).

Herodes, completamente fora do assunto exposto pelos Magos, vai consultar os doutores da Lei e os sumos-sacerdotes sobre um tema que era da especialidade deles: Onde deveria nascer o Messias? No meio das suas discussões legalistas, os doutores lá dão uma resposta a Herodes, citando o profeta Miqueias (5,1-2):

«Eles responderam: Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta:
“E tu, Belém, terra de Judá,
de modo nenhum és a menor entre
as principais cidades da Judeia;
porque de ti vai sair o Príncipe
que há de apascentar o meu povo de
Israel” (Mt 2,5-6).

Este texto mostra bem que os pagãos já sabiam que o Messias tinha chegado, enquanto os judeus tinham os olhos fechados para o detetar, embora já estivesse presente no meio deles.

 

OS MAGOS, “MISSIONÁRIOS” DOS JUDEUS

É muito interessante o facto de os Magos virem anunciar, precisamente aos judeus, que já tinha nascido o Messias, há séculos esperado por eles. Tornam-se, assim, os primeiros missionários dos judeus. E afinal, estes, que se julgavam ser os anunciadores do verdadeiro Deus ao mundo universalmente pagão, acabam sendo evangelizados pelos pagãos a quem pensavam evangelizar: afinal, o Messias já tinha nascido! É o que se costuma dizer, em português, apanhar uma “bofetada com luva branca”. Só Deus sabe quem está mesmo evangelizado…

A narrativa também fala da rebeldia dos judeus em aceitar Cristo como Messias, já depois de muitos pagãos terem entrado na Igreja. Mateus pretende mostrar que, afinal, os judeus são mais renitentes em aceitar Cristo como Messias do que os próprios pagãos, que entram no cristianismo em multidões. Isso manifesta que este evangelista, embora sendo judeu e dirigindo o seu Evangelho aos judeus, se torna mais antijudeu do que os outros evangelistas, como se confirma noutras passagens do mesmo Evangelho.

Mateus apresenta o assunto da conversão dos judeus de maneira polémica, de modo a despertar neles uma certa inveja e ciúme, para os levar mais facilmente à conversão.

 

MATEUS, EVANGELHO UNIVERSALISTA

Por outro lado, Mateus coloca no início do Evangelho um texto (não propriamente evangélico) correspondente ao último capítulo do seu livro, mas proclamado ao ouvido dos discípulos. Eis:

«16Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. 17Quando o viram, adoraram-no; alguns, no entanto, ainda duvidavam.

18Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. 19Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,16-20).»

É extremamente importante a ligação deste texto, que fecha todo o seu Evangelho, com o texto dos Magos, em Mt 2,1-12. Trata-se de uma ligação de caráter estruturante da totalidade do livro. A esta ligação de um texto com outro, sobre o mesmo assunto, chama-se, em retórica bíblica, uma inclusão. Esta inclusão significa: tudo o que está “incluído” entre os dois textos, ou seja, entre o início e o fim deste Evangelho, tem o mesmo tema desses dois textos, isto é, o universalismo cristão: Cristo veio para salvar toda a humanidade, tanto judeus como pagãos.

E esta é uma das verdades mais profundas do cristianismo, aqui descrita em forma de narrativa histórica, mas que fundamentalmente é catequética, como foi dito antes.

É curioso que um Evangelho, escrito para ser “nacionalista” – ou seja, para ser dirigido especialmente aos judeus, da mesma raça e religião do evangelista –, se torne um Evangelho universalista, com uma finalidade tipicamente missionária.

 

Concluindo

Cristo veio para todos, mas só quem olhar para o Alto, para as “estrelas”, é capaz de interpretar com o coração, com a fé, o sentido último da sua vinda ao mundo e do seu programa messiânico: a salvação dos homens e mulheres de todas as raças e línguas.

Quem não tiver este olhar, nunca encontrará o verdadeiro Messias, o verdadeiro Salvador. Continuará a contentar-se com os pequenos “messias”, com os pretensos “salvadores” deste pequeno mundo em que vivemos.

 

A NARRATIVA DE MATEUS (capítulo 2,1-12)

1Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. 2E perguntaram: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.”

3Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. 4E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. 5Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6‘E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há de apascentar o meu povo de Israel’.»

7Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. 8E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.»

9Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou.

10Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; 11e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 12Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.