Leituras: 1ª: Is 42,1-4.6-7. Salmo 29/28, 1a.2.3ac-4.3b.9b-10. R/ O Senhor abençoará o seu povo na paz. 2ª: At 10,34-38. Evº: Lc 3,15-16.21-22. I Sem. do Saltério

Neste Primeiro Domingo do Tempo Comum celebramos a Festa do Batismo do Senhor.

Diz-nos São Lucas, que quando João estava a batizar no rio Jordão, Jesus juntou-se à multidão para ser também batizado. Jesus era “apenas” mais um entre muitos. O Mestre, que um dia virá a batizar no Espírito Santo e no fogo, por enquanto faz-se batizar na água pelo discípulo, assentindo na renovação de vida pregada por este. Não se trata de um acontecimento de menor importância na vida de Jesus, de algo passageiro ou sem consequências. Ao ser batizado no Jordão, Jesus corta com parte considerável do seu passado sócio religioso, da sua forma de viver e sobretudo da sua forma de viver a fé. Ele deixará o seu trabalho e a casa onde cresceu para passar a anunciar a tempo inteiro o Reino de Deus.

Depois de ser batizado, e como em tantos momentos importantes da sua vida e do seu ministério, Jesus pôs-se a rezar (cf. Lc 3,21). Naquele momento não estava muito preocupado com as fotos e vídeos para a posteridade ou com o almoço com os amigos, mas antes em unir-se em oração a Deus e tentar perceber o significado e o alcance do batismo que tinha acabado de receber.

E enquanto rezava, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz que dizia: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado». (Lc 3,21-22)

O Céu rasgou-se. O Céu abriu-se para não mais voltar a fechar. Abriu-se para Deus descer do Céu à terra e nós, unidos a Jesus, podermos subir da terra ao Céu. Quem não reza, não sobe. Pode ser catequista, cantar num grupo coral, pode ser acólito, leitor ou padre: sem oração não há subida para Deus. Claro que contaremos sempre e em todo o caso com a misericórdia do Senhor mas quem não reza não poderá experimentar aqui e agora a alegria de nos sentirmos imersos na comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo, a Trindade Santíssima em que todos fomos batizados.

Rezar e viver verdadeiramente como batizados não é fácil mas não estamos sós neste caminho para Deus. Em cada batizado se atualiza a mesma experiência de Jesus e o próprio Jesus intercede por nós. E contamos ainda ou deveríamos poder contar com todos aqueles homens e mulheres que, como nós, receberam o mesmo batismo. Pois o batismo, além de ser o primeiro sacramento cristão, sinal de novo nascimento, também vincula à Igreja. E só na Igreja Católica somos mais de mil milhões em todo o mundo. Em países onde somos uma minoria, os católicos procuram viver intensamente a sua fé; onde somos uma maioria, nem sempre.

A banalização deste sacramento, seja pelos próprios batizados, com uma vida distante da de Jesus, seja por aqueles que prometeram educar os filhos ou afilhados na fé mas não o fazem, leva a que muitas vezes a semente da fé esteja em estado latente, à espera de um acontecimento que a ajude a germinar, a romper com o passado e a abraçar um projeto de vida renovada.

Pensemos por exemplo em São Paulo, que teria sido batizado segundo os ritos judaicos, mas precisou de cair por terra e com ele cairem todas as suas certezas para passar de perseguidor a Apóstolo de Cristo.

Pensemos por exemplo em Santo António, que sendo membro da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, diante do testemunho dos primeiros mártires franciscanos, cuja memória litúrgica celebraremos dia 16, decidiu entrar na Ordem Franciscana e viver de forma ainda mais radical o seu batismo.

Pensemos por exemplo em São Francisco de Assis que, participando na vida da Igreja, precisou ainda assim de vários anos e acontecimentos marcantes – como o encontro com o leproso por exemplo – para abandonar corajosamente o passado, os bens e os sonhos que o seu pai Pietro di Bernardone tinha para si.

Pensemos em tantos jovens que depois de uma viagem a Taizé ou de um tempo de voluntariado missionário num país pobre se sentem chamados a aprofundar o seu sentido de pertença à Igreja.

Mas então como pode e deve ser a vida de um batizado neste mundo secular e complexo?

• Primeiro fazendo o bem como Jesus: O livro dos Atos dos Apóstolos (2ª leitura) diz-nos que “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele”. 

• Depois viver conscientes de que somos muitos batizados, com feitios diferentes, é certo, e que estamos juntos nesta aventura incrível que é a vida, que Deus está connosco, e que por isso não vale a pena andarmos com “maus fígados” uns para com os outros, a gritar as nossas certezas ao coração humilde de Deus que se pôs na fila para ser batizado.

• Portanto, fazendo o bem, como Jesus, sem gritar nem levantar a voz, como nos diz o profeta Isaías (1ª leitura).

• Essa Igreja que levianamente prega ao som de foguetes e do tilintar das moedas de quem dá mais, perpetuando formas que infantilizam a fé das pessoas, deve dar lugar ao encontro pessoal com Jesus, à oração, aos cursos de meditação cristã, à intimidade, à celebração comunitária cheia de unção e piedade, certos, como rezamos no salmo, de que “a voz do Senhor ressoa sobre as nuvens” e agora, que se abriu definitivamente o Céu, ressoa já não apenas sobre as nuvens mas diretamente ao meu, ao nosso coração dizendo-me, dizendo-nos, como a Jesus: «Tu és o meu filho muito amado».

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